22 novembro 2006

A volta ao velho quintal


"Não importa que a tenham demolido:

a gente continua morando na velha casa em que nasceu"
Mario Quintana

--------------------------------------------------------------------------------- foto: Sean Hagen
Fredi, meu sobrinho, evanece num espaço que não existe mais

Em sonhos eu continuo morando na casa em que nasci e vivi grande parte da minha vida. Esteja fazendo o que estiver, mesmo quando o assunto é alguma preocupação atual, a cena doméstica que se instaura é na casa da minha infância. Nunca sonhei com o apartamento em que moro hoje. E o mais estranho é que jamais estou dentro de casa, mas sempre no pátio.

Foi em meio as parreiras, ameixeiras, figueiras, pitangueiras, laranjeiras, amoreiras, bergamoteiras, pereiras, goiabeiras, araçazerios, caqueiro e romanzeiro que eu tenho as melhores lembranças. Lembro dos verãos muito quentes e luminosos em que o sol era filtrado pelas folhas e fazia rendados no chão. Do prazer de subir nos galhos e ter o luxo de escolher a fruta ‘perfeita’, aquela que tinha o tamanho, a cor e a consistência que eu queria no momento.

O pátio era enorme, em desníveis – alguns com dois metros de altura –, e proporcionava todo tipo de brincadeira. Era possível ficar horas escondido em algum lugar sem ninguém saber onde eu estava, o que era uma benção numa família grande com casa pequena.

No fundo do quintal, num barranco em declive acentuado que levava a um terreno que permaneceu desocupado por muito tempo, havia um taquaral. Ali, entre tantas coisas, a imaginação corria fértil, e as possibilidades eram ilimitadas. Era floresta e castelo, selva e labirinto, trincheira e casa particular.

Eu no galho da pereira: de cabeça pra baixo nada parecia anormal

Talvez por isso a imagem de lar se construa nesse espaço. Ali também era o lugar das festas, de toda família reunida em longos almoços de domingo sob o parreiral – a sobremesa se pegava levantando a mão. Das guerras d’água que transformavam tudo em lama. Dos lençóis sempre brancos, enfurnando feito velas, em tarde de temporal. Dos pés tocando a terra fresca, protegida pela sombra, em dias quentes de verão. Da geada que cobria o gramado e formava uma névoa espessa quando o sol surgia.

A casa em que nasci não existe mais. Nem uma árvore restou pra alimentar os passarinhos. Um estacionamento ocupa o lugar em que grande parte da minha vida aconteceu. Mas como um vampiro desterrado, insisto em buscar conforto no solo em que fui gerado. Nem que seja em sonho.

27 comentários:

Rosamaria disse...

Sean

Como é importante sermos felizes na infância, a gente nunca esquece. Eu vejo sempre em sonhos a minha casa e a da minha vó, às vezes misturadas com a minha atual. Saio de uma peça de lá e entro numa daqui.
No pátio da minha infância tb era grande,tinha árvores frutíferas e uma vaquinha jersey que era cuidada por um preto velho, muito meu querido, seu Alberto, que tirava leite direto numa caneca com TODDY pra mim. Meu irmão construiu uma casa bem onde ela ficava.
Lembranças...que bom!

Graziana disse...

que texto bonito.
tinhamos uma goiabeira enorme lá em casa, brincava dentro dela!
tinha um belo pátio para brincar, mas agora não há goiabeira nem espaço, a família continua grande, mas concentrada num espaço menor...
não tem mais pra onde correr, nem goiabeira pra se esconder...
lembro com saudades dos doces que minha avó preparava com as goibas também ;)

marcia disse...

adorável.

cida disse...

Adorei as tuas lembranças. Legal teres aproveitado bem a tua infância.
Penso que essas recordações nos faz valorizar muito mais cada dia na nossa vida, pois sabemos que nada é eterno.
A foto de cabeça pra baixo mostra que continuas o mesmo santinho de hoje.

