12 setembro 2010

S.p.a.m

Entrei hoje no blog depois de eras passadas. Uma quantidade incessante de s.p.a.m começou a cair numa postagem antiga sobre um juiz maluco que consultava du.endes pra dar sentenças. E como de maluco o mundo tá cheio, volta e meia caem s.pans nessa postagem – e muitos nos últimos dias. Entrei, troquei o nome do post e espero que pare um pouco essa lixarama sem fim que recebo.

Claro que entrar num blog abandonado tem um preço. Idéias cristalizadas de outro momento, pessoas perdidas no oceano da internet, sentimentos que cresceram nesse espaço e não sei mais onde estão voltam à superfície. Quanta besteira dita, quanto sentimento revelado, quanta risada sobre as coisas risíveis da vida.

Mas passou, tudo passou. E o que ficou é história: mais um blog que nasceu e morreu nas experiências proporcionadas por uma nova mídia. Paixão de ocasião. Fogo de palha. Chuva de verão.

Quando voltar outra vez, tiro a poeira. E talvez até escreva alguma coisa, só pra marcar a passagem do tempo. E ouvir os ecos do passado, esse som murmurante que sempre habita as casas vazias.

Alguns chamam de fantasmas. Outros, de lembranças. Eu chamo de s.p.a.m.

31 março 2010

PARAR é a solução

*144. Tecla de ligar. Atendente eletrônica, voz de lata enferrujada: Olá! Bem vindo a Tim (histérica, quase psicopata). Se quiser comer capim, tecle cavalo; se quiser levar coice, tecle ferradura; se quiser torrar o saco, aperte lança-chamas. Cinco minutos depois, quando aperto a tecla de “idiota” pra ouvir a atendente, a latinha me diz: nóóóoóóóssas posições estão ocupãããããdas, por favor, aguaaaaarde um instaaaaaante. Tu...tu...tu...tu...

Ligo de novo, a lata ressona de novo, ouço a ladainha, aperto “idiota” outra vez, a fanha avisa que as posições tão ocupada e aguardo pacientemente. Surge uma voz: boa tarde, aqui é @&dasflkero 4roiadf *¬qosfnmfeor, com quem eu falo?

Eu: Sean.

Ela: quem?

Eu: Sean.

Ela: não entendi.

Eu: também não entendi teu nome, estamos quites.

Ela (com voz de enfado duplo): em que posso ajudá-lo?

Eu: quero parar de receber mensagens da Tim informando pra apagar a luz na hora mundial e mandar torpedos de graça por R$ 4,99.

Ela: o senhor não quer mais receber torpedos?

Eu: foi o que eu disse.

Ela: qual o teor dos torpedos?

Eu: ou tô enganado ou já te falei: chega de hora mundial e torpedo pago de graça, não quero mais receber 20 mensagens dessas por dia.

Ela: sim senhor, vou registrar.

Eu (acalmando): obrigado.

Tecle, tecle , tecle e ouço os dedinhos dela digitando por alguns minutos.

Ela: obrigado por aguardar. Vou passar o senhor pro setor responsável agora.

Eu: ué, tu não anotou a queixa?

Ela nem se dá ao trabalho de responder. Ouço um som forte e o barulhinho de chamada telefônica. Fico no aguardo. Outra voz surge: olá, meu nome é ew3jo358dsafj ajexdaczzzoirer, com quem estou falando? Em que posso ajudá-lo?

Sim, sim, sim, toda a novela outra vez. Agora com um agravante: a ligação ficou péssima, com eco, dificílima de ouvir.

Ela: diga o número do celular e o código de área.

Eu (aos gritos): 71, Salvador. 9162...

Ela (interrompendo): o celular e o código de área.

Eu: é o que estou fazendo, vc não ouve? Código 71, fone...

Ela: o número senhor, qual o número?

Eu (urrando): 9162...

Ela: e o código?

Eu: tu é surda ou o quê? Me ouve, tá ouvindo? 71...

Ela: Salvador?

Eu: tu conhece alguma outra área 71?

