30 dezembro 2007

Certezas

-----------------------------------------------------------------------------------------------foto sean hagen

Somos urdidos mais por regularidades do que por irrompimentos. Acordamos todo dia na mesma hora, voltamos pra casa pelo mesmo caminho, começamos a escovar os dentes pelo mesmo lado, repetimos as mesmas marcações. Até que um dia simplesmente mudamos. Ou porque desconectamos da mesmice, ou porque descobrimos uma nova maneira de agir. E quando essa ruptura ganha corpo, duas questões se colocam: quem é esse eu desconhecido que ousa quebrar a rotina do já-sabido? Quem é esse ex-conhecido que causa estranhamento por reagir de forma diversa ao esperado?

Certezas imutáveis podem ser tão enganadoras quanto mentiras. A repetição mecânica esvazia a verdade que as torna vivas. São como fotos que amarelecem com o tempo contando sempre a mesma história. Há certezas que precisam ser destruídas para formar verdades mais coerentes. Mesmo que seja um processo frankensteinsiano, em que partes do todo são costuradas com fragmentos de vida e átimos de tempo.

Dois mil e sete finda mais uma passagem temporal nas verdades que carregamos vida a fora. Propiciou a chance de perpetuar certezas, mas também de destruir outras tantas, num movimento nem sempre coerente: saber o que realmente deve ser confirmado e o que deve ser descartado.

Não foi nada fácil pra mim, com certeza. Foi um período de perdas, de erros, de dores e decepções. E ao mesmo tempo, de reconfirmações, descobertas e encontros. Um ano que causou um rebuliço nas verdades que eu tinha como certas, mas que apontou novas perspectivas.

Espero que 2008 seja um ano marcante pra todos nós. Não apenas pelas coisas grandes que possa proporcionar, mas pela oportunidade de nos fazer melhores. E que pelo menos esta certeza seja irrefutável em 2009.

22 dezembro 2007

25/12

Luzes e velas.
Brilhos.
Doces.
Presentes, constrangimentos, carências.
Beijos.
Mesa farta, dor de estômago.
Desejos.
Saudades.
Dor por quem não está presente.
Vontade de estar junto.
Alegria por estar junto, pertencimento.
Saber o que se quer e o quanto se gosta.
Desculpa pra se permitir sentir, pensar, pesar, rever.
Catarse
Epifania.
Prazer em estar vivo.

18 dezembro 2007

Esperança

Dezessete de dezembro, sete da noite, centro de Porto Alegre. A China é aqui. Alguns bilhões de pessoas deixam marcas no meu corpo. Sacolada. Cotovelada. Ombrada. Cara feia. Há também os objetos não identificados. Percebo que cometi um erro ao decidir comprar uma caneta sete dias antes do Natal. Erro. Resolvo sair à francesa. Abro espaço como dá para chegar até a fila do ônibus. Longa. Irregular. Parece uma jibóia lagarteando após engolir o boi. Imagino o quanto vou apanhar ficando em pé no corredor. Chega o ônibus. A fila se move. Lentidão. Vida de gado. Outro ônibus se aproxima. Sorte. Corro e faço uma nova fila. Espero. Espero. Espero. Os olhos saltam das órbitas. O ônibus abre as portas distante de mim. A denominação sociológica de pessoas assalta o coletivo. Fila? Coisa pra trouxa. Não quero ser um. Corro. Grito pro fiscal: “não se respeita mais a fila, não?”. Desprezo. Nada além é o que recebo. Mais desprezo. Duas mulheres que trancam a entrada me fitam: “quem ele pensa que é?”. Penso que sou alguém raivoso. Aproveito a saída de um companheiro septuagenário e passo à frente. Tomo o que é meu. Meu lugar. Minha primogenitura. Nem ouço o que dizem. Sou imune a xingamentos. Sento no banco mais alto. Único que deixa a cabeça ao nível da janela aberta. Ar. Preciso dele como um peixe de água. As duas mulheres sentam atrás de mim. Têm vozes agudas. Irritantes. Estão excitadas. Minto, são surtadas. Falam sem parar. Mil ligações de celular por minuto. O toque é medonho. Apenas um tom menos estridente do que a voz da dona. Outra voz se levanta. Minto, dá cambalhotas. Outro alguém em outro celular. Voz grave. Fala por mais de meia hora. Não cala. Adeus miolos. Dele. Fritos. Assim espero.Tragédia. Cresce um som de lata. Vem se juntar às surtadas, ao celular estridente, ao cara que fala sem parar. Vejo um véio. Um véio com um radinho de pilha dos anos 70. Daqueles que parece um tijolo. Deve ser socialista. Obriga todos a ouvir o que ele ouve. Minto. É surdo. Minto outra vez. O rádio é dos anos 50. Não funciona direito. Chia feito um carioca com a língua presa. O véio não é carioca, mas nasceu nos anos 20. Traz um palito no canto da boca. A cada nova rádio, o palito pula de lugar. Ballet. Desespero. A aflição toma conta do meu corpo. Penso em mortes. Assassinatos. Esquartejamentos. Quase me excito. Sinto que o sol de 28° gera pensamentos obsessivos. Miolos torrados - e não são do cara do celular. Um puta engarrafamento faz o ônibus andar por 30 segundos. A cada dez minutos. Vontade de tirar a roupa. Sauna. Lembro que pareço uma lagartixa. Não posso. Nunca uma caneta – não comprada – saiu tão cara.

