30 abril 2006

Shit in the air

a noite é invadida por olores estranhos.
aspiro, cafungo e não gosto do que sinto.
mas não estou sozinho.
outras papilas olfativas sentem o mesmo.
- a dez quilômetros de distância -
a verdade está lá fora?

domingo sempre foi um dia estranho.

29 abril 2006

Clichês outonais

Tarde luminosa de sol e temperatura amena.
Porto Alegre é linda no outono.
Tem uma cor que é única, que cobre as árvores, as calçadas e dá uma atmosfera acolhedora a quem passa.
Quando as árvores vão ficando amarelas, vermelhas e douradas, é impossível não sentir que algo está mudando.

E é impossível não querer mudar também.
Em frente ao computador, trabalho que não acaba mais, vejo os passarinhos cruzarem alvissareiros a janela, jogando na minha cara que a vida é maior e melhor lá fora, no azul profundo do céu.
Pena que eu não tenho a minha funda aqui pra acabar com a farra deles.

Tá, não vou mentir: fiz a foto no verão. Mas foi às seis da manhã, será que não vale?

28 abril 2006

Admirável mundo novo

Proibiram a comercialização de patê de foie gras em Chicago. Os restaurantes que servirem um dos pilares da cultura gastronômica francesa pagarão multa de até U$ 500. A alegação: cruedalde com os gansinhos, que recebem comida até estufar.


Tudo bem que há práticas culturais que até podem ser repensadas, mas daqui a pouco vão me proibir de comer broto de alface alegando infanticídio. Será que alguém ficaria surpreso em descobrir que um mega conglomerado multinacional politicamente correto está testando um composto alimentar sintético pra nos alimentar no futuro?

Enquanto não viramos freak de vez, dêem uma olhada na verdadeira comida deformada, antes que passemos a comer papinha de polipropileno. Visitem o MOFA - Museum of Food Anomalies -, o paraíso das comidas esquisitas.

26 abril 2006

Instinto fálico

Se Instinto Selvagem 2 fosse mais ruim, até que seria bom.

Explico: Sharon Stone é uma estrela decadente. Michael Caton Jones é um diretor de segunda linha. Um tal de David Morrissey – quem? – é o galã. O filme tenta se levar a sério, mas só no final, quando cai no risível, entendemos que este é o ambiente em que deveria ter se desenrolado o tempo todo. Caton Jones perdeu a oportunidade de fazer um filme camp, daqueles cultuados em cinematecas por aficionados. Ficou apenas no ruim.

O roteiro é profundo como um pires: clichês se amontoam sobre o nada, sem coragem de ir fundo e atropelar o “bom gosto”. Sharon Stone é retratada como um falo ambulante: usa roupas clean e retas, está sempre de salto alto e carrega nas mãos isqueiros longilíneos. E, claro, fuma sem parar. Uma forçação de barra que deixaria Freud com os poucos cabelos em pé. Pra provar que as mulheres são histericamente insaciáveis, até a cool Charlote Rampling é obrigada a pendurar um cigarro na boca. E o famoso furador de gelo voltou a aparecer, mas pra reforçar a idéia de que o vazio e as figuras fálicas do filme são indissociáveis.

Obviamente que os homens não fumam. São reprimidos sexualmente e têm visíveis problemas com o sexo oposto: querem dominar, mas ser objetos. Querem ter a sensação de controlar e ser controlados. São duros na aparência, mas recheados de creme de baunilha.



Charlotte Rampling, um mulherão na casa dos 60

David Morrissey devia fazer comercias de fralda pra bebê. Tem a cara de um menininho chorão e o talento de um feto. O psiquiatra que interpreta é emocionalmente inseguro, sempre pedindo ajuda pra “mãe” – encarnada na figura da amiga Charlote Rampling – e treme as pernas quando se depara com a autoridade do poder paterno – representada pelo aloucado psiquiatra freudiano. Trabalha num prédio que tem a forma de um vibrador gigante e tenta reforçar a frágil masculinidade gritando e proibindo as mulheres de fumar – vejam só.

Mas tudo não passa de uma grande bobagem com direito a um final em aberto. Talvez ainda renda mais uma continuação caso a bilheteria pague os custos.