Ela anota, pede um minuto e me deixa no vácuo. Volta: o senhor não registrou seu CPF quando comprou a linha, não acho aqui.

Eu: me diz onde vendem linha sem o registro do CPF que quero comprar umas 15.

Ela: diga pausadamente o número.

Eu digo, ela ouve tudo errado, repito mil veze até que ela pede um momento. Perdi a noção da hora, mas lá vão pedradas e nada. Começo a uivar feito lobisomem, desgraçando até a última geração da biltre, pra ver se ela ouve. Consegui. Uma voz baixinha sussurra: senhor? Senhor? O sistema caiu, preciso de seus dados novamente: telefone e área.

Começamos do zero, os mesmos gritos, as mesmas incompreensões e mais ofensas; só não brigamos pelos CDs e os livros porque não tínhamos nenhum em comum. Até que ela confirma que o cadastro está feito. Quase fico feliz, mas não me permito.

Ela: então, senhor, não somos nós que cuidamos desse problema, é o provedor. O senhor mesmo tem que resolver. Digite a palavra “parar” em caixa alta e mande pro número que está enviando as mensagens.

Eu (inchado feito sapo cururu): tu tá me dizendo que eu esperei todo esse tempo quando poderia ter me dito desde o início que é só mandar uma mensagem? Total absurdo.Quanta incompetência.

Ela: senhor, senhor, em caixa alta, não esqueça. Ou não vai funcionar.

Que meiga, né? Não desistiu de mim, me amparou, me guiou, me acarinhou. Só não convidei pra jantar aqui porque não tô a fim de lavar a louça. Agradeci, com voz de condenado no corredor da morte, e desliguei.

Vinte minutos e 56 segundos haviam passado. Não levei dez segundos pra digitar “PARAR” e enviar.

29 março 2010

Arranhões em um joelho platinado

E a Globo, sorrateiramente, ajoelha-se pra dizer que se preocupa com o telespectador – para além dos bilhões que fatura. Isso aconteceu mais uma vez na eliminação de Lia no BBB10. Bial, deixando de lado a cara de “Chacrinha-cult-chic”, reassumiu o tom de jornalista “sério” pra fazer um editorial: por mais que a Globo tente formatar, impor, determinar, editar, reeditar, suprimir, supervalorizar, as opiniões dos jogadores são de inteira responsabilidade deles.

Aqui está o ninho da serpente: um programa que se autodenomina mezzo entretenimento e mezzo jornalismo é uma bazuca apontada pra cabeça de uma formiga. O Zorra Total poderia assumir o quanto quiser a postura de racista, homofóbico, discriminador e mostrar relações humilhantes – principalmente as femininas –, afinal é “apenas uma piada”. O BBB10 seria “a vida como ela é”, definição resgatada por Lia, apertadinha nos braços de Bial, na hora da saída – algo que deve ter feito Nelson Rodrigues sambar no caixão.

Pressupor que o público é idiota é o maior erro que uma TV pode fazer. A idéia de que é burro, desinformado, estúpido e sem capacidade de julgamento só se sustenta pela dominação econômica: quem tem dinheiro assina canal a cabo. E deixa às moscas a programação de baixa qualidade. Vê só o que tem vontade.

O BBB é um fenômeno no Brasil, não há como negar. E esta edição, em que um pouquinho de diversidade apareceu na discussão sobre orientação sexual, mostra que o público quer mais. Negros, pobres, corpos “não fabricados”, velhos, cultos e sem educação formal, mil tipos ainda estão excluídos.

E vão continuar. O BBB10 é um show, puro entretenimento. Cresce nos momentos em que escancara isso, como na novelinha mexicana. Por isso mesmo foi tão ridículo ver Pedro Bial invocar a credibilidade do jornalismo de dentro do circo. Sem capacidade pra domar suas feras – e aqui também entram Boninho, a produção, os editores e Bial –, o BBB disparou a bazuca: se viu obrigado a buscar na seriedade e veracidade do campo jornalístico uma forma de tentar amenizar o estrago feito.