Feliz Natal pra vocês.

14 dezembro 2007

Metáfora

----------------------------------------------------------foto Sean Hagen
O mar tem sido uma presença constante em meus sonhos nos últimos dias. Sempre me vejo em longas caminhadas por praias desertas, sol forte, calor intenso e aconchegante. Ando, algumas vezes, com a certeza de que estou acompanhado, e travo um diálogo com uma pessoa que não vejo. Alguém que pensa como eu, que dá a ilusão de me conhecer bem, que me é natural - e que não sei quem é, mas a proximidade intensifica a sensação de estar apenas esperando o momento certo de sair das sombras e tomar um lugar ao sol. Hoje sonhei que caminhava por várias praias - algumas desertas -, todas belíssimas. Quando decidi entrar no mar, parei num ponto intensamente revolto, com ondas furiosas, compactas, prontas a engolir quem estivesse disposto a enfrentar sua força. Não pensei nisso, apesar de ver isso. Apenas fiquei lá, sendo jogado de um lado pro outro, empurrado pelo movimento da água em direção à praia para, no momento seguinte, ser fisgado violentamente pelo empuxo. Tudo absolutamente natural, sem medo ou insegurança: era eu, no meio do turbilhão, olhando a praia e mantendo a cabeça fora d’água. E ouvindo um silêncio tepidamente ensurdecedor.

11 dezembro 2007

Drácula

Sou uma criatura noturna. Quase sempre prefiro a noite ao dia. Gosto do aparente silêncio das madrugadas, de dormir tarde, de viver um tempo que parece só meu. As pessoas estranham quando digo que ando dentro de casa em completo breu. Como um morcego, meu “sonar” diz onde estão as coisas, e transito sem transtornos por lugares que conheço bem – salvo quando algo fora de rota causa uma surpresinha.

Como ontem. Ao apagar a luz da cozinha depois de jantar, encontrei algo inesperado na sala: um passarinho voando em círculos, totalmente desnorteado. Convivo bem com esses bichinhos, que volta e meia entram e fazem a festa, seja pra deixar um “presentinho” na roupa limpinha do varal, seja pra pegar comida ou roubar material pra fazer o ninho.

O interessante é que, excetuando os passarinhos mais novos, com baixo senso de direção, os velhos sempre acham a saída. Resolvi dar uma mãozinha e pegar a unha o emplumado, mas notei que ele tinha asas diferentes, grandes demais, meio translúcidas quando interpostas à luminosidade vinda da rua. Isso sem falar na cabeça desproporcional.

Então acendi a luz pra ver o que era. E nesse momento, fui brutalmente agredido: um morcego, do tamanho do drácula, veio com tudo na minha direção. Desviei o corpo e ele passou pelo lado, fazendo uma curva e voltando a mil pra cima de mim outra vez. Ficamos nesse balé por um bom tempo, até que ele deu um rasante e foi direto pro meu quarto.

Já lidei com alguns morcegos - nunca dentro de casa -, e todos eram pequenos como camundongos; alguns até engraçadinhos. Mas esse vampiro do cão era enorme, nunca tinha visto um tão grande. Realmente não dava pra dividir a cama com ele, e perdi uma hora vasculhando tudo, atrás de cada buraco, pra ver em que toca havia se metido. Como a janela tava aberta, acho que ele tomou o rumo da noite.

