29 setembro 2006

O Rei, o Chuchu, o Múmia, a Enguia e o Covarde

Tédio é a palavra pra definir o debate que encerrou a campanha presidencial. Wiliam Bonner comportou-se como rei absoluto do espaço. Agiu como se a Globo não estivesse ali, e todas as decisões fossem apenas dele. Minto, deixou claro que tinha assessores ao repetir várias vezes “eu, com minha equipe, decidirei...”. Demarcou espaço ao interromper o debate para pedir silêncio à platéia, dizendo que o barulho o atrapalhava. Atitude arrogante, visivelmente nervosa, já que nem os sensíveis microfones deixaram os telespectadores perceber que havia algazarra. Seria mais educado que a produção chegasse silenciosamente aos matracas e fizesse esse papel. Mas dessa forma, não teríamos percebido que cabe à Bonner instaurar a ordem nacional.

Alckmin confirmou que não tem gosto, cheiro, cor. Age como um chuchu e se expressa como um chuchu. Não conseguiu nem atacar a ausência de Lula de forma contundente. É pífio, despreparado e sem visão política. A única coisa que o move é uma sede por poder incomensurável. Poder que ele é estúpido o suficiente pra não saber usar. Mas cunhou uma grande frase, pelo ato falho: "imposto é esgoto" – juro que ouvi “Rigotto”, o candidato do PMDB à reeleição no RS.

Cristovam Buarque fala como uma múmia, pensa como uma múmia e se parece com uma múmia. É um disco arranhado, sempre tocando a mesma música - "a doce revolução". Tem a emoção de uma lesma esmagada e a convicção de quem sabe que não ganha nem rifa de igreja. Mas conseguiu fazer uma crítica ácida à ausência infame de Lula.

Heloísa Helena seria uma grande candidata se tivesse o suporte de um grande partido, maior poder de articulação e fosse um pouco menos maniqueísta com a idéia de esquerda e direita. Assumiu o papel que se espera de um candidato: debateu, cobrou, afirmou e deu choques feito uma enguia. Não perdeu uma única oportunidade de surrar quem a expulsou do PT, justamente pela questão da moralidade. Esperta, personalizou tudo na figura do homem Lula, já que o carisma é que o deixou livre de se macular com tantos escândalos.

E Lula? Lula é um covarde que acaba de trair o último reduto de moralidade que tinha. Entregou a alma aos marqueteiros e fugiu do debate. Não acreditou nem na própria credibilidade pra reverter o rio de lama da sua administração. Tornou-se a sombra da vergonha que tantas vezes cobrou de outros candidatos.

Lamento profundamente o momento político que vivemos. Mas mesmo chocado e consciente dos erros, ainda opto por votar no PT. Não tenho escolha frente ao quadro que se apresenta. Crises de moralidade são um bom momento pra que novos paradigmas surjam. E novos líderes também.

27 setembro 2006

Meaw!

E agora a ciência descobriu que quanto maior e mais vistosa a juba, mais velho e improdutivo é o leão.
Meus amigos leoninos vão ter que rever paradigmas.

24 setembro 2006

Olhos pidões


Eles são irresistíveis, divertidos e amorosos.
E precisam de um lar urgentemente.
A mãe, grávida, foi retirada da rua pela Maristela.
E ganhou o nome de Docinho.

Os três filhotes tão fechando o terceiro mês já desverminados e cumprindo o calendário de vacinas, que termina em novembro.
São da mais pura raça Veéle - vira-lata -, com mãe fox terrier pelo duro e pai desconhecido.

Quem quiser adotar uma dessas belezinhas, ou souber de alguém que queira, entra em contato comigo ou manda um mail pra Maristela: mbairros@terra.com.br
Só mais uma coisa: como todo bom VL, eles são extremamente inteligentes e super bem-humorados.
Vai resistir a esse olhar?

22 setembro 2006

Shaná Tová

Gosto de gentes, não de religiões.
Gosto de pessoas, não de política.
Gosto de sorrisos, e pouca importa a cor da pele.
Gosto de amigos, e tanto faz com quem vão pra cama.
Gosto de pensar que um dia o respeito vai imperar e cada um será como quiser, sem ferir o limite dos outros.

A todos os que se reúnem pra começar o ano 5.767 que começa, Shaná Tová U-metuká.
E um beijo especial pra Debora Elman, alguém que eu gosto e respeito, independente de nossas diferenças.

21 setembro 2006

Teresa e o inferno

Ah, caro amante! Não resisto mais! Aparece, Conde, não temo absolutamente o teu dardo, podes perfurar a tua amante, podes mesmo escolher onde quererás meter, tanto faz, suportarei as tuas metidas com confiança, sem murmurar. E para assegurar o teu triunfo, olha! Aqui está meu dedo colocado!

A leitura excitante de Teresa Filósofa foi quebrada pela algazarra ao meu redor. Sentado em uma micro sala de espera, três senhoras, daquelas com jeitinho de antigamente, riam alto e falavam sobre os netos. Duas à minha esquerda, uma à direita. Demorei a entender o que estava acontecendo, e mergulhei novamente na impudica saga de Teresa.