Jornalismo não é entretenimento, por mais que os moderninhos e os fãs do CQC e outras gracinhas do gênero queiram dizer que sim. Por quê? Porque no jornalismo a discriminação, a humilhação, o partidarismo, a dominação e a homofobia são relatos, nunca atos. Mostra-se quem faz, mas nunca se faz.

Ver a Globo preocupada com a opinião pública é um pequeno e raro deleite em meio a fortuna que o programa embolsa anualmente. Isso não vai nem de longe derrubar o império, mas é bom ver que ele também arranha o joelho quando se curva no chão.

17 março 2010

Zen borbulhas

O sol abrasador lá fora cegava os olhos, mesmo protegidos com os óculos escuros. Sentado na janela, tentei fazer a leitura ganhar sentido frente aos sons irritantes que inundavam o espaço. Do fundo, um som agudo e metálico inundava o ônibus com músicas cafonas saindo de um celular. Do meu lado, na outra fileira do corredor, um gordinho tamanho família de uns seis anos, hiperativo e verborrágico, pulava em pé no banco.

Mas o ar-condicionado geladinho foi baixando minha resistência, e um pouco antes de fechar duas horas de viagem, uma preguiça boa tomou conta do cérebro fazendo com que os olhos se fechassem lentamente, as mãos relaxassem e o corpo entrasse em estado de torpor. O maldito celular cantante foi ficando cada vez mais longe e o gordinho se metamorfoseou em pancadas ocas e baixas até que o silêncio se instaurou de vez: nirvana.

Não sei quanto tempo fiquei assim. Mas do nada, comecei a escutar o som borbulhante de uma fonte d’água. Pensei: “putz, tô virando zen total!”. Por alguma fatalidade do destino, o barulinho bom evoluiu para o som de um asmático em crise: o peito como uma panela de pipoca estourando dentro d´água prenunciando algo destruidor. Daí foi um pulo pra se transformar num som esquisito, parecia uma pessoa afogada tirando violentamente água dos pulmões em jatos violentos. Com tanta imagem ruim na cabeça, o nirvana se desfez e abri os olhos.

Estranhamente, a primeira coisa que vi foi a mãe do garoto me fitando furtivamente. Pensei: “ronquei ou babei pra ela me encarar assim”. Olhei pro meu peito, mas o olho foi puxado pro chão: próximo ao meu pé jazia uma coisa estranha, de textura e cor esquisita. Levantei os olhos outra vez e vi uma mancha enorme no vidro escorrendo atrás do gordinho. O olhar recuou mais um pouco e notei o rosto do bichano, olhos vidrados, peito ofegante, com algo a escorrer da boquinha matraquenta.

O susto foi avassalador. Os bancos estavam encharcados. No chão, algo inenarrável havia sido pisoteado e a inenarrabilidade escorria até meu pé. E o que dizer da roupa do assassino de nirvana? Horripilante demais pra ser comentada.

Não acho outra explicação: é um legítimo Arquivo X. Ou de onde haveria de sair tanto daquilo?

Atônito, sem respirar – mecanismo de defesa automático –, pulei sobre o produto manufaturado e fui pro fundo do ônibus. Pouco depois, mamãe e filhinho, em modo hiperatividade on outra vez, como se nada tivesse acontecido, sentaram a duas poltronas de mim, longe da cena do crime.

Todo contato imediato de terceiro grau ainda é chocante pra mim. Mas ao passar no corredor e ver a felicidade na cara do gordinho, percebo que pra ele foi apenas mais um dia feliz na terra.

13 março 2010

Lady Tarantino

Acabei de ver Telephone, o mais novo clip da Lady Ga Ga. Confesso que só abri o link depois de ver o projeto de horror chamado “Mini Lady Ga Ga”, que assisti no SBT outra noite. Conhecia tão pouco da titular do cargo que fiquei curioso pra ver algo. E vi.

