29 dezembro 2006

Tempus fugit

Uma das grandes sacadas de Einstein foi nos mostrar que o tempo é relativo. Quando estamos em situação de risco, um segundo parece uma hora. Mas quando estamos nos divertindo pacas, uma hora passa num segundo.

A idade também tem essa capacidade de “deformar” nossa percepção. Quem não foi um adolescente que sonhava queimar ‘longas’ etapas pra ter liberdade e o controle da própria vida? E que um mês de espera parecia um ano?

Pior ainda pra quem sempre quis tudo pra ontem, pensou sempre no depois e agiu como se o mundo fosse acabar agora. Sim, esse fui eu. E atenção para a ênfase no pretérito: fui. O tempo assumiu um novo parâmetro agora. Quanto menos tempo vejo pela frente, menos corro pra fazer aquilo que não fiz – e talvez nunca farei. E o melhor é que o grau de culpa é zero nesse processo, dou ao tempo o tempo que ele merece – ao fundo, Doris Day trina a cafona “Que sera sera” no meu ouvido.

Tem algo mais gay do que Doris Day e mangá japonês?

O tempo em 2006 foi um misto de rapidez e vagareza. Não foi bom nem ruim, apenas foi. O valor somos nós quem damos, definindo o que foi prioridade ou desperdício. É claro que o tempo com os amigos foi menor do que eu gostaria, as conversas no orkut breves demais, as risadas nem sempre intensas. O prazer hedonista de viver sempre vai sair em desvantagem, é a relatividade de Einstein em ação. Mas fico pensado que só pode haver tempo estendido em relação a tempo contraído. E toda a pressa e correria só existem em contraponto a sossego e paz.

Dois mil e sete já está na porta, e não quer saber de digressões: quer entrar, quer agir, quer acontecer. Que venha, e seja justo no rateio da relatividade. Ou que propicie pelo menos alguns segundos sublimes, que de tão especiais, façam valer os 365 dias do ano.

O futuro nos espera.
E eu espero vocês lá.

28 dezembro 2006

Mama Rambo

Com esse olhar meigo, pára até caminhão desgovernado

A magnífica Yeda Crusius ainda nem assumiu o governo do Rio Grande do Sul e já encaminhou projeto de aumento de impostos para a Assembléia. Temerosos com o jeitinho “meigo” e democrático com que a futura governadora trabalha, alguns secretários da equipe nem esperaram a posse pra pular fora. Como tudo pode ficar melhor, Yeda anda às turras com o vice, um empresário de extrema direita que não confia no poder administrativo da representante que escolheu como líder.

A tucana derrotou o petista Olívio Dutra com o discurso de que seria uma “mãe” para os gaúchos, e que saberia administrar as contas da “casa” como nenhum blochevique é capaz. E a gauchada que prega a filosofia de “hay PT soy contra”, entronou a rainha do lar pelos próximos quatro anos.

Que o Rio Grande vem apresentando um forte crescimento negativo nos últimos períodos, ninguém duvida. A estagnação financeira e a falta de investimentos são inegáveis. Mas aumentar impostos, como a história já provou, só piora os índices, nunca os reverte. Estamos na contramão do país, e longe dos outrora tão afamados índices de desenvolvimento humano e da economia de ponta. Passado não enche a barriga de ninguém, e a idade média continua insistindo em bater à porta pra pedir passagem.

Quem está fora do Rio Grande - e acompanha política - deve estar dando gargalhadas. Se o trailler é tão bom assim, imagina quando o filme estrear. Mas história de humor negro só é boa quando rimos à distância, não quando fazemos parte dela.

27 dezembro 2006

Labuta


Para aqueles me tomam como inútil, que acham que só sei postar besteira nesse blog, eu provo que sei fazer alguma coisa, sim. No Natal, os confeitos foram todos de minha lavra.

Tá, sei que gosto e textura não aparecem na foto, mas o que importa é enganar os trouxas.

- Grazi e Rosa, confeiteiras oficiais entre os blogueiros, que me perdoem -

24 dezembro 2006

Papai Noel existe?
- explicações derradeiras-

Quanto mico alguém pode pagar tentando provar uma teoria?


A minha pergunta foi respondida com outra: “você acha realmente que ele existe?”. Eu não deveria ter mais do que cinco anos, e era o mais jovem de uma trupe de oito irmãos e primos. Lembro de entrar esbaforido no quarto da minha mãe pra botar a história a limpo, já que eu estava sendo incessantemente massacrado a pouco menos de uma hora da chegada do tal velhinho.