Mais tarde, olhando TV, fiquei imaginando de onde veio esse bicho. E como numa conexão telepática, ele reapareceu pra rir da minha cara - ou pra tomar o meu sanguinho, vá saber. Almofadada pra cá, controle remoto voando pra lá, ele saiu corredor a fora. E eu perdi mais duas horas vasculhando a casa pra tentar descobrir onde diabos a coisa se escondeu. Claro que não achei, tanto pode ter ido embora quanto ainda estar escondido atrás de alguma coisa.

Agora, um aviso: se eu deixar de ver meu reflexo no espelho, não me convidem pra comer massa alho&óleo. Posso ficar meio descontrolado.

08 dezembro 2007

O massacre da serra elétrica

Ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinhóiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinhóiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim.
Sete e meia da manhã de sábado e a carnificina já tá alta.
Se deus existe, o cara que manipula essa bosta é brocha.
E toma uns cascudos do bombado amante da mulher bozauda e adúltera.
Sem falar que lava as cuecas freadas do rival – a mão.
Corno.

01 dezembro 2007

Penduricalhos

Homem sai só com a carteira no bolso.
Mulher não sai sem levar a casa dentro da bolsa.
Será que é a maldição da inveja do pirulito freudiana?

27 novembro 2007

Das boçalidades

O intragável Jô Soares está sendo investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Não, não é piada, é isso mesmo. O MP do Rio, com tanto problema real pra cuidar, resolveu perder tempo com bobagem. Diz que o apresentador pode ter manifestado preconceito em uma entrevista sobre mulheres de tribos da Angola.

Jô Soares é uma das figuras mais boçais da televisão. Só perde pro Faustão, Galvão Bueno e congêneres, porque realmente tem uma bagagem cultural grande – que usa pra ser, justamente, boçal.

Querendo ser engraçadinho a qualquer custo, e errando feio a mão, Jô constrói piadas fazendo comentários de mau gosto sobre minorias e situações trágicas. Homossexuais são seu alvo preferido, talvez como uma forma de aplacar o eterno boato sobre sua possível homossexualidade.

O que mais choca nessa entrevista, que está disponível no youtube, é o começo: meninas de 20 anos mutilam o clitóris para pressionar com mais força o pênis e competir com crianças na faixa dos oito anos, as preferidas dos homens.

Sou da opinião de que ninguém tem o direito de entrar na casa dos outros e dizer como se deve viver. Então, não sou eu que vou julgar os costumes e hábitos de outros povos, sua cultura, mitos e crenças. Mas mesmo assim, frente a essa realidade – pedofilia e mutilação genital –, é difícil fazer piada. E é aqui que os piores comentários aparecem.

Piada politicamente correta não existe, só os chatos e rançosos não aceitam isso. Mas tudo tem limite. E Jô Soares não tem freio na tentativa de se construir como um intelectual despojado e charmosinho. Merecia o limbo e a apatia, nada além. Quando o MP entra em cena pra “investigá-lo”, faz justamente o contrário: dá 15 minutos de fama a uma celebridade moribunda. E liga os holofotes sobre um boçal que merecia ficar esquecido nas insones madrugadas.

23 novembro 2007

O mundo gira

Conhecer é maravilhoso.
Japaratinga se chama paraíso.
O acaso.
Banho de mar numa praia deserta.
Paraíso é um quarto com vista pra Barra.
Espinhos de pinaúna no pé.
Confiar é surpreendente.
Sorvete de coco fresco.
Ladeiras de Olinda.
Caranguejo.
Percussão tomando o corpo.
Acarajé e punheta na praça.
Cores.
Queijo coalho e carinho.
Água azul cristalina.
Pôr-do-sol no farol.
Abraço forte numa missa em ritmo afro.
Banho de mar à noite.
Gírias.
Um almoço regado a bode.
Perder-se pra se encontrar.
Um papo cabeça.
Carne de sol.
Um olhar cúmplice.
Sol alto às cinco da manhã.
Passinhos inusitados de samba.
Arroz de polvo e lagostim.
Jogar pedras na água.
Empatia.
Lagartixa queimada de sol.
Risadas.
Rabo de tatu.
O tempo não pára.

