30 junho 2006

Derrota em branco e preto

Grande ironia o mesmo Ayala que fez o gol argentino acabar, nos pênaltis, botando a bola nas mãos de Lehmann, o goleiro alemão.
A Argentina quebrou o salto e volta pra casa com a mesma arrogância de sempre: entra Copa e sai Copa cantando de galo.
Mas só se fodem.
Desta vez, em branco e preto.

29 junho 2006

Xôn do milhão

Um milhão e 710 mil páginas no Google com a palavra Xon.
Obviamente que nenhuma traz meu nome. A onomatopéia que inventei pra deter o irritante Xãn não está na lista de prioridades do Google. Mas nunca imaginei que essas três letrinhas pudessem gerar tanta informação.

A maioria esmagadora das páginas se refere ao protocolo Xon, que é um tipo de liberador do fluxo de informações para softwares. Pra eles não entrarem em colapso, eu fico dizendo quantos dados podem passar e quantos têm que voltar. Em suma, um regulador.

Saindo da área da informática, e caindo na das cabeças pensantes, Aristóteles diz que eu sou o plausível - éndo-xon - presente nas discussões da dialética e da retórica. Se é que entendi o que estava escrito, que fique claro. E sim, eu sei que de plausível eu tenho pouco, mas cada um com seus problemas.

A astronomia foi quem guardou meu mais charmoso definidor: sou o planeta mais velho já observado, com 13 milhões de anos, o triplo da idade da Terra.

Que isso seja o prenúncio de uma vida longa – é o que garantiu uma cigana falcatrua que leu minha mão – e de muitos projetos a serem realizados.

A notoriedade nas páginas do Google eu deixo pra outra vida.

25 junho 2006

Nos trinques

Computador novo e funcionando.
Tô faceiro como guri de quichute em tarde de pelada.

Inferno astral e duendes

Acredito em astrologia tanto quanto acredito que a Xuxa vê duendes. Não que eu ache que astrologia seja besteira, pelo contrário, essa maneira de explicar o mundo, mesmo que sem nenhuma base científica tradicional, ordena os comportamentos dentro do caos que é viver.

É função dos arquétipos – base da astrologia – criar padrões e modelos que possam ser facilmente identificados e copiados. Atravessam o imaginário desde que o mundo é mundo e são similares em qualquer raça, cultura ou tempo. É um conhecimento subjetivo que torna o homem mais “humano” e apto a viver em sociedade. Há milênios as culturas orientais já descobriram esse força socializante.

Posto isso, me enfureço quando todos os bons astrólogos dizem que esse papo de inferno astral é besteira. Ora, se eu verifico empiricamente um comportamento que se repete constantemente, eu tenho um padrão que se estabelece. E o maldito inferno astral não me abandona nunca. Há anos que noto tsunames, terremotos, furacões e secas nos dias que antecedem meu aniversário. É batata: entra junho, e um monte de coisas acontecem, como se além de ficar mais encarquilhado, ainda tivesse que pagar pedágio pra isso.

Esse ano, peguei uma inacreditável gripe – pra eu aprender a nunca mais me gabar que nunca pego gripe -, meu computador quebrou, um mês de brigas na loja pra entrega do novo, o orçamento estourou, crises nas relações, doenças em família e o tempo, maldito tempo, insiste em fazer 30° quando deveria estar 9°.

A 96 horas e 365 dias de fechar uma quadratura de décadas, a coisa começa a se dissipar. Talvez haja luz no final do túnel. Ano que vem eu volto pra dizer se esse maldito padrão se repetiu ou não.

Mas antes, quero registrar indignado que dois duendes acabam de discutir com a Xuxa e foram despedidos. Talvez realmente não exista inferno astral, mas que a rainha dos baixinhos não presta, isso todo mundo já sabe.