Peguei-a na boca da botija, tirando presentes do armário. Provavelmente a resposta que ganhei veio da surpresa de ter sido descoberta, ou da falta de imaginação. Nunca pensei que o inimigo estivesse na trincheira, mas confesso que não sei se fiquei mais abalado pela perda do sonho ou por dar o braço a torcer quando retornasse pra sala.

Quem estiver com peninha de mim, pode mandar um presente, não se acanhe. Menos a Rosa, que já mandou, de Santa Maria, uma primorosa caixa de bombons feitos por ela, carregados de sabor e carinho. E detalhe: a caixa é toda estampada com fotos minhas e de amigos do Orkut. Fiquei de queixão caído imaginando quanto tempo ela levou pra planejar e fazer isso. É o tipo de sentimento que falta palavras pra agradecer.

Por gestos como o da Rosa é que ainda creio que a magia do Natal existe. Nem que seja pra abraçar alguém que você está estremecido ou pra dizer o quanto as pessoas fazem diferença na sua vida. Na minha, muitas fazem. E você que está lendo esse texto, pode ter certeza que está incluído. Porque cada um toca no outro e age como um agente de transformação, mesmo que nada diga ou nada faça.

Saber que o outro existe talvez seja o verdadeiro sentido do Natal.

23 dezembro 2006

Papai Noel existe (final)?

20 dezembro 2006

Papai Noel existe III?

19 dezembro 2006

Gafanhotos natalinos

Você sabe que dezembro chegou quando as lojas ficam entupidas de gente e o centro da cidade se torna um safári. Toda a atenção é pouca para não ser devorado pelos animais que cutucam, dão cotoveladas e coices, e ainda olham de cara feia. Agem como uma nuvem de gafanhotos famintos, arrasando tudo por onde passam.

Essa também é a época de bares e restaurantes ficarem com ares de sexta-feira em plena segunda. É tanta gente a comemorar a fraternidade e trocar presentes de amigo secreto, que não tem espaço pra quem só quer comer ou beber algo, função primeira do bar. E se o bebuns de sempre já são um inconveniente, os bebuns de fim de ano são piores ainda. Eles gritam duas vezes mais alto, ocupam duas vezes mais espaço e são duas vezes mais inconvenientes. Putz, como tem chato nesse mundo.

E os flashes pipocando sem parar pra todo lado? Até cego precisa botar óculos escuro. O pior pé-sujo se transforma no castelo de Caras, com bocas e trejeitos pra todo lado. Sem falar na roupa domingueira, nos brilhos e excessos e na cafonália dominante. Como diria minha sobrinha de 14 anos, tudo “poser”.

Mas tem um lado bom: ver as caras de espanto ao abrirem o tal presente do secreto amigo, não tem preço. É um misto de dor de barriga com soco no estômago, congelado em um sorriso dourado pálido. E pode escrever: todo amor fraternal – ou carnal, dependendo do amigo revelado –, tem de passar pela prova dos nove que é o rateio da conta. Entre ofensas mútuas de quem comeu mais ou bebeu além do acreditável, sempre é perigoso voar presentes em direções opostas.

Por isso tenho como regra nunca dar objetos cortantes. Nem rolo de macarrão.

17 dezembro 2006

Azul profundo


A história também é feita de acasos e enganos. O futebol, de oportunismo. Adriano só marcou porque Fernandão, a estrela do Inter, arregou e foi substituído aos 31 do segundo tempo.

A superioridade do Barcelona era evidente. O número de faltas cometidas pelos sacis atesta isso. Mas quem pode brigar com o acaso?

O chiqueirão da Beira-Rio pode ser vermelho. Mas a terra continua azul.

16 dezembro 2006

Amor

A primeira vez que a vi não levei fé. Era sem graça, acanhada, um visual meio desbotado e sem vida. Encontros às cegas são perigosos, mas uma amiga havia me garantido que valia a pena. E que seria inesquecível. Foi.

Faz dez anos que a gente se conhece, e não tem dia que não se veja. Tudo o que ela faz pra mim está bom, não reclamo de nada e ainda elogio. Quer saber: ela é perfeita.

Ontem, sem motivo aparente, tomei o maior pé na bunda que poderia imaginar. Ganhei um adeus frio e irremediável, e a notícia de que ela parte quinta-feira. Vou dizer pra vocês, nesse tempo todo fui de uma fidelidade canina. Só de lembrar do cheiro que ela tem meus sentidos se aguçam, e uma melancolia profunda toma conta do meu corpo.