O erro?
Não se permitir.

12 novembro 2007

O pulso ainda pulsa

Este blog ainda respira.
E o que escreve nele, também.
Mais uns dias e volto.
Podem crer.

06 novembro 2007

...

Sabe quando você não tá nada a fim de fazer uma coisa, e fica se obrigando a achar que é legal, que vai ser bom? E de tanto repetir, finalmente se convence de que vai valer a pena, e de que no fundo é uma grande oportunidade? E com isso ganha uma injeção de ânimo pra correr atrás, procurando alternativas pra que tudo funcione bem? Até que ouve o velho e irritante nã-nani-nanã, o que você quer e como você quer não podem ser feitos?

Pois é.

30 outubro 2007

Os gênios de Caras

Diz aí: é ou não um gênio essa mulher?

Nosso querido e mumificado arquiteto Oscar Nyemeir entrou na lista dos “cem maiores gênios vivos” feita por uma tal de Synectics, empresa de consultoria global – ãh? O último comunista está bem, ficou em oitavo lugar, por usar de forma pioneira o concreto armado.

A tal Synectics, malandramente, diz que o conceito de genialidade é difícil de definir. Talvez por isso George Soros apareça em terceiro, e Matt Groening, em quarto. O mega-especulador Soros enricou jogando com os mercados, e marketeiramente, fazendo polpudas doações “filantrópicas” pra limpar a barra dele. Groening criou os hilários Os Simpsons, personagens tão iconoclastas, que uma milionária grife vende a estampa deles até pra marca de papel higiênico. Isso é ser gênio? Legal.

Mas vamos em frente com a genialidade. O músico Brian Eno, o rei da mela-cueca chique, ficou em 18°. Steven Spilberg (27°) deve estar se amaldiçoando por ter perdido uma posição pro Dalai Lama (26°), mas bem mais feliz do que Prince, o rei do ego, que ficou em 34°. O homem do olho de vidro e da música camaleônica, David Bowie, ficou com o 68° lugar, atrás da atriz-bife, Meryl Streep (56°).

Injustiça mesmo, foi dar o 96° a Dolly Parton, a cantora brega-country dos-maiores-peitos-e-lábios que o mundo já viu. A mulher lutou a vida toda pra parecer uma boneca-inflável-com-ubres-que-grasna (não os ubres, a mulher), e termina desse jeito, quase no último posto desta mimosa lista de Caras? Não é justo. Alguém tem que pedir recontagem. E dignidade.

**A lista completa está anexada nos comentários deste post**

25 outubro 2007

Desprezo

Presenciei duas cenas inusitadas num mesmo dia. Em comum, algo desconcertante: violência.

Pela manhã, da sacada do meu apartamento, vi um guri de uns 20 anos enfiar a mão na cara da namorada. Voou cabelo pra todo lado, ela choramingou, ele gritou, e sentou a mão outra vez. O choro enjoadinho se fez mais alto, e só foi interrompido pela minha pequena e baixa voz vociferando pro valentão dar uns tapas em alguém do tamanho dele. O cara surtou, ameaçou me jogar uma pedra, e tive que delicadamente mandá-lo tomar no cu, já pronto pra descer. Mas não precisei. Ele saiu a passos largos, xingando, e sumiu da vista. Ela? Correu atrás, clamando por ele e tentando segurá-lo pela camiseta.

No final da tarde, estou esperando pra atravessar o cruzamento de duas movimentadas avenidas, quando começo a ouvir gritos. Um mendigo, nitidamente bêbado, segurando uma garrafinha de água – água? –, batia boca com um homem de uns 70 anos sentado numa cadeira de ferro, dessas de abrir, em frente a uma banca de revistas. O velho gritava a plenos pulmões “sai daqui, vou chamar a polícia”, mas o mendigo insistia e chegava próximo. Até que o velho se levantou, fechou a cadeira e investiu contra o outro, que o máximo que conseguiu fazer foi jogar o conteúdo da garrafa no agressor. O velho deu umas boas cadeiradas no indigente – ainda lembro do barulho: bóing, bóing –, gritando alto, cheio de bravata, até que o mendigo foi chorar as mágoas pra um incauto que esperava o ônibus na esquina oposta.

