17 novembro 2006

Do imaginário e do jornalismo

Morte trágica, interesse redobrado

Escrevi o primeiro post sobre a morte da Ana Carolina Reston Macan assim que a Folha Online publicou. A história da moça-pobre-que-dá-se-mal-tentar-a-carreira-de-modelo me incomodou, mas não é a primeira nem será a última. Os comentários no blog foram variados, e deu pra perceber como isso afetou as pessoas em diferentes níveis: auto-imagem, auto-estima, glamour, projeção social, sonhos, piedade, indignação ou seja lá o que for.

A surpresa veio agora, quando abri o Sitemeter – um contador de visitas instalado no blog – e vi que das dezenas de acessos diários habituais, o número passou dos 2.500 – entre a meia noite e às 15h de 17 de novembro –. Quase todas as entradas vêm de buscadores em que foi digitado o nome “Ana Carolina Reston Macan”. Uma olhada superficial nos gráficos revela que em torno de 90% são de leitores norte-americanos, e o resto de outros países, inclusive os brasileiros habituais.

O que fez tanta gente se interessar pela história dessa menina brasileira? Há muito pano pra manga aí, e explicações de todas as áreas podem ser formuladas. Mas como jornalista, cada vez mais acredito que esse não é um processo de simples espetacularização dos fatos, como muitos teóricos zangados gostam de pregar – lembro que quem chegou até mim não foi procurando um blog ou site jornalístico, apesar de ser o blog de um jornalista. Vejo esse processo muito mais como a busca por compreender onde estamos inseridos na nossa cultura, espaço e tempo, uma função que o campo jornalístico desempenha muito bem. O jornalismo tenta racionalizar o mundo para que a sensação de ordem e cotidianidade se estabeleça. Mas, pra isso, elege justamente o que não é cotidiano, o que irrompe do marasmo dos acontecimentos triviais. E trabalha com uma forte carga emocional e subjetiva que mexe profundamente com o interesse das pessoas.

Glamour, imaginário de princesa e realidade: reacomodação da vida

As modelos, hoje, são as gatas borralheiras de ontem: estão inseridas no imaginário da vida que se resolve por um toque de mágica; carregam o glamour e luxo das princesas. A morte, que vem interromper esse processo, joga o sonho de volta à realidade, algo que não é muito agradável de processar – mesmo que saibamos que a vida é assim – e toca em sentimentos tão antigos quanto inconscientemente enraizados.

O interesse pela história de Ana Carolina Reston Macan até pode parecer um espetáculo para alguns. Mas, no fundo, é a carga de sonho necessária para enfrentarmos a dureza da rotina de nossas próprias vidas. Se o final não foi feliz, ela morreu em busca de um ideal. Uma forma de nos dizer que a vida precisa ser vivida urgentemente. Tanto por princesas quanto por sapos.

10 comentários:

Graziana disse...

"carga de sonho necessária para enfrentarmos a dureza da rotina de nossas próprias vidas" ... olha não tinha pensado por este lado, é uma análise interessante, sensível...

sim, a vida precisa ser vivida urgentemente tanto pra príncipes quanto pra sapas :)

marcia disse...

Bachelard teria te adorado.

lila disse...

é por essas e outras que, my dear Dimples, I want to fuck your brains out. So badly! ;)

Maitê disse...

Bah Sean. Eu sou mais popularesca. Acho que no fundo, o pessoal quer ver a tragédia humana. E outra coisa. Vejo uma ligação com essa coisa do agendamento. As pessoas correm atrás dos fatos que a mídia mostra. Agora, bah, todo mundo fala sobre anorexia. Mas para o tema virar debate, sempre a mídia tem que fazer este papel. Trazer à tona. Não estou criticando o seu ponto de vista. Pelo contrário, só estou colocando o que eu acho. Abs

TARCIO VIU ASSIM disse...

