04 dezembro 2006

Do sangue e outras histórias

O arrivismo dos yuppies em acumular um milhão de dólares antes dos trinta era tônica geral dos anos 80. A batida dançante e melódica da new wave embalava as pistas acompanhada de uma explosão de cores, cortes de cabelos, óculos, tênis e manias mil. Cada um fazia as mais estranhas combinações com a desculpa de ser uma forma de expressão.

Não nego que surfei nessa onda cítrica, mas uma zona do espectro também transitava pelo lado negro do sol. Anos em que Ronald Reagan e Margaret Tatcher ditavam o poder, e a ditadura deixava Sarney como uma realidade incômoda.

Em Porto Alegre, bairros boêmios como Bom Fim e Cidade Baixa inundavam as ruas com punks, darks, góticos, hippies e toda uma fauna exótica. A cidade fervia com sessões de cinema que varavam a noite, botecos, bandas alternativas e gente, multidões, que caminhava de um lado pro outro sem saber aonde chegar. The Cure e Siouxsie and The Banshess não saíam do meu toca-disco. Também foi o momento de descobrir a literatura gótica de Drácula e Frankenstein, os contos de Edgar Allan Poe e Sheridan Le Fanu. Nas madrugadas, Vincent Price, Boris Karloff e Christopher Lee invadiam a TV.

Foi nessa época que comecei a correr contra o tempo quando o sol dava sinais de despontar no horizonte. Era uma luta inglória chegar em casa antes que o primeiro raio trouxesse o dia. Se a luz me pegasse no meio do caminho, não tinha volta: o sono dava lugar a um zumbi que vagaria até a chegada da noite, quando outra vez eu ficaria ligado – e sem dormir novamente. Manias que carrego até hoje, junto com o fascínio pelo universo dark.

Escrevi tudo isso só pra dizer que revejo minhas posições e estou cansado de perder litros de sangue em rituais satânicos. Não é justo com um simpatizante da causa. É só me descuidar que pequenos vampiros literalmente me devoram, entoando uma ladainha macabra nos meus ouvidos: zzzzzzzzzzzziiiiiiiiiuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiimmmm... À luz do dia, depois de uma batalha entre a vida e a morte, faço a contabilidade das horas mal dormidas: alguns dos meus inimigos jazem mortos nas paredes e lençóis, mergulhados numa poça do meu precioso líquido vermelho. Como pode um mosquito tão pequeno roubar tanto sangue do meu corpo?

Está na hora de eu voltar a ser new wave.

20 comentários:

Graziana disse...

mais um dos males do verão - mosquitos :S

TARCIO VIU ASSIM disse...

Salve, professor!
Mais uma aula grátis.
Obrigado. ;-)

fernanda disse...

nos anos 80 eu ainda usava fraldas, mas esse texto me fez lembrar uma história que meu pai contava quando eu era menor, sobre um casal que passeava na redenção, e o cara todo galante disse pra moça, "olha lá, um pato punk!", era um marreco!

e quanto aos mosquitos... o zuuuiiim é pra matar, bem na hora do soninho, ng merece, já não bastava o calor infernal, ainda tem esses mosquitos-fêmeas querendo alimentar a ninhada com o nosso sangue.

abs

Maroto disse...

genial. Fui lendo e pensando 'onde será que ele vai chegar com essa conversa?'

A fim de torná-lo ainda mais ilustrado nas lides mosquitais, pergunto: já conhece os mosquitos aqui de São Léo? Suponho que tenha havido alguma mutação no pedaço, pois nunca antes nas minhas andanças por esse mundo, vasto mundo, eu tinha visto mosquitos tão grandes e tão resistentes. Você esvazia uma lata de inseticida no bicho, ele fica branquinho mas continua voando. A única chance de sobrevivência da raça humana está em eles serem lentos - vamos ter que defender o nosso espaço a tapa.

Maitê disse...

Nem me fale Xôn. Sou alérgica e fui num casamento esse final de semana. Voltei toda picada e isso fica coçando, coçando, parece até sarna... hehe

Abs

> [ eRRuD!tO ] ... disse...

Suely tem razão. Mosquitos em São Léo são tratados à Toddy, como diz a Ângela.

marcia disse...

vc vai ficar muito fofo dormindo num mosquiteiro.

ederson disse...

Pelotas é um verdadeiro inferno de mosquitos. Na casa da minha mãe é preciso encher os quartos de venenos fortíssimos antes de dormir, ou ficar com o ventilador ligado na velocidade máxima. Se a pessoa levanta para ir ao banheiro de madrugada, tem que torcer para voltar viva.

