29 dezembro 2006

Tempus fugit

Uma das grandes sacadas de Einstein foi nos mostrar que o tempo é relativo. Quando estamos em situação de risco, um segundo parece uma hora. Mas quando estamos nos divertindo pacas, uma hora passa num segundo.

A idade também tem essa capacidade de “deformar” nossa percepção. Quem não foi um adolescente que sonhava queimar ‘longas’ etapas pra ter liberdade e o controle da própria vida? E que um mês de espera parecia um ano?

Pior ainda pra quem sempre quis tudo pra ontem, pensou sempre no depois e agiu como se o mundo fosse acabar agora. Sim, esse fui eu. E atenção para a ênfase no pretérito: fui. O tempo assumiu um novo parâmetro agora. Quanto menos tempo vejo pela frente, menos corro pra fazer aquilo que não fiz – e talvez nunca farei. E o melhor é que o grau de culpa é zero nesse processo, dou ao tempo o tempo que ele merece – ao fundo, Doris Day trina a cafona “Que sera sera” no meu ouvido.

Tem algo mais gay do que Doris Day e mangá japonês?

O tempo em 2006 foi um misto de rapidez e vagareza. Não foi bom nem ruim, apenas foi. O valor somos nós quem damos, definindo o que foi prioridade ou desperdício. É claro que o tempo com os amigos foi menor do que eu gostaria, as conversas no orkut breves demais, as risadas nem sempre intensas. O prazer hedonista de viver sempre vai sair em desvantagem, é a relatividade de Einstein em ação. Mas fico pensado que só pode haver tempo estendido em relação a tempo contraído. E toda a pressa e correria só existem em contraponto a sossego e paz.

Dois mil e sete já está na porta, e não quer saber de digressões: quer entrar, quer agir, quer acontecer. Que venha, e seja justo no rateio da relatividade. Ou que propicie pelo menos alguns segundos sublimes, que de tão especiais, façam valer os 365 dias do ano.

O futuro nos espera.
E eu espero vocês lá.

28 dezembro 2006

Mama Rambo

Com esse olhar meigo, pára até caminhão desgovernado

A magnífica Yeda Crusius ainda nem assumiu o governo do Rio Grande do Sul e já encaminhou projeto de aumento de impostos para a Assembléia. Temerosos com o jeitinho “meigo” e democrático com que a futura governadora trabalha, alguns secretários da equipe nem esperaram a posse pra pular fora. Como tudo pode ficar melhor, Yeda anda às turras com o vice, um empresário de extrema direita que não confia no poder administrativo da representante que escolheu como líder.

A tucana derrotou o petista Olívio Dutra com o discurso de que seria uma “mãe” para os gaúchos, e que saberia administrar as contas da “casa” como nenhum blochevique é capaz. E a gauchada que prega a filosofia de “hay PT soy contra”, entronou a rainha do lar pelos próximos quatro anos.

Que o Rio Grande vem apresentando um forte crescimento negativo nos últimos períodos, ninguém duvida. A estagnação financeira e a falta de investimentos são inegáveis. Mas aumentar impostos, como a história já provou, só piora os índices, nunca os reverte. Estamos na contramão do país, e longe dos outrora tão afamados índices de desenvolvimento humano e da economia de ponta. Passado não enche a barriga de ninguém, e a idade média continua insistindo em bater à porta pra pedir passagem.

Quem está fora do Rio Grande - e acompanha política - deve estar dando gargalhadas. Se o trailler é tão bom assim, imagina quando o filme estrear. Mas história de humor negro só é boa quando rimos à distância, não quando fazemos parte dela.

27 dezembro 2006

Labuta


Para aqueles me tomam como inútil, que acham que só sei postar besteira nesse blog, eu provo que sei fazer alguma coisa, sim. No Natal, os confeitos foram todos de minha lavra.

Tá, sei que gosto e textura não aparecem na foto, mas o que importa é enganar os trouxas.

- Grazi e Rosa, confeiteiras oficiais entre os blogueiros, que me perdoem -

24 dezembro 2006

Papai Noel existe?
- explicações derradeiras-

Quanto mico alguém pode pagar tentando provar uma teoria?


A minha pergunta foi respondida com outra: “você acha realmente que ele existe?”. Eu não deveria ter mais do que cinco anos, e era o mais jovem de uma trupe de oito irmãos e primos. Lembro de entrar esbaforido no quarto da minha mãe pra botar a história a limpo, já que eu estava sendo incessantemente massacrado a pouco menos de uma hora da chegada do tal velhinho.

Peguei-a na boca da botija, tirando presentes do armário. Provavelmente a resposta que ganhei veio da surpresa de ter sido descoberta, ou da falta de imaginação. Nunca pensei que o inimigo estivesse na trincheira, mas confesso que não sei se fiquei mais abalado pela perda do sonho ou por dar o braço a torcer quando retornasse pra sala.

Quem estiver com peninha de mim, pode mandar um presente, não se acanhe. Menos a Rosa, que já mandou, de Santa Maria, uma primorosa caixa de bombons feitos por ela, carregados de sabor e carinho. E detalhe: a caixa é toda estampada com fotos minhas e de amigos do Orkut. Fiquei de queixão caído imaginando quanto tempo ela levou pra planejar e fazer isso. É o tipo de sentimento que falta palavras pra agradecer.

Por gestos como o da Rosa é que ainda creio que a magia do Natal existe. Nem que seja pra abraçar alguém que você está estremecido ou pra dizer o quanto as pessoas fazem diferença na sua vida. Na minha, muitas fazem. E você que está lendo esse texto, pode ter certeza que está incluído. Porque cada um toca no outro e age como um agente de transformação, mesmo que nada diga ou nada faça.

Saber que o outro existe talvez seja o verdadeiro sentido do Natal.

23 dezembro 2006

Papai Noel existe (final)?

20 dezembro 2006

Papai Noel existe III?

19 dezembro 2006

Gafanhotos natalinos

Você sabe que dezembro chegou quando as lojas ficam entupidas de gente e o centro da cidade se torna um safári. Toda a atenção é pouca para não ser devorado pelos animais que cutucam, dão cotoveladas e coices, e ainda olham de cara feia. Agem como uma nuvem de gafanhotos famintos, arrasando tudo por onde passam.

Essa também é a época de bares e restaurantes ficarem com ares de sexta-feira em plena segunda. É tanta gente a comemorar a fraternidade e trocar presentes de amigo secreto, que não tem espaço pra quem só quer comer ou beber algo, função primeira do bar. E se o bebuns de sempre já são um inconveniente, os bebuns de fim de ano são piores ainda. Eles gritam duas vezes mais alto, ocupam duas vezes mais espaço e são duas vezes mais inconvenientes. Putz, como tem chato nesse mundo.

E os flashes pipocando sem parar pra todo lado? Até cego precisa botar óculos escuro. O pior pé-sujo se transforma no castelo de Caras, com bocas e trejeitos pra todo lado. Sem falar na roupa domingueira, nos brilhos e excessos e na cafonália dominante. Como diria minha sobrinha de 14 anos, tudo “poser”.

Mas tem um lado bom: ver as caras de espanto ao abrirem o tal presente do secreto amigo, não tem preço. É um misto de dor de barriga com soco no estômago, congelado em um sorriso dourado pálido. E pode escrever: todo amor fraternal – ou carnal, dependendo do amigo revelado –, tem de passar pela prova dos nove que é o rateio da conta. Entre ofensas mútuas de quem comeu mais ou bebeu além do acreditável, sempre é perigoso voar presentes em direções opostas.

Por isso tenho como regra nunca dar objetos cortantes. Nem rolo de macarrão.

17 dezembro 2006

Azul profundo


A história também é feita de acasos e enganos. O futebol, de oportunismo. Adriano só marcou porque Fernandão, a estrela do Inter, arregou e foi substituído aos 31 do segundo tempo.

A superioridade do Barcelona era evidente. O número de faltas cometidas pelos sacis atesta isso. Mas quem pode brigar com o acaso?

O chiqueirão da Beira-Rio pode ser vermelho. Mas a terra continua azul.

16 dezembro 2006

Amor

A primeira vez que a vi não levei fé. Era sem graça, acanhada, um visual meio desbotado e sem vida. Encontros às cegas são perigosos, mas uma amiga havia me garantido que valia a pena. E que seria inesquecível. Foi.

Faz dez anos que a gente se conhece, e não tem dia que não se veja. Tudo o que ela faz pra mim está bom, não reclamo de nada e ainda elogio. Quer saber: ela é perfeita.

