29 novembro 2006

Xô, escumalha

Quando quem deveria ser o parâmetro da moralidade de um país, acintosamente mostra o quão imoral são as estruturas de poder, resta pouco a fazer. Dois mil 978 funcionários do Judiciário ganham em média R$ 3.500 acima do teto estipulado em lei, segundo relatório do Conselho Nacional de Justiça. Essa pequena diferença corresponde ao salário de um professor universitário federal com titulação de mestre e dedicação exclusiva. Um profissional que investiu pesado na carreira acadêmica, paralelamente à trajetória profissional.

Mas as coisas sempre podem ficar pior, dependendo do ponto de vista. Esses R$ 3.500, de um total de R$ 24.500, correspondem a 10 salários mínimos, valor irreal e inalcançável para grande parte dos brasileiros.

É aviltante ver que a imundície que se faz com a honestidade do cidadão continue acontecendo década após década, governo após governo. E ao menor sinal do corte das regalias nababescas, de enquadrar quem rouba descaradamente, a categoria ameaça entrar em greve e paralisar toda a estrutura do país. É o velho método da extorsão, prática comum e já incorporada nessas situações: não mexam em nossas benesses ou a bandidagem vai acabar solta nas ruas.

A piada é tão velha quanto a indignação: quem é o bandido nessa estrutura? Quem é preso ou quem manda prender?

Ética e moralidade têm que ser assunto de discussão do jardim da infância à mesa de bar. Ética e moralidade deveriam estar presentes no currículo de qualquer profissão, deveriam ser tão naturais quanto falar de futebol ou carnaval. Ok, estou exagerando, mas a única saída pra botar o trem nos trilhos vem de nós, cidadãos que pagam impostos e elegem governantes que fazem leis.

Quando ética deixar de ser um dom dado a poucos, e se tornar a consciência de muitos, talvez o Judiciário ponha pra fora a escumalha que denigre a instituição. Juízes e funcionários da instituição moral suprema de um país, mas que não têm nenhum pudor em roubar a possibilidade de uma vida justa e digna para a imensa maioria dos brasileiros

9 comentários:

Maitê disse...

Não sei se vc viu, mas um cara ganha 30.000 reais. Que beleza, né? Devia ter entrado pra faculdade de Direito, assim como meu pai e meus dois irmãos. No caso, só minha irmã trabalha no legislativo, mas está longe de ganhar essa fortuna. Ou ela está escondendo o jogo, hehe

Abs

marcia disse...

pois é.
pois é.
é.

> [ eRRuD!tO ] ... disse...

Por essas eu me coço todo prá declarar de vez: sou um pessimista. Mas por enquanto ainda dedici continuar dizendo que a luz está lá no fim do túnel. Inicio a campanha pela troca da expressão "3 poderes" por algo mais apropriado, tipo: "3 podreres".

Maroto disse...

o que me perturba é não enxergar um modo de a gente, maioria exploradésima, dar um xô que funcione e mande essa escumalha para onde ela merece estar :X

TARCIO VIU ASSIM disse...

Quanto tempo é necessário para se mudar esse modo de ser do brasileiro, e viabilizar a saída do poço pelo único caminho possível: a educação. Quanto?
-
Não estaremos vivos até lá com certeza.
-
Abraço sertanejo.

Graziana disse...

isso é uma vergonha, como diria o brizola...

nem sei se ainda há saída.. mas concordo sobre discussão da ética...não só na universidade, nas escolas também, visto a quantidade mínima de pessoas que consegue chegar a universidade no Brasil...esta discussão tem que ser feita por todos e com todos (utopia?)

jcarlos disse...

Solidário com tua indignação, me pergunto: e daí? A má gestão da coisa pública e o desprezo pela maioria excluída das benesses a que a elite julga ser merecedora por direito divino e oligárquico fazem parte de 5oo anos de história do brasil. Física e emocionalmente marcados por suas conseqüências e, diante da banalidade de suas ocorrências, o povo se tornou resignado. Claro, sempre há os que gritam e esbravejam diante de tais “imoralidades”, principalmente quando são noticiadas no Jornal Nacional. Volto a perguntar, e daí? Por mais que sejamos os indignados, a soma das indignações não implantará um quadro de moralidade mínima que nos permitisse viver com parte do orgulho com que vive o cidadão sueco.
Quanto ao Judiciário, ele está longe de ser “a instituição moral suprema de um país”. Juízes e funcionários são apenas membros de um órgão do Estado – cujos salários são pagos pela sociedade para que façam cumprir leis estabelecidas por aqueles que para isso foram escolhidos por nossos votos.
Concordo que pelo fato de desempenharem um papel social de relevada importância, todos seus atos deveriam ter significância ética, mas... estamos no brasil.
Quanto à pretensão de tornar Ética e Moral matérias constantes de currículos escolares com a finalidade de fazer com que o comportamento ético paute a vida de cada um de nós, acho bastante meritória mas de pouca eficácia para alterar o comportamento do brasileiro.
É a prática que socializa o bicho homem. Ele introjeta os valores do mundo que vivencia cotidianamente. E, em um mondo cane, de exploração selvagem e desigualdades brutais no qual “poucos têm o direito de fazer tudo o que lhes aprouver e os demais o dever de obedecer”, por mais lindos que sejam os princípios éticos, eles serão apenas princípios .
A meu ver, são duas as possibilidades para solucionar o problema.
Ou temos um acesso (ataque repentino, manifestação súbita; crise) guevarista e partimos para o foco insurrecional, de peito aberto e arma na mão, para implantar um estado de moralidade pública e comportamento individual ético – coisa que há mais de 30 anos está fora de moda, ou partimos para uma Assembléia Constituinte, por meio de um colégio independente eleito especialmente para ela, para que não se legisle em causa própria e para acabar com boa parte dos tais “direitos adquiridos” por todo tipo de corporação. Ou seja, a solução é passar o pano, apagar quase tudo, e começar de novo.

Se estiveres me achando um tanto cínico, me perdoa, são os muitos anos de vida.
Um abraço e continua mostrando tua indignação sempre que possível.
Jcarlos

(A citação é de m.carta)

Sean Hagen disse...

*

JCARLOS
que bom encontrar internautas que não tem medo de escrever e de se posicionar.
bem-vindo seja!

no final das contas, acho que falamos da mesma coisa e queremos o mesmo.

só um adendo: não acho que ética deveria ser uma disciplina, mas permear todas as disciplinas - por isso falei que deveria estar presente do jardim de infância à mesa de bar. crianças são bichinhos espertos, aprendem rápido, percebem nuances. quando se é mostrado o certo e o errado e o porquê, fica registrado.

meu blog sempre deixou clara a posição política que tenho - e o desencanto com a ética que o governo no qual militei instaurou -, por isso acho melhor deixar as armas quietas no canto delas. a ética que elas trariam seria UMA, e acho o assunto mais complexo do que isso.

a segunda opção seria mais factível e democrática: idéias e experiências variadas em debate pra um bem comum.

querer mudanças, e crer que isso é possivel, aproxima sobremaneira nossas posições, independente da postura política que expressemos.

abraço e volte sempre.

Mary disse...

Pra mim a coisa mais triste é a "inversao de valores" q assistimos no quotidiano, na tv, e ai me pergunto: - Ética ainda existe? Seremos capazes de ensinar nossos filhos sem ter exemplos vivos ? bah...triste isso!sniff