09 novembro 2006

Viagem ao eu profundo

Set de filmagem de "Briedshead" no inerior da Inglaterra

Conheci o universo de Evelyn Waugh através da TV. No início dos anos 80, a TVE/Cultura passou a minissérie Memórias de Briedshead – produção britânica com o ainda desconhecido Jeremy Irons, e com Laurene Olivier no elenco –, uma das raríssimas adaptações soberbas de um livro em filme. A densidade da história mexeu com a cabeça fértil do - então - adolescente, e aguçou a curiosidade em ler o original. Em 86, quando entrei na universdiade, quem encontro na biblioteca?

Briedshead é a aristocrática mansão da família Merchmain – mais aristocrática ainda por ser católica na Inglaterra protestante. O capitão Charles Ryder, ao acampar com seu pelotão nos jardins da casa durante a II Guerra, é invadido por uma avassaladora memória do que foi sua vida. E nos carrega junto, morro abaixo, numa dolorosa e catártica indagação sobre livre arbítrio, amor, religião e sociedade. Mais do que tudo, discute a real importância no que cremos e no que nos transformamos quando perdemos essas crenças, quando deixamos de ser fiéis a nós mesmos.

É essa densidade de assuntos, tratados com profundidade e maestria, que fazem do livro um dos clássicos insuperáveis da minha biblioteca pessoal. Waugh, além de tudo, tem uma elegância na escrita que me faz babar de inveja a cada frase. Une forma e conteúdo em uma combinação única, sendo lírico, contundente e irônico na medida certa.

Sebastian (Anthony Andrews), Julia (Diana Quick) e Ryder (Jeremy Irons)

Essa ironia, por sinal, acabou me levando a outros livros dele: à desintregação dos valores famíliares de Um Punhado de Pó; à acidez hilária de Furo! – narrada sob a ótica de um jornalista, profissão que Waugh exerceu –, e a O Ente Querido, em que um embalsamador devolve a aparência vivaz aos cadáveres, mas vive como se fosse um deles.

Mas Briedshead (escrito em 1945, e adaptado como A Volta à Velha Mansão pela primeira tradução no Brasil) talvez seja sua melhor obra. Assim como Machado de Assis, e o triângulo protagonizado por Capitu em Dom Casmurro, nunca temos certeza se Ryder consumou ou não a paixão platônica por Sebastian Fly, herdeiro da família Merchmain. Ryder, pobre e impopular no seletíssimo grupo da Universidade de Oxford, encontra na riqueza, excentricidade e charme da aristocracia decadente o passaporte para a liberdade – tanto financeira, quanto moral. Nem de longe a questão da homossexualidade latente encerra o plot central da história, mas só alguém com Waugh conseguiria fazer o destino dar a volta e colocar no mesmo espaço, tantos anos depois, Ryder e Julia, a irmã de Sebastian. Exemplo de uma ironia cáustica que permeia toda a obra.

Ryder, Sebastian e o histriônico ursinho: detalhes reveladores

O que importa, realmente, é que Waugh não faz concessões às suas criaturas. A trajetória de cada um vai ser vivida conforme as próprias escolhas e idiossincrasias. No final, isso reafirma que nenhuma força divina pode nos salvar da forma de como pensamos e agimos – Waugh era um fervoroso católico convertido, além de um dândi que odiava o mundo em transformação.

Escrevi esse longo texto pra dizer que ontem, depois de exatos 20 anos procurando uma cópia da edição esgotada de Memórias de Briedshead, encontrei um exemplar na Feira do Livro de Porto Alegre – pra quem não conhece, essa é umas das coisas mais legais que a cidade tem. Debaixo dos jacarandás em flor, na temperatura levemente fria da noite, resgatei um pouco do meu passado. E talvez do meu futuro.

Tudo isso por módicos R$5,00.


Você pode ler uma crítica interessante do livro aqui.

15 comentários:

Anônimo disse...

o jeremy irons tem uma constante cara de amoral.


Klô

Thelma disse...

Muito legal a descriçao do teu resgate das Memórias de Briedshead, sob os jacarandás em flores, na noite fresca do Portinho!! Tu és um sujeito inteligente e sensível. Bjs.

Ana disse...

Concordo com a Thelma, mas esta certeza que colocas nesta frase, me assusta:
"E no final, isso reafirma que nenhuma força divina pode nos salvar da forma como pensamos e agimos(...)."
Gosto de acreditar que temos salvação, apesar de tudo! Ou que podemos mudar!

Lila disse...

Eu amo feiras de livros. Mas acho que hoje, o que eu quero MESMO é achar uns 4 livros do neil gaiman por 19 dinheiros levar pra casa e me encerrar lá por uns dias.

