30 novembro 2006

Papai Noel existe?

29 novembro 2006

Xô, escumalha

Quando quem deveria ser o parâmetro da moralidade de um país, acintosamente mostra o quão imoral são as estruturas de poder, resta pouco a fazer. Dois mil 978 funcionários do Judiciário ganham em média R$ 3.500 acima do teto estipulado em lei, segundo relatório do Conselho Nacional de Justiça. Essa pequena diferença corresponde ao salário de um professor universitário federal com titulação de mestre e dedicação exclusiva. Um profissional que investiu pesado na carreira acadêmica, paralelamente à trajetória profissional.

Mas as coisas sempre podem ficar pior, dependendo do ponto de vista. Esses R$ 3.500, de um total de R$ 24.500, correspondem a 10 salários mínimos, valor irreal e inalcançável para grande parte dos brasileiros.

É aviltante ver que a imundície que se faz com a honestidade do cidadão continue acontecendo década após década, governo após governo. E ao menor sinal do corte das regalias nababescas, de enquadrar quem rouba descaradamente, a categoria ameaça entrar em greve e paralisar toda a estrutura do país. É o velho método da extorsão, prática comum e já incorporada nessas situações: não mexam em nossas benesses ou a bandidagem vai acabar solta nas ruas.

A piada é tão velha quanto a indignação: quem é o bandido nessa estrutura? Quem é preso ou quem manda prender?

Ética e moralidade têm que ser assunto de discussão do jardim da infância à mesa de bar. Ética e moralidade deveriam estar presentes no currículo de qualquer profissão, deveriam ser tão naturais quanto falar de futebol ou carnaval. Ok, estou exagerando, mas a única saída pra botar o trem nos trilhos vem de nós, cidadãos que pagam impostos e elegem governantes que fazem leis.

Quando ética deixar de ser um dom dado a poucos, e se tornar a consciência de muitos, talvez o Judiciário ponha pra fora a escumalha que denigre a instituição. Juízes e funcionários da instituição moral suprema de um país, mas que não têm nenhum pudor em roubar a possibilidade de uma vida justa e digna para a imensa maioria dos brasileiros

28 novembro 2006

Dois autores e um livro que desisti de ler

A Marcia me “acorrentou” pra eu dizer quem são os três autores que eu desisti de ler. São muitos, daqueles que li uma coisa ou outra e não gostei do estilo ou da abordagem. Tenho uma certa implicância com os bambambans, esses que todo mundo endeusa. À lista, então:

1. Raduan Nassar – li Lavoura arcaica me arrastando, odiando cada ponto que faltava, cada vírgula que não vinha, cada pausa que não existia. Jurei nunca mais ler nada dele. Vou morrer sem saber se é um gênio ou não.
– em tempo: odiei Estorvo de Chico Buarque por ele copiar de forma tão descarada o Raduan. Mas como ele é compositor, e não escritor, não entra nessa lista –

2. Gabriel Garcia Marquez – nunca vi alguém tão megavalorizado quanto ele. Acho enfadonho esse ‘realismo fantástico’ que soa um tanto quanto infantil, e decididamente o estilo dele é pomposo demais pra narrar isso.

3. Aqui eu fujo um pouquinho do proposto pra falar de uma obra, não de um autor. Refiro-me a Ulisses, de James Joice. Depois de ler os contos de Os dublinenses, em que faz parte o supimpa Os vivos e os mortos, me aventurei, louco de curiosidade, na tradução do Houaiss. Viximariasantíssima, cada página eu atravessava a facão, rezando pra ela acabar logo e chegar a seguinte. Mas o facão perdeu o fio e eu não atravessei nada no final das contas. Fiquei lá pela página 70 das 400 que o livro tem. Foi a minha única e fragorosa derrota ao deixar um livro pra trás. Um dia, quem sabe, quando eu falar inglês como os ingleses, eu retome.
- em tempo 2: dizem que a tradução da Bernardina da Silveira Pinheiro é superior a do Houaiss –

Como as correntes de confidências e inconfidências tão tsunamizando os blogs, deixo totalmente aberto pra quem estiver disposto a comentar, sem nenhuma obrigação ou necessidade de desculpas por não fazer. Então, Grazi, Lila e Mariana, se vocês estiverem a fim, beleza.