Não sei onde vou comprar pão a partir de sexta. Não há outra padaria que faça igual, simplesmente não há. Nessas quase quatro décadas que carrego nas costas, nunca tinha comido um pãozinho assim: totalmente crocante por fora, com um tom dourado intenso na parte superior e laterais suavemente claras. Por dentro, uma massa densa, pesada e fofa ao mesmo tempo, de um branco tão alvo quanto as nuvens. Quentinho, tem cheiro de acolhimento, de carinho, de amor incondicional que só um pãozinho de 50g pode dar.

Quem souber de uma padaria que faça um pão assim, me avise. Pode ser feia e desbotada como a minha, não importa. Tudo o que quero é me apaixonar novamente.

13 dezembro 2006

Natal ecológico

Minha mãe tem a filial de uma farmácia dentro de casa. É remédio pra tudo, dos mais sofisticados e caros, aos mais simples e caros. Muitos já perderam a validade, já que foram tomados esporadicamente por longos períodos. Há pouco fiz uma triagem e fiquei na dúvida: onde colocar tudo isso, quem recolhe?

Pedi a ela que perguntasse a um médico, e o bom doutor prontamente respondeu “jogue na privada”. Wow, como? Fui até uma farmácia pra tirar a dúvida com um especialista, que indicou a solução: “privada neles!”.

Mesmo na minha grande ignorância, eu sei que qualquer droga jogada na água contribui grandemente para a poluição, além de criar resistência do corpo aos agentes ativos dos medicamentos usados em vários tipos de enfermidades. Essa semana um relatório divulgou a impressionante quantidade de progesterona, hormônios e outras substâncias fármacas presentes na água que abastece a cidade de Campinas, em São Paulo. Uma realidade que pode ser comum a todos os rios e lagos brasileiros.

Agora descobri que uma rede de farmácias de manipulação de Porto Alegre – Pharma&Cia – recolhe as substâncias vencidas e dá o destino que elas merecem. Custa fazer isso? Acho que não. Coisas que estão ao meu alcance eu faço sem pestanejar. Procuro consumir produtos ecológicos e classifico cuidadosamente o lixo seco, principalmente os plásticos, os menos biodegradáveis. Até papel de bala é separado.

Mas confesso que têm horas que me dá vontade de chutar o balde e não separar porcaria nenhuma. Cada vez que eu saio na rua e vejo essas medonhas árvores de natal feitas com embalagens pet, tenho vontade de pegar um isqueiro e brincar de São João. E o pior é que as garrafas estão por toda a parte, até penduradas nas árvores como se fossem bolas natalinas.

Tenho a maior simpatia pela onda eco-verde. Mas agüentar os eco-chatos xiitas e cafonas é dose pra mamute. Esses mereciam ser obrigados a usar roupas feitas só com peles de animais em extinção e ter a casa mobiliada com madeiras nobres. Com todos os acessórios e utensílios domésticos feitos de garrafas pet recicladas.

11 dezembro 2006

Papai Noel existe II?



Mais da série Papai Noel existe?

10 dezembro 2006

Sem medo do esgoto

O cara rouba uma moto, dirige na contramão e pula dentro de um rio-esgoto pra salvar uma criança de três anos que está sendo afogada pela mãe. Tudo isso na caótica São Paulo, indo trabalhar e no dia do aniversário.

Vai ter senso estratégico, agilidade e coragem assim no inferno. Agiu como nos filmes de ação em que o personagem se esconde em uma vida pacata pra encobrir que é um agente secreto ultra qualificado.

Adriano Levandoski de Miranda não quer ser chamado de herói. Mas mostrou que é bom, muito bom. Talvez a alcunha de James Bond fosse mais apropriada.

- a notícia, da Folha de São Paulo, está nos comentários -

06 dezembro 2006

Bate, Sean Connery, bate!






















A blogsfera como representação da sociedade é uma premissa óbvia, não preciso nem explicar. Tem o que há de melhor e de pior. A diferença é que, em grande parte das vezes, só é preciso deletar os blogs que você não gosta pra esquecê-los. Na vida real é mais difícil, os chatos assombram em carne e osso e grudam em você – apesar de já ter presenciado casos em que os neuróticos virtuais invadem até o blog de suas vítimas pra despejar ranço e mau humor, sempre com a desculpa de serem politicamente corretos, é claro.

Encontrar um blog em que as idiossincrasias da vida estão presentes, em que a capacidade de rir de si mesmo e dos outros é a tônica, está cada vez mais raro. Em compensação, o crescimento dos “certinhos castradores" é enorme. Quando o bom humor dá lugar à patrulha ideológica, em que tudo na vida deve ter um propósito específico, em que todos os sentidos são literais e não há espaço pra nuances, a histeria se institucionaliza.