Ontem, sem motivo aparente, tomei o maior pé na bunda que poderia imaginar. Ganhei um adeus frio e irremediável, e a notícia de que ela parte quinta-feira. Vou dizer pra vocês, nesse tempo todo fui de uma fidelidade canina. Só de lembrar do cheiro que ela tem meus sentidos se aguçam, e uma melancolia profunda toma conta do meu corpo.

Não sei onde vou comprar pão a partir de sexta. Não há outra padaria que faça igual, simplesmente não há. Nessas quase quatro décadas que carrego nas costas, nunca tinha comido um pãozinho assim: totalmente crocante por fora, com um tom dourado intenso na parte superior e laterais suavemente claras. Por dentro, uma massa densa, pesada e fofa ao mesmo tempo, de um branco tão alvo quanto as nuvens. Quentinho, tem cheiro de acolhimento, de carinho, de amor incondicional que só um pãozinho de 50g pode dar.

Quem souber de uma padaria que faça um pão assim, me avise. Pode ser feia e desbotada como a minha, não importa. Tudo o que quero é me apaixonar novamente.

13 dezembro 2006

Natal ecológico

Minha mãe tem a filial de uma farmácia dentro de casa. É remédio pra tudo, dos mais sofisticados e caros, aos mais simples e caros. Muitos já perderam a validade, já que foram tomados esporadicamente por longos períodos. Há pouco fiz uma triagem e fiquei na dúvida: onde colocar tudo isso, quem recolhe?

Pedi a ela que perguntasse a um médico, e o bom doutor prontamente respondeu “jogue na privada”. Wow, como? Fui até uma farmácia pra tirar a dúvida com um especialista, que indicou a solução: “privada neles!”.

Mesmo na minha grande ignorância, eu sei que qualquer droga jogada na água contribui grandemente para a poluição, além de criar resistência do corpo aos agentes ativos dos medicamentos usados em vários tipos de enfermidades. Essa semana um relatório divulgou a impressionante quantidade de progesterona, hormônios e outras substâncias fármacas presentes na água que abastece a cidade de Campinas, em São Paulo. Uma realidade que pode ser comum a todos os rios e lagos brasileiros.

Agora descobri que uma rede de farmácias de manipulação de Porto Alegre – Pharma&Cia – recolhe as substâncias vencidas e dá o destino que elas merecem. Custa fazer isso? Acho que não. Coisas que estão ao meu alcance eu faço sem pestanejar. Procuro consumir produtos ecológicos e classifico cuidadosamente o lixo seco, principalmente os plásticos, os menos biodegradáveis. Até papel de bala é separado.

Mas confesso que têm horas que me dá vontade de chutar o balde e não separar porcaria nenhuma. Cada vez que eu saio na rua e vejo essas medonhas árvores de natal feitas com embalagens pet, tenho vontade de pegar um isqueiro e brincar de São João. E o pior é que as garrafas estão por toda a parte, até penduradas nas árvores como se fossem bolas natalinas.

Tenho a maior simpatia pela onda eco-verde. Mas agüentar os eco-chatos xiitas e cafonas é dose pra mamute. Esses mereciam ser obrigados a usar roupas feitas só com peles de animais em extinção e ter a casa mobiliada com madeiras nobres. Com todos os acessórios e utensílios domésticos feitos de garrafas pet recicladas.

11 dezembro 2006

Papai Noel existe II?



Mais da série Papai Noel existe?

10 dezembro 2006

Sem medo do esgoto

O cara rouba uma moto, dirige na contramão e pula dentro de um rio-esgoto pra salvar uma criança de três anos que está sendo afogada pela mãe. Tudo isso na caótica São Paulo, indo trabalhar e no dia do aniversário.

Vai ter senso estratégico, agilidade e coragem assim no inferno. Agiu como nos filmes de ação em que o personagem se esconde em uma vida pacata pra encobrir que é um agente secreto ultra qualificado.

Adriano Levandoski de Miranda não quer ser chamado de herói. Mas mostrou que é bom, muito bom. Talvez a alcunha de James Bond fosse mais apropriada.

- a notícia, da Folha de São Paulo, está nos comentários -

06 dezembro 2006

Bate, Sean Connery, bate!






















A blogsfera como representação da sociedade é uma premissa óbvia, não preciso nem explicar. Tem o que há de melhor e de pior. A diferença é que, em grande parte das vezes, só é preciso deletar os blogs que você não gosta pra esquecê-los. Na vida real é mais difícil, os chatos assombram em carne e osso e grudam em você – apesar de já ter presenciado casos em que os neuróticos virtuais invadem até o blog de suas vítimas pra despejar ranço e mau humor, sempre com a desculpa de serem politicamente corretos, é claro.

Encontrar um blog em que as idiossincrasias da vida estão presentes, em que a capacidade de rir de si mesmo e dos outros é a tônica, está cada vez mais raro. Em compensação, o crescimento dos “certinhos castradores" é enorme. Quando o bom humor dá lugar à patrulha ideológica, em que tudo na vida deve ter um propósito específico, em que todos os sentidos são literais e não há espaço pra nuances, a histeria se institucionaliza.

Já tive que usar bombinha pra poder respirar em ambientes assim, e olha que não sou asmático. Acabo de ver meu xará Sean Connery ser linchado porque teria dito, 20 anos atrás, que as mulheres ficam tão histéricas – novamente o conceito de histeria – que só um tapa conseguiria botá-las no lugar, às vezes. É claro que o post tirou isso de contexto e não temos o todo, só a parte. Sem falar que a entrevistadora assume a postura de juiza, com Connery sendo irônico com a agressividade da jornalista. Mas arrepiei os cabelos com as respostas das feministas raivosas, todas querendo a morte do eterno 007.

Sinceramente? No fundo, o que muitas dessas donas politicamente corretas querem é um homem que banque uma postura mais forte e tenha coragem de assumir isso, como Connery faz. Não falo aqui de violência ou abuso doméstico, algo totalmente condenável e cruel, bem longe disso. Mas dos velhos papéis sociais de macho e fêmea que se perderam na poeira do tempo. Muitos comentários enfatizavam “ainda bem que tenho um homem bonzinho” – ao que meu “sensor de ironia” disparou o alarme no mais alto som.

Chauvinista, eu? Digam o que quiserem, mas a estocada final está no mesmo blog, dois posts abaixo. Ao promover um concurso de “blogueiro mais sexy”, essas mesmas mulheres tratam os homens como carne de açougue. Fazem exatamente o que condenam: coisificam o homem, assim como o homem sempre foi acusado de coisificar a mulher. Isso é ruim? Não sei, é preciso entender os contextos e analisar os limites e conseqüências. Às vezes pode ser até bem divertido. O enjoado é ver essa moral de cuecas – calcinha, nesse caso – tomar conta do pedaço.

Por essa e por outras vejo que o bom e velho Nelson Rodrigues continua vivo como nunca. Mas Sean Connery corre sério risco de vida.

04 dezembro 2006

Do sangue e outras histórias

O arrivismo dos yuppies em acumular um milhão de dólares antes dos trinta era tônica geral dos anos 80. A batida dançante e melódica da new wave embalava as pistas acompanhada de uma explosão de cores, cortes de cabelos, óculos, tênis e manias mil. Cada um fazia as mais estranhas combinações com a desculpa de ser uma forma de expressão.

Não nego que surfei nessa onda cítrica, mas uma zona do espectro também transitava pelo lado negro do sol. Anos em que Ronald Reagan e Margaret Tatcher ditavam o poder, e a ditadura deixava Sarney como uma realidade incômoda.

Em Porto Alegre, bairros boêmios como Bom Fim e Cidade Baixa inundavam as ruas com punks, darks, góticos, hippies e toda uma fauna exótica. A cidade fervia com sessões de cinema que varavam a noite, botecos, bandas alternativas e gente, multidões, que caminhava de um lado pro outro sem saber aonde chegar. The Cure e Siouxsie and The Banshess não saíam do meu toca-disco. Também foi o momento de descobrir a literatura gótica de Drácula e Frankenstein, os contos de Edgar Allan Poe e Sheridan Le Fanu. Nas madrugadas, Vincent Price, Boris Karloff e Christopher Lee invadiam a TV.

Foi nessa época que comecei a correr contra o tempo quando o sol dava sinais de despontar no horizonte. Era uma luta inglória chegar em casa antes que o primeiro raio trouxesse o dia. Se a luz me pegasse no meio do caminho, não tinha volta: o sono dava lugar a um zumbi que vagaria até a chegada da noite, quando outra vez eu ficaria ligado – e sem dormir novamente. Manias que carrego até hoje, junto com o fascínio pelo universo dark.

