24 novembro 2006

Volta, Almodóvar!


O diretor e suas musas: Blanca Portilo, Penelope Cruz, Yona Cobo, Carmen Maura e Lola Duenas

Se você é um daqueles fãs apaixonados por Almodóvar, pare por aqui. O texto que segue é o desabafo do descontentamento com o rumo que segue a obra do diretor espanhol, principalmente em Volver, seu último filme.

A narrativa é tipicamente almodovariana: mulheres fortes com laços de cumplicidade tão estreitos que nada consegue abalar. Os homens foram radicalmente banidos desse filme, e os únicos dois que ganham ínfimo destaque não passam de sexistas desprezíveis. Mas Penelope Cruz é a própria mulher coragem: mantém a filha e o marido com mil empregos e é o cimento que solidifica as relações com a irmã, a mãe morta e as amigas. Algo que a sempre excelente Chus Lampreave reafirma ao encarnar a tia louca que só volta à realidade quando vê a sobrinha – Penelope –, um símbolo do amor incondicional capaz de mudar destinos.
Chus Lampreave: talento pra comédia em pequeno papel de tia louca

As pequenas piadas que giram em torno desse universo reforçam que o amor entre mulheres é sem interesse e naturalizado. Como a galhofa da prostituta que não compreende para que serviço está sendo contratada, e reage de forma carinhosa: “não sabia que você gostava de mulheres, mas pra você eu faço um bom desconto”. O problema está justamente aí. Almodóvar retoma um estilo de roteiro que desenvolvia no início de sua carreira, nos anos 80, em que a piada era mais importante que o aprofundamento dramático. Por isso, talvez, a morte, fio condutor de toda narrativa, não esteja aqui para gerar catarse e desencadear transformações. A morte é tão banal quanto respirar, não é boa ou ruim, apenas existe.

É o que faz a morte trágica do marido de Penélope não abalar nem ela nem a filha. Almodóvar pinta o homem com tintas carregadas, mas transparentes, sem a profundidade que seria necessária para entendermos o porquê da morte dele. Ou a morte da tia, uma substituta da mãe ausente.

Olhos de Carmen Maura: força dramática sem dizer uma palavra

Então, se não há abalo emocional com a morte, “voltar” à vida é normalíssimo. Carmem Maura, sumida dos cinemas brasileiros há muito, surge como a mãe morta que volta para acertar as contas com a filha. Espantosamente envelhecida, mas com olhos gigantescos e brilhantes que ainda iluminam a tela, nada mais faz do que vagar como um espectro sem profundidade, sem ter o que dizer. Não há dúvida ou questionamento para essa aparição. Para Almodóvar as coisas estão dadas, nada consegue causar espanto no mundo, nem a morte, nem a ressurreição, nem a revelação do que seria o mais torpe crime dentro de uma família.

Essa questão Almodóvar foi buscar em Chinatown, clássico de Roman Polansky sobre a desintegração social. Mas se no filme de Polansky a revelação fazia o intrincado quebra cabeça ganhar sentindo, em Almodóvar não passa de uma homenagem à grande sacada do roteiro original. Homenagens que o diretor continua fazendo, tanto na tentativa de transformar Penelope Cruz em Sophia Loren, quanto na construção do filme, com ares de policial dramático com toques de noir.

Penelope: figuros à Sophia Loren, seios fartos e prótese nas nádegas

Almodóvar continua sendo um grande diretor de atores – apesar de Cruz não ser uma grande atriz – e constrói seqüências com rara habilidade – o amor feminino sendo engendrado dentro da cozinha, pelos alimentos. Mas abrir mão de aprofundar a vida dessas mulheres enfraquece Volver. Parece que está com medo de tocar fundo nas emoções, como fez em obras irretocáveis como Tudo sobre minha mãe ou Fale com ela. Ou começa a mostrar cansaço pela fórmula que ele mesmo criou, o que já ficou evidente em Má educação.


A cozinha como formadora do caráter feminino: comida como aconchego

O final, tão postiço quanto as emoções que tentou despertar, nada mais é do que um pastiche dos dramalhões familiares da Hollywood dos anos 50: mãe e filha, separadas por uma porta, aceitam o destino que lhes foi traçado. E corajosas, seguem para enfrentar a vida que ainda resta. Pena que contando seja muito melhor do que vendo.

11 comentários:

Graziana disse...

gostei muito de Fale com ela e fiquei curiosa por Volver, li algumas críticas sobre a atriz, enfim, mas não tinha lido uma crítica sobre este filme tão boa quanto esta tua ;)
quero ver se vejo o filme logo...

fernanda disse...

Assisti o filme, e confesso que gostei, não que eu seja lá uma fã de Almodovar, estou longe disso, mas sinceramente acredito que esse seja o estilo dele, detestei La Mala Educación, tive que assisti duas ou três vezes pra ver se eu estava certa, e conclui que realmente eu não tinha gostado, mas em Volver percebi apenas a poesia feminina e um certo ar de deboche do cineasta ao tratar das relações sociais perante a morte, a morte tornou-se banal; os jornais que lemos e atiramos em algum canto do sofá comprovam isso, eles estão cheios de mortes, de estupros, de corrupção, mas e daí? isso já não nos assusta mais. Mas voltar... a voltar é outra história, muito mais complicada que morrer, porque quando voltamos, revivemos coisas que um dia resolvemos guardar no baú das emoções perigosas, há sempre uma lágrima que rola em disparada carreira como se fosse levar tudo consigo... bom se fosse.