Lila disse...

Dimples, você pode ser new wave o quanto quiser, mas PELO AMOR DO QUE TE SEJA MAIS SAGRADO nada de ombreiras, combinações esdrúxulas de cores e vestimentas de cintura alta. Eu evitaria padrões de xadrez também, é complicado acertar com eles. E nada de topete, sabe? É sempre bom manter a dignidade.

E esse comentário abriu zilhões de precedentes pra você ir me chamar de "coolzona" e ficar destilando sarcasmo pra cima de mim. Não que me importe, só observando mesmo.

Sean Hagen disse...

*


GRAZI
mais isso...


TARCIO
vou começar a cobrar, hein?
(:p)


FERNANDA
os anos 80 foram uma das maiores agressões visuais que já houve. mas o lado bom é que absolutamente tudo valia.


SUELY
esses aí conheço, não.
mas no fundo, são todos terroristas.
e o pior eu não contei: tenho uma alergia brutal a inseticida, não passo nem perto. então, é matar no tapa mesmo, quando acerto.


MAITÊ
ainda bem que eu não alérgico aos mosquitos. se fosse, tava frito.


REGES
pára de dar toddy pros mosquitos e vai gastar em livro, doutor.


MARCIA
que meigo esse momento. vou ter que usar pijaminha pra combinar ou posso continuar dormindo como sempre?


EDERSON
vamos cruzar os mosquitos de pelotas com os de são leopoldo. depois a gente vende como arma biológica pro exército.


LILA
como vc é coolzona!
lamento, beibe, mas ser cafona é um dos meus charmes.
ou deficiências, que seja.
e se não usar topete, posso usar mullet?


*

Lila disse...

Mas, Dimples, eu já disse que ser cafona está super in! Agora solta o Julio Iglesias na vitrola e vem dançar um bolero, beibe.

Ana disse...

Heheheheh!
O Ederson tem razão! O paraiso dos mosquitos é aqui! Tenho tela em todas as janelas! Simples!
Mas a idéia de cruzar pode ser ótima! Quem sabe uma geração mosquitos diabéticos? Eles não sobreviveriam aqui! :)
Muito show este teu lado dramático de contar tuas peripécias!

Luís Galego disse...

não pude deixar de achar graça ao seu post....porque revela também grande sentido de humor....vou estando atentos aos próximos

vagem again disse...

TUDO, menos mullet, plis...

Maitê disse...

Sean. Eu até tinha escrito um textão uma vez sobre o Cannibal Holocaust. Aquela música é a coisa mais brega que eu já vi em toda minha vida. O filme é muito nojento. Até pra época, era uma coisa que a gente podia achar revolucionário para o gênero terror. Mas hoje, todo mundo mostra tudo nos filmes. Bah, eu acho o filme mais nojento do mundo. E dizem que há coisas muito piores nessa turma de diretores italianos.Abs

lila disse...

Dimples, eu ia comentar lá no post do almodovar, mas você não ia ver, então vai aqui.

Assisti Volver hoje e me caiu total a ficha: é filme sobre os peitos da Penélope Cruz. Isso não é ruim nem bom, mas cata como eles estão sempre em evidência. Rola close, comentário, olhada maldosa, tudo que ator principal ganha. E faço coro com o comentário da mãe dela: ´´vc sempre teve os peitos grandes assim. Penélope?´´

marcia disse...

pode continuar como sempre. aliás, deve.

Nanachara C. disse...

aqui nao há mosquitos, lero-lero
:P

Sean Hagen disse...

*


LILA
mesmo estando na moda, consigo apenas ser cafona.
- e pode comentar no post original, sim. o blogger avisa a entrada -


ANA
eu, dramático?
imagina, desde quando?
(:p)


LUÍS GALEGO
venha sempre.
não prometo risadas, mas um sorriso amarelo talvez - existe essa expressão em Portugal? -


MIMI
minha foufa!
um dos meus traumas foi não ter usado mullet.
eu via o bonno vox com aquele puta rabão e ficaca com ciúmes.
quando meu cabelo cresceu, não tive coragem de cortar, e usei todo comprido mesmo.


MAITÊ
concordamos, então.

MARCIA
pode?
então tá.


NANACHARA
pernilongos lero-lero são os piores.
cuidado.



*

Felipe disse...

Vela de andiroba neles!
:)