Escrevi tudo isso só pra dizer que revejo minhas posições e estou cansado de perder litros de sangue em rituais satânicos. Não é justo com um simpatizante da causa. É só me descuidar que pequenos vampiros literalmente me devoram, entoando uma ladainha macabra nos meus ouvidos: zzzzzzzzzzzziiiiiiiiiuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiimmmm... À luz do dia, depois de uma batalha entre a vida e a morte, faço a contabilidade das horas mal dormidas: alguns dos meus inimigos jazem mortos nas paredes e lençóis, mergulhados numa poça do meu precioso líquido vermelho. Como pode um mosquito tão pequeno roubar tanto sangue do meu corpo?

Está na hora de eu voltar a ser new wave.

02 dezembro 2006

Chuchu bilionário

30 novembro 2006

Papai Noel existe?

29 novembro 2006

Xô, escumalha

Quando quem deveria ser o parâmetro da moralidade de um país, acintosamente mostra o quão imoral são as estruturas de poder, resta pouco a fazer. Dois mil 978 funcionários do Judiciário ganham em média R$ 3.500 acima do teto estipulado em lei, segundo relatório do Conselho Nacional de Justiça. Essa pequena diferença corresponde ao salário de um professor universitário federal com titulação de mestre e dedicação exclusiva. Um profissional que investiu pesado na carreira acadêmica, paralelamente à trajetória profissional.

Mas as coisas sempre podem ficar pior, dependendo do ponto de vista. Esses R$ 3.500, de um total de R$ 24.500, correspondem a 10 salários mínimos, valor irreal e inalcançável para grande parte dos brasileiros.

É aviltante ver que a imundície que se faz com a honestidade do cidadão continue acontecendo década após década, governo após governo. E ao menor sinal do corte das regalias nababescas, de enquadrar quem rouba descaradamente, a categoria ameaça entrar em greve e paralisar toda a estrutura do país. É o velho método da extorsão, prática comum e já incorporada nessas situações: não mexam em nossas benesses ou a bandidagem vai acabar solta nas ruas.

A piada é tão velha quanto a indignação: quem é o bandido nessa estrutura? Quem é preso ou quem manda prender?

Ética e moralidade têm que ser assunto de discussão do jardim da infância à mesa de bar. Ética e moralidade deveriam estar presentes no currículo de qualquer profissão, deveriam ser tão naturais quanto falar de futebol ou carnaval. Ok, estou exagerando, mas a única saída pra botar o trem nos trilhos vem de nós, cidadãos que pagam impostos e elegem governantes que fazem leis.

Quando ética deixar de ser um dom dado a poucos, e se tornar a consciência de muitos, talvez o Judiciário ponha pra fora a escumalha que denigre a instituição. Juízes e funcionários da instituição moral suprema de um país, mas que não têm nenhum pudor em roubar a possibilidade de uma vida justa e digna para a imensa maioria dos brasileiros

28 novembro 2006

Dois autores e um livro que desisti de ler

A Marcia me “acorrentou” pra eu dizer quem são os três autores que eu desisti de ler. São muitos, daqueles que li uma coisa ou outra e não gostei do estilo ou da abordagem. Tenho uma certa implicância com os bambambans, esses que todo mundo endeusa. À lista, então:

1. Raduan Nassar – li Lavoura arcaica me arrastando, odiando cada ponto que faltava, cada vírgula que não vinha, cada pausa que não existia. Jurei nunca mais ler nada dele. Vou morrer sem saber se é um gênio ou não.
– em tempo: odiei Estorvo de Chico Buarque por ele copiar de forma tão descarada o Raduan. Mas como ele é compositor, e não escritor, não entra nessa lista –

2. Gabriel Garcia Marquez – nunca vi alguém tão megavalorizado quanto ele. Acho enfadonho esse ‘realismo fantástico’ que soa um tanto quanto infantil, e decididamente o estilo dele é pomposo demais pra narrar isso.

3. Aqui eu fujo um pouquinho do proposto pra falar de uma obra, não de um autor. Refiro-me a Ulisses, de James Joice. Depois de ler os contos de Os dublinenses, em que faz parte o supimpa Os vivos e os mortos, me aventurei, louco de curiosidade, na tradução do Houaiss. Viximariasantíssima, cada página eu atravessava a facão, rezando pra ela acabar logo e chegar a seguinte. Mas o facão perdeu o fio e eu não atravessei nada no final das contas. Fiquei lá pela página 70 das 400 que o livro tem. Foi a minha única e fragorosa derrota ao deixar um livro pra trás. Um dia, quem sabe, quando eu falar inglês como os ingleses, eu retome.
- em tempo 2: dizem que a tradução da Bernardina da Silveira Pinheiro é superior a do Houaiss –

Como as correntes de confidências e inconfidências tão tsunamizando os blogs, deixo totalmente aberto pra quem estiver disposto a comentar, sem nenhuma obrigação ou necessidade de desculpas por não fazer. Então, Grazi, Lila e Mariana, se vocês estiverem a fim, beleza.

27 novembro 2006

Dona Joaninha

Sabe aquelas joaninhas de história infantil, que tem as costas cheias de pintinhas? Pois é, tô eu trabalhando no meu computador e aparece uma delas desfilando pela tela do pc. Fazia tempo que não via uma assim, só encontrava as ‘laranjinhas’ comuns.

Não deixa de ser uma surpresa ver um bichinho desses fazendo contato – trocamos fone! – de forma inesperada. Na verdade, acho que tenho algo de Dr. Dolittle, porque vira e mexe os bichos me procuram.

Tem um beija-flor que sempre vem me visitar na janela. Eu o vejo vindo a mil em minha direção, fazendo o maior alarde com o bico. Daí ele pára subitamente, faz aquela postura de ‘cristo crucificado’, e dispara outra vez pra longe. Acho que deve me achar muito estranho, sempre encaixotado no mesmo lugar.

Aqui no meu bairro tem muito passarinho, e eles não cansam de dar rasante. É comum entrarem pra remexer vasos de plantas: pegam insetos ou fios soltos e se mandam. Uma vez, eu estava de pé recolhendo as folhas da impressora e um entrou em desabalada carreira. Fez a curva em volta do meu corpo e nem deu tchau. Minto, deixou uma ‘encomenda’ na soleira da janela. Acho que se assustou com a minha cara grande.

Enquanto escrevo a joaninha continha lá, no mesmo lugar. Já andou por toda a tela e agora parou bem em cima, como um pingüim de geladeira. Se não for embora sozinha, por onde veio, vou largá-la nas plantas da sacada.

Mas algo me diz que ela não vai ligar confirmando o encontro.

Essa sequência de fotos é da joaninha que me visitou hoje
As fotos ruins foram feitas com a cam do computador

24 novembro 2006

Volta, Almodóvar!


O diretor e suas musas: Blanca Portilo, Penelope Cruz, Yona Cobo, Carmen Maura e Lola Duenas

Se você é um daqueles fãs apaixonados por Almodóvar, pare por aqui. O texto que segue é o desabafo do descontentamento com o rumo que segue a obra do diretor espanhol, principalmente em Volver, seu último filme.

A narrativa é tipicamente almodovariana: mulheres fortes com laços de cumplicidade tão estreitos que nada consegue abalar. Os homens foram radicalmente banidos desse filme, e os únicos dois que ganham ínfimo destaque não passam de sexistas desprezíveis. Mas Penelope Cruz é a própria mulher coragem: mantém a filha e o marido com mil empregos e é o cimento que solidifica as relações com a irmã, a mãe morta e as amigas. Algo que a sempre excelente Chus Lampreave reafirma ao encarnar a tia louca que só volta à realidade quando vê a sobrinha – Penelope –, um símbolo do amor incondicional capaz de mudar destinos.
Chus Lampreave: talento pra comédia em pequeno papel de tia louca

As pequenas piadas que giram em torno desse universo reforçam que o amor entre mulheres é sem interesse e naturalizado. Como a galhofa da prostituta que não compreende para que serviço está sendo contratada, e reage de forma carinhosa: “não sabia que você gostava de mulheres, mas pra você eu faço um bom desconto”. O problema está justamente aí. Almodóvar retoma um estilo de roteiro que desenvolvia no início de sua carreira, nos anos 80, em que a piada era mais importante que o aprofundamento dramático. Por isso, talvez, a morte, fio condutor de toda narrativa, não esteja aqui para gerar catarse e desencadear transformações. A morte é tão banal quanto respirar, não é boa ou ruim, apenas existe.