21 junho 2006

Tempus hibernus

A última folha do plátano quedou amarela na entrada da nova estação


O inverno começou oficialmente hoje no hemisfério sul.
Chovia tanto em Porto Alegre às 9h26, momento em que a nova estação deu as caras, que o frio só apareceu quanto parou de cair água.
Rapidamente a temperatura despencou de 22° pra 12°.
Não, isso não é frio pra mim, mas é melhor do que o tempo quente que estava antes.
Quem sabe o milagre da neve ainda não se concretiza?

17 junho 2006

Ele não está mais entre nós

O comediante Bussunda morreu na Alemanha, aos 43 anos. Ataque cardíaco fulminante devido a uma crise de asma. É sempre trágico um desaparecimento. Trágico pra família, pros amigos, pra Rede Globo – obviamente – pros fãs que gostavam dele.

Agora, o que vai começar a pipocar pela internet, revistas e jornais são as matérias e notas falando da grandeza de Bussunda, da excelência inimaginável do trabalho dele, do humorista único e incomparável, de como o Brasil será diferente sem ele.

Nunca consegui esboçar nem um leve sorriso amarelo pras piadas do Casseta & Planeta. Entre o intelectualóide e o infame, eles não conseguem ser uma coisa nem outra. Até simpatizava com o trabalho do grupo quando eles editavam os jornaizinhos lá no início dos anos 80. Mas talvez eu é que fosse um piá mais ingênuo.

O próprio Bussunda admitia não ter talento pra nada, nem pra humorista. Entrou nessa por brincadeira e simplesmente ficou. Gerava “humor” pelo grotesco de uma avantajada compleição física – explorada na paródia das boazudas da Globo –, e um rosto duro ao mesmo tempo que sem expressão.

A partir de agora, Bussunda é perfeito e inigualável: além do talento, será o melhor amigo, o melhor pai, melhor marido, melhor filho. E isso é o cômico da história: o poder de beatificação que as pessoas imputam à morte – e que os meios de comunicação, como mediadores do senso comum, reproduzem e amplificam. Esperem pra ver o especial que o Faustão vai apresentar, lacrimoso e edificante, os erros de gravação de Bussunda comentados no Fantástico com a Gloria Maria fazendo beicinho, a capa da Caras e da Época.

Me solidarizo com a tragédia de um homem que morre prematuramente aos 43 anos. Mas ter que aturar os epitáfios sobre o "gênio" vai ser dureza.

13 junho 2006

Êxtase gustatório


Pitaya: forma de flor, cor exagerada e preço estratosférico
( fotos Sean Hagen 2006)


O ato de comer vai me fazer pagar grandes somas na hora do juízo final. Quando as pupilas se dilatam para ver as cores e formas, os terminais nervosos ficam sensíveis para sentir as texturas e os volumes, as narinas sorvem todos os cheiros e as papilas gustativas explodem num prazer incomparável de gostos, como não sentir sensações, lembranças e desejos?

Minha relação com a comida é primária e irracional. Cresci numa família libanesa em que o afeto também era medido pela comida que reunia as pessoas em volta da mesa. Comer bem, comer feliz, comer pra congregar sempre fizeram parte da minha vida.

Tudo isso é pra dizer que na última semana, de passagem por São Paulo, cometi o pecado da gula – menos do que cosegui – e algumas sensações se destacaram.

Um restaurante chamado Agadir, de comida marroquina, serve uma deliciosa massa folhada recheada com galinha e coberta com açúcar de confeiteiro e canela. Sublime, se não estivesse gelada no meio. O cuzcuz com carneiro estava perfeito. O ambiente é muito legal e o proprietário é um marroquino simpático, sem um dente incisivo, chamado Abdelghafou Dounasr.

Também desfiz alguns preconceitos sobre comida japonesa. Esqueci o nome do restaurante da Liberdade, mas comi aqueles pastéis de massa de arroz recheados de porco, acompanhados de arroz puxado no ovo e ervas. Muito bom. Preciso descobrir mais sobre essa culinária – e aprender a usar os hashis. Outra coisa legal foi um bolachão de frutas de um mercadinho japonês. Delicado e marcante.