Preciso encontrar o caminho dos prazeres espirituais antes que o Ratzinger me condene às chamas do inferno.

19 setembro 2006

Indagações Mario Quintanísticas

Por que a barra da calça dos velinhos acaba sempre três centímetros antes dos tornozelos?

15 setembro 2006

Um olhar, um segundo, o mundo

Vivi um daqueles momentos únicos esta semana. Caminhando na rua, meu olhar cruzou com boa parte da minha infância. Voltei a Porto Alegre dos anos 70, ao subúrbio arborizado em que minha única preocupação era inventar brincadeiras pra tornar o dia feliz. A rua era um espaço a ser explorado, apesar das incessantes advertências pra não ir longe. E mesmo escapando, o mundo também passava na porta de casa. O bairro era tão pacato, que a passagem de um carro em alta velocidade era comemorada – duplamente se fosse novo. Ingenuamente nunca entendi como o picoleiro nos achava todos os dias no mesmo horário nos verões escaldantes. E por que o vendedor de casquinha maltratava o reco-reco à distância, avisando que a lata que carregava nas costas estava cheia.

Naquele subúrbio, as modas chegavam atrasadas e a vida tinha o ritmo da não-mudança. As diferenças até deviam existir, mas trancadas a quatro chaves. E pra uma criança, tudo o que é proibido e escondido tem um sabor especial. Talvez por isso eu lembre da excitação que me agitava quando, na linha do horizonte, eu via dobrar a rua uma mulher diferente de todas as outras que eu conhecia. Usava longos vestidos que arrastavam pelo chão, batas indianas coloridas com brilhos que faiscavam ao sol e colares e pulseiras em profusão. Carregava uma atmosfera de mistério que me fascinava, reforçada pelos longos cabelos loiros desalinhados, os olhos tristes e vagos e um corpo esguio que imprimia ao andar uma força etérea. Caminhava como quem olha o infinito, e sabe que vai cair em um penhasco iminente. Para o exagerado clã libanês dos Aquere – três famílias morando em terrenos contíguos, com avós, tios, primos e muitos irmãos – era o que se chamava de charmuta – puta –, ainda mais que morava com um garoto muito mais novo. Era a diferença que a tradição não entendia.

Nunca descobri o nome dela ou em qual casa morava. Mas a imagem que deixou foi de uma força que ainda me comove: mesmo apontada na rua, continuava com a cabeça ereta e a dignidade confiante. Cruzar com essa mulher, hoje, passados mais de 30 anos, foi o mergulho em um tempo em que o tempo tinha outro sentido para mim. Ela está uma senhora inevitavelmente envelhecida, o corpo ganhou peso, os cabelos rarearam – apesar de ainda soltos e em desalinho. Só uma echarpe brilhante denuncia a hippie irreverente do passado.

Sorriso-Monalisa-esconde-dentes: tempo de novas descobertas
Mas os olhos continuam impressionantemente altivos e distantes como sempre. Estranho como milésimos de segundos de um olhar cruzado podem conter tanta memória. E detonar emoções tão fortes.

11 setembro 2006

Momento do ódio

Se há um conselho que esse velho senhor de barbas brancas pode dar, é: não adoeçam.
Não porque adoecer seja ruim e incômodo – óbvio, né? –, mas enfrentar a burocracia e a estupidez dos trâmites hospitalares, aliada ao descaso dos atendentes, é de fazer qualquer são adoecer na hora.
E não estou falando do SUS, em que as dificuldades são verdadeiras e legítimas. Eu falo de hospitais top, que trabalham com planos de saúde top.
Em suma: em Porto Alegre, fuja do Mãe de Deus como o diabo da cruz.
E reze pra Unimed acreditar que a massa encefálica que escorre discretamente da sua cabeça é grave, e não apenas um problema pro salão de beleza.

09 setembro 2006

Corrente-das-12-coisas-pra-fazer-no-supermercado [ou seja lá o que isso signifique]

Vou responder ao chamado da Mariana e escrever 12 coisas que eu faria num supermercado. Tô com medo do que ela pode fazer caso eu não responda. O terrorismo tá acirrado. Mas a culpa é minha, fui eu que comecei essa coisa de “correntes”. E já é sabido que a corrente, um dia, volta pra apertar o pescoço do culpado.

Não sei exatamente que tipo de coisas devo fazer no súper, a Mariana não explicou. Então, vou pelo caminho que ela adotou no Sítio da Maricota. Lá vai:

  1. colocar pimenta no tubo de pasta de dente;
  2. apertar todos os sacos de chips crocantes;
  3. passar azeite nas garrafas de vinho;
  4. botar os iogurtes no freezer;
  5. colocar uma cebola partida dentro de cada pote de sorvete;
  6. pegar três sacas de batata e pedir pra pesar uma por uma;
  7. esconder cobras de borracha nos pés de alface;
  8. ‘tropeçar’ pra derrubar a prateleira de ovos;
  9. jogar o carrinho contra a pirâmide de latas de leite moça feita no meio do corredor;
  10. chacoalhar latinhas de coca-cola e oferecer como brinde pra ser tomada no local;
  11. colocar os chocolates no estande aquecido de comidas e salgadinhos;
  12. encher camisinhas e dar como brinde pras crianças.