Já tive que usar bombinha pra poder respirar em ambientes assim, e olha que não sou asmático. Acabo de ver meu xará Sean Connery ser linchado porque teria dito, 20 anos atrás, que as mulheres ficam tão histéricas – novamente o conceito de histeria – que só um tapa conseguiria botá-las no lugar, às vezes. É claro que o post tirou isso de contexto e não temos o todo, só a parte. Sem falar que a entrevistadora assume a postura de juiza, com Connery sendo irônico com a agressividade da jornalista. Mas arrepiei os cabelos com as respostas das feministas raivosas, todas querendo a morte do eterno 007.

Sinceramente? No fundo, o que muitas dessas donas politicamente corretas querem é um homem que banque uma postura mais forte e tenha coragem de assumir isso, como Connery faz. Não falo aqui de violência ou abuso doméstico, algo totalmente condenável e cruel, bem longe disso. Mas dos velhos papéis sociais de macho e fêmea que se perderam na poeira do tempo. Muitos comentários enfatizavam “ainda bem que tenho um homem bonzinho” – ao que meu “sensor de ironia” disparou o alarme no mais alto som.

Chauvinista, eu? Digam o que quiserem, mas a estocada final está no mesmo blog, dois posts abaixo. Ao promover um concurso de “blogueiro mais sexy”, essas mesmas mulheres tratam os homens como carne de açougue. Fazem exatamente o que condenam: coisificam o homem, assim como o homem sempre foi acusado de coisificar a mulher. Isso é ruim? Não sei, é preciso entender os contextos e analisar os limites e conseqüências. Às vezes pode ser até bem divertido. O enjoado é ver essa moral de cuecas – calcinha, nesse caso – tomar conta do pedaço.

Por essa e por outras vejo que o bom e velho Nelson Rodrigues continua vivo como nunca. Mas Sean Connery corre sério risco de vida.

04 dezembro 2006

Do sangue e outras histórias

O arrivismo dos yuppies em acumular um milhão de dólares antes dos trinta era tônica geral dos anos 80. A batida dançante e melódica da new wave embalava as pistas acompanhada de uma explosão de cores, cortes de cabelos, óculos, tênis e manias mil. Cada um fazia as mais estranhas combinações com a desculpa de ser uma forma de expressão.

Não nego que surfei nessa onda cítrica, mas uma zona do espectro também transitava pelo lado negro do sol. Anos em que Ronald Reagan e Margaret Tatcher ditavam o poder, e a ditadura deixava Sarney como uma realidade incômoda.

Em Porto Alegre, bairros boêmios como Bom Fim e Cidade Baixa inundavam as ruas com punks, darks, góticos, hippies e toda uma fauna exótica. A cidade fervia com sessões de cinema que varavam a noite, botecos, bandas alternativas e gente, multidões, que caminhava de um lado pro outro sem saber aonde chegar. The Cure e Siouxsie and The Banshess não saíam do meu toca-disco. Também foi o momento de descobrir a literatura gótica de Drácula e Frankenstein, os contos de Edgar Allan Poe e Sheridan Le Fanu. Nas madrugadas, Vincent Price, Boris Karloff e Christopher Lee invadiam a TV.

Foi nessa época que comecei a correr contra o tempo quando o sol dava sinais de despontar no horizonte. Era uma luta inglória chegar em casa antes que o primeiro raio trouxesse o dia. Se a luz me pegasse no meio do caminho, não tinha volta: o sono dava lugar a um zumbi que vagaria até a chegada da noite, quando outra vez eu ficaria ligado – e sem dormir novamente. Manias que carrego até hoje, junto com o fascínio pelo universo dark.

Escrevi tudo isso só pra dizer que revejo minhas posições e estou cansado de perder litros de sangue em rituais satânicos. Não é justo com um simpatizante da causa. É só me descuidar que pequenos vampiros literalmente me devoram, entoando uma ladainha macabra nos meus ouvidos: zzzzzzzzzzzziiiiiiiiiuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiimmmm... À luz do dia, depois de uma batalha entre a vida e a morte, faço a contabilidade das horas mal dormidas: alguns dos meus inimigos jazem mortos nas paredes e lençóis, mergulhados numa poça do meu precioso líquido vermelho. Como pode um mosquito tão pequeno roubar tanto sangue do meu corpo?

Está na hora de eu voltar a ser new wave.

02 dezembro 2006

Chuchu bilionário