Mais do que uma bela arquitetura,
o Mercado Municipal é uma tentação aos sentidos


Pra não fugir da raia, uma cantina do Bexiga. Bom ambiente, bom preço, massa ruim. Lástima. Não quis ficar na fila das casas tradicionais e me dei mal.

Mas a melhor experiência ainda é o Mercado Municipal, meca de iguarias. É tanta maravilha, tanta cor, tanto gosto possível que entro em surto só de lembrar. Troféu melhor sabor da viagem: o sanduíche de carne de sol e tomate seco do Rocca. É simplesmente sublime pela simplicidade e pelo sabor. É a melhor cozinha brasileira possível. O gigantesco pastel de bacalhau também é delicioso, apesar de um pouco seco. Pra arrematar, os doces árabes da banca do Tio Ali. A massa folhada é finíssima e crocante, e eles são encharcados de calda na medida certa. É de cair dentro do balcão e não sair mais.


Doces que refrescam a boca - Tio Ali - e o melhor sanduíche de todos: carne de sol com tomates secos - Rocca

Na área do exótico, descobri a pitaya, uma fruta asiática. A cor e a forma são lindas, apesar do sabor ser menor do que o visual. Mas vale a investida – R$ 30 o quilo. Lembrei muito da tuna boliviana, que tem a mesma cor, a mesma consistência, mas é infinitamente mais saborosa.

Espero que São Paulo tenha uma filial no inferno. Ou pelo menos o Mercado Municipal.

11 junho 2006

Dez coisas que definem São Paulo

Coisas que eu não gosto de encontrar em São Paulo
  • Mendigos na rua, muitos. Famílias inteiras, crianças, velhos.
  • Sujeira, muita sujeira.Cheiro de xixi.
  • Excesso de barulho. Dos carros, das pessoas que gritam, dos camelôs que vendem CD pirata na calçada, da música cafona que toca em todo lugar fechado.
  • A pichação de prédios, monumentos, placas.
  • O excesso de possibilidades, o mundo concentrado em um espaço.
Coisas que fazem São Paulo única
  • A amabilidade do povo, a gentileza, a vontade de ajudar.
  • A tolerância – mesmo que limitada – com a diversidade. As duplas só de meninas ou só de meninos de mãos dadas pela rua.
  • A oferta cultural, grande e de qualidade.
  • A oferta gastronômica: incomparável e irresistível.
  • O excesso de possibilidades, o mundo concentrado em um espaço.

    fotos sean hagen 2006

02 junho 2006

São Paulo, cidade maravilhosa

Uma amiga sempre diz que só quem gosta de São Paulo é jornalista. Talvez.

Não posso negar um certo fascínio por essa cidade gigante, pela diversidade de vidas, de olhares, de opções, de prazeres.

A última vez que explorei Sampa foi em 1998. É muito tempo pra ficar afastado. Nos últimos anos só vi a cidade de cima, ou pior, fazendo “baldeação” num dos dois aeroportos.

Na verdade, estou indo para Bauru – que só conheço pelas peças do Mauro Rasi -, mas seria impossível não aproveitar um ou dois dias entre os restaurantes, galerias, museus e teatros da verdadeira capital brasileira.Vou sem roteiro, cheio de vontade e louco pra me divertir depois de um par de anos estafante.

Se eu não aparecer mais por aqui, já sabem: me perdi em algum canto da Ipiranga com a São João. Ou acabei nas mãos de Marcola & seus presidiários.

ExXxplosion Men

Dos filmes de Simbad com incríveis efeitos a base de “massinha” movimentada quadro a quadro da década de 50 – que eu via na sessão da tarde nos anos 70 –, rapidamente mudei meus parâmetros para a revolução que George Lucas inaugurou em Guerra nas Estrelas. Nos anos 80, os efeitos passaram a ser um dos personagens principais dos filmes.

