14 abril 2006

O dia em que (não) matei Jesus

“Cada vez que você usa uma faca ou tesoura, está cortando o corpo de Cristo”. Ouvi isso de uma tia papa-hóstia quando tinha uns três, quatro anos de idade. As sextas-feiras eram um tédio: não podíamos correr, falar alto, brincar, rir. Por quê? Porque machuca Jesus. E ponto. Éramos uma família grande, montes de tios e primos, e ficar mumificado não era fácil.

Uma vez fui pego engolindo um pedaço de chocolate roubado do “esconderijo” do coelho, em pleno dia santo. Escândalo: primeiro por eu ter descoberto o tal esconderijo; segundo, por ter pegado presentes que só deveriam vir à tona na páscoa; e terceiro, porque era pecado(!) comer chocolate naquele dia. E lá vou eu ouvir sermão da irmã de maria, escrava de jesus, cunhada de josé, participante de um sem número de seitas religiosas, mas incapaz de explicar o significado de “pentecostes” ou “paixão”. Foi dela a frase fatídica: “Cada vez que você engole um pedaço de chocolate, mata Jesus mais um pouquinho”.

Com a boca abarrotada, a culpa encravada e a perspectiva inevitável de me tornar um assassino de fraldas, tentei calcular quantos pedaços eu conseguiria engolir antes de matar o líder das carolas. Mas o crime parecia inevitável. Sorvi tudo o mais depressa que pude, e fiquei aguardando o estrondo ensurdecedor que viria quando o corpo de Cristo caísse do céu, as línguas de fogo que me consumiriam, os tremores de terra. Dois segundos depois, como se nada tivesse acontecido, a família estava no mesmo rebuliço e agitação de sempre. E nem lembrava mais de mim. Olhando no fundo dos meus olhos, a papa-hóstia viu nascer ali, horrorizada, um novo ateu dos infernos.

A burrice havia soterrado a fé.

6 comentários:

Ana disse...

As frases que ouvimos na infância são mesmo definitivas!

Se eu pudesse dizer alguma coisa agora seria: esquece da tia papa-hóstia! Lembra apenas do gosto bom do chocolate...

marcia disse...

trombadinha desde pequeno.

Sean Hagen disse...

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Ana,
chocolate está entre as paixões da minha vida. religião nem entra nas listas de "menos".


Marcia,
pois é...veja só o que os traumas fazem com alminhas fracas.




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vania disse...

sei bem disso, já passei por várias "culpas" desse tipo.
Mas não me tornei sem religião, apenas mudei.

Thelma disse...

hahahahaha...tu és ótimo! Deu para imaginar a tua boca abarrotada de chocolate e a culpa tatudada na tua alma de menino. Mas a culpa nao te impediu de comer tudo, rapidamente, antes que caísse a criatura do céu. Foi a tua sorte! Se, neste momento, tivesses cuspido o chocolate, a papa-hóstias ou a burrice teria ganhado a batalha. Viva a gula!

Sean Hagen disse...

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Vania
isso foi só desculpa pra algo que talvez já não estivesse em mim.

Thelma
fico pensando que guria infernal vc também deve ter sido.
ainda vou querer ouvir essas histórias.



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