Apesar das plásticas no rosto - com olhos ao estilo Elza Soares -, e dos peitos siliconados, Sharon Stone continua batendo um bolão. É sexy, e tem um sorriso malicioso que incendeia a tela. Mas me recuso a fazer o aclamado adendo aos 48 anos: ela está bonita não pela idade, mas simplesmente porque é. Se fizesse ressalvas, seria para Charlotte Rampling, que há quatro décadas mantém o mesmo charme e beleza da juventude sem plásticas aparentes.

24 abril 2006

.....Pelados pensantes pedem passagem.....

Sex Week at Yale: 25 mil exemplares gratuitos para os alunos de Yale

Os gringos descolados estão tomando de assalto as vetustas e pudicas universidades norte-americanas. A invasão das revistas pornô-chiques, editadas e protagonizadas por estudantes de Boston, Harvard ou Yale, trazem pra dentro da academia uma tendência que já domina outros setores da sociedade.

Até agora, a pornografia vinha de fora da universidade e servia de objeto de estudo para pesquisas de comunicação, antropologia ou psicologia. Com esse movimento, inverte-se o jogo e a academia deixa de ser analista para ser produtora.

Boink, da Universidade de Boston: 20 mil exemplares a US7,95 cada

Algumas universidades fazem censura prévia nas publicações; outras, assistem apenas de longe, preocupadas em resguardar a carreira e a reputação dos alunos – o nu frontal até pode ser mostrado, mas nunca ereção ou penetração. A verdadeira discussão que se instaura é o pré-conceito de que o universo pornô está ligado às drogas, bandidagem e contravenção, uma imagem a que o meio acadêmico não quer se associar.

Os estudantes, obviamente, estão adorando. E não faltam modelos dispostos a participar, mesmo sem ganhar um tostão furado. Num país em que o desejo de fama é servido com cereais no café da manhã, qualquer oportunidade de ser popular é bem-vinda.

A HBomb, de Harvard, está na lanterna, com 2,5 mil revistas a U$5,00

Algo que os brazucas conhecem bem: parecer, mais do que ser, é uma prática que recheia nossas praias, shoppings e a mídia. E por isso não é de duvidar que a idéia seja copiada logo, logo. Depois dos bombeiros pelados e das velhinhas peladas, está na hora dos universitários pelados.

Claro que cada abertura de pernas, cada pose sensual, cada olhar libidinoso será embasado num estudo teórico multidisciplinar acompanhado pelos mais proeminentes doutores da área. Afinal, sexo na cabeça – vulgar – é diferente de sexo-cabeça – erudito. E deixem de ser maldosos por achar que gente pelada sempre acaba em sacanagem. Todo mundo sabe que a academia não é um lugar de ação, mas de reflexão.

22 abril 2006

Araponga orkuteira

O Orkut continua surpreendendo.
Com tanta melhoria pra ser feita – rapidez de comandos e precisão nos dados, por exemplo –, agora inventaram um serviço que possibilita ao usuário saber quantas vezes o perfil foi acessado e, grande polêmica, por quem. Na verdade é possível ver apenas os últimos cinco acessos do dia anterior, o que, convenhamos, é muito pouco.

Mas a neura já começou. “Andou me espionando, é?”, foi a frase que eu encontrei em duas mensagens de mail no primeiro dia do novo serviço. O interessante é que eu havia trocado scraps com essas duas pessoas, mas só no dia anterior. Se até os amigos que falam regularmente com você estão se sentido vigiados, é sinal de que o Big Brother dominou o pedaço.

Decidi conferir mais a fundo e entrei ao acaso em vários perfis. O assunto era um só: acabou o direito e a liberdade de transitar incógnito entre amigos, inimigos ou desconhecidos.

O que ninguém está levando em consideração é que se pode desabilitar esse serviço, impedindo que os outros saibam que você os visitou, ao mesmo tempo em que você não vai saber quem anda pelo seu perfil. Ou então - como eu li em vários lugares -, criar uma identidade falsa e navegar incógnito.

É aguardar pra ver a confusão que vai se instalar nos próximos dias - namorados enciumados, desafetos contrariados, estranhos questinados. E lembrar que esse é um espaço pra diversão, não pra neuras e policiamentos.

Só pra deixar claro: quem encontrar meu nome entre as cinco últimas visitas, não estranhe. Foi a mais pura pesquisa jornalística. :p

20 abril 2006

Queima ela, Jesus!