Mariana disse...

Tocou fundo. Também tenho uma casa que vive dentro de mim...


BEijo.

Zeca La-Rocca disse...

tu sabes q o q me levou a cursar Arquitetura foi a saudade da minha casa onde vivi minha primeira infância?
Uma das exigências para eu subir no carro e ir embora foi meu pai prometer q construiria outra igualzinha lá em SSepé.
Mas até hj, "a minha casa", é aquela casa lá de Lavras. não importa quem more lá...

Anônimo disse...

sempre dou graças a deus por não estar mais morando lá quando meus pais venderam a casa onde passei minha vida toda. só de pensar em vê-la vazia já passo mal.

outro dia passei em frente para ver como tinha ficado a reforma dos novos donos. desviei o olhar.

Klo

Thelma disse...

A Marcia expressou a palavra adequada: adorável!

Maitê disse...

Sean. Realmente, acho que muita gente busca asilo nas memórias da infância. Eu morei quase 17 anos em uma casa e como é interessante ver as pequenas transformações. O pé de laranja que parecia tão alto, a cachorrada correndo. Era muito legal. Eu já cheguei a ter 6 cachorros ao mesmo tempo... Abs

marcia disse...

e o prematuro gosto por relógios, que esqueci de comentar.

Gean G. Silva disse...

Tocante!! a foto do menino faz a gente viajar!fez tbm lembrar uma fala do famoso filme Casablanca ,Quando Ilse ( Ingrid Bergman..)pergunta para o Rick(Humphrey Bogart): "E nós? " ,Ele responde: "Nós teremos sempre Paris"Então, vc terá sempr e seu quintal, embrenhado na mémoria!

Ana disse...

Me identifiquei tanto, com cada detalhe...
Que sensação boa, a de alguém sentir igual!

Sean Hagen disse...

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ROSA
o meu pátio era grande.
o seu era uma chácara.
é, boas lembranças da infância são como aquela velha poupança que sempre salva na hora do aperto.


GRAZI
você como uma geminiana tipicamente canceriana sabe do que falo.

MARCIA
relógios, xuxu?
essa o véio não entendeu.


CIDA
sepre fui zen.
já meditava desde pequeno.
por isso sou assim.
notou, né?


MARIANA
do que te conheço vc tem uma casa, a casa da vizinha, da avó, da tia, do primo, da amiga...vc tem uma cidade aí dentro.
- sem falar do ônibus, esse deve ser especial! -
;)


ZECA
a nossa casa era tão feia e desconfortável que isso nunca ia acontecer comigo.


KLO
ver todas aquelas árvores, os recantos, as flores transformadas em um estacionamento é dose, viu? é levar uma facada no meio da testa.



THELMA
adoráveis são vc e a Piu.



MAITÊ
crescer dá nisso: os espaços encolhem, a gente se agiganta.


GEAN
a foto é do meu sobrinho - hoje com quase 20 anos -, mas ela traz muito mais forte o sentimento que sinto do que qualquer uma minha. até porque fui eu quem fiz, então, fica mais impregnado ainda.


ANA
dividir sentimentos é achar um espaço no mundo.
eu fico tão feliz quando encontro.
é como voltar aos mesmos lugares que a gente gosta.
é voltar ao velho quintal da infância.



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TARCIO VIU ASSIM disse...

Ei, do sul, dizem que a gente aprende a escrever bem, lendo textos de qualidade. O que acabo de ler é uma lição indispensável.
Obrigado.
Abraço sertanejo.

Sean Hagen disse...

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TARCIO
escrever de coisas que a gente conhece torna tudo mais fácil.
valeu, amigo sertanejo!


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Aleksandra Pereira disse...

Minha casa dos sonhos nunca é a que moro, mas aquela onde fui mais feliz. Não que não seja feliz hoje, mas a casa onde passei minha adolescência foi a que experimentei mais liberdade (talvez por antes só morar em apartamentos, casa mesmo só a que nasci, e não me lembro muito dela, só do pé de carambola).

