09 agosto 2006

Adeus, inocência

A cópia: Brandon Routh

A perda da inocência já gerou no cinema clássicos irretocáveis como Os Incompreendidos, de Truffaut – com sua desconcertante imagem final – e obras pop de culto como Conta Comigo, embalada pela força da música Stand by me.

Só agora vi Superman, o Retorno, que chegou já há algum tempo aos cinemas. Brian Singer, um competente diretor de comédias ácidas regadas a muita ação e efeitos especiais, usa a figura do ser sobre-humano pra falar justamente disso: inocência. Trata o herói como uma figura anacrônica – com a ridícula malha azul, a sunga e a capa vermelhas – em meio ao mundo da alta tecnologia de hoje. Superman volta à Terra depois de viajar por seis anos em busca de suas raízes e do que restou de Kripton. Desconectado da mulher que ama – Lois Lane –, da mãe, do trabalho como jornalista, só aos poucos junta as peças que compuseram sua ausência. E o que vemos na tela não é um tratado sobre a inocência, mas sobre o constrangimento.

Brandon Routh tem o talento interpretativo do Reinaldo Gianechinni. O problema de usar modelos em filmes é que eles têm que falar. E se mexer. E o pobre garoto, que aparece sempre com o rosto coberto por uma pesada maquiagem – acne? – não consegue nem fazer isso.

O original: Cristopher Reeves

Singer constrói o filme em cima de detalhes, de cacoetes. Mas como diz o velho ditado, é nos detalhes que mora o diabo. Então, vamos dar passagem ao cramulhão.

• A maturidade de Superman acontece de fora pra dentro e nada indica que ele cresceu como pessoa. Isso só acontece na capa, em que o vermelho vivo ganha gradativamente um tom amarronzado durante o filme. Como uma maçã que apodrece lentamente.

• A super mecha de cabelo que o diferencia de Clark Kent é um personagem à parte. Haja o que houver ela não se desfaz, mesmo embaixo d’água. Mas ganha versão desgranhada, versão rabinho-de-porco e versão cool. Minha velha mãe diria que é um belo pega-rapaz.

• O garboso herói é bombado, usa maquiagem, arruma o cabelo impecavelmente e é sensível feito o Bambi. E desfila com umas plataformas de fazer inveja a qualquer drag queen.

• Superman morre e renasce a cada seqüência. Singer simplesmente destruiu Joseph Campbell e a idéia do herói como o mito do eterno retorno. Com a apoteose guardada para o final, o Bombado de Colant assume a postura de um Jesus Cristo superstar. Vixe! Mas até a homenagem que Singer tenta fazer à pintura de Salvador Dalí é troncha.

Maldito Google que não retornou uma imagem dele crucificado; mas essa já dá uma idéia


Cristo de San Juan de la Cruz, 1951 - Salvador Dalí

• E já que estamos no campo dos mitos, vamos pras fábulas. Muita atenção, por favor, ao momento Branca de Neve: a vida está contida em um beijo. Dois na verdade. Como a inocência é linda, minha gente!

• Lois Lane é jornalista, logo, cínica e desconfiada. Mas no primeiro encontro com o bombado herói, ela solta a melhor pérola do filme. Abraçadinha a ele, ascendendo aos céus, dispara, de forma compenetrada: “Tinha esquecido o quanto você era quentinho”. Huáhuáhuáhuáhuáhuáhuá, quem pode deixar de rir histericamente ao ouvir isso? Imagina se fosse um filme pornô. Só faltou ela revirar os olhinhos.

• É dela a segunda melhor frase, dita com o filho no colo, para Lex Luthor: “Deixe o menino em um lugar seguro e faça o que quiser comigo”. Além de cínica, ninfomaníaca. Pena que ninguém avisou a atriz Kate Bosworth pra não tentar ser dramática.

• Se Superman responde pela alcunha de “homem de aço”, o que se pode dizer de Lois Lane? Ela cai, apanha, despenca, rola e beija paredes sem nem despentear o cabelo. A Gessy Lever perdeu a chance de fazer um puta mershandising.

• O Lex Luthor do maneirista Kevin Space é pífio. A única preocupação que tem é mudar de peruca e ouvir óperas – as que retratam fortes mulheres, como Lakmé e Carmen. Freud explica?

• Pobre Marlon Brando. Recauchutaram algumas imagens dele do ainda competente e agradável Superman interpretado por Cristopher Reeves - de quem Brandon Routh é um clone juvenil -, dirigido pelo Richard Donner em 1978. Justamente na parte em que ele diz “o filho se torna o pai e o pai se torna o filho”. Putz, usaram o defunto pra dar credibilidade a um filme incredível. O coitado deve estar se retorcendo no túmulo. Ainda mais que era um tremendo mão de vaca e não ganhou um tostão pra aparecer na tela.

• E tem o filho de Lois, um pequeno e frágil Bambi perdido na floresta, que precisa desesperadamente descobrir o próprio caminho e a força interior. Mas isso fica para a continuação. Afinal, o horror sempre vem aos pares. E usa malha justinha.

6 comentários:

Que chita bacana! disse...

Amo 'Les Quartre Cent Coup' e nao sabia que a traducao em portugues era 'Os incompreendidos'.
Seu Xon e' muita cultura!

Graziana disse...

uau!
quando crescer quero escrever assim sobre cinema ;)

marcia disse...

Brandon Routh é um boneco inflável. não há dúvida sobre isso.

Cássia disse...

Por isso temo que não tenho futuro na vida acadêmica. Eu vi um filme divertido, com uma bela música e atores bonitos.

Deus, pra quê tudo isso? ;-)

Ana disse...

Meus filhos assistiram o filme e voltaram pra casa absolutamente infelizes!
Sentiram exatamente desta forma!

Mariana disse...

Vixe! Assim, não vou nem ver.