Uma sucessão de casualidades me faz publicar essa versão apócrifa do horóscopo maldito, publicado pela Folha essa semana – sei que já circula há tempos na internet, mas se quer lembrar das barbaridades que falam de você, espia o post abaixo -. Na semana passada, o Valor Econômico decidiu “provar” que astrologia não é ciência através do paradigma positivista que as ciências duras professam.

Que astrologia não é ciência tradicional me parece de entendimento comum, mas a importância cultural dessa “não-ciência” deve ser levada em conta: atravessa estudos de psicologia, antropologia, sociologia e diversas áreas sendo o foco central ou suporte. Transita no campo do imaginário, do mito e dos “saberes interiores”, como diz o antropólogo Joseph Campbell. Trabalha com arquétipos e imagens universais; dá subsídios pra formação do ego adulto, assim como as histórias da Carochinha fazem com as crianças.

Há quatro anos, eu concordaria com o Valor Econômico – não pelo lado jornalístico, que fique claro, onde é inadmissível ouvir apenas um lado da questão. Mas pelo meu forte ceticismo, pela minha inclinação à lógica, por achar tudo isso era uma baboseira. Precisei de um mestrado, em que o mito foi o centro da pesquisa, pra entender que a verdade, assim como a realidade, é muito subjetiva: aceita pontos de vista diferentes e abordagens não usais, desde que deixe claros os parâmetros.

Ontem, como sempre acontece, a astrologia brotou natural numa conversa e ouvi essa frase: “você deve agir sempre com muita ação, ainda mais quando tem Áries na casa da emoção (a lua)”. Se isso ajuda as pessoas a me compreenderem melhor, que ótimo. Entender o Outro e respeitar o espaço que ele ocupa virou mercadoria rara hoje em dia.

A ciência já provou que o sol não gira ao redor da terra. Mas muita gente ainda acha que o limite do mundo é o próprio umbigo.

Inimigo na trincheira

Áries (21 de março a 20 de abril)

Você é metido a honesto, sincero e se acha um líder natural. O problema é que você faz tudo ao contrário e não consegue influenciar ninguém. Você gosta de chegar a um determinado lugar e "botar pra quebrar". Isso faz de você um ignorante completo. Na verdade, você arruma confusão em todo lugar que passa, simplesmente porque você quer fazer as coisas do seu jeito, nem que seja na base da porrada. O que você quer mesmo é poder. Você quer chegar ao poder nem que tenha que f... todos em sua volta. A sorte dos outros signos do zodíaco é que você nunca consegue chegar ao poder. Falta inteligência.

Touro (21 de abril a 20 de maio)

Você é materialista e trabalha como um condenado. As pessoas pensam que você é um pão-duro, cabeça-dura, mão-de-vaca, estão certas. Além disso, você é um teimoso desgraçado que faz só burrada na vida e continua fazendo, fazendo, fazendo...Você deve estar se perguntando... Por que eu trabalho tanto e só me ferro? A resposta é simples: sua cabeça-dura não deixa você enxergar um palmo além do seu nariz. Por isso que você trabalha como um condenado e nunca consegue subir na vida. Só leva fumo! E graças a sua teimosia idiota, continua levando, levando, levando...

Gêmeos (21 de maio a 20 de junho)

Você é um falso, "duas caras", fofoqueiro, mentiroso e um grande cara-de-pau. Você não é confiável. É sinistro! No trabalho, faz amizade com todos como se fosse o melhor amigo e depois entrega todo mundo pro chefe. Você é tão safado que ninguém desconfia de você. Você adora ferrar os outros e depois ficar rindo da cara deles. É um galinha! Não tem nenhum conceito de moral e tem caráter duvidoso. Além disso, todos consideram você um canalha mal-resolvido. Geminianos costumam ter muito sucesso para chifrar, e também, no incesto, na prostituição e na cafetinagem.

Câncer (21 de junho a 21 de julho)

Você é um chorão desgraçado, e as pessoas que convivem com você são obrigadas a ficar agüentando você reclamar da sua vida. Você se acha solidário e compreensivo com os problemas dos outros, o que faz de você um baba-ovo e puxa-saco. O que você quer mesmo é ficar "bem na fita". Você só quer saber de se dar bem, custe o que custar, e acaba sempre ficando numa boa, apesar de não valer nada. É, na verdade, um canalha com cara de santo. Quando pressionado você faz chantagem emocional. Chora e faz da sua vida a pior de todas. Por isso, os outros signos do zodíaco nunca desconfiam de você. E o pior é que todos gostam de você.