Sempre que passo pelos lugares onde já morei, não consigo deixar de olhar. Posso fazer isso zilhões de vezes, de cansar a pessoa que estiver comigo, se for sempre a mesma. É como se um pedacinho meu ainda estivesse ali, como se pudesse me ver correndo ao brincar de Taco na rua, ou sentada com minha melhor amiga munida com minha faquinha de plástico (lembra aquela que vinha nos rocamboles da Pulmann) para cortar carambola madurinha.

Delícia.

Beijo

Lila disse...

Dimples, eu sou completamente apaixonada pelas suas fotos de crianças. É fofura e sapequice demais pra minha pessoa. ;)

Luís Galego disse...

tocante...regresse aos meus 8 anos...obrigado e um abraço desde Lisboa

> [ eRRuD!tO ] ... disse...

como as árvores marcam a infância, não é? E quando é assim, continuamos mais ligados à natureza, mesmo depois de não subirmos mais nelas...
belo texto :o)

Rosamaria disse...

Voltei aqui agora e o errudito me fez lembrar de uma árvore que tinha no terreno em frente à minha casa. Tinha um lugarzinho tão bom, eu me acomodava tão bem, que às vezes sentava lá para estudar.

> [ eRRuD!tO ] ... disse...

rosamaria e sean, tinha um tempo em que eu adorava escrever com caneta na casca de uma goiabeira, lá no sitio dos meus avós. depois de um tempo ela trocava de roupa e todos os textos, rabiscos e desenhos iam embora...

Gean G. Silva disse...

Pessoal, como bem disse o Errudito , as árvores são presença importante na infância, não tinha pensado nisso! Quando sonho ,volto pra casa do meu avô(que é minha casa emocional) mas volto para dentro da casa, já o Sean diz que faz visitas ao quintal..Agora , esta das árvores é nova , e vai absorver minha mente por um longo tempo!Obrigada Errudito por vc ter aberto esta janelinha na minha percepção!

Sean Hagen disse...

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ALEKSANDRA
mas acho que é isso mesmo, a idéia de felicidade se crstsliza onde passamos dias felizes.
volte sempre!


LILA
tempos mortos que não voltam mais.


LUÍS
obrigado eu por saber que uma lembrança da infância pode atarvessar o oceano e chegar ate você.
espero te encontra aqui mais vezes.


REGES
obrigado 'mestrando do dedo verde'!


REGES e ROSA
árvores cultas, é isso?


GEAN
quando vocÊ chegar a alguma resposta pra esse questionamento, volta pra nos contar.
ou cria um blog e conta lá pra gente.


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Mary disse...

Minino...por aki uma correria só de trabalho, mas cheguei a tempo de me deleitar com seu texto e relembrar meu passado! Aff q benção isso, alguem q nos faça voltar no tempo e reviver a infancia e a doçura de coisas simples, pequenos detalhes!Minha casa tinha um quintal com muitas flores e uma goiabeira! O doce q minha mae fazia me lembro até hje do cheirinho!rsrs...q viagem! Obrigada por essa viagem!!hehe.Bjus

Rosamaria disse...

Eu fiquei com árvores na cabeça! Tanto, que essa noite sonhei com os dois ciprestes do visinho da minha mãe. Eles eram muito altos e morria de medo cada vez que ventava,fazia barulho e eu achava que iam cair. Isso quando eu era criança. Pois qual não foi minha surprêsa quando há uns poucos anos atrás chego lá e um tinha caído numa tempestade. O outro continua firme!

As árvores da minha infância daria um post!

Ah, Sean, era um pátio muito grande, mas não era chácara, não!

Anônimo disse...

Do alto desta pereira caiu uma fruta podre... Quem balançou o galho? Quem foi atingido? Foi de propósito????

Pulha Aquere Hagen

Sean Hagen disse...

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pulhas têm coração?
ops, caiu a fruta.
podrona.



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