Inteligente e bem escrito, mas não sei se concordo com o que acabo de ler.. senti um tom de indiferença à 'tragédia particular'; um querer alisar a cabecinha tonta da média... será que entendi mal?
Abraço sertanejo.

Ana disse...

Concordo contigo, Sean!
As pessoas buscam assimilar os acontecimentos e as informações, que chegam cada vez em maior número! Não é só interesse mórbido, não.
Tempos atrás nosso universo afetivo se resumia às pessoas do nosso convívio familiar, real, palpável, mais fácil de ser entendido.
Atualmente somos "íntimos" das celebridades, dos artistas, dos jogadores de futebol, dos políticos... Acabamos por ter um interesse natural pela vida destas pessoas!
Não somos insensíveis e desinteressados. Nem vivemos da tragédias. Simplesmente quereos entender o que acontece à nossa volta!

Sean Hagen disse...

*

trazer toda uma pesquisa pra um comentário num blog é impossível. jornalismo e mito (dentro do imaginário) é o que venho pesquisando há alguns anos na pós-graduação. claro que fiz uma abordagem rápida e até leviana aqui, mas tentei discutir um pouco do que estou pesquisando.

GRAZI
muitas abordagens estão sendo feitas na mídia, cada uma puxando a brasinha pro seu assado. tá em todo lugar, viu?


MARCIA
ou tá se revirando no túmulo, pobre velhinho louco.
os levianos estão à solta...


LILA
thanks?


MAITÊ
legal que vc tenha sua própria visão do fato, esse é o teu caminho como pesquisadora também. só presta atenção numa coisa: se é a mídia que agenda o público e a própria mídia, por que meu post sobre o queda do avião da gol, fato internacional, não trouxe 2.500 pessoas em 15 horas pro meu blog? - assunto importantíssimo que varou o mundo. por que os comentários sobre eleições, em um momento em que a mídia massacrava o assunto, não fez o mesmo?
acho a abrodagem do agendamento insuficiente pra explicar essas coisas, mas teambém não a conheço bem. na verdade, nada é suficiente pra explicar, né?


TARCIO
que bom que vc discorda!
nas oposições a gente também se descobre e constrói.
a prática do jornalismo é uma coisinha complicada que a gente faz e ainda tá tentando entender muitos porquês. não aliso a 'média', não, de forma alguma. mas existe uma variável que é um pouco desprezada no jornalismo que é a subjetividade, lugar do imaginário. e dessa, ninguém escapa. entender que o jornalismo é mais do que narrar fatos com 'objetividade e exatidão' é abrir espaço pra nossa cultura e sentimentos. e tanto a 'média' quanto os jornalistas estão inseridos nesse espaço.


ANA
o universo afetivo, como vc diz, cada vez mais deve ser levado em conta. não somos apenas razão, a emoção perpassa tudo.



*

Maitê disse...

Sean, no meu blog, bah, no dia da Gol, no antigo, eu tive 5.000 visitas num dia... Acho q vc ta certo. Nada explica, mesmo e a minha opinião tbém se pautou na minha total descrença com os bons sentimentos da humanidade. hehe Abs

Mariana disse...

Pensei em escrever sobre ela também, mas não consegui ir além de um vazio enorme diante da idéia de alguém definhar até morrer como ela o fez, pelos motivos que fez... Enfim. Não deu. Mas me sinto contemplada com o que você disse.

Beijo, querido.

Graziana disse...

Sean, concordo, não sei se a questão do agendamento é a melhor pra explicar tudo que tem saída na mídia,está certo que o assunto está em pauta desde algum tempo, que eu me lembre,desde que a semana de moda esponhola proibiu modelos com baixos IMC de desfilarem...

mas na minha modesta opinião, só o agendamento é pouco para explicar estes "fenômenos"

Sim, tenho lido em toda parte sobre este caso, inclusive uma cena da novela das 8h entre a menina que sofre de anorexia nervosa e a mãe discutiram a morte da modelo...