É o que faz a morte trágica do marido de Penélope não abalar nem ela nem a filha. Almodóvar pinta o homem com tintas carregadas, mas transparentes, sem a profundidade que seria necessária para entendermos o porquê da morte dele. Ou a morte da tia, uma substituta da mãe ausente.

Olhos de Carmen Maura: força dramática sem dizer uma palavra

Então, se não há abalo emocional com a morte, “voltar” à vida é normalíssimo. Carmem Maura, sumida dos cinemas brasileiros há muito, surge como a mãe morta que volta para acertar as contas com a filha. Espantosamente envelhecida, mas com olhos gigantescos e brilhantes que ainda iluminam a tela, nada mais faz do que vagar como um espectro sem profundidade, sem ter o que dizer. Não há dúvida ou questionamento para essa aparição. Para Almodóvar as coisas estão dadas, nada consegue causar espanto no mundo, nem a morte, nem a ressurreição, nem a revelação do que seria o mais torpe crime dentro de uma família.

Essa questão Almodóvar foi buscar em Chinatown, clássico de Roman Polansky sobre a desintegração social. Mas se no filme de Polansky a revelação fazia o intrincado quebra cabeça ganhar sentindo, em Almodóvar não passa de uma homenagem à grande sacada do roteiro original. Homenagens que o diretor continua fazendo, tanto na tentativa de transformar Penelope Cruz em Sophia Loren, quanto na construção do filme, com ares de policial dramático com toques de noir.

Penelope: figuros à Sophia Loren, seios fartos e prótese nas nádegas

Almodóvar continua sendo um grande diretor de atores – apesar de Cruz não ser uma grande atriz – e constrói seqüências com rara habilidade – o amor feminino sendo engendrado dentro da cozinha, pelos alimentos. Mas abrir mão de aprofundar a vida dessas mulheres enfraquece Volver. Parece que está com medo de tocar fundo nas emoções, como fez em obras irretocáveis como Tudo sobre minha mãe ou Fale com ela. Ou começa a mostrar cansaço pela fórmula que ele mesmo criou, o que já ficou evidente em Má educação.


A cozinha como formadora do caráter feminino: comida como aconchego

O final, tão postiço quanto as emoções que tentou despertar, nada mais é do que um pastiche dos dramalhões familiares da Hollywood dos anos 50: mãe e filha, separadas por uma porta, aceitam o destino que lhes foi traçado. E corajosas, seguem para enfrentar a vida que ainda resta. Pena que contando seja muito melhor do que vendo.

22 novembro 2006

A volta ao velho quintal


"Não importa que a tenham demolido:

a gente continua morando na velha casa em que nasceu"
Mario Quintana

--------------------------------------------------------------------------------- foto: Sean Hagen
Fredi, meu sobrinho, evanece num espaço que não existe mais

Em sonhos eu continuo morando na casa em que nasci e vivi grande parte da minha vida. Esteja fazendo o que estiver, mesmo quando o assunto é alguma preocupação atual, a cena doméstica que se instaura é na casa da minha infância. Nunca sonhei com o apartamento em que moro hoje. E o mais estranho é que jamais estou dentro de casa, mas sempre no pátio.

Foi em meio as parreiras, ameixeiras, figueiras, pitangueiras, laranjeiras, amoreiras, bergamoteiras, pereiras, goiabeiras, araçazerios, caqueiro e romanzeiro que eu tenho as melhores lembranças. Lembro dos verãos muito quentes e luminosos em que o sol era filtrado pelas folhas e fazia rendados no chão. Do prazer de subir nos galhos e ter o luxo de escolher a fruta ‘perfeita’, aquela que tinha o tamanho, a cor e a consistência que eu queria no momento.

O pátio era enorme, em desníveis – alguns com dois metros de altura –, e proporcionava todo tipo de brincadeira. Era possível ficar horas escondido em algum lugar sem ninguém saber onde eu estava, o que era uma benção numa família grande com casa pequena.

No fundo do quintal, num barranco em declive acentuado que levava a um terreno que permaneceu desocupado por muito tempo, havia um taquaral. Ali, entre tantas coisas, a imaginação corria fértil, e as possibilidades eram ilimitadas. Era floresta e castelo, selva e labirinto, trincheira e casa particular.

Eu no galho da pereira: de cabeça pra baixo nada parecia anormal

Talvez por isso a imagem de lar se construa nesse espaço. Ali também era o lugar das festas, de toda família reunida em longos almoços de domingo sob o parreiral – a sobremesa se pegava levantando a mão. Das guerras d’água que transformavam tudo em lama. Dos lençóis sempre brancos, enfurnando feito velas, em tarde de temporal. Dos pés tocando a terra fresca, protegida pela sombra, em dias quentes de verão. Da geada que cobria o gramado e formava uma névoa espessa quando o sol surgia.

A casa em que nasci não existe mais. Nem uma árvore restou pra alimentar os passarinhos. Um estacionamento ocupa o lugar em que grande parte da minha vida aconteceu. Mas como um vampiro desterrado, insisto em buscar conforto no solo em que fui gerado. Nem que seja em sonho.

20 novembro 2006

Dez centímetros



Lua de mel com dor nas costas - pelo motivo errado - deve ser foda.
Como a Katie Holmes pode ter ficado mais baixa que o tampinha do Tom Cruise se ela tem 10 centímetros a mais do que ele?
Na altura, que fique bem claro.

19 novembro 2006

Save the models

Agências de modelos unidas na luta pela moralidade.
Lindo, não?
Agora decidiram que vão pedir exame de saúde das modelos.
Quem não estiver bem, não entra.
Resta saber quais doenças vão ser levadas em consideração.
Talvez só as de pele, como psoríase, vitiligo, acne.
Ou as deformatórias – escoliose, lordose, gigantismo.
Minha dúvida: mais de 20 anos ou cabelos crespos serão considerados o quê?

17 novembro 2006

Do imaginário e do jornalismo

Morte trágica, interesse redobrado

Escrevi o primeiro post sobre a morte da Ana Carolina Reston Macan assim que a Folha Online publicou. A história da moça-pobre-que-dá-se-mal-tentar-a-carreira-de-modelo me incomodou, mas não é a primeira nem será a última. Os comentários no blog foram variados, e deu pra perceber como isso afetou as pessoas em diferentes níveis: auto-imagem, auto-estima, glamour, projeção social, sonhos, piedade, indignação ou seja lá o que for.

A surpresa veio agora, quando abri o Sitemeter – um contador de visitas instalado no blog – e vi que das dezenas de acessos diários habituais, o número passou dos 2.500 – entre a meia noite e às 15h de 17 de novembro –. Quase todas as entradas vêm de buscadores em que foi digitado o nome “Ana Carolina Reston Macan”. Uma olhada superficial nos gráficos revela que em torno de 90% são de leitores norte-americanos, e o resto de outros países, inclusive os brasileiros habituais.

O que fez tanta gente se interessar pela história dessa menina brasileira? Há muito pano pra manga aí, e explicações de todas as áreas podem ser formuladas. Mas como jornalista, cada vez mais acredito que esse não é um processo de simples espetacularização dos fatos, como muitos teóricos zangados gostam de pregar – lembro que quem chegou até mim não foi procurando um blog ou site jornalístico, apesar de ser o blog de um jornalista. Vejo esse processo muito mais como a busca por compreender onde estamos inseridos na nossa cultura, espaço e tempo, uma função que o campo jornalístico desempenha muito bem. O jornalismo tenta racionalizar o mundo para que a sensação de ordem e cotidianidade se estabeleça. Mas, pra isso, elege justamente o que não é cotidiano, o que irrompe do marasmo dos acontecimentos triviais. E trabalha com uma forte carga emocional e subjetiva que mexe profundamente com o interesse das pessoas.

Glamour, imaginário de princesa e realidade: reacomodação da vida

As modelos, hoje, são as gatas borralheiras de ontem: estão inseridas no imaginário da vida que se resolve por um toque de mágica; carregam o glamour e luxo das princesas. A morte, que vem interromper esse processo, joga o sonho de volta à realidade, algo que não é muito agradável de processar – mesmo que saibamos que a vida é assim – e toca em sentimentos tão antigos quanto inconscientemente enraizados.

O interesse pela história de Ana Carolina Reston Macan até pode parecer um espetáculo para alguns. Mas, no fundo, é a carga de sonho necessária para enfrentarmos a dureza da rotina de nossas próprias vidas. Se o final não foi feliz, ela morreu em busca de um ideal. Uma forma de nos dizer que a vida precisa ser vivida urgentemente. Tanto por princesas quanto por sapos.