Todo mundo viu a cena, as janelas ficaram apinhadas de gente. O velho, todo pimposo, estava em êxtase, gritando e se vangloriando, dizendo que tinha defendido o espaço, apesar do dono da banca, um homem de uns 40 e poucos anos, tentar dizer que não era bem assim, que o bêbado era “cliente” antigo e que não precisava ser salvo.

Por mais de uma vez, quase me meti nessa briga também, achando que o “velhinho indefeso” estava sendo importunado; mas lembrei da outra, e de como a garota correu atrás do agressor, e me segurei. O que fiz bem. O difícil, pra mim, é compreender o que faz um cara de 20 bater na namorada pra se mostrar macho, e um cara de 70 bater num bêbado pra se mostrar macho. Obviamente que não tenho uma resposta, mas esse é um tipo de gente que expressa uma cultura da qual tenho profundo desprezo. E da qual quero profunda distância.

20 outubro 2007

O nada e a máquina de refrigerante

Acabo de descobrir que “chindogu” é uma palavra japonesa que designa algo como “instrumento esquisito”. Incorporo essa relevante informação à minha vida, graças a uma extensa reportagem do The New York Times – disponível nos comentários desse post – sobre disfarces japoneses para evitar assaltos. Assim como fico sabendo que uma japa espertinha criou uma roupa que imita a aparência de uma máquina de refrigerante.

Eu explico: quando os ladrões vieram calmamente pela rua anunciando seu nome – acompanhado do RG – como a próxima vítima, é só sacar a roupa, vesti-la confortavelmente e voilà: chindogu neles, que nunca vão perceber que você está ali em baixo. Sacou?

Não sei se amei mais o Japão por nos oferecer essa novidade ou o TNYT por mostrar algo tão relevante – com um repórter que oferece várias explicações sobre o assunto.

Pensando bem, acho que vou ficar com o Japão. Achei muito meigo os pezinhos da “máquina”, algo quase Hello Kitty. É a ternura combatendo a brutalidade, o amor vencendo a dor e se abrindo como uma flor.

Mas confesso que fiquei preocupado com uma coisa: e se os gatunos ficarem loucos pra molhar a garganta depois de procurar exaustivamente a esperta vítima que desvaneceu? Aonde eles vão depositar as moedinhas é o de menos, meu medo é de onde vai sair a coca-cola.

16 outubro 2007

Bom dia

Se o tempo não tem avesso,
por que eu acordo sempre no lado errado do presente?

11 outubro 2007

A Bicha do Demónio, pá

Não fou fã de besteirol, muito menos esses que fazem paródias de filmes. Mas não posso negar que dei boas risadas com essa versão lusitana da chatíssima trilogia O senhor dos anéis. O sotaque é puro charme, e as expressões lusitanas para o universo dos "paneleiros" e "fufas" são hilárias.

Quem tiver saco e banda larga, têm mais cinco filminhos que completam a série. Atenção especial para 'A filha sai do armário', mais hilário do que este, mas bem maior.

Gandalf e a prima da Bicha do Demónio
A queda de Lídia
A filha sai do armário
O funeral da Bicha
A última das Bichas do Demónio

07 outubro 2007

São Pedro, o cheiroso

A mandinga era certa, segundo minha tia: um sabonete jogado sobre o telhado limpava o tempo. São Pedro, o guardião das chuvas, recolhia o regalo todo feliz e parava de mandar água das nuvens.

Com a quantidade de chuva impressionante que tem caído nos últimos meses no Rio Grande do Sul, meu vizinho resolveu ser radical: arremessou uma tesoura pro alto. Ou ele quer cortar esse aguaceiro de vez ou assustar são Pedro. De qualquer forma, não tá funcionando muito. O santinho deve ser mais valentão – ou mais preocupado com a vaidade – do que ele imaginava.

02 outubro 2007

Imparcialidade

Aipim gúcho é assim: grande, grosso e pesado.
Eita!
Uol Últimas Notícias
Aposentado Santo Rodrigues, 84, colhe com a ajuda de vizinhos raiz que pesa cerca de 80 quilos, com 22 mandiocas, a maior delas de 70 cm; o aposentado, que mora em São Borja (RS), diz que não usou adubo.

28 setembro 2007

Fogueira

Ela rala e corre e cobra e vai e exige e manda e quer e impõe e grita e bufa e xinga. Mas no final, que vive melhor é ele.