Devo confessar que um ou outro item já foi testado com grande satisfação. Não agora, óbvio, que sou uma pessoa madura. Mas há muito tempo, lá quando eu era inconseqüente e tinha menos de trinta e cinco.

06 setembro 2006

Risíveis horrores

Aceitar o universo de M. Night Shyamalan, em a Dama na Água (Lady in the water, 2006), requer um tremendo esforço de inocência, paciência e esperança. Não a esperança que o filme insiste em dizer que há para a humanidade – e aí a grandiloqüência pretensiosa desse falso pequeno filme já erra feio –, mas a esperança de que o espetáculo cinematográfico se instale e propicie a boa e velha magia cinematográfica.

A ação ocorre em um condomínio cheio de chicanos, asiáticos, freaks, caretas, jovens e velhos que vivem em desarmonia – metáfora do mundo ou dos Estados Unidos? Um único e solitário homem, casualmente o zelador, é quem une esses errantes, tentando manter a paz e a ordem no caos instaurado. Mas uma ninfa, surgida das águas azuis da piscina, vai mudar a vida de todos de forma mágica e harmoniosa. O mundo será salvo, a inocência preservada e o amor renovado. Em tese, porque só o que temos é o tédio e o repisar de lugares comuns.

Shyamalan é mais um dos cineastas pós-modernos que insistem e fazer colagens. A história é a mesma de O Milagre Veio do Espaço, produção de 1987 do Spillberg. A ninfa, sempre com cara de assustada feita pela Bryce Dallas Howard, é um clone da Júlia Roberts em O Segredo de Mary Railly (Frears, 1996), de sobrancelhas peladas e eterno ar de medo. O ataque do lobisomen-de-grama foi chupado de uma seqüência do Drácula, do Coppola (1992).


Que direção de arte tem coragem de copiar o pior visual da Julia Roberts?

Roberts, Malcovich e a franja que afundou o filme do sempre ótimo Stephen Frears

Mas se o roteiro é ruim, Paul Giamatti – o zelador – é péssimo, sempre com cara de cachorrinho sem dono, fazendo esgares sem fim. Encarna o gago mais risível do cinema, com uma voz chata e monótona, impossibilitando o registro de qualquer emoção.

Giamatti: cara de pidão, voz de ganso e talento pra ser péssimo

Shymalan fez um estrondoso sucesso com o Sexto Sentido (1999), filme já cultuado como um expoente no gênero suspense/sobrenatural. Depois da estréia com o pé direito, foi um tropeço atrás de outro. Esse a Dama das Águas é constrangedor. No filme, a existência de um universo paralelo é tão natural quanto o ar. A idéia da criança que deve ser mantida viva dentro de nós – lembrem que isso é inédito – rende uma das seqüencias mais bizarras e constrangedoras do cinema: a verdade está entre as caixas de cereais e vidros de mostarda, só não vê o trouxa que não quer. Até Andy Warhol deve estar ser retorcendo na tumba entre as latas de sopa Campbell. É uma visão da cultura pop-pós-moderna-descolada levada ao extremo vazio.

Cada vez mais eu tento entender que cinema é diversão antes de ser arte. E diversão não precisa de grandes arroubos intelectuais ou excessiva coerência da história. Mas um diretor/roteirista que cria o personagem de um crítico de cinema só pra se vingar das péssimas avaliações que vem recebendo, merece ser esquecido no próximo filme. Terapia se faz no consultório, não às minhas custas.

Quer saber mais? Passa no blog da Marcia Piu que tem outra abordagem lá.

04 setembro 2006

101 quilômetros por hora

Nunca ouvi uma matilha de lobos, mas a sensação era de ter uma na minha janela. O vento uivou, assoprou, sibilou e levou minha internet embora. A Vírtua alegou queda de árvores e fios pra justificar a interrupção do serviço.

A culpa foi de um ciclone extratropical que chegou ao Rio Grande do Sul no sábado. Domingo já fez um dia de sol – com muitas nuvens – e frio acentuado. Na serra gaúcha estava 9°, em Gramado, às três da tarde, mas era só o sol se esconder que o frio vinha com tudo. Quando a noite chegou, caiu pra 3°. Imagino que a madrugada deve ter zerado os termômetros.

A previsão é de frio ainda mais intenso na terça e quarta, com possibilidade de neve, inclusive na capital. Desde a década de 60 não faz tanto frio em setembro – e como esse que vos escreve estava recém chegando ao mundo, não registrou o fato. Mas ainda lembro da neve que caiu sobre Porto Alegre em 1994, deixando uma camada branca sobre as ruas e telhados.
Seria legal repetir a dose.