Lady Ga Ga é um bem costurado Frankestein de ritmos, referências e valores. Oscila entre David Bowie – pai de todos os exotismos, androgenias e reais ousadias –, e Madonna – a rainha mãe do marketing pessoal –, com pitadas de outros pioneiros como Elton John, Cher e Cindy Lauper. O clip é uma referência sem fim a filmes e tendências de moda. Está tudo lá, costurado com necrofilia, perversidade, quebra de valores e transgressões em níveis e importâncias variadas – o óculos de cigarros acesos é o cúmulo do “politicamente incorreto”. Além de dois temas presentes em quase todos os outros vídeos de Ga Ga: a idéia de que os homens são maus e devem ser punidos – com a morte – e o lesbianismo que resulta da incompreensão e dominação masculina. Em Telephone, ninguém menos do que a sinuosa Beyoncé surge como a “mulher” de Ga Ga em uma encenação que mistura figurinos de alta costura dentro da prisão e road movie. Tudo estilizado, com uma edição maneirista dos anos 80 e um ritmo que gruda como chiclete. Tem até a dancinha dos zumbis de Thriller, do finado Michael Jackson, recriada em meio a corpos envenenados.

Lady Ga Ga não é feia, mas também não pode ser definida como bonita. Tem um corpo proporcional, sem ser boazudamente curvilínea. É pequena e desengonçada e usa isso à seu favor da mesma forma que Barbra Streisand soube usar o nariz avantajado e Carmen Miranda escondeu a pequenez sobre uma plataforma. É um sucesso repentino não apenas por cantar bem – sem a cafonice das notas mal sustentadas no gogó, marca registrada das “divas” norte-americanas – mas pela capacidade que tem de “expressar” o espírito do tempo, unindo com certa naturalidade o que parece desconexo. Todos os exageros estão lá, mas de uma forma linear, sem sobressaltos. É um livro de citações que marqueteiramente se faz soar original.

Quando uma menininha de oito anos incorpora inadvertidamente a necrofilia, as trangressões e a quebra de valores que subjazem nessas músicas – e os pais deixam –, há um fenômeno interessante em curso. E ele é velho e imemorial como o tempo e circula em nosso imaginário com o nome desgastado de mito. Fascinante e assustador, fala daquilo que não entendemos e, talvez, não queremos entender; questiona sem dar resposta. E atende pelo nome de Lady Ga Ga essa semana. Um posto que, mês passado, foi de Tarantino no cinema.

04 março 2010

Tradição


Disso é que eu gosto: técnicas tradicionais, nada de metralhadoras, granadas ou fuzis. A boa e velha arma branca intimida e produz sangue em profusão.

27 fevereiro 2010

Axé favela, Salvador

Sou um total estrangeiro em Salvador: não conheço a fundo hábitos, a cultura e a maneira de pensar do povo. Mas várias visitas nos últimos anos e residência fixa aqui há talguns meses já me permitem apontar algumas tendências, ainda que na zona da opinião sensorial.

Axé, infelizmente, é ditadura por essas paragens. Toca o tempo todo em todos os lugares. Toca nos alto-falantes dos porta-malas, toca nos botecos de esquina, toca nas lojas de eletrodomésticos, toca nas propagandas da TV; as pessoas cantarolam, reproduzem a mais nova dancinha, brigam pra defender quem é o melhor axezeiro do momento.

A primeira vez que ouvi falar sobre a banda Chiclete com Banana era adolescente em Porto Alegre. Eu, como muitos outros, fiquei de cabelo em pé com a indigência da música, das letras, dos componentes da banda. Sumiram na poeira assim como surgiram e deixei de ouvir falar deles, graças aos bons orixás.

Mas o silêncio só se fez no sul. Aqui, Chiclete é rei. Tem a banda de axé que cobra o mais caro abadá do carnaval: em torno de R$ 800,00 por cerca de duas horas espremido dentro de uma corda na rua. Não sei ao certo, mas fazem em torno de quatro a seis apresentações. Os milhares de pagantes, segundo alguns soteropolitanos envergonhados, são turistas. Ah, tá.