Leão (22 de julho a 22 de agosto)

Você se acha o máximo, um líder natural. Isso é que você acha! Sabia que todos acham você um idiota? A sua prepotência é insuportável para os outros signos e até para você mesmo. Você não passa de um puxa-saco incompetente querendo se promover a todo custo. Quer ter "status", ser o "rei da cocada preta", mesmo sabendo que não tem condição alguma de ser. Você quer sempre a atenção de todos mas, como não tem inteligência, nem sempre consegue. Daí a sua agressividade. Gosta de botar todo mundo pra trabalhar pra você, enquanto você fica reclamando da vida sem fazer nada.

Virgem (23 de agosto a 22 de setembro)

Você é metido a perfeccionista, observador e detalhista. Gosta de analisar e gerenciar tudo. Essa sua maldita mania faz de você um burocrata insuportável. Você é um bitolado e não tem nenhuma imaginação ou criatividade. Gosta mesmo é de tomar conta da vida dos outros. Critica os outros, "mete o pau", mas não enxerga o próprio rabo. Quando as pessoas dos outros signos do zodíaco preenchem aquele maldito formulário de 15 vias carbonadas, de cinco cores diferentes, que devem ser batidos à máquina, elas não tem dúvida. Só pode ser um virginiano que fez.

Libra (23 de setembro a 22 de outubro)

Você se acha equilibrado, idealista e justo. Parece sentir a necessidade de proteger os outros e lutar contra as injustiças. Na verdade, você só pensa em si mesmo. Você é um engomadinho metido. Gosta de coisas sofisticadas e de alto nível, mas não passa de um ignorante desinformado. Nas conversas, quer falar sobre coisas intelectuais, como literatura e arte, e dificilmente entra em assuntos polêmicos. Quer ser politicamente correto. Na realidade você é um grande "fazedor de média". Isso esconde sua verdadeira cara. Dessa forma, os outros signos nunca saberão seu real interesse, que é f... os outros. Afinal, você é um teimoso, ignorante e ambicioso.

Escorpião (23 de outubro a 21 de novembro)

Você é o pior de todos. Você é desconfiado, vingativo, obsessivo, rancoroso, vagabundo, frio, cruel, antiético, sem caráter, traidor, orgulhoso, pessimista, racista, egoísta, materialista, falso, malicioso, mentiroso, invejoso, cínico, ignorante, fofoqueiro e traiçoeiro. Você é um canalha completo. Só ama sua mãe e a si mesmo. Aliás, alguns de vocês não amam nem a mãe. Você é imprestável e deveria ter vergonha de ter nascido. Escorpianos são tiranos por natureza. São ótimos nazistas ou fascistas. Adora pisar os outros e tem um orgasmo quando vê alguém no buraco. Pelo bem dos outros signos do zodíaco, os escorpianos deveriam ser todos exterminados.

Sagitário (22 de novembro a 21 de dezembro)

Você é um otimista e tem uma forte tendência em confiar na sorte. Isso é bom para você, já que é imprudente, irresponsável, limitado e não possui nenhum talento. Como não tem competência, sempre arruma uma forma de se desculpar de suas burradas na vida. E sempre põe a culpa nos outros. Mas na verdade você que é incompetente mesmo. Você é um teimoso, ambicioso e metidinho. Na verdade, você é um idiota fracassado. Além do mais, seu conceito de ética e moral é limitado. Você é um puxa-saco, galinha e gosta mesmo é de sacanagem. Quando consegue alguma coisa na vida é sempre de forma obscura.

Capricórnio (22 de dezembro e 20 de janeiro)

Você é metido a sério, conservador e politicamente correto. Na verdade você é um materialista, falso, ambicioso e safado. Você tem uma tendência de ser enrustido em tudo. Você é frio, não tem emoções e freqüentemente dorme enquanto está transando. Você gosta de manter as aparências e quando encontra um "amigo", abraça, deseja tudo de bom... Mas na primeira oportunidade puxa o tapete dele e depois vai dormir de consciência tranquila. Você nunca joga limpo e sua frieza faz de você um sanguinário completo. Mas que importa? Se a grana está entrando... ótimo!