16 novembro 2006

Canícula

----------------------------------foto Sean Hagen

Agora não tem mais volta.
O calor chegou, os dias espicharam e o sol vai brilhar forte pelos próximos meses sem dar trégua pra esse notúrnico ser que vos escreve. Dias nublados e de chuva serão raridade. E eu vou suar, bufar, esbravejar e sentir o corpo derreter pela eternidade desse período.

Ainda hei de viver num país nórdico, em que o frio domine grande parte do ano.

O jeito é continuar consumindo toneladas de sorvete, andar descalço e seminu – quando se pode, é óbvio – e banhos gelados, muitos. Prazeres muito pequenos pra compensar a liquefação do cérebro.
E incapazes de barrar o mau humor.

15 novembro 2006

Adeus, fadinha

Ana Carolina Reston Macan morreu aos 21 anos. Pesava 40 quilos e tinha 1,74 metros de altura. Teve uma infecção renal que afetou a possibilidade de respirar, terminando em uma infecção generalizada.

Ana Carolina Reston Macan não era uma estatística relacionada a um bolsão de pobreza do Brasil, onde conseguir algo para comer a cada dia é uma batalha entre a vida e a morte.

Ana Carolina Reston Macan circulava pelo lado mais brilhante do glamour internacional, indo do Japão a França, da China ao México.

Ana Carolina Reston Macan era modelo. Morreu de anorexia nervosa.


A história completa está na Folha Online.

14 novembro 2006

Vida ordinária

Poucos prazeres são tão intensos quanto coçar comichão.

12 novembro 2006

A cozinha do diabo

Tenho que confessar: ao mesmo tempo em que abomino novelas, eu me amarro em reality shows. Não todos. Alguns são muito ruins, e o máximo que faço é dar uma espiada. Gosto particularmente dos ingleses, que são inteligentes e bem produzidos.

Agora descobri um - mesmo sendo norte-americano - que aborda o universo da boa mesa, outra das minhas paixões, o que deixou tudo mais interessante: Hell’s Kitchen é estrelado por Gordon Ramsey, um chefe de cozinha tão talentoso quanto mau humorado.

A proposta é simples. Doze candidatos, alguns com larga experiência culinária, outros sem nenhuma, brigam pra ver quem ganha um restaurante no final. Para isso, vão provar que sabem cozinhar, servir, administrar, criar estratégias e, sobretudo, agüentar a extrema grosseria e mau humor com que são tratados por Ramsey e os assistentes dele.

É aí que entra a novidade: o chefe é um general nazista que trata a cozinha como um campo de concentração. Não aceita erros nem insubordinação. Já cuspiu em pratos que não gostou, esfregou comida em quem o desobedeceu e jogou toda a refeição no chão pra mostrar descontentamento. Fora a quantidade de ‘bips’ que apagam os palavrões que profere a cada fala. De sofisticado só tem as receitas que prepara, derrubando um mito muito comum nesse campo de atuação.

Para o grupo dos sensíveis que se horroriza com esse comportamento, o programa traz uma sacada interessante: Ramsey trata os clientes que freqüentam o Hell’s Kitchen com a mesma ferocidade e brutalidade com que trata os competidores. É óbvio que uma série produzida nos EUA só pode conter essas cenas porque são “armadas”. Um ‘segredo’ que, provavelmente, seja revelado no final. Mas o nervosismo dos participantes é tão grande, que pra eles aquilo soa como verdadeiro, conferindo mais poder ao chefe.

Quem conhece um pouco do mundo da gastronomia sabe que a cozinha é o próprio inferno, onde as pressões e cobranças são absurdas. Levará o prêmio aquele que tiver força pra superar tudo isso. E ver como as pessoas se desestabilizam com um grito ou um elogio, é entender porque alguns restaurantes oscilam tanto entre a boa e a má comida, dependendo do dia em que você chega. Para Ramsey, ser carrasco no treinamento é evitar que isso aconteça. Preocupação rara de se imaginar por aqui. Pelo menos nos pé-sujos que eu freqüento.


Hell's Kitchen passa toda quinta, às 22h30, no GNT.

09 novembro 2006

Viagem ao eu profundo

Set de filmagem de "Briedshead" no inerior da Inglaterra

Conheci o universo de Evelyn Waugh através da TV. No início dos anos 80, a TVE/Cultura passou a minissérie Memórias de Briedshead – produção britânica com o ainda desconhecido Jeremy Irons, e com Laurene Olivier no elenco –, uma das raríssimas adaptações soberbas de um livro em filme. A densidade da história mexeu com a cabeça fértil do - então - adolescente, e aguçou a curiosidade em ler o original. Em 86, quando entrei na universdiade, quem encontro na biblioteca?

Briedshead é a aristocrática mansão da família Merchmain – mais aristocrática ainda por ser católica na Inglaterra protestante. O capitão Charles Ryder, ao acampar com seu pelotão nos jardins da casa durante a II Guerra, é invadido por uma avassaladora memória do que foi sua vida. E nos carrega junto, morro abaixo, numa dolorosa e catártica indagação sobre livre arbítrio, amor, religião e sociedade. Mais do que tudo, discute a real importância no que cremos e no que nos transformamos quando perdemos essas crenças, quando deixamos de ser fiéis a nós mesmos.

É essa densidade de assuntos, tratados com profundidade e maestria, que fazem do livro um dos clássicos insuperáveis da minha biblioteca pessoal. Waugh, além de tudo, tem uma elegância na escrita que me faz babar de inveja a cada frase. Une forma e conteúdo em uma combinação única, sendo lírico, contundente e irônico na medida certa.

Sebastian (Anthony Andrews), Julia (Diana Quick) e Ryder (Jeremy Irons)

Essa ironia, por sinal, acabou me levando a outros livros dele: à desintregação dos valores famíliares de Um Punhado de Pó; à acidez hilária de Furo! – narrada sob a ótica de um jornalista, profissão que Waugh exerceu –, e a O Ente Querido, em que um embalsamador devolve a aparência vivaz aos cadáveres, mas vive como se fosse um deles.

Mas Briedshead (escrito em 1945, e adaptado como A Volta à Velha Mansão pela primeira tradução no Brasil) talvez seja sua melhor obra. Assim como Machado de Assis, e o triângulo protagonizado por Capitu em Dom Casmurro, nunca temos certeza se Ryder consumou ou não a paixão platônica por Sebastian Fly, herdeiro da família Merchmain. Ryder, pobre e impopular no seletíssimo grupo da Universidade de Oxford, encontra na riqueza, excentricidade e charme da aristocracia decadente o passaporte para a liberdade – tanto financeira, quanto moral. Nem de longe a questão da homossexualidade latente encerra o plot central da história, mas só alguém com Waugh conseguiria fazer o destino dar a volta e colocar no mesmo espaço, tantos anos depois, Ryder e Julia, a irmã de Sebastian. Exemplo de uma ironia cáustica que permeia toda a obra.

Ryder, Sebastian e o histriônico ursinho: detalhes reveladores

O que importa, realmente, é que Waugh não faz concessões às suas criaturas. A trajetória de cada um vai ser vivida conforme as próprias escolhas e idiossincrasias. No final, isso reafirma que nenhuma força divina pode nos salvar da forma de como pensamos e agimos – Waugh era um fervoroso católico convertido, além de um dândi que odiava o mundo em transformação.

Escrevi esse longo texto pra dizer que ontem, depois de exatos 20 anos procurando uma cópia da edição esgotada de Memórias de Briedshead, encontrei um exemplar na Feira do Livro de Porto Alegre – pra quem não conhece, essa é umas das coisas mais legais que a cidade tem. Debaixo dos jacarandás em flor, na temperatura levemente fria da noite, resgatei um pouco do meu passado. E talvez do meu futuro.

Tudo isso por módicos R$5,00.


Você pode ler uma crítica interessante do livro aqui.

01 novembro 2006

Má nias

O tempo tá pra lá de apertado por esses dias, mas vou atender ao chamado da Grazi.
Cinco manias que tenho – óbvio que vou colocar as menos ruins – e da qual não abro mão:

• Estalar todos os ossos antes de dormir
• Estalar todos os ossos ao acordar – inclusive o cérebro
• Tomar coca-cola depois de comer chocolate
• Escovar os dentes caminhando pela casa
• Andar descalço

Meigo, né?

Então lá vai a maldição, repasso pra Fabiana, Mônica, Lila, Mariana , tia Elis e Thelma.