27 novembro 2006

Dona Joaninha

Sabe aquelas joaninhas de história infantil, que tem as costas cheias de pintinhas? Pois é, tô eu trabalhando no meu computador e aparece uma delas desfilando pela tela do pc. Fazia tempo que não via uma assim, só encontrava as ‘laranjinhas’ comuns.

Não deixa de ser uma surpresa ver um bichinho desses fazendo contato – trocamos fone! – de forma inesperada. Na verdade, acho que tenho algo de Dr. Dolittle, porque vira e mexe os bichos me procuram.

Tem um beija-flor que sempre vem me visitar na janela. Eu o vejo vindo a mil em minha direção, fazendo o maior alarde com o bico. Daí ele pára subitamente, faz aquela postura de ‘cristo crucificado’, e dispara outra vez pra longe. Acho que deve me achar muito estranho, sempre encaixotado no mesmo lugar.

Aqui no meu bairro tem muito passarinho, e eles não cansam de dar rasante. É comum entrarem pra remexer vasos de plantas: pegam insetos ou fios soltos e se mandam. Uma vez, eu estava de pé recolhendo as folhas da impressora e um entrou em desabalada carreira. Fez a curva em volta do meu corpo e nem deu tchau. Minto, deixou uma ‘encomenda’ na soleira da janela. Acho que se assustou com a minha cara grande.

Enquanto escrevo a joaninha continha lá, no mesmo lugar. Já andou por toda a tela e agora parou bem em cima, como um pingüim de geladeira. Se não for embora sozinha, por onde veio, vou largá-la nas plantas da sacada.

Mas algo me diz que ela não vai ligar confirmando o encontro.

Essa sequência de fotos é da joaninha que me visitou hoje
As fotos ruins foram feitas com a cam do computador

24 novembro 2006

Volta, Almodóvar!


O diretor e suas musas: Blanca Portilo, Penelope Cruz, Yona Cobo, Carmen Maura e Lola Duenas

Se você é um daqueles fãs apaixonados por Almodóvar, pare por aqui. O texto que segue é o desabafo do descontentamento com o rumo que segue a obra do diretor espanhol, principalmente em Volver, seu último filme.

A narrativa é tipicamente almodovariana: mulheres fortes com laços de cumplicidade tão estreitos que nada consegue abalar. Os homens foram radicalmente banidos desse filme, e os únicos dois que ganham ínfimo destaque não passam de sexistas desprezíveis. Mas Penelope Cruz é a própria mulher coragem: mantém a filha e o marido com mil empregos e é o cimento que solidifica as relações com a irmã, a mãe morta e as amigas. Algo que a sempre excelente Chus Lampreave reafirma ao encarnar a tia louca que só volta à realidade quando vê a sobrinha – Penelope –, um símbolo do amor incondicional capaz de mudar destinos.
Chus Lampreave: talento pra comédia em pequeno papel de tia louca

As pequenas piadas que giram em torno desse universo reforçam que o amor entre mulheres é sem interesse e naturalizado. Como a galhofa da prostituta que não compreende para que serviço está sendo contratada, e reage de forma carinhosa: “não sabia que você gostava de mulheres, mas pra você eu faço um bom desconto”. O problema está justamente aí. Almodóvar retoma um estilo de roteiro que desenvolvia no início de sua carreira, nos anos 80, em que a piada era mais importante que o aprofundamento dramático. Por isso, talvez, a morte, fio condutor de toda narrativa, não esteja aqui para gerar catarse e desencadear transformações. A morte é tão banal quanto respirar, não é boa ou ruim, apenas existe.

É o que faz a morte trágica do marido de Penélope não abalar nem ela nem a filha. Almodóvar pinta o homem com tintas carregadas, mas transparentes, sem a profundidade que seria necessária para entendermos o porquê da morte dele. Ou a morte da tia, uma substituta da mãe ausente.