Aquário (21 de janeiro a 19 de fevereiro)

Você provavelmente não é desse planeta. Tem uma mente inventiva e dirigida para o progresso. Você mente e comete os mesmos erros repetidamente porque é imbecil e teimoso. Você adora ser o "do contra". Pensa que tem opinião formada sobre tudo. Na verdade, você é egoísta e gosta mesmo é de aparecer. Mesmo que esteja entre um milhão de pessoas, você quer ser o diferente. Você nunca segue os padrões. Isso faz de você um metido nojento. Você se acha o moderninho. Acha que está à frente dos outros signos do zodíaco. Você não tem nenhuma moral. Se você for homem deve ser um galinha e, se for mulher, aposto que nem perguntou o nome do último cara com quem dormiu!

Peixes (20 de fevereiro a 20 de março)

Você pensa que todo mundo é cabeça de bagre e só você é o esperto. O que você não sabe é que, na verdade, você é o grande cabeça de bagre. Você se acha o sujeito mais inteligente do mundo e tem a maldita mania de achar que os outros precisam de sua ajuda. Você se acha superior e considera os outros idiotas. Adora reprimir tudo e todos. É impaciente, mal-educado e fica dando conselhos fúteis aos outros e sempre consegue afundar as pessoas que seguem seus conselhos idiotas. Você não passa de um desorganizado, não tem praticidade alguma e não sabe nem em que planeta vive. Quando alguém te questiona, você recorre ao misticismo, uma vez que sua inteligência é limitada.

19 abril 2006

Incongruências similares

No sexto ano do novo milênio, ainda me espanta ver como os velhos mecanismos do Brasil colonial e clientelista dominam as relações econômicas do país. Da cerveja comprada num bar, ao bilhete com lugar na janela de um avião, as mesmas práticas sanguessugas acabam com o consumidor.

Existe algo mais arcaico do que cobrar taxa de consumação nos bares? Os empresários de Porto Alegre não acham, e já iniciaram choradeira geral pra tentar evitar que, na próxima semana, a Assembléia vote um projeto de lei que os impeça de extorquir os clientes. O Código de Defesa do Consumidor é claro: é proibido condicionar o consumo a um valor pré-determinado.

“Como assim perder as benesses?”, está vociferando o sindicato da categoria, enquanto engendra o mesmo terrorismo de sempre: vamos demitir, vamos aumentar os preços, vamos fechar.

Dos barzinhos para os modernos aviões MD 11, a pressão que a corrupta Varig faz na sociedade é a mesma, mas com uma carga emocional mais forte: milhares de demitidos, a extinção da mais internacional marca brasileira, a perda de rotas únicas, o fim de um patrimônio cultural e blá blá blá.

Nos dois casos, há um só desfecho: quem arca com o financiamento da saúde, da educação, do carro importado do dono de bar famoso, do luxo na vida dos acionistas e diretores de uma grande empresa aérea, das estradas, dos fundos que salvam empresas corruptas somos nós.

Nós, sempre nós.

Também quero pedir falência e ver o governo largando dinheiro no meu bolso. Ou cobrar uma taxa por uso da minha imagem cada vez que eu entrar num barzinho. Se for pra explorar, quero a minha parte.
Quem me quiser, que pague.

17 abril 2006

Neurônios mortos não lêem Foucault

Já trabalhei de forma estressada. Fechar um telejornal diário, geralmente com mil problemas técnicos, com um tempo exíguo e milhões de disputas de poder dentro de uma redação, tornam até o mais plácido panqueca numa panela de pipoca. Hoje, mais velho e tranqüilo, estou feliz com a redução de 2,8% no meu nível de estresse.

Estava. Acabo de descobrir que minha população já meio avariada de células pensantes deve estar quase dizimada: pessoas estressadas simplesmente “torram” os neurônios com a alta carga de hormônios disparada pela adrenalina. Este é o resultado “meio” conclusivo a que chegou o professor de neurociências da Universidade Stanford (EUA), Robert M. Sapolsky, depois de pesquisar a vida dos babuínos, nossos irmãozinhos primatas. Isso aconteceria porque, diferentemente da maioria dos outros animais, o homem é inteligente, antecipa situações, vive a tensão dos problemas antes que eles aconteçam.

A alternativa? Pensar de forma mais superficial, viver de forma mais superficial, esperar os problemas caírem no colo pra agir. Agora, todo o preconceito com o modo de pensar de uma mente “loira” deve ser revisto e, acima de tudo, estimulado.