30 outubro 2006

Quando o Euninho destruiu a camada Diozônio e o desmatamento dos animais atingiu a todos cerumanos coletivamente

Como sempre, todos os grandes compromissos que você tem no ano desembocam no mesmo momento, ou seja: sem tempo nem pra pentear macacos. Mas achei tão engraçado essas frases abaixo, que colei aqui. São do site eAprender.com, e foram tiradas de uma edição de 2002 do Estadão sobre as provas do Enem - Exame Nacional do Ensino Médio.
Apesar de velhas, o frescor da burrice continua atual.

* Já está muito de difícil de achar os pandas na Amazônia.
* Os desmatamentos de animais precisam acabar.
* O maior problema da floresta Amazonas é o desmatamento dos peixes.
* A natureza brasileira só tem 500 anos e já está quase se acabando.
* Nos dias de hoje a educação está muito precoce
* Os lagos são formados pelas bacias esferográficas
* O cerumano no mesmo tempo que constrói também destrói, pois nos temos que nos unir para realizarmos parcerias juntos
* O sero mano tem uma missão...
* Vamos mostrar que somos semelhantemente iguais
* Na verdade, nem todo desmatamento é tão ruim. Por exemplo, o do Aeds Egipte seria um bom benefício para o Brasil.
* Por isso eu luto para atingir os meus obstáculos
* Imaginem a bandeira do Brasil. O azul representa o céu, o verde representa as matas, e o amarelo o ouro. O ouro já foi roubado e as matas estão quase se indo. No dia em que roubarem nosso céu, ficaremos sem bandeira.
* A concentização é um fato esperançoso para o território mundial.
*O Euninho provocar secas e enchentes calamitosas...
* O problema ainda é maior se tratando da camada Diozônio!
* O que é de interesse coletivo de todos nem sempre interessa a ninguém individualmente.

E se a gente lembrar que os animais jumentosos também galopam, aonde vai parar a burrice?

23 outubro 2006

Jumentas de pijamas

Lugar de emissora de TV é em cima de morro.

Morros, geralmente, são ocupados por favelas.
Quem trabalha em TV, tem que subir o morro.
E passar pelas favelas.
E o espetáculo da vida supera em muito a ficção da TV.

Durante anos eu passei por jumento “vestido” de presidiário, que algum insano tentou transformar em zebra. As listras eram tão retas e largas que o animal parecia um Banana de Pijamas. Assim que a zebra da favela apareceu, as crianças brincavam excitadas em volta. Com o tempo, o entusiasmo morreu e o bicho ficou pastando sozinho, com aquela cara desolada de quem não tem mais nada a perder. A tinta só saiu quando o pelo mudou de vez, anos depois.

Qual a surpresa que tenho quando pego o jornal de domingo e uma mula de pijamas tá na capa:



O problema é que usaram carvão pra maquiar a jumenta. Daí caiu uma chuva daquelas e desbotou a fantasia. Se a Wella soubesse, aposto que a zebra ostentaria um luminoso tom “ouro dourado”. Igualzinho ao da Angélica.

19 outubro 2006

Mão de vaca


Preço mínimo de R$ 1,343 milhão por um pequeno rubizinho de 46 quilates.
Tá exposto na feira de gemas preciosas de Mianmar, na Ásia.
A pedra vale uma fortuna, mas os mãos de vaca não gastaram um mísero centavo pra comprar sabonete pro modelo fazer a foto.

17 outubro 2006

Vai ou fica?

Alto ou baixo.
Dentro ou fora.
Esquerda ou direita.
Ida ou volta.
Com ou sem
Claro ou escuro.
Certo ou errado.

Alguém aí tem a pílula das soluções fáceis?
- ouvi dizer que as do Paraguai não são seguras -

15 outubro 2006

Bagunceiro arrumadinho

É lógico que em todo caos há lógica. Tão aí os einsteins pra teorizar sobre o assunto. Mas nem por isso a lógica do caos deve engolir o dia-a-dia. Passei o sábado arrumando armários e gavetas que tavam caóticos e tentando liberar espaço pra guardar mais tralhas.

Sei que é coisa de neurótico, mas me incomoda esse tipo de bagunça, essa que faz a gente perder tempo procurando algo que sumiu num buraco negro, que amassa e estraga o que está "guardado", que afeta o humor de quem sofre da síndrome de pato donaldirritabilidadis aguçadis.

Exemplo: você tá no banho e lembra que botou a toalha pra lavar. Sai ensopado, vai até o armário, tenta pegar uma toalha no meio de milhares que tão socadas num espaço minúsculo. Resultado óbvio: todas caem no chão, em cima da poça d’água que você mesmo criou. Resultado óbvio dois: toalhas sendo chutadas pra todo lado, máquina de lavar cheia com as tolhas chutadas, mais trabalho a ser feito.

O que ainda não aprendi é a organizar as “gavetas” externas, já que por cima do interior arrumadinho, o exterior é uma barafunda, com coisas empilhadas e jogadas pra todo lado. Meu visual também é assim: aparência meio amarrotada, cabelo sempre despenteado, roupa amassada. Mas essa eu vou deixar pra Jung ou Freud resolver. Assim que eu conseguir me decidir por um dos dois.

13 outubro 2006

Sexta-feira 13

foto sean hagen

Meu lado soturno adora os mitos sobre a face negra e oculta do homem. Fico fascinado com as pessoas que, ainda hoje, têm superstições infundadas, medo do ‘além’, acreditam que o mal está ali na esquina esperando pra atacá-las.

Eu, quando criança, tinha certeza de que algo maligno morava embaixo da minha cama. A coisa se fazia presente assim que a luz se apagava – o que me obrigava, pra ir ao banheiro, pular feito macaco sobre a cama dos meus irmãos e levar muita porrada. O pior era um palhaço, um maldito palhaço, que me assombrava com requintes de crueldade. Era algo como um ‘porta-pijamas’ pendurado na parede. Mas era tosco, artesanato mal feito que ganhei sei lá de quem e éramos obrigados a manter no quarto. Na escuridão, a luz da rua entrava por uma fresta da veneziana e iluminava o mal acabado, destacando o sorriso podre e o olhar psicótico.

Lembrei disso porque saiu a última pesquisa do ibope: Lula tá 14 pontos percentuais – votos válidos – na frente do Chuchu Desnatado. Será que a Regina Duarte vai passar, outra vez, a calmantes nos próximo quatro anos?

Triste dia da criança

É duro ser uma criança incompreendida.
O dia 12 terminou e o telefone não tocou.
Nenhum scrap chegou.
Nenhum bombom adoçou meu dia.
Nem um simples cafuné solitário ganhei.
Tá difícil viver neste mundo.

Bang! Tá morto, pulha!

11 outubro 2006

Feriado filosófico

Tá na Folha On-line de hoje: 1,5 milhões de veículos devem deixar São Paulo no feriado prolongado.

É como se cada um dos moradores de Porto Alegre – e mais alguns visitantes – pegasse um carro e fosse viajar. Imagina aquele bebezinho de apenas dois meses xingando o velhinho de 98 por ultrapassar em alta velocidade pela direita. E a brasília arriando nos quatro pneus 1972, originais, bem na frente do pedágio.

Daí o trânsito vira caos, todo mundo briga, buzinaço pra todo lado, tranqueira. Decididamente, bebês de dois meses e velhinhos em alta velocidade não deviam dirigir em Porto Alegre.

Vou me mudar pra São Paulo. Brasília nunca.

05 outubro 2006

Marketing cara de pau

Quem acompanhou o bate-boca das últimas semanas, viu que o Google, dono do Orkut, mandou a polícia federal às favas ao não liberar o sigilo de comunidades e participantes que incitam o racismo, a pedofilia, o preconceito e outros ódios. Em suma, o Google se acha maior e melhor do que as leis e costumes de um paisinho chinfrim como o Brasil e tá se lixando pra nós.

Agora, marketeiramente, tenta melhorar a imagem se dizendo solidário e humano. Na página de entrada – onde se digita o nome e senha – eles escreveram, ao lado de uma fitinha preta:
O orkut.com está de luto pelas vítimas do vôo 1907. As seguintes comunidades foram criadas por nossos membros:
GOL - Vôo 1907 – Sobreviventes - Corrente de fe do voo 1907

Ok, vou acreditar que eles estão preocupados com a situação. E que desta vez apoiarão a justiça brasileira caso fique comprovada a suspeita de que o piloto e co-piloto, norte-americanos, foram os responsáveis pela morte de 155 pessoas.

É muita cara de pau.

03 outubro 2006

Azul calmante

O céu está azul e luminoso.