Olhos de Carmen Maura: força dramática sem dizer uma palavra

Então, se não há abalo emocional com a morte, “voltar” à vida é normalíssimo. Carmem Maura, sumida dos cinemas brasileiros há muito, surge como a mãe morta que volta para acertar as contas com a filha. Espantosamente envelhecida, mas com olhos gigantescos e brilhantes que ainda iluminam a tela, nada mais faz do que vagar como um espectro sem profundidade, sem ter o que dizer. Não há dúvida ou questionamento para essa aparição. Para Almodóvar as coisas estão dadas, nada consegue causar espanto no mundo, nem a morte, nem a ressurreição, nem a revelação do que seria o mais torpe crime dentro de uma família.

Essa questão Almodóvar foi buscar em Chinatown, clássico de Roman Polansky sobre a desintegração social. Mas se no filme de Polansky a revelação fazia o intrincado quebra cabeça ganhar sentindo, em Almodóvar não passa de uma homenagem à grande sacada do roteiro original. Homenagens que o diretor continua fazendo, tanto na tentativa de transformar Penelope Cruz em Sophia Loren, quanto na construção do filme, com ares de policial dramático com toques de noir.

Penelope: figuros à Sophia Loren, seios fartos e prótese nas nádegas

Almodóvar continua sendo um grande diretor de atores – apesar de Cruz não ser uma grande atriz – e constrói seqüências com rara habilidade – o amor feminino sendo engendrado dentro da cozinha, pelos alimentos. Mas abrir mão de aprofundar a vida dessas mulheres enfraquece Volver. Parece que está com medo de tocar fundo nas emoções, como fez em obras irretocáveis como Tudo sobre minha mãe ou Fale com ela. Ou começa a mostrar cansaço pela fórmula que ele mesmo criou, o que já ficou evidente em Má educação.


A cozinha como formadora do caráter feminino: comida como aconchego

O final, tão postiço quanto as emoções que tentou despertar, nada mais é do que um pastiche dos dramalhões familiares da Hollywood dos anos 50: mãe e filha, separadas por uma porta, aceitam o destino que lhes foi traçado. E corajosas, seguem para enfrentar a vida que ainda resta. Pena que contando seja muito melhor do que vendo.

22 novembro 2006

A volta ao velho quintal


"Não importa que a tenham demolido:

a gente continua morando na velha casa em que nasceu"
Mario Quintana

--------------------------------------------------------------------------------- foto: Sean Hagen
Fredi, meu sobrinho, evanece num espaço que não existe mais

Em sonhos eu continuo morando na casa em que nasci e vivi grande parte da minha vida. Esteja fazendo o que estiver, mesmo quando o assunto é alguma preocupação atual, a cena doméstica que se instaura é na casa da minha infância. Nunca sonhei com o apartamento em que moro hoje. E o mais estranho é que jamais estou dentro de casa, mas sempre no pátio.

Foi em meio as parreiras, ameixeiras, figueiras, pitangueiras, laranjeiras, amoreiras, bergamoteiras, pereiras, goiabeiras, araçazerios, caqueiro e romanzeiro que eu tenho as melhores lembranças. Lembro dos verãos muito quentes e luminosos em que o sol era filtrado pelas folhas e fazia rendados no chão. Do prazer de subir nos galhos e ter o luxo de escolher a fruta ‘perfeita’, aquela que tinha o tamanho, a cor e a consistência que eu queria no momento.

O pátio era enorme, em desníveis – alguns com dois metros de altura –, e proporcionava todo tipo de brincadeira. Era possível ficar horas escondido em algum lugar sem ninguém saber onde eu estava, o que era uma benção numa família grande com casa pequena.

No fundo do quintal, num barranco em declive acentuado que levava a um terreno que permaneceu desocupado por muito tempo, havia um taquaral. Ali, entre tantas coisas, a imaginação corria fértil, e as possibilidades eram ilimitadas. Era floresta e castelo, selva e labirinto, trincheira e casa particular.

Eu no galho da pereira: de cabeça pra baixo nada parecia anormal

Talvez por isso a imagem de lar se construa nesse espaço. Ali também era o lugar das festas, de toda família reunida em longos almoços de domingo sob o parreiral – a sobremesa se pegava levantando a mão. Das guerras d’água que transformavam tudo em lama. Dos lençóis sempre brancos, enfurnando feito velas, em tarde de temporal. Dos pés tocando a terra fresca, protegida pela sombra, em dias quentes de verão. Da geada que cobria o gramado e formava uma névoa espessa quando o sol surgia.