Vambora? ;)

Graziana disse...

fiquei curiosa pelo livro ;)
A Feira é uma das melhores coisas de Poa, jacarandás e temperatura amena completam um dia perfeito :)

TARCIO VIU ASSIM disse...

Belo texto. Fiquei interessado em ler o livro! Lembro de algumas cenas da minissérie mas não cheguei a acompanhá-la por inteiro e acho que não faz tanto tempo assim... será?
O livro só tem em sebos? Como conseguir?
Abraço do visitante sertanejo.

Sean Hagen disse...

*


KLÔ
ele fez tanto filme em que assumia essa postura, que acabou tendo a 'imoralidade' colada à pernona dele.
seja bem-vinda e volte sempre.


THELMA
têm momentos especiais que abrem certas 'portinhas' na vida da gente. a escolha de entrar ou não é nossa.


ANA
acho que vc não me compreendeu bem. o que eu disse é que, mesmo waugh sendo um católico fervoroso, e a religião estando no centro do livro, ele parece nos dizer que nossa vida quem conduz somos nós. e a grande genialidade dele é não criar situações mágicas ou divinas pra salvar os personagens. nisso eu endosso embaixo: minha vida quem faz sou eu, errando e acertando, e nunca vou me ajoelhar esperar que algum deus venha me salvar. se errei, pago por isso.
capice?
:p


LILA
não dá pra comparar as bienais e mega-feiras que vcs têm aí com a nossa. mas aqui ela é no meio de uma praça repleta de jacarandas - floridos nessa época do ano - envolta por construções neoclássicas do início do século passado, entre museus e o cais do porto. é charme puro.
não quer vir, não?


GRAZI
tão pouco pode fazer tão bem, né?


TARCIO
que felicidade saber que esse blog com "ares sulistas" chega até vc de alguma forma. muito bom ter a sua presença aqui.

o livro foi reeditado pela Cia das Letras em 1991, mas te confesso que nunca achei essa edição. a que comprei agora ainda é a tradução antiga - A volta à velha mansão - editada pelo extinto Cículo do Livro.
a minissérie realmente era excepcional, algo raro em uma adaptação, além de ser fiél ao livro.
li agora que estão filmando para o cinema, mas com enfoque apenas no possível triângulo amoroso - ou seja, tiram o conteúdo que faz a história ser grande para ficar apenas com o sensasionalismo barato.


*

lila disse...

Dimples, eu tou falando de umas feirinhas molambentas que têm aqui no rio. Garimpando a gente acha cada raridade a preços módicos. Mas do Neil Gaiman foi num Saraivão mesmo. Eu amo pocket books =)

Olha, eu tou mesmo devendo uma visita à Porto Alegre. Quem sabe? ;)

Rosamaria disse...

Tua descrição é supimpa, Sean! Um dia ainda visito essa feira.

Gosto do Jeremy Irons. Amei em Perdas e Danos.

O ano de 1986 foi marco na minha vida, sempre que vejo essa data me lembro da reviravolta, boa, que foi.

marcia disse...

meu eu profundo, no momento de ressaca e moribundo, só leu Furo!, o que bastou para gostar do tom cáustico de Uó.
saudade do Círculo do Livro e suas edições de capa dura. precisa pegar senha na fila do empréstimo?

Graziana disse...

sim, as pequenas coisas, quando reconhecidas, fazem muito bem :)

Anônimo disse...

Este comentário sobre Waugh e Jeremy Irons me fizeram te entender melhor.As chaves da decifração são colocadas como leves marcas nas narrativas de si. Doce e ferina as vozes nos falam,mas escutá-las no texto é vício dos letrados que, somente assim, as compreendem,como eu, como uma das chave do mistério do outro.

Sean Hagen disse...

*

ANÔNIMO,
toda escrita traz a marca de quem a redige. tudo o que escrevo aqui diz quem sou e como penso. quem quiser me ler, é só juntar as partes fragmentadas.
se me exponho, obrigatoriamente sou interpretado. um sentindo construído pelo outro sobre as marcas que deixo de mim.
o curioso é saber que vc, mesmo anônimo pra mim, tem a capacidade de me entender melhor.
coisas do discurso.


*

Ana disse...

Bahhh, Xôn!
Realmente não tinha entendido que vc falava do destino que o autor poderia dar aos personagens!
Obrigada!
Beijos!

Maitê disse...

Oi Sean...

Bah, nunca vi essa minissérie, nem conhecia o livro. Mas esse cara com o ursinho é um sarro. Achei engraçado... Um abraço