Os passarinhos chilreiam, dão rasantes, brincam por estar vivos.

O mundo parece tão bonitinho visto daqui.

Só queria que os malditos funileiros parassem de martelar minha cabeça pra trocar as calhas do telhado.

foto Sean Hagen

02 outubro 2006

Mais e melhor

Surpresas nas eleições em todo Brasil.
Como todos os anos, um bom bocado dos pilantras e falcatruas não se reelegeu. Gente nova chega com a obrigação de fazer algo honesto e eficaz.

Tá na hora da turminha enjoada da classe média senso comum parar de dizer que o brasileiro – eles incluídos fora – é burro e não sabe votar. O povo escolhe, mas se vê que cometeu engano, tenta corrigir.

Lula fugiu do debate quando os índices de aprovação o elegeriam no primeiro turno. Os eleitores se sentiram enganados e cassaram os votos, obrigando o petista a debater na marra. No Rio Grande do Sul, os gaúchos rejeitaram veementemente a administração do PMDB, vazia e desastrosa. O governador Germano Rigotto está fora do segundo turno. Despontava como líder absoluto nas “pesquisas de opinião”, mas foi atropelado por Olívio Dutra e Yeda Crusius, que estavam empatados em segundo lugar.

Pra todo acerto sempre há uma margem de erro, e é o que explica a eleição de Collor pro Senado ou Clodovil e Maluf pra Câmara Federal.

Enquanto isso, um documentário da BBC prova que o Ratzinger era responsável por acobertar os crimes de pedofilia da igreja católica. Alguém do senso comum vai sair em defesa do nazista papal?


01 outubro 2006

Flor do pântano

Ao fugir do debate na Globo, Lula trocou a credibilidade que o mantinha livre dos escândalos pela imagem do medroso que tem algo a esconder. Assinou uma “confissão de culpa” e abriu espaço pra dúvida que antes não existia. Escondeu-se embaixo da cama, como um moleque que quebra a vidraça do vizinho e tenta fugir da punição. Essa decisão vai custar caro, mesmo que seja pura especulação a possibilidade de estar envolvido com irregularidades.

Agora, o possível segundo turno começa com um Alckmin revigorado, mesmo que calcado apenas no vazio slogan “vamos mudar o que está aí”. Por mais de direita que a administração Lula tenha se transformado, esse slogan ressona nos conservadores que preferem uma imagem "limpinha", e não um plano de governo – a história já nos mostrou no que isso resulta, vide Jânio Quadros e Collor de Mello, entre outros.

Em vez de pagar milhões de reais pra meia dúzia de aspones botar tudo a perder, o PT deveria ter feito algo mais inteligente e barato: olhar pro próprio umbigo e perceber que foi a simplicidade e a fidelidade aos anseios das camadas mais pobres – de onde surgiu – que fizeram o partido grande. Ternos de grife e vinhos caros exigem dinheiro, por isso sempre foram ligados às elites. Quando o PT se deixou seduzir por essa imagem de poder, aceitou as regras do jogo político arcaico: legislar em causa própria, vencer a qualquer custo, parecer mais do que ser.

Se a fênix renasce das cinzas, que o PT renasça do lodo. É um partido de trajetória jovem e não está isento de cometer erros. A maturidade será reconhecer o desastre que causou e fazer um corte drástico na banda podre que administra a legenda.

Corrupção pode ser sanada com ética. Mas traição à luta de milhões de pessoas é algo imperdoável.

29 setembro 2006

O Rei, o Chuchu, o Múmia, a Enguia e o Covarde

Tédio é a palavra pra definir o debate que encerrou a campanha presidencial. Wiliam Bonner comportou-se como rei absoluto do espaço. Agiu como se a Globo não estivesse ali, e todas as decisões fossem apenas dele. Minto, deixou claro que tinha assessores ao repetir várias vezes “eu, com minha equipe, decidirei...”. Demarcou espaço ao interromper o debate para pedir silêncio à platéia, dizendo que o barulho o atrapalhava. Atitude arrogante, visivelmente nervosa, já que nem os sensíveis microfones deixaram os telespectadores perceber que havia algazarra. Seria mais educado que a produção chegasse silenciosamente aos matracas e fizesse esse papel. Mas dessa forma, não teríamos percebido que cabe à Bonner instaurar a ordem nacional.

Alckmin confirmou que não tem gosto, cheiro, cor. Age como um chuchu e se expressa como um chuchu. Não conseguiu nem atacar a ausência de Lula de forma contundente. É pífio, despreparado e sem visão política. A única coisa que o move é uma sede por poder incomensurável. Poder que ele é estúpido o suficiente pra não saber usar. Mas cunhou uma grande frase, pelo ato falho: "imposto é esgoto" – juro que ouvi “Rigotto”, o candidato do PMDB à reeleição no RS.

Cristovam Buarque fala como uma múmia, pensa como uma múmia e se parece com uma múmia. É um disco arranhado, sempre tocando a mesma música - "a doce revolução". Tem a emoção de uma lesma esmagada e a convicção de quem sabe que não ganha nem rifa de igreja. Mas conseguiu fazer uma crítica ácida à ausência infame de Lula.

Heloísa Helena seria uma grande candidata se tivesse o suporte de um grande partido, maior poder de articulação e fosse um pouco menos maniqueísta com a idéia de esquerda e direita. Assumiu o papel que se espera de um candidato: debateu, cobrou, afirmou e deu choques feito uma enguia. Não perdeu uma única oportunidade de surrar quem a expulsou do PT, justamente pela questão da moralidade. Esperta, personalizou tudo na figura do homem Lula, já que o carisma é que o deixou livre de se macular com tantos escândalos.

E Lula? Lula é um covarde que acaba de trair o último reduto de moralidade que tinha. Entregou a alma aos marqueteiros e fugiu do debate. Não acreditou nem na própria credibilidade pra reverter o rio de lama da sua administração. Tornou-se a sombra da vergonha que tantas vezes cobrou de outros candidatos.

Lamento profundamente o momento político que vivemos. Mas mesmo chocado e consciente dos erros, ainda opto por votar no PT. Não tenho escolha frente ao quadro que se apresenta. Crises de moralidade são um bom momento pra que novos paradigmas surjam. E novos líderes também.

27 setembro 2006

Meaw!

E agora a ciência descobriu que quanto maior e mais vistosa a juba, mais velho e improdutivo é o leão.
Meus amigos leoninos vão ter que rever paradigmas.

24 setembro 2006

Olhos pidões


Eles são irresistíveis, divertidos e amorosos.
E precisam de um lar urgentemente.
A mãe, grávida, foi retirada da rua pela Maristela.
E ganhou o nome de Docinho.

Os três filhotes tão fechando o terceiro mês já desverminados e cumprindo o calendário de vacinas, que termina em novembro.
São da mais pura raça Veéle - vira-lata -, com mãe fox terrier pelo duro e pai desconhecido.

Quem quiser adotar uma dessas belezinhas, ou souber de alguém que queira, entra em contato comigo ou manda um mail pra Maristela: mbairros@terra.com.br
Só mais uma coisa: como todo bom VL, eles são extremamente inteligentes e super bem-humorados.
Vai resistir a esse olhar?

22 setembro 2006

Shaná Tová

Gosto de gentes, não de religiões.
Gosto de pessoas, não de política.
Gosto de sorrisos, e pouca importa a cor da pele.
Gosto de amigos, e tanto faz com quem vão pra cama.
Gosto de pensar que um dia o respeito vai imperar e cada um será como quiser, sem ferir o limite dos outros.

A todos os que se reúnem pra começar o ano 5.767 que começa, Shaná Tová U-metuká.
E um beijo especial pra Debora Elman, alguém que eu gosto e respeito, independente de nossas diferenças.

21 setembro 2006

Teresa e o inferno

Ah, caro amante! Não resisto mais! Aparece, Conde, não temo absolutamente o teu dardo, podes perfurar a tua amante, podes mesmo escolher onde quererás meter, tanto faz, suportarei as tuas metidas com confiança, sem murmurar. E para assegurar o teu triunfo, olha! Aqui está meu dedo colocado!

A leitura excitante de Teresa Filósofa foi quebrada pela algazarra ao meu redor. Sentado em uma micro sala de espera, três senhoras, daquelas com jeitinho de antigamente, riam alto e falavam sobre os netos. Duas à minha esquerda, uma à direita. Demorei a entender o que estava acontecendo, e mergulhei novamente na impudica saga de Teresa.

Preciso encontrar o caminho dos prazeres espirituais antes que o Ratzinger me condene às chamas do inferno.