A casa em que nasci não existe mais. Nem uma árvore restou pra alimentar os passarinhos. Um estacionamento ocupa o lugar em que grande parte da minha vida aconteceu. Mas como um vampiro desterrado, insisto em buscar conforto no solo em que fui gerado. Nem que seja em sonho.

20 novembro 2006

Dez centímetros



Lua de mel com dor nas costas - pelo motivo errado - deve ser foda.
Como a Katie Holmes pode ter ficado mais baixa que o tampinha do Tom Cruise se ela tem 10 centímetros a mais do que ele?
Na altura, que fique bem claro.

19 novembro 2006

Save the models

Agências de modelos unidas na luta pela moralidade.
Lindo, não?
Agora decidiram que vão pedir exame de saúde das modelos.
Quem não estiver bem, não entra.
Resta saber quais doenças vão ser levadas em consideração.
Talvez só as de pele, como psoríase, vitiligo, acne.
Ou as deformatórias – escoliose, lordose, gigantismo.
Minha dúvida: mais de 20 anos ou cabelos crespos serão considerados o quê?

17 novembro 2006

Do imaginário e do jornalismo

Morte trágica, interesse redobrado

Escrevi o primeiro post sobre a morte da Ana Carolina Reston Macan assim que a Folha Online publicou. A história da moça-pobre-que-dá-se-mal-tentar-a-carreira-de-modelo me incomodou, mas não é a primeira nem será a última. Os comentários no blog foram variados, e deu pra perceber como isso afetou as pessoas em diferentes níveis: auto-imagem, auto-estima, glamour, projeção social, sonhos, piedade, indignação ou seja lá o que for.

A surpresa veio agora, quando abri o Sitemeter – um contador de visitas instalado no blog – e vi que das dezenas de acessos diários habituais, o número passou dos 2.500 – entre a meia noite e às 15h de 17 de novembro –. Quase todas as entradas vêm de buscadores em que foi digitado o nome “Ana Carolina Reston Macan”. Uma olhada superficial nos gráficos revela que em torno de 90% são de leitores norte-americanos, e o resto de outros países, inclusive os brasileiros habituais.

O que fez tanta gente se interessar pela história dessa menina brasileira? Há muito pano pra manga aí, e explicações de todas as áreas podem ser formuladas. Mas como jornalista, cada vez mais acredito que esse não é um processo de simples espetacularização dos fatos, como muitos teóricos zangados gostam de pregar – lembro que quem chegou até mim não foi procurando um blog ou site jornalístico, apesar de ser o blog de um jornalista. Vejo esse processo muito mais como a busca por compreender onde estamos inseridos na nossa cultura, espaço e tempo, uma função que o campo jornalístico desempenha muito bem. O jornalismo tenta racionalizar o mundo para que a sensação de ordem e cotidianidade se estabeleça. Mas, pra isso, elege justamente o que não é cotidiano, o que irrompe do marasmo dos acontecimentos triviais. E trabalha com uma forte carga emocional e subjetiva que mexe profundamente com o interesse das pessoas.

Glamour, imaginário de princesa e realidade: reacomodação da vida

As modelos, hoje, são as gatas borralheiras de ontem: estão inseridas no imaginário da vida que se resolve por um toque de mágica; carregam o glamour e luxo das princesas. A morte, que vem interromper esse processo, joga o sonho de volta à realidade, algo que não é muito agradável de processar – mesmo que saibamos que a vida é assim – e toca em sentimentos tão antigos quanto inconscientemente enraizados.

O interesse pela história de Ana Carolina Reston Macan até pode parecer um espetáculo para alguns. Mas, no fundo, é a carga de sonho necessária para enfrentarmos a dureza da rotina de nossas próprias vidas. Se o final não foi feliz, ela morreu em busca de um ideal. Uma forma de nos dizer que a vida precisa ser vivida urgentemente. Tanto por princesas quanto por sapos.

