12 abril 2006

Dois mil cento e cinqüenta e dois

“Pois se há (por acaso) setenta e seis tempos diferentes, todos pulsando simultaneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá - valha-nos o céu -, todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinqüenta e duas. De modo que é a coisa mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, “Orlando” (se esse é o seu nome), querendo com isso dizer “Vem, vem! Estou mortalmente cansada deste eu. Preciso de outro”. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não e muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo, e necessitando talvez de outro eu), “Orlando?”, o Orlando de que ela necessita pode não vir; esses eus de que somos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não têm nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra. Jones não estiver lá, outro, se lhe pudermos prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada pessoa pode multiplicar com a sua própria experiência as diferentes condições que impõem os seus diferentes eus - e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de forma.”
Extraído de Orlando, de Virginia Woolf

6 comentários:

marcia disse...

e então chove, e o eu adequado seria aquele silencioso, que suspira e desenha o nome proibido na janela embaçada. doce ilusão. para meu horror, o eu que surge é o dançarino em um pé só, que gosta do arrepio da água gelada e guarda os nomes proibidos para os dias de sol.

os meus eus são sempre incrivelmente inconvenientes.

Sean Hagen disse...

*



Sibyl!
- risos -
seja bem-vinda.
o espaço é mais do que seu.
seja lá com qual personalidade você traga pra conversar com um dos meus eus.



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marcia disse...

pra vc, eu trago todos os meus eus. mas acho que isso vc já tinha notado. :P

Ana disse...

Atrapalho?
Ok... Saio silenciosamente...
Enquanto "todos vocês" conversam!

;)

Beijos, Sean!
Vou gostar de conhecer alguns dos teus andares! Pelos menos os abertos aos comuns mortais!

Sean Hagen disse...

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de forma alguma, Ana, pelo contrário.
entre, explore, participe e me ajude a povoar melhor essa edificação.




*

Thelma disse...

Bunitinhuuuuuuuuuu!!!!! Eu quero conversar com todos os teus eus disponíveis, viu?!? Que bom que tu criaste o teu espaço! Vou te ler/ver sempre.
Mesmo que tu rezes aos deuses da chuva, acho que nao vais conseguir atrapalhar a minha caminhada pelo monte, amanha. Linda a paisagem, né? É uma parte de uma reserva, chamada Reserva de Urdaibai. É liiiiiindo!