Sexismo à parte, quem afirma isso é essa pesquisa aqui, não eu - entenderam? não sou eu.

Relaxem, garotas, o patriarcado não foi construído em um dia – mas por favor, parem de odiar os pais. Esse sentimento só faz mal a vocês mesmas -

26 setembro 2007

Pois é

Eu admiro a ingenuidade. Assim como a credulidade. Deve ser tão bom quando a gente não consegue ver o óbvio que machuca; acreditar em imagens absolutas, em bondades absolutas, em idoneidades absolutas. Ficamos livres de sofrer ou ter que dar explicações. É um idílio perfeito.

O problema é quando transpomos isso pra política. E não é nada difícil perceber que grande parte dos cidadãos que se posicionam no panorama político deste país se expressa assim, ingenuamente, crendo só naquilo em que quer ver. Por isso há uma grande verdade dominante, aja o que houver: o diabo no mundo é vermelho; o único mal brasileiro em 500 anos de história carrega uma estrela amarela no meio da testa; se a sujeira do PSDB – e de qualquer outro partido, sejamos justos – foi magistralmente guardada embaixo do tapete, numa bela orquestração de uma parcela do poder, da sociedade e da mídia, foi, na verdade, culpa do PT. Tudo é culpa do PT.

A máfia dos exames e ambulâncias nunca existiu antes de 2003. Nem a das empreiteiras. Nem a dos livros escolares superfaturados e das merendas estragadas. Mesmo que réus e evidências digam que essas falcatruas já existiam antes. É tudo ilusão.

E agora, mais um senhor idôneo confessa que a compra de votos, de afinidades e de ajuda dentro do Congresso já existiam – vejam só – no governo do príncipe FHC – matéria da Folha anexada abaixo.

Eu, como um cínico contumaz, que se declara petista e enfia o dedo na ferida do próprio partido, quero respostas: quem da alta cúpula do PT não foi competente pra abafar isso, hein?

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FOLHA DE SÃO PAULO
Quinta-feira, 26 set. 2007

AZEREDO AFIRMA QUE AJUDOU
NA CAMPANHA DE FHC EM 98

Segundo senador, dinheiro arrecadado
foi usado por comitês do ex-presidente

Sobre Walfrido, o tucano diz que o ministro não tinha o papel
de coordenador, mas que "participou da campanha ativamente"


ANDREZA MATAIS
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Pivô do escândalo que colocou o PSDB sob suspeita de ter se beneficiado do valerioduto, o senador Eduardo Azeredo (MG) afirmou que prestações de contas de campanhas políticas, no passado, eram mera "formalidade", que não "existia rigor". Azeredo disse que teve "problemas" ao prestar contas, mas que a campanha envolvia outros cargos e partidos. Disse que contou na eleição para o governo de Minas, em 1998, com o apoio do ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais), inclusive na captação de recursos. Segundo o senador, Walfrido não tinha o papel de coordenador, mas participava de tudo. Azeredo afirmou ainda que o dinheiro arrecadado para sua campanha -oficialmente foram gastos R$ 8,5 milhões- foi usado para campanhas de deputados e senadores da sua coligação e, até mesmo, do então candidato à Presidência Fernando Henrique. "Ele não foi a Minas, mas tinha comitês bancados pela minha campanha."

FOLHA - A Polícia Federal diz que houve caixa dois na sua campanha...
EDUARDO AZEREDO - Tivemos problemas na prestação de contas da campanha, que não era minha só, mas de partidos coligados, que envolvia outros cargos, até mesmo de presidente da República.

FOLHA - Que "problemas"?
AZEREDO - Essas prestações de contas no passado eram mais uma formalidade, é hipocrisia negar isso, não existia rigor. O que se conclui é que no caso de Minas, a minha [prestação] foi a mais alta naquele ano, foi ela que se aproximou mais da realidade. E se concluiu que houve recursos a mais que não chegaram a ser formalizados.

FOLHA - O sr. acha que sua campanha custou quanto na verdade?
AZEREDO - Os R$ 8,5 milhões que informamos e alguma coisa a mais que teve do empréstimo que eu não autorizei. Mas nunca perto dos R$ 100 milhões que estão falando.

FOLHA - Qual foi a participação do Walfrido na campanha do sr.?
AZEREDO - Ele não foi coordenador [da campanha], o coordenador foi o ex-deputado Carlos Eloy, mas é evidente que o Walfrido participou da campanha ao meu lado ativamente.