Decididamente, vou deixar de lado a pilha de autores e teorias que tenho de ler, entender e relacionar pra fechar minha tese. E se a banca me cobrar porque não usei tal livro, espero que eles lembrem que mais vale um doutor de neurônios íntegros e burros, do que inteligentes e mortos.

A outra opção seria descolorir o cabelo. Mas corro o risco da banca ser mais rigorosa ainda na argüição.

16 abril 2006

Fatwa neles 2, a revanche!

Como são as coisas.

Comentei no post abaixo que a Opus Dei publicou na Itália uma charge sobre o islamismo, retratando Maomé nos quintos dos infernos.

Agora, leio uma outra nota na Folha dizendo que o Arcebispado de Munique, na Alemanha, terra do santo padre supremo, vai entrar com medidas legais pra tentar impedir a MTV de transmitir um desenho animado sobre um papa louco e um cardeal corrupto. O nobre cardeal queixoso diz que “uma calúnia das crenças cristãs não é admissível".

Mas o melhor é a crise de consciência. Pra se dizer injustiçada e angariar simpatias e legitimidade, a revista cristã Vers 1 começou um ataque à MTV usando como fundamentação as charges sobre Maomé publicas por um jornal dinamarquês, em setembro do ano passado. "Após os incidentes relacionados às caricaturas de Maomé [...], parecia claro que os veículos de comunicação deveriam respeitar os sentimentos religiosos dos fiéis, sejam muçulmanos, judeus, budistas ou cristãos. Mas, pelo visto, estávamos enganados"

Hilário, é o mínimo que se pode dizer.

Fatwa neles!

Quando os muçulmanos fazem megaprotestos e emitem uma fatwa pra acabar com a raça de algum católico, judeu ou protestante, o mundo fica hipocritamente horrorizado. Mas zombar e achincalhar as premissas sagradas do islamismo parece ainda ser o dever de todo cidadão ocidental de bem.

Agora foi a própria igreja católica, através do seu braço mercenário de extrema direita, a Opus Dei, quem pisou na bola: publicaram na revista Studi Cattolici uma charge com Maomé no meio do inferno. Tá na Folha de hoje. A explicação do diretor da revista é meiga: "De vez em quando é bom que haja um cartoom satírico politicamente incorreto”.

Como alguém pode invadir o espaço dos outros, desrespeitar as práticas culturais, as regras socias, a visão de mundo e ainda achar que tem razão? É a arrogância e prepotência de sempre: a civilização culta – européia e norte-americana – botando os selvagens no lugar que lhes é devido. Pouco importa que o Oriente Médio seja o berço da civilização, que tenha uma cultura riquíssima e tenha estabelecido muita das bases pro mundo atual.

Os protestos da comunidade muçulmana vão começar – espero. Respeito é algo que também deve ser conquistado. Obviamente que serão chamados de selvagens e bárbaros, mas é bom que haja, de vez em quando, protestos politicamente incorretos.
Só pra equilibrar um pouquinho esse jogo desigual.

15 abril 2006

Dark aleluia!

Em algum lugar da minha alma tem um gene que carrega um quê de soturno. Não posso negar que gosto da noite, de literatura gótica, de dias de chuva – com muito raio e trovão –, de coisas sombrias.

Buenas, posto isso, nesse belo sábado de aleluia cinza e meio chuvoso que faz em Porto Alegre, achei esse link ao estilo Tim Burton, com muito humor negro, cinismo, e uma estética moderninha. Destaque pra Lenora – livremente inspirada em Edgar Allan Poe –, uma garota perversa e inocentemente inconseqüente, que tortura e mata bichinhos. E o melhor: ela mesmo está morta.

Pra completar, a voz que narra as histórias imita Vincent Price, o rei das fitas de terror da Hammer, famoso estúdio das décadas de 50 a 70 que imprimiu o tom dos filmes B de terror.

Quem sabe do que estou falando, vai gostar.

Uma dica: no menu da barra superior, há várias opções pra se explorar: clips, músicas, fotos etc.

14 abril 2006

O dia em que (não) matei Jesus

“Cada vez que você usa uma faca ou tesoura, está cortando o corpo de Cristo”. Ouvi isso de uma tia papa-hóstia quando tinha uns três, quatro anos de idade. As sextas-feiras eram um tédio: não podíamos correr, falar alto, brincar, rir. Por quê? Porque machuca Jesus. E ponto. Éramos uma família grande, montes de tios e primos, e ficar mumificado não era fácil.