Segundo ouvi falar muito aqui, incitam a violência ou, pelo menos, nada fazem pra apartar as brigas e pancadarias que pipocam a toda hora na multidão; têm uma postura arrivista, enchem as burras de dinheiro e se lixam para os projetos sociais, algo que Daniela Mercury, por exemplo, tem preocupação em fazer – apesar da música dela ser tão pouco menos ruim do que os Bananas.

Agora, acabo de ler que o vocalista Bel Marques vai processar o publicitário Nizan Guanaes, um dos mais importantes do Brasil – e também baiano –, pelas ofensas proferidas no Twitter em janeiro. Nizan, assim como muitos, está horrorizado com a ditadura do axé e toda a “subcultura” criada no entorno – “Salvador virou um favelão” –, algo que está cristalizado na postura “quero me dar bem a qualquer preço” do Chiclete. Dorival Caymmi, Caetano Velloso e Raul Seixas são referências mortas aqui, salvo raras mentes – no Festival de Verão, que acontece todo ano, Caetano era anunciado em letras miúdas no grupo dos “em vias da fama”, desbancado por Ivete Sangalo, Psirico e afins; de tão desprestigiado, abriu a primeira noite às 18h30, quando grande parte do público nem pensava em chegar.

Nizan está coberto de razão na análise que fez, e alguém vai ter que virar o jogo em algum momento. Pensar que essa cultura axezística pode ser o legado que a Bahia vai deixar na cultura do século XXI é assustador. Agora, se ele está certo na maneira que fez a crítica, pouco me importa. Em briga de baiano, eu é que não vou meter meu espeto.

25 fevereiro 2010

Meigo

Lula (de escova no cabelo, olhar lânguido, dizendo algo assim): se os presos políticos de Cuba tivessem me procurado eu teria mandando eles pararem e evitado essa morte por uma coisa tão tola quanto uma greve de fome".

Urge saber:
1. quem foi o idiota que cortou a hotline entre o presidente do Brasil e os presos de Cuba?
2. quem foi o idiota que impediu o presidente de exercer poder?
3. quem foi o idiota que inventou a greve de fome como último e desesperado instrumento político de protesto e irritou o presidente?

Jesus que se cuide.

23 fevereiro 2010

Ondas

Sou menos estável do que gostaria, confesso. Ainda que isso se reflita em áreas da minha vida que não causam prejuízos, como este blog, por exemplo. Criado em 2006, por dois anos estive presente religiosamente aqui. Em 2008, desvios e atalhos me levaram pra outros lugares. E o pobre bloguinho foi tragado por um buraco negro.

Em 2009, repaginei o espaço, encurtei o nome e tentei uma volta. Ledo engano,apenas girei 360°. Depois de míseros seis posts, não tive fôlego e abandonei tudo outra vez. Mais uma vez tragado pela escuridão profunda.

Agora, a comichão da blogagem ressurge insanamente. Até pensei em matar esse “Xôn” e criar um novo espaço, começar do zero, mas do que adiantaria? Para além de um layout novo interessa a comunicação que estabeleço com personas tão diferentes quanto gratificantes.

Quem já teve um blog sabe da experiência de interagir com tantos egos e culturas diferentes: ouvir aquela resposta inusitada para algo que parecia tão plano; descobrir novas maneiras e entender o que, no final, não é complexo pra ninguém; ou entender que a imagem projetada sobre você está calcada muito mais no que o outro quer pensar do que naquilo que você realmente mostra. Este é um espaço para apreciar o que é demasiadamente humano nas relações, com as idiossincrasias e paixões circulando na vastidão da web.

Então, lá vou eu outra vez, com passinhos de formiga e cheio de vontade. Gostosuras espalhadas pelo caminho é que não faltam – e prometo uma boa dose de cicuta se eu falhar novamente. Pelo sangue de Sócrates.