16 novembro 2006

Canícula

----------------------------------foto Sean Hagen

Agora não tem mais volta.
O calor chegou, os dias espicharam e o sol vai brilhar forte pelos próximos meses sem dar trégua pra esse notúrnico ser que vos escreve. Dias nublados e de chuva serão raridade. E eu vou suar, bufar, esbravejar e sentir o corpo derreter pela eternidade desse período.

Ainda hei de viver num país nórdico, em que o frio domine grande parte do ano.

O jeito é continuar consumindo toneladas de sorvete, andar descalço e seminu – quando se pode, é óbvio – e banhos gelados, muitos. Prazeres muito pequenos pra compensar a liquefação do cérebro.
E incapazes de barrar o mau humor.

15 novembro 2006

Adeus, fadinha

Ana Carolina Reston Macan morreu aos 21 anos. Pesava 40 quilos e tinha 1,74 metros de altura. Teve uma infecção renal que afetou a possibilidade de respirar, terminando em uma infecção generalizada.

Ana Carolina Reston Macan não era uma estatística relacionada a um bolsão de pobreza do Brasil, onde conseguir algo para comer a cada dia é uma batalha entre a vida e a morte.

Ana Carolina Reston Macan circulava pelo lado mais brilhante do glamour internacional, indo do Japão a França, da China ao México.

Ana Carolina Reston Macan era modelo. Morreu de anorexia nervosa.


A história completa está na Folha Online.

14 novembro 2006

Vida ordinária

Poucos prazeres são tão intensos quanto coçar comichão.

12 novembro 2006

A cozinha do diabo

Tenho que confessar: ao mesmo tempo em que abomino novelas, eu me amarro em reality shows. Não todos. Alguns são muito ruins, e o máximo que faço é dar uma espiada. Gosto particularmente dos ingleses, que são inteligentes e bem produzidos.

Agora descobri um - mesmo sendo norte-americano - que aborda o universo da boa mesa, outra das minhas paixões, o que deixou tudo mais interessante: Hell’s Kitchen é estrelado por Gordon Ramsey, um chefe de cozinha tão talentoso quanto mau humorado.

A proposta é simples. Doze candidatos, alguns com larga experiência culinária, outros sem nenhuma, brigam pra ver quem ganha um restaurante no final. Para isso, vão provar que sabem cozinhar, servir, administrar, criar estratégias e, sobretudo, agüentar a extrema grosseria e mau humor com que são tratados por Ramsey e os assistentes dele.

É aí que entra a novidade: o chefe é um general nazista que trata a cozinha como um campo de concentração. Não aceita erros nem insubordinação. Já cuspiu em pratos que não gostou, esfregou comida em quem o desobedeceu e jogou toda a refeição no chão pra mostrar descontentamento. Fora a quantidade de ‘bips’ que apagam os palavrões que profere a cada fala. De sofisticado só tem as receitas que prepara, derrubando um mito muito comum nesse campo de atuação.

Para o grupo dos sensíveis que se horroriza com esse comportamento, o programa traz uma sacada interessante: Ramsey trata os clientes que freqüentam o Hell’s Kitchen com a mesma ferocidade e brutalidade com que trata os competidores. É óbvio que uma série produzida nos EUA só pode conter essas cenas porque são “armadas”. Um ‘segredo’ que, provavelmente, seja revelado no final. Mas o nervosismo dos participantes é tão grande, que pra eles aquilo soa como verdadeiro, conferindo mais poder ao chefe.

Quem conhece um pouco do mundo da gastronomia sabe que a cozinha é o próprio inferno, onde as pressões e cobranças são absurdas. Levará o prêmio aquele que tiver força pra superar tudo isso. E ver como as pessoas se desestabilizam com um grito ou um elogio, é entender porque alguns restaurantes oscilam tanto entre a boa e a má comida, dependendo do dia em que você chega. Para Ramsey, ser carrasco no treinamento é evitar que isso aconteça. Preocupação rara de se imaginar por aqui. Pelo menos nos pé-sujos que eu freqüento.


Hell's Kitchen passa toda quinta, às 22h30, no GNT.