Hoje, quando a banalização dos efeitos digitais – e a tentativa frustrada de tentar ser mais real do que o real -, aborrece mais do que entretém, descubro em X-Men III efeitos maravilhosos, apesar da pataquada cafona que sempre acompanha esse gênero.

Não vou entrar na questão do filme ser fiel ou não aos quadrinhos. Não sou nerd e confesso que tenho um certo tédio com essa forma de expressão. Mas a transposição para o cinema é pueril na tentativa de ser plural e abrangente. Os X-Men podem representar, dependendo do ângulo que se veja, todas as “minorias” reprimidas: de mulheres a gays, de negros a albinos, de trogloditas a nerds. Nesse supermercado de ofertas, só não encontra identificação quem estiver de mau humor.

Também há muita forçação de barra no roteiro, como a história do ícaro que só aparece pra dar fecho a essa baboseira mela-cueca – e é protagonista da seqüência mais brega de toda a série, com sua “fuga para a liberdade”.

Mas os efeitos...áh os efeitos. Fazia tempo que eu não via tantas cenas de ação interessantes. Tudo explode, tudo salta, tudo urra, tudo brilha. Mas não cansa. E o melhor é que em nenhum momento eu fiquei pensando “isso é digital, isso não tá bem texturizado, essa luz não é igual a da cena real”.

Se você agüenta sem muito trauma uma historinha xaropenta pra poder curtir bons efeitos, veja. Agora, preste atenção na primeira seqüência, que começa no passado. Por mais que se gaste com poderosos programas de computador, rejuvenescer uma pessoa ainda é uma tarefa a ser desenvolvia.

Uma dica: fique até o último crédito. A “surpresa” final nos diz onde começará a próxima seqüência.

E uma curiosidade: quem lembra da grande Sissy Spaceck de braços duros colados ao corpo, olhos esbugalhados, toda lambuzada de sangue em Carrie, a estranha? O tal Brett Ratner, diretor, não teve a mínima vergonha de piratear essa imagem e transformá-la no centro desse X-Men.

Em suma, sobram efeitos e falta história. Mas pra que roteiro, se por duas horas é possível ter sete anos novamente?

01 junho 2006

Vida mediada

Não sei dizer em que momento o computador assumiu o controle das tarefas cotidianas.
Mas ao eleger a palavra como expressão de trabalho, esse foi um processo natural.
Como jornalista ou pesquisador, é nesse universo que estão as possibilidades de expressão.
Escrevo nele, guardo documentos nele, encontro o que procuro através dele.

Algumas relações também são mediadas via computador.
O e-mail substituiu o telefone há muito pra mim.
O orkut, além de me divertir, proporciona que eu reveja velhos amigos e faça novas amizades. Encontrar pessoas tão diferentes que eu nunca teria a chance de conhecer pelos métodos “tradicionais” é muito legal.
O blog é um canal aberto às discussões, um espaço pra falar e ouvir.
Sem contar que bato-papo com gente de São Paulo, Paraná, Pernambuco, Belo Horizonte, Espanha ou Inglaterra com a mesma facilidade.

Tudo parece muito bonito enquanto o computador não começa a falhar: travar, perder documentos, ficar lerdo, dar erro.
Até que morre de vez.
Pânico é pouco pra descrever a sensação de perder todo o trabalho contido nele.
Sem falar da possibilidade de não encontrar os amigos.
Talvez eu esteja viciado.
Talvez.

Mas prefiro acreditar que é uma mediação necessária, que torna a vida mais fácil e garante mais interesse ao meu dia-a-dia.
Algo da qual não quero abrir mão.
E que - espero - a nova máquina ajude a aprimorar.

Notem minha cara de emburrado com o computador.
Como vocês podem ver, meu descontentamento é antigo.