15 setembro 2006

Um olhar, um segundo, o mundo

Vivi um daqueles momentos únicos esta semana. Caminhando na rua, meu olhar cruzou com boa parte da minha infância. Voltei a Porto Alegre dos anos 70, ao subúrbio arborizado em que minha única preocupação era inventar brincadeiras pra tornar o dia feliz. A rua era um espaço a ser explorado, apesar das incessantes advertências pra não ir longe. E mesmo escapando, o mundo também passava na porta de casa. O bairro era tão pacato, que a passagem de um carro em alta velocidade era comemorada – duplamente se fosse novo. Ingenuamente nunca entendi como o picoleiro nos achava todos os dias no mesmo horário nos verões escaldantes. E por que o vendedor de casquinha maltratava o reco-reco à distância, avisando que a lata que carregava nas costas estava cheia.

Naquele subúrbio, as modas chegavam atrasadas e a vida tinha o ritmo da não-mudança. As diferenças até deviam existir, mas trancadas a quatro chaves. E pra uma criança, tudo o que é proibido e escondido tem um sabor especial. Talvez por isso eu lembre da excitação que me agitava quando, na linha do horizonte, eu via dobrar a rua uma mulher diferente de todas as outras que eu conhecia. Usava longos vestidos que arrastavam pelo chão, batas indianas coloridas com brilhos que faiscavam ao sol e colares e pulseiras em profusão. Carregava uma atmosfera de mistério que me fascinava, reforçada pelos longos cabelos loiros desalinhados, os olhos tristes e vagos e um corpo esguio que imprimia ao andar uma força etérea. Caminhava como quem olha o infinito, e sabe que vai cair em um penhasco iminente. Para o exagerado clã libanês dos Aquere – três famílias morando em terrenos contíguos, com avós, tios, primos e muitos irmãos – era o que se chamava de charmuta – puta –, ainda mais que morava com um garoto muito mais novo. Era a diferença que a tradição não entendia.

Nunca descobri o nome dela ou em qual casa morava. Mas a imagem que deixou foi de uma força que ainda me comove: mesmo apontada na rua, continuava com a cabeça ereta e a dignidade confiante. Cruzar com essa mulher, hoje, passados mais de 30 anos, foi o mergulho em um tempo em que o tempo tinha outro sentido para mim. Ela está uma senhora inevitavelmente envelhecida, o corpo ganhou peso, os cabelos rarearam – apesar de ainda soltos e em desalinho. Só uma echarpe brilhante denuncia a hippie irreverente do passado.

Sorriso-Monalisa-esconde-dentes: tempo de novas descobertas
Mas os olhos continuam impressionantemente altivos e distantes como sempre. Estranho como milésimos de segundos de um olhar cruzado podem conter tanta memória. E detonar emoções tão fortes.

17 comentários:

Cida disse...

Quando descreveste a mulher aparecendo na esquina tive a impressão de ver a transexual do transamérica.
Ainda hoje o "diferente" choca, mas não com tanta intensidade, em alguns lugares.
Fico imaginando como uma sensação, uma lembrança têm o poder de nos transportar.

Leandertal disse...

Amigo.
Este sorriso-Monalisa da foto antiga tem um poder muito mais forte do que a imagem atual, com aquele olhar para baixo, num ambiente escuro, do teu perfil.
Não sei, na comparação, te vejo mais na foto antiga.

Ana disse...

Que bom que o "diferente" te atraía, te encantava... É assim que se abre os olhos e o coração para o mundo.

E tu já eras muito bunitinhu!

Rosamaria disse...

Sentimentos...

(a diferença dos do post anterior).

Assim como um olhar, uma música, um perfume, uma flor...
E como é bom voltar à infância! A Ana e o Zeca têm me proporcionado isso.

Que olhar tu já tinhas! Fui ampliar a tua foto e ainda tens as covinhas.Já eras bunitinhu, filho.

Mariana disse...

Que bom que as crianças têm essa capacidade... Eu também sentia a atração do diferente, do proibido, do bonito.

Fiquei curiosa de saber mais da vida dela, entre os anos que separam as duas miradas!

Também tou virando 'charmuta', tudo que é namorado que arrumo é mais novo que meus 33 anos.

Gostei do termo. Sonoro. Mais um pra lista. Tenho um amigo gaúcho que vai gostar de me ver empregando... Até hoje só sabia chinoca, piá e 'renguear o cusco'!

