14 maio 2006

Muralhas e dinamite

A emoção é uma fera pronta para dilacerar a presa com garras e dentes afiados. De tocaia, nos abate na presença de um gesto, de uma palavra, de um filme. Acabo de ver Mar Adentro, de Alejandro Amenábar, uma belíssima ode ao direito de sentir. Não vi quando passou nos cinemas e só agora, numa noite pachorrenta, depois de um dia de muito trabalho, tive a sorte de assistir. A contida carga emocional do filme me acertou com um golpe certeiro.

Javier Bardem interpreta um tetraplégico que luta pelo direito de morrer: há 28 anos não move um único músculo do corpo, enquanto a mente é capaz de sobrevoar campos e navegar no mar. A paralisia que sente não está na falta, mas na saturação: no excesso de sentimento e de possibilidades que nunca serão vividos. Andar, escrever, levar o garfo à boca, tirar o cabelo do rosto, gestos tão corriqueiros e automatizados, são os mesmos que proporcionam o apaziguamento da hipersensibilidade e deixam a vida suportável. Para sentir a vida também é preciso “esquecê-la”.

Apesar da poesia dedicar uma sobrevalorização ao verbo viver, há uma diferença significativa entre viver e sentir. Um está ligado ao ato físico e às sensações decorrentes dessa capacidade. O outro, à emoção e – e por mais paradoxal que seja – à razão que advém desse sentimento. O excesso de sensibilidade leva ao racionalismo, não à paixão.

O racional e o emocional sempre travaram uma luta aberta na minha vida, e o fio da navalha em que se movem deixa marcas tão profundas quanto o ataque de uma fera. A emoção que me inflama frente as coisas mais banais é a mesma que se apaga quando a razão oferece uma forma lógica de sentir. E quando a lógica ergue muralhas, lá vem a emoção com uma carga de dinamite. Dosar essas duas forças é sempre uma busca por transcendência.

Mar Adentro reafirma que viver é a única forma de acalmar o desejo brutal de sentir vida. Longe das grandes paixões, são os pequenos gestos que fazem a razão transbordar de sentimentos. E onde diariamente a vida reafirma seu sentido.

14 comentários:

marcia disse...

não existe forma lógica de sentir. a gente tenta. tenta mais um pouco. insiste, que é pra poder sobreviver. tenta mais. e finge que consegue.

Graziana disse...

nunca encontrei forma lógica de sentir.
talvez porque quando sinto, perco totalmente a razão, vivo emoção.

Ana disse...

Que bom que é assim!
Ou seríamos demasiadamente lógicos, previsíveis, lineares, óbvios... Deus me livre!
Gosto mesmo é de estar no fio da navalha! Gosto até de sentir o que odeio admitir que sinto!
Tão bem descrita esta luta interna que quando acabei de ler respirei profundamente... Bom estar viva e poder retirar o cabelo do rosto...

cida disse...

Esse filme mexeu demais comigo e o sentimento de inquietação volta quando leio algo a respeito, como agora nesse teu post ou quando vejo algum cartaz. Saí do cinema pensando porque não se pode decidir o que é melhor pra si?Por que algumas pessoas querem decidir isso por nós?Seria tão simples se tívessemos o direito à eutanásia.
Senti o impacto que ele te causou e achei legais as reflexões que fizeste a cerca da tua vida. Talvez o pragmatismo inerente aos "carneiros" não esteja tão forte na tua vida como disseste.Penso que os muros erguidos não estão tão firmes, e isso é bom!Eu sou uma adepta da corrente que escuta o coração.

> [ eRRuD!tO ] ... disse...

Mar adentro, mar adentro.
Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
"más adentro", "más adentro"
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.

É, o cara é o cara! Belo post!

> [ eRRuD!tO ] ... disse...

Ah... esqueci de dizer que a investida dele contra a Igreja é sensacional, não achaste. Quando ele debate com o padre, pela escada.

marcia disse...

que pode ser aquilo,
lonjura, no azul, tranqüila?

se nuvem, por que perdura?
montanha,
como vacila?

[paulo leminski]

Sean Hagen disse...

*

MARCIA e GRAZI
será?
será que a gente também não gosta de dar primazia pra emoção em alguns momentos?
será que razão e emoção podem ser tão bem demarcadas?

*

ANA
eu fico com o fio da navalha também.
acho que a gente caminha em terreno movediço e nunca sabe bem os limites de um e de outro.
- acho o prazer de tirar o cabelo do rosto em um dia de vento é um dos mais incríveis -

*

CIDA
na vida, parece que tudo se resume me liberdade no final,né?
liberdade de pensar, amar, desejar, querer, falar, morrer.
quando algo se interpõe a esse direito, a vida assume outra conotação.
e meus muros não são de engenheiros, são de amadores.
mas alguns têm base bem sólida.

*

REGES
de quem é esses versos?
é a música do filme?


*

MARCIA

posso sentir como o lemisnki, mas nunca escrever como ele.


*

Graziana disse...

Sean,
Na realidade não podemos separar emoção e razão, porque elas andam juntas...
Raciocinamos baseados numa certa emoção que nos faz agir assim ou assado...
Nós somos um entrelaçamento do emocional com o racional.
Não há uma forma lógica de sentir, nos baseamos na emoção para agir, mesmo não tendo consciência disso.

marcia disse...

a nuvem perdura, a montanha vacila.
nada é o que parece ser.

vc não escreve como Leminski, mas escreve com talento, consistência e beleza. a sua beleza, não a dele.

Rosa disse...

Sean


Olha eu aqui outra vez.
Acabei de ver o filme e a poesia postada pelo erudito, é de autoria do próprio Ramón Sampedro e lida no fim. Não sei se entendi, mas acho que ele deixou pra Júlia, a advogada.
Além do debete dele com o padre, adorei quando a cunhada disse que o padre tinha a boca grande...hihihi
"Viver é um direito, não uma obrigação".

Sean Hagen disse...

*

ROSA
é verdade, não tinha lembrado.

*

MARCIA
;)


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Sean Hagen disse...

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GRAZI
no final, falamos a mesma coisa :)


*

Thelma disse...

A história de Ramón Sampedro provocou uma divisao na sociedade espanhola. Quando ele apareceu nos meios de comunicaçao, alegando seu direito de viver ou de morrer, surgiram discussoes impressionantes no cotidiano espanhol. Com o tempo, este tema caiu no "olvido". Mas o filme trouxe toda a discussao novamente. Inclusive a justiça voltou a interrogar os que sobreviveram àquele momento.
Eu, particularmente, me senti muito tocada por este filme e por esta história. Javier Bardem e Amenabar conseguiram mexer com as vísceras e com a consciência de milhares de pessoas. Excelente!