09 novembro 2006

Viagem ao eu profundo

Set de filmagem de "Briedshead" no inerior da Inglaterra

Conheci o universo de Evelyn Waugh através da TV. No início dos anos 80, a TVE/Cultura passou a minissérie Memórias de Briedshead – produção britânica com o ainda desconhecido Jeremy Irons, e com Laurene Olivier no elenco –, uma das raríssimas adaptações soberbas de um livro em filme. A densidade da história mexeu com a cabeça fértil do - então - adolescente, e aguçou a curiosidade em ler o original. Em 86, quando entrei na universdiade, quem encontro na biblioteca?

Briedshead é a aristocrática mansão da família Merchmain – mais aristocrática ainda por ser católica na Inglaterra protestante. O capitão Charles Ryder, ao acampar com seu pelotão nos jardins da casa durante a II Guerra, é invadido por uma avassaladora memória do que foi sua vida. E nos carrega junto, morro abaixo, numa dolorosa e catártica indagação sobre livre arbítrio, amor, religião e sociedade. Mais do que tudo, discute a real importância no que cremos e no que nos transformamos quando perdemos essas crenças, quando deixamos de ser fiéis a nós mesmos.

É essa densidade de assuntos, tratados com profundidade e maestria, que fazem do livro um dos clássicos insuperáveis da minha biblioteca pessoal. Waugh, além de tudo, tem uma elegância na escrita que me faz babar de inveja a cada frase. Une forma e conteúdo em uma combinação única, sendo lírico, contundente e irônico na medida certa.

Sebastian (Anthony Andrews), Julia (Diana Quick) e Ryder (Jeremy Irons)

Essa ironia, por sinal, acabou me levando a outros livros dele: à desintregação dos valores famíliares de Um Punhado de Pó; à acidez hilária de Furo! – narrada sob a ótica de um jornalista, profissão que Waugh exerceu –, e a O Ente Querido, em que um embalsamador devolve a aparência vivaz aos cadáveres, mas vive como se fosse um deles.

Mas Briedshead (escrito em 1945, e adaptado como A Volta à Velha Mansão pela primeira tradução no Brasil) talvez seja sua melhor obra. Assim como Machado de Assis, e o triângulo protagonizado por Capitu em Dom Casmurro, nunca temos certeza se Ryder consumou ou não a paixão platônica por Sebastian Fly, herdeiro da família Merchmain. Ryder, pobre e impopular no seletíssimo grupo da Universidade de Oxford, encontra na riqueza, excentricidade e charme da aristocracia decadente o passaporte para a liberdade – tanto financeira, quanto moral. Nem de longe a questão da homossexualidade latente encerra o plot central da história, mas só alguém com Waugh conseguiria fazer o destino dar a volta e colocar no mesmo espaço, tantos anos depois, Ryder e Julia, a irmã de Sebastian. Exemplo de uma ironia cáustica que permeia toda a obra.

Ryder, Sebastian e o histriônico ursinho: detalhes reveladores

O que importa, realmente, é que Waugh não faz concessões às suas criaturas. A trajetória de cada um vai ser vivida conforme as próprias escolhas e idiossincrasias. No final, isso reafirma que nenhuma força divina pode nos salvar da forma de como pensamos e agimos – Waugh era um fervoroso católico convertido, além de um dândi que odiava o mundo em transformação.

Escrevi esse longo texto pra dizer que ontem, depois de exatos 20 anos procurando uma cópia da edição esgotada de Memórias de Briedshead, encontrei um exemplar na Feira do Livro de Porto Alegre – pra quem não conhece, essa é umas das coisas mais legais que a cidade tem. Debaixo dos jacarandás em flor, na temperatura levemente fria da noite, resgatei um pouco do meu passado. E talvez do meu futuro.

Tudo isso por módicos R$5,00.


Você pode ler uma crítica interessante do livro aqui.

01 novembro 2006

Má nias

O tempo tá pra lá de apertado por esses dias, mas vou atender ao chamado da Grazi.
Cinco manias que tenho – óbvio que vou colocar as menos ruins – e da qual não abro mão:

• Estalar todos os ossos antes de dormir
• Estalar todos os ossos ao acordar – inclusive o cérebro
• Tomar coca-cola depois de comer chocolate
• Escovar os dentes caminhando pela casa
• Andar descalço

Meigo, né?

Então lá vai a maldição, repasso pra Fabiana, Mônica, Lila, Mariana , tia Elis e Thelma.