07 maio 2006

Hierofania selênica

Nunca aprendi a diferenciar a lua minguante da crescente. A única que eu conheço é a cheia. Ela costuma invadir arrogantemente meu quarto, grande como um olho gordo, xeretando cada cantinho desarrumado. Nossa relação é antiga, sou um licantropo que uiva em silêncio.

A lua mais linda que vi na vida foi em um aniversário, numa noite muito fria de junho. Lembro que fui ao Theatro São Pedro, mas não lembro mais o que vi. Nem em que restaurante comemorei, nem que idade fiz. Mas lembro dela, enorme, gigantesca, alaranjada e perfeita, esperando no fim da minha rua enquanto eu caminhava de volta pra casa, alta madrugada. Difícil descrever o que senti naquele momento.

Talvez um sentimento tão forte assim eu só tenha vivido na ausência. No meio do lago Titicaca, numa minúscula ilha congelada em algum século passado, sob o céu mais estupidamente estrelado que já vi. Ela não estava lá. E a escuridão era tão plena, e a sensação de desamparo tão grande, que descobri ser capaz de sentir coisas que pensava não fazerem parte de mim.

Escrevo isso porque acabo de ler que palingenesia, hierofania, cratofania e teofania são apenas alguns dos sentidos sonoramente elegantes que a definem.

Olho pela janela aberta um céu quase negro. Não há lua, não há luar. O quatro está escuro. Nem a luz prateada do computador consegue reproduzir o que as palavras não sabem explicar

13 comentários:

marcia disse...

epifania.

Thelma disse...

Creuzodete

Graziana disse...

que texto maravilhoso!
Não sei o que dizer.
Me deixou sem palavras.
Mas preciso registrar:
que lindo o que disse
e a mameira que você escreveu.
Viva a lua que te deu tamanha inspiração!

Ana disse...

Sabe?
Ultimamente tenho prestado muita atenção na Lua.
Descobri que as mulheres tem marés.
Ficamos enluaradas, às vezes.
E "aluadas", também...

maristela bairros disse...

tem aquel música linda do caetano, quase uma liturgia, te alembra? pois eu me considero lunar, de tanto que gosto de ficar noite adentro acordada. no outro dia, bah. azar.
bjs
maris

ferdibrand disse...

É uma pena que fique cada vez mais difícil admirarmos céus estupidamente estrelados e até mesmo pôr para fora o lado licantropo (eu o tenho de família, é bem sabido).

Em tempo: eu sempre distingui assim a crescente da minguante: quando a Lua parecer um "C", é Crescente. Senão, é minguante. No hemisfério Norte é o contrário.

marcia disse...

quando ela fizer "c", é crescente.
e, por analogia, porque eu sou inteligen-ti:
quando ela fizer "m", é minguante.
quando fizer "nem tô", é cheia.
quando fizer "kct", é nova.

intendeu?
posso desenhar.

marcia disse...

e vou deixar mais um comentário aqui, só pra inflacionar os comments.

lalalalalalala.

Ana disse...

Ando mesmo contaminada pela lua!
Transcrevi um pedacinho do teu texto aqui:
http://roccana2.blogspot.com/2006/05/mulher-lua.html#links
Achei tão lindo!
:)

Rosa disse...

Sean


Vi lá no blog da Ana o pedacinho e quis ver o resto, metida como sou. Fiquei emocionada, o pedacinho mais importante ela não colocou:
"Mas lembro dela, enorme, gigantesca, alaranjada e perfeita, esperando no fim da minha rua enquanto eu caminhava de volta pra casa, alta madrugada. Difícil descrever o que senti naquele momento."
Foi exatamente como aconteceu na noite em que fiz 16 anos, só que não foi de madrugada...uma aparição divina...

Rosa disse...

Bah! Ela tinha colocado o pedacinho mais importante...acho que fiquei pensando naquela noite...me distraí. Teria sido uma palingenesia? (eterno retorno àquele fato)...hehehe

Mariana disse...

Aê Sean! Obrigada pela simpatia... Agora eu venho mesmo, lascou-se! Hehehe...
Vc faz doutorado em que? Tou fazendo o meu em comunicação... Conclui os creditos em janeiro e encho linguica no blog, em vez de produzir...
;.(
BEijão!

Sean Hagen disse...

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MARCIA
acho que nasci epifânico pras coisas mundanas. pras patifarias, principalemnte.

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THELMA
não quero papo contigo. agora que é madrilleña, só vem zoar com a minha cara.
[volta logo!]

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GRAZI
vc gostou do meu texto, e eu do seu comentário!
:)

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ANA

que honra virar citação!
gostei.

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MARISTELA

ficar acordado é o preço que se paga pra viver à noite.
e viva as olheiras!

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FERDIBRAND [RENATO]
gostei da dica.
agora não posso mais alegar que não reconheço as fases da lua.

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ROSA
eu entendi o que vc quis dizer, não tenha dúvida.
e vc tem uma vantagem nessa história: lembra exatamente quantos anos tava fazendo.
eu não tenho a mínima idéia, mas era em torno dos 20.

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MARIANA
o blog é pra isso: conhecer pessoas legais e trocar idéias.
venha sempre, a toda hora.

eu tô fazendo em comunicão e informação, trabalhando com jornalismo, especificamente.


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