Hehehehe.

Beijão!

Mariana disse...

Ah, e concordo: muito bonitinho!

;.)

marcia disse...

tudo isso
que te compõe,
expresso nos olhos
impressionantes
que se mantêm
intensamente
impressionados
pelo mundo

Denise Arcoverde disse...

Linda foto! que menino de olhos bonitos :-) sabe que nunca voltei a um lugar que tivesse deixado há muito tempo, deve ser uma experiência fascinante.

Lhe segui lá da Ana (Roccana), pra dizer que concordo com tudo que você disse sobre o Lula e, pra espanto de todos, continuo votando nele.

Abraços e parabéns pelo blog, muito bom!

Giovanna Cantarelli disse...

pensa numa banda brasileira de róque que era muito muito boa (pelo menos até "o blesq blom"). pensou? com vontade? então agora vê a foto de novo.

Que chita bacana! disse...

lindo texto
lindo menino
e ja ia dizer lindo homen, mas nao digo que nao sou doida...

Graziana disse...

As lembranças são ótimas, que bom voltar a um lugar que traz boas lembranças.

Eu A D O R E I o sorriso Monalisa-esconde-dentes!!!!

Que menininho bonitinho!
O mesmo olhar de hoje :)

Sean Hagen disse...

*

CIDA
não vi Transamérica.
mas a hippie da minha lembrança não tinha nada de traveco, pelo contrário, se destacava por não ser uma matrona dona de casa do subúrbio cheia de filhos.

LEANDRO
interessante essa observação.
o sean de 4 e o de 40 ainda tem tantos pontos em comum?
sugestão anotada: a foto escura sai assim que eu fizer outra.

ANA
sempre olhei as coisas com um ar meio torto.
até que o torto virou eu.

ROSA
tenho mais as covinhas, não.
fiquei com cara de cachorro emburrado.
de resto, vc é sempre gentil, né rosinha?

MARIANA
ei, cuidado!
"charmuta" é árabe, não gauchês.
é é grande ofensa.
pelo teu blog eu vejo sempre que temos o mesmo olhar enviesado.
me divirto.

MARCIA
mas eles têm se alargado.
sempre que recebem uma ajudinha.

DENISE
seja bem-vinda!
espero te ver mais vezes por aqui.

eu também gostava daqueles zóinhos do piá que não sou mais, mas tenho que conviver com esses que tenho agora. só queria saber quem trocou sem me avisar, na calada da noite, pra dar um chute no sacana.

GIOVANA
meu cérebro não alcança a sofisticação das nobres damas!
vocês podem, um dia, falar de forma direta?
ou vai ser sempre 'decifra-me ou continue burro'?

bem-vinda a esse espaço.
use-o como bem quiser.

FABIANA
o problema é esse: você É doida.
:p

GRAZIANA
o mais interessante é que a gente chega a elas por algo totalmente inusitado.
e uma avalanche de coisas adormecidas voltam como se tivessem acontecendo agora.
até as sensações.


*

Greta disse...

Bicho, covinhas...

Eu, particularmente, adoro andar por "lugares da infância". Sei lá, me dá bate uma sensação de pertencimento, uma nostalgia de um tempo em que a preocupação-mor era roubar a bandeirinha antes de alguém te "colar"...

Sean Hagen disse...

*

e eis que a diva surge!
salve, salve, greta misteriosa, e seja bem-vinda.
a casa é sua.

mas vc não é muito guria pra já ter saído da 'infância", não?
:p


*

Greta disse...

hahahaha

Depende. Se a gente for levar em conta o quanto dura a infância hoje em dia, eu estou quase uma senhora. Mas se for algum aspecto comportamental, eu ainda estou lá, graças a Deus, sabe?

Misteriosa? Ah, uma moça precisa de alguma privacidade, não é mesmo? ;)

Zeca La-Rocca disse...

Bem, memórias de infância é comigo mesmo...
Ainda hj conversando com Rosamaria falamos nisso. Eu não sei como lembro de tantas coisas... lembro detalhes!
E o avalanche de emoções é grande mesmo!

Sean Hagen disse...

*

ZECA
eu também tenho, mas essas são lembranças 'ativas'. me fascino quando, como nesse caso, vem à tona algo que tava dormindo.
e uma nova peça do quebra-cabeça se encaixa nas memória.

*