FOLHA - De que forma? Na parte política ou na captação de recursos?
AZEREDO - Participou da campanha como um todo.

FOLHA - A PF achou papéis em que o ministro fez anotações de valores arrecadados. Ele tem conhecimento dos valores não contabilizados?
AZEREDO - Acho que ele é quem deve explicar. Cabe a mim dizer que ele participou da campanha, mas não era coordenador.

FOLHA - Mas o senhor disse que ele participou de toda a campanha, o que me faz concluir que também da parte de arrecadação de dinheiro.
AZEREDO - É evidente que ele tinha relações com pessoas que podiam apoiar a campanha.

FOLHA - Com relação ao empréstimo que o ministro Walfrido disse que pagou em seu nome por dívidas de campanha. O sr. pediu para ele?
AZEREDO - Como não tinha e não tenho até hoje posses que me garantam tirar empréstimo bancário maior, o Walfrido é que tirou o empréstimo, com meu aval para quitar a dívida.

FOLHA - O sr. vai pagar o ministro?
AZEREDO - Não. É uma dívida que foi quitada porque ele é meu amigo, continua sendo e tem condições de poder arcar com uma dívida dessas.

FOLHA - Com relação ao PSDB, o governador José Serra não quis comentar sobre o senhor.
AZEREDO - Sempre tive apoio do partido e tenho total confiança de que terei o apoio necessário no momento necessário. Serra me deu não só solidariedade, mas apoio também.

FOLHA - O dinheiro da sua campanha financiou a de FHC em Minas?
AZEREDO - Sim, parte dos custos foram bancados pela minha campanha. Fernando Henrique não foi a Minas na campanha por causa do Itamar Franco, que era meu adversário, mas tinha comitês bancados pela minha campanha.

FOLHA - Por que o senhor acha que esse assunto voltou à tona agora?
AZEREDO - O PT colocou esse assunto no seu congresso porque não está satisfeito com a presença de um ministro [Walfrido] que não seja do seu partido e como compensação para o desgaste que o partido sofreu pela aceitação do STF de abertura do processo do mensalão.

20 setembro 2007

Filme plástico

Brazil, o filme (1985), de Terry Gilliam

Ser velho hoje em dia é um momento de muito prazer pra uma parcela da população. Até mesmo porque o conceito de velhice mudou. Sem essa de alguém de 70 anos ser visto com decrépito. Quem pode pagar plano de saúde, alimentar-se bem e se cuidar, taí aproveitando a vida e se divertindo. O que faz muito bem.

Ontem, véspera de feriado em Porto Alegre, o shopping Bourbon – que tem uma sensacional livraria Cultura e um novo e moderníssimo teatro – estava lotado. Um show de tango de um grupo de Buenos Aires e bilheterias vendendo ingressos para o Disney no Gelo faziam uma multidão se aglomerar nos corredores.

Buenas, é aí que morava o perigo e não percebi. Gastei umas três horas de felicidade plena no meio dos livros e, ao sair, juro que pensei estar no labirinto dos horrores. A quantidade de plástica mal feita por metro quadrado era de arrepiar o cabelo. Nunca vi tanta boca com silicone, tanta bochecha esticada, tanto olho arregalado, tanta tintura acaju em barbas e cabelos, tanta maquiagem tentando soterrar rostos marcados pelo tempo.

Quero envelhecer com energia, mas sem virar um pastiche de mim mesmo aos 40. Se fizer plástica, será pra melhorar, não pra assustar. É um preço muito alto perder a própria identidade pra tentar iludir os outros de que a idade não passou. Fico imaginando qual a sensação de se olhar no espelho e não se reconhecer. De sempre explicar que aquela pessoa na foto antiga é você, apesar de parecer um outro completamente diferente. Vaidade é bom, mas essa que deforma me apavora.

Tenho curiosidade em saber como a mente processa isso. Já contei aqui que nos sonhos ainda tenho a casa em que nasci e vivi grande parte da minha vida como referencial de lar. E essas pessoas, qual o referencial que usam quando sonham, os rostos originais ou os fabricados? Será que alternam um e outro como se fosse uma dupla personalidade? Como lidam com um “eu” que é um “outro”?