19 setembro 2006

Indagações Mario Quintanísticas

Por que a barra da calça dos velinhos acaba sempre três centímetros antes dos tornozelos?

15 setembro 2006

Um olhar, um segundo, o mundo

Vivi um daqueles momentos únicos esta semana. Caminhando na rua, meu olhar cruzou com boa parte da minha infância. Voltei a Porto Alegre dos anos 70, ao subúrbio arborizado em que minha única preocupação era inventar brincadeiras pra tornar o dia feliz. A rua era um espaço a ser explorado, apesar das incessantes advertências pra não ir longe. E mesmo escapando, o mundo também passava na porta de casa. O bairro era tão pacato, que a passagem de um carro em alta velocidade era comemorada – duplamente se fosse novo. Ingenuamente nunca entendi como o picoleiro nos achava todos os dias no mesmo horário nos verões escaldantes. E por que o vendedor de casquinha maltratava o reco-reco à distância, avisando que a lata que carregava nas costas estava cheia.

Naquele subúrbio, as modas chegavam atrasadas e a vida tinha o ritmo da não-mudança. As diferenças até deviam existir, mas trancadas a quatro chaves. E pra uma criança, tudo o que é proibido e escondido tem um sabor especial. Talvez por isso eu lembre da excitação que me agitava quando, na linha do horizonte, eu via dobrar a rua uma mulher diferente de todas as outras que eu conhecia. Usava longos vestidos que arrastavam pelo chão, batas indianas coloridas com brilhos que faiscavam ao sol e colares e pulseiras em profusão. Carregava uma atmosfera de mistério que me fascinava, reforçada pelos longos cabelos loiros desalinhados, os olhos tristes e vagos e um corpo esguio que imprimia ao andar uma força etérea. Caminhava como quem olha o infinito, e sabe que vai cair em um penhasco iminente. Para o exagerado clã libanês dos Aquere – três famílias morando em terrenos contíguos, com avós, tios, primos e muitos irmãos – era o que se chamava de charmuta – puta –, ainda mais que morava com um garoto muito mais novo. Era a diferença que a tradição não entendia.

Nunca descobri o nome dela ou em qual casa morava. Mas a imagem que deixou foi de uma força que ainda me comove: mesmo apontada na rua, continuava com a cabeça ereta e a dignidade confiante. Cruzar com essa mulher, hoje, passados mais de 30 anos, foi o mergulho em um tempo em que o tempo tinha outro sentido para mim. Ela está uma senhora inevitavelmente envelhecida, o corpo ganhou peso, os cabelos rarearam – apesar de ainda soltos e em desalinho. Só uma echarpe brilhante denuncia a hippie irreverente do passado.

Sorriso-Monalisa-esconde-dentes: tempo de novas descobertas
Mas os olhos continuam impressionantemente altivos e distantes como sempre. Estranho como milésimos de segundos de um olhar cruzado podem conter tanta memória. E detonar emoções tão fortes.

11 setembro 2006

Momento do ódio

Se há um conselho que esse velho senhor de barbas brancas pode dar, é: não adoeçam.
Não porque adoecer seja ruim e incômodo – óbvio, né? –, mas enfrentar a burocracia e a estupidez dos trâmites hospitalares, aliada ao descaso dos atendentes, é de fazer qualquer são adoecer na hora.
E não estou falando do SUS, em que as dificuldades são verdadeiras e legítimas. Eu falo de hospitais top, que trabalham com planos de saúde top.
Em suma: em Porto Alegre, fuja do Mãe de Deus como o diabo da cruz.
E reze pra Unimed acreditar que a massa encefálica que escorre discretamente da sua cabeça é grave, e não apenas um problema pro salão de beleza.

09 setembro 2006

Corrente-das-12-coisas-pra-fazer-no-supermercado [ou seja lá o que isso signifique]

Vou responder ao chamado da Mariana e escrever 12 coisas que eu faria num supermercado. Tô com medo do que ela pode fazer caso eu não responda. O terrorismo tá acirrado. Mas a culpa é minha, fui eu que comecei essa coisa de “correntes”. E já é sabido que a corrente, um dia, volta pra apertar o pescoço do culpado.

Não sei exatamente que tipo de coisas devo fazer no súper, a Mariana não explicou. Então, vou pelo caminho que ela adotou no Sítio da Maricota. Lá vai:

  1. colocar pimenta no tubo de pasta de dente;
  2. apertar todos os sacos de chips crocantes;
  3. passar azeite nas garrafas de vinho;
  4. botar os iogurtes no freezer;
  5. colocar uma cebola partida dentro de cada pote de sorvete;
  6. pegar três sacas de batata e pedir pra pesar uma por uma;
  7. esconder cobras de borracha nos pés de alface;
  8. ‘tropeçar’ pra derrubar a prateleira de ovos;
  9. jogar o carrinho contra a pirâmide de latas de leite moça feita no meio do corredor;
  10. chacoalhar latinhas de coca-cola e oferecer como brinde pra ser tomada no local;
  11. colocar os chocolates no estande aquecido de comidas e salgadinhos;
  12. encher camisinhas e dar como brinde pras crianças.

Devo confessar que um ou outro item já foi testado com grande satisfação. Não agora, óbvio, que sou uma pessoa madura. Mas há muito tempo, lá quando eu era inconseqüente e tinha menos de trinta e cinco.

06 setembro 2006

Risíveis horrores

Aceitar o universo de M. Night Shyamalan, em a Dama na Água (Lady in the water, 2006), requer um tremendo esforço de inocência, paciência e esperança. Não a esperança que o filme insiste em dizer que há para a humanidade – e aí a grandiloqüência pretensiosa desse falso pequeno filme já erra feio –, mas a esperança de que o espetáculo cinematográfico se instale e propicie a boa e velha magia cinematográfica.

A ação ocorre em um condomínio cheio de chicanos, asiáticos, freaks, caretas, jovens e velhos que vivem em desarmonia – metáfora do mundo ou dos Estados Unidos? Um único e solitário homem, casualmente o zelador, é quem une esses errantes, tentando manter a paz e a ordem no caos instaurado. Mas uma ninfa, surgida das águas azuis da piscina, vai mudar a vida de todos de forma mágica e harmoniosa. O mundo será salvo, a inocência preservada e o amor renovado. Em tese, porque só o que temos é o tédio e o repisar de lugares comuns.

Shyamalan é mais um dos cineastas pós-modernos que insistem e fazer colagens. A história é a mesma de O Milagre Veio do Espaço, produção de 1987 do Spillberg. A ninfa, sempre com cara de assustada feita pela Bryce Dallas Howard, é um clone da Júlia Roberts em O Segredo de Mary Railly (Frears, 1996), de sobrancelhas peladas e eterno ar de medo. O ataque do lobisomen-de-grama foi chupado de uma seqüência do Drácula, do Coppola (1992).


Que direção de arte tem coragem de copiar o pior visual da Julia Roberts?

Roberts, Malcovich e a franja que afundou o filme do sempre ótimo Stephen Frears

Mas se o roteiro é ruim, Paul Giamatti – o zelador – é péssimo, sempre com cara de cachorrinho sem dono, fazendo esgares sem fim. Encarna o gago mais risível do cinema, com uma voz chata e monótona, impossibilitando o registro de qualquer emoção.

Giamatti: cara de pidão, voz de ganso e talento pra ser péssimo

Shymalan fez um estrondoso sucesso com o Sexto Sentido (1999), filme já cultuado como um expoente no gênero suspense/sobrenatural. Depois da estréia com o pé direito, foi um tropeço atrás de outro. Esse a Dama das Águas é constrangedor. No filme, a existência de um universo paralelo é tão natural quanto o ar. A idéia da criança que deve ser mantida viva dentro de nós – lembrem que isso é inédito – rende uma das seqüencias mais bizarras e constrangedoras do cinema: a verdade está entre as caixas de cereais e vidros de mostarda, só não vê o trouxa que não quer. Até Andy Warhol deve estar ser retorcendo na tumba entre as latas de sopa Campbell. É uma visão da cultura pop-pós-moderna-descolada levada ao extremo vazio.

Cada vez mais eu tento entender que cinema é diversão antes de ser arte. E diversão não precisa de grandes arroubos intelectuais ou excessiva coerência da história. Mas um diretor/roteirista que cria o personagem de um crítico de cinema só pra se vingar das péssimas avaliações que vem recebendo, merece ser esquecido no próximo filme. Terapia se faz no consultório, não às minhas custas.

Quer saber mais? Passa no blog da Marcia Piu que tem outra abordagem lá.