Uma vez fui pego engolindo um pedaço de chocolate roubado do “esconderijo” do coelho, em pleno dia santo. Escândalo: primeiro por eu ter descoberto o tal esconderijo; segundo, por ter pegado presentes que só deveriam vir à tona na páscoa; e terceiro, porque era pecado(!) comer chocolate naquele dia. E lá vou eu ouvir sermão da irmã de maria, escrava de jesus, cunhada de josé, participante de um sem número de seitas religiosas, mas incapaz de explicar o significado de “pentecostes” ou “paixão”. Foi dela a frase fatídica: “Cada vez que você engole um pedaço de chocolate, mata Jesus mais um pouquinho”.

Com a boca abarrotada, a culpa encravada e a perspectiva inevitável de me tornar um assassino de fraldas, tentei calcular quantos pedaços eu conseguiria engolir antes de matar o líder das carolas. Mas o crime parecia inevitável. Sorvi tudo o mais depressa que pude, e fiquei aguardando o estrondo ensurdecedor que viria quando o corpo de Cristo caísse do céu, as línguas de fogo que me consumiriam, os tremores de terra. Dois segundos depois, como se nada tivesse acontecido, a família estava no mesmo rebuliço e agitação de sempre. E nem lembrava mais de mim. Olhando no fundo dos meus olhos, a papa-hóstia viu nascer ali, horrorizada, um novo ateu dos infernos.

A burrice havia soterrado a fé.

12 abril 2006

Dois mil cento e cinqüenta e dois

“Pois se há (por acaso) setenta e seis tempos diferentes, todos pulsando simultaneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá - valha-nos o céu -, todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinqüenta e duas. De modo que é a coisa mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, “Orlando” (se esse é o seu nome), querendo com isso dizer “Vem, vem! Estou mortalmente cansada deste eu. Preciso de outro”. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não e muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo, e necessitando talvez de outro eu), “Orlando?”, o Orlando de que ela necessita pode não vir; esses eus de que somos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não têm nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra. Jones não estiver lá, outro, se lhe pudermos prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada pessoa pode multiplicar com a sua própria experiência as diferentes condições que impõem os seus diferentes eus - e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de forma.”
Extraído de Orlando, de Virginia Woolf

Ser hã?

Sean é um nome de origem irlandesa.
Em casa a pronúncia sempre foi uma só, a direta e brasileira Sean. Mas claro que, porto-alegrensemente, o e deu lugar ao i e o n morreu na nasalização do a: virei Siã para os mais apressados.

Nos anos 70, os descolados acreditavam que a pronúncia correta era – grande ironia para um tipo contestador – Sin.
Sim, é isso que você leu: Sin.

Só descobri a pronúncia certa com uma professora de inglês que morou na Irlanda: “Sabia que seu nome se pronuncia Xôn?” – nasalando bem a letra o.“Putz, o quê, ô nariz entupido?”. Foi uma amiga chamada Audrey – que se descobriu Ódrei – quem me disse que não se incomodava com a pronúncia original dos nossos nomes. Comprei a idéia, macaco que sou.

Nos anos 90, com maior acesso ao inglês, meu nome deixou de ser morfemas exóticos e caiu na boca do povo. Com um equívoco cultural cometido por muitos: da pronúncia que soa quase como um latido em irlandês, passou a ser cuspido com a velocidade do chinês! Depois do Sean fiel à língua portuguesa, do Siã agaúchado e do Xôn original, os pseudo letrados intelectualóides resolveram me chamar de Xan! Meus olhos meio mongóis não dão direito a ninguém de deturpar meu nome, não. Até porque acolho a pronúncia portuguesa e a irlandesa com a mesma intensidade, e suporto – vá lá – a abrasileirada, mas Xan é dose pra mamute.

Entre tantas possibilildades diferentes de seans, é assim que me construo. Quem se dispõe a conhecer essa edificação sabe que meus muitos nomes me fazem uno, assim como um edifício é feito da sobreposição de andares. Eu não posso assegurar que todos os pisos sejam iguais, mas garanto que aqui não há nenhuma loja de 1,99 com bugigangas made in China. Pelo menos por enquanto.