Pior foi ver no meio daquele circo de horrores que muitos dos que nem chegaram aos 40 já são clones dos de 70 – ou seria o contrário? Todo mundo quer parecer igual a um rolo de filme plástico. Todo mundo quer ter a mesma cara, usar as mesmas roupas, ir nos mesmos lugares. Todo mundo quer ser uno, desde que seja todo mundo. Nem as rugas podem ser singulares, têm que ser repuxadas igual.

Por isso uso a tática do avestruz: fujo de lugares em que posso encontrar comportamentos como esses. Tenho medo de ter a alma fraca e acabar mimetizando alguma coisa. Até porque acaju é um tom que não me cai bem.

17 setembro 2007

Estupro mental

Quem acompanha esse blog sabe que sou petista. Voto no PT desde a primeira eleição livre, lá naquele perdido 1985 pós-ditadura. Mas isso não me impede de mostrar meu profundo desagrado com o rumo que o partido trilha. Quando o Lula tem a pachorra de dizer “Não acho que haja impunidade” no caso Renan Calheiros, merece a morte política que o aguarda. E como ele sempre sabe piorar as coisa, foi mais longe: “A sociedade fica achando que precisa prender. Mas para prender, é preciso ter mecanismos”. Lula está certo: precisamos de um governante e um Congresso pra isso. Coisa que, parece, não temos.

Muito provavelmente, Lula vai da presidência para o limbo. Não imediatamente, é claro, ainda terá uma sobrevida política. Mas será lembrado como o presidente que impediu o estabelecimento de uma ordem moral na política. O presidente que salvou amigos e correligionários da forca. Ninguém vai falar que o Brasil saiu da linha da miséria no governo dele. Que milhões de pessoas deixaram de morrer por receber um auxílio mensal irrisório. Que a taxa de juros caiu como em nenhum outro período da história, possibilitando o início de um crescimento econômico.

Lula vai ser conhecido como o presidente que deu continuidade ao trabalho de Fernando Henrique Cardoso – este, sim, cultiva uma bela imagem de grande estadista de nível internacional. E no entanto, o grande feito de FHC foi estancar a inflação, ainda quando era ministro de Itamar Franco. Mas a um preço tão absurdamente alto, que a recessão imperou por mais de década, intensificando a pobreza, o desemprego, a saúde e afundando o país. Isso sem falar na farra das privatizações, maior distribuição de favores que um governo poderia fazer.

Alguém que é capaz emitir comentários como esses num momento em que se pede respeito moral, realmente merece o limbo. Lula devia ser proibido de abrir a boca até pra respirar. Talvez daí ganhasse algum crédito pelo que vem fazendo, apesar do muito que ainda falta fazer. Usando uma idéia do boçal e estúpido Maluf, outro grande frasista da política, eu peço: matem-me de uma vez, mas chega de estuprarem minha frágil inteligência.

15 setembro 2007

Preguiça

“Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei”. Encontrei essa frase em um folheto espírita, dentro da minha caixa de correio, quando fui pegar o jornal pela manhã.

Confesso que às vezes preferia ser feliz como as amebas.

12 setembro 2007

5.768

Que este novo ano traga a esperança de um mundo melhor pra se viver. Em paz com as diferenças, crenças e opiniões. Um lugar em que a religião seja apenas expressão de fé, e nunca um belicoso armamento da política.

Shaná Tová U-metuká!

11 setembro 2007

Vice

Lutei a vida toda pra ser A em tudo,
pra me superar,
e um maldito exame de sangue me pôs no meu lugar.
Bati na trave, sou B+.






07 setembro 2007

Escola do saber

André Luiz Martins Di Rissio Barbosa acaba de ser nomeado professor da disciplina de “inquérito policial” da Academia da Polícia Civil de São Paulo. Vai ensinar como uma investigação deve ser clara, precisa e honesta para proteger o suspeito e resguardar os direitos do Estado. Tudo conforme prevê a lei.

Di Rissio devia ensinar “economia doméstica’” aos policiais. Com o salário de delegado – em torno de R$ 7.000 –, tem apartamento de de R$ 1 milhão num bairro nobre de São Paulo, dois Jaguar blindados, além de pequenos mimos, como uma coleção de Rolex e muitas jóias, essas coisinhas que compõem a vestimenta "oficial" dos delegados.

Di Rissio é acusado pelos