Saindo do buraco negro

Entrando no buraco negro

18 maio 2009

A pretensão

Quer uma dica de um lugar pra não ir em Porto Alegre? Botequim da Letras. Fuja como o diabo da cruz. Está localizado no coração do Moinhos de Vento, na parte mais arborizada da Félix da Cunha, em um conjunto de casas históricas. O lugar não poderia ser mais charmoso, mas a pretensão do espaço não poderia ser mais irritante. E o atendimento, ah, o atendimento. Uma garota moderninha, óculos de aro grosso, roupa desbeiçada, ar existencialista cansado e cabelo emplastado na cabeça – que pessoas com mais de 25 ou asseadas chamariam de sujo – oferece um atendimento supimpa. Pedimos uma Coca com gelo, um cortado e um panini. Passados quase dez minutos, veio a Coca, com duas minúsculas pedras. Sentimos o drama: se economizam no gelo, como será o resto? Pois é, o resto veio. Ou melhor, não veio. Cinco minutos depois, o reforço no pedido: será que é possível trazer o café, pelo menos? Mais dez minutos e ele veio, quase sendo jogado em nossas cabeças. A moçoila do cabelinho cheiroso mostrou não ter prática nem habilidade pra segurar a bandeja com uma xícara transbordando. Teve que ser ajudada. Quase 40 minutos depois do pedido feito, e com apenas duas mesas além da nossa – tomando apenas chopp e café –, levantei, com o tempo e o saco estourados, e pedi a conta, avisando: suspende o panini. Ao que ouvi da cabelinho bom: “Agora tá pronto”. Respondi: Lamento, mas agora eu não tenho mais tempo. E a sebosinha retrucou: “Então deveria ter avisado antes que tinha pressa”, e jogou o troco na minha mão, com a cabeça virada pro lado. O que esperar de uma mulher que não toma banho, não sabe servir a mesa, não consegue prensar um pão de queijo e ainda é grosseira? Pretensão, tanto quanto o lugar, é óbvio. Gente assim me cansa, lugares assim me desagradam. Por isso a honestidade do bom e velho boteco seduz: nada promete além do que pode dar. E honra a tradição do nome que traz estampado na fachada: boteco.

15 maio 2009

Funcionário do mês


Deputado Sérgio Moraes (PTB/RS): nova ortografia para o plural de moral e venda recorde de lixa grossa.

25 abril 2009

Então

Um dia a gente acorda e percebe que nada mudou.

18 abril 2009

A insustentável mesquinheza do ser

Existe coisa mais insana do que reunião de condomínio?
Existe coisa mais insana do que reunião de condomínio sexta à noite que dura três horas?
Existe coisa mais insana do que reunião de condomínio sexta à noite, que dura três horas, com gente mesquinha, desagradável e profundamente prejudicada cognitivamente?

Existe.

É ver quanto uma pessoa é capaz de ser abjeta quando cegada pela ilusão do poder. MacBeth traiu, conspirou e matou para ser rei. Há quem limpe fossas e minta para ser síndico. A ambição presente em grandes feitos ou em pequenas mesquinharias pode esconder uma grande ingenuidade de quem não consegue se ver realmente como é. Torna o camarão com espírito de lagosta uma presa fácil, manipulável e risível – apesar de toda incomodação que produz.

Agora, alguém diz aí: como uma pessoa equilibrada pode fazer tanta baixaria pra permanecer ad infinitum num carguinho de mando? – que talvez seja melhor definido como carguinho de mandalete. Deve dar um puta orgasmo ser aclamada Rainha das Fossas. Imagina o balconista da ferragem, frente a tão intenso poder, perguntando: “Quantos quilos de soda cáustica vai hoje, tia?”.

No fundo, sinto uma profunda pena de um ser como esse. Imagino que limitar o mundo entre corredores sujos e canos entupidos deve ser a única saída pra quem não conseguiu mais nada na vida. A ilusão de controle sobre cinco outros apartamentos – uau! – parece ser a última alternativa quando os sonhos megalômanos de dominar o mundo fracassam.

Algo que MacBeth, revendo a mesquinhez da própria vida, soube definir como ninguém: “Apaga vela! A vida é só uma sombra: um mau ator que grita e se debate pelo palco, depois é esquecido; é uma história que conta o idiota, toda som e fúria, sem querer dizer nada”.