Sean Hagen disse...

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gracias, GRAZI.


FERNANDA
o que me incomodou foi que as experiências não abalam as personagens. parece que o mudo femino é tão forte e seguro quando está girando em torno do próprio umbigo que que nada é capaz de apagar o riso, a solidariedade e a esperança que só há entre mulheres.

nada, nem a morte nem a vida.

é como se almodóvar dissesse: "joga tudo pra cima que no final não dá em nada mesmo'.

ou seja, lutar pra quê?
viver pra quê?
sentir pra quê?

e sobre A Má educação, concordamos. também acho muito ruim e caricato.

volte sempre pra trazer novos instigamentos.



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cida disse...

Eu gostei de Volver e senti que a "volta" seria um reprise do que a Penélope havia sofrido. A "sina" se repete de mãe pra filha. Quanto ao assassinato do marido de Pénelope, penso que talvez tenha ficado em 2o plano porque o intuito era mostrar a tentativa do que ele fez e a morte foi um acidental.

Não sou uma conhecedora da obra de Almodóvar, mas nos filmes que assisti a figura masculina é sempre tipicada como sem caráter e a exaltação às mulheres é nítida.Gosto do estilo dele, pois sempre me faz refletir.
No caso de Volver, fico imaginando em como os estupros dentro da própria casa são tão frequentes, e que esses agressores nunca são punidos pela lei. Algumas vezes, como no filme, as mulheres preferem fazer justiça com as próprias mãos a se submeter a uma interrogação e a vergonha.

Falei demais, não foi?

marcia disse...

homens contendo o mal do mundo, e mulheres guerreiras que não precisam deles. um grande pastiche do que a vida não é.

mas, xuxu: "galhofa"? :P

Mary disse...

Voce contando transformou o "duvidoso" em no mínimo "curioso" pra se ver e refletir!rsrs
Gostei dessa controvérsia!rs...

Rosamaria disse...

Fiquei mais curiosa ainda pra ver este filme!

Tarcio disse...

Sean é crítico profissional?
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A primeira vez que pulei dentro do estranho mundo de Xôn foi lendo o texto [de quem sabe o que vê e como descrever] sobre o filme da ninfa da piscina; agora essa crítica de Volver!
Não morro de amores pelo Almodovar, até porque deixei de ver seus filmes considerados melhores (Fale com ela e tudo sobre minha mãe); recentemente vi a má educação, mais pelo interesse no apelo sexual de Gael menos pelo conjunto da obra do diretor [que perdeu pontos no meu conceito por não desnudar o moço ;-( ]...
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Sou um espectador sub-mediano, desacostumado ao consumo dessa arte, mas tento aprender alguma coisa com raros amigos interessados em cinema e com textos como o do mestre Sean.
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corta!

Maitê disse...

Mr Sean, que pena que eu não posso dar minha opinião sobre o filme, ainda mais metida do jeito que eu sou, mas eu adoro os filme do Almodóvar que eu já vi. Vi Ata-me, Tudo sobre minha mãe e Fale com ela. E eu gosto bastante. Ele tem essa coisa de ou vc ama ele, ou odeia. Eu gosto. Acho os filmes coloridos. A única coisa que eu não concordo foi que ele matou vários touros para filmar Fale com ela. Isso não curti... Abs

Sean Hagen disse...

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ROSA e MARY
assistam e nos contem depois.


TARCIO
sou um exibido cinematrográfico, só isso. não tenho vergonha de expôr minhas idéias, daí sai o que sai.

e vc vai pro cinema pra ver o cara pelado e esquece do filme. aí não tem crítica possível (:p)
Má educação é ruinzinho, bem ruinzinho. mas tenta ver os outros em vídeo, acho que vc vai gostar. almodóvar é um bom cineasta em uma má fase.

MAITÊ
acho que ele voltou a errar a mão e espero que seja só uma fase. o período "victoria abril" foi muito ruim. talvez se ele largar a penelope cruz e voltar com a carmen maura ou a marisa paredes tudo se resolva.



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Thelma disse...

My Xonzinho, tenho que discordar de ti.
O filme aborda o impressionante matriarcado que existe na Espanha - especialmente nas terras manchegas. Isso é uma realidade inegável. E Almodóvar é um manchego, que retratou - na minha opiniao, com arte e poesia - as imagens do que ele viveu na Espanha profunda. No meio, algumas fantasias deliciosas que sao características dele e daquela regiao (o filme foi feito em Almagro).
Eu adooooorei! Já vi duas vezes e verei outras....e cada vez vejo/sinto coisas distintas. Além disso, o filme nao é só Penélope Cruz com bunda nova. Isso é o de menos. Blanca Portillo, Lola Dueñes y Carmen Maura bordam seus papéis. E Estrella Morente canta divinamente. Todas elas curtiram fazer este filme. Acho que se nota, inclusive, pois estao super leves. Eu, sinceramente, aprecio os devaneios de Almodóvar e gostei muito deste filme. Mas respeito tua crítica - sem dúvida!
Quando vieres aqui, te levarei pelas bandas de Castilla-La Mancha para que tu vejas que o ambiente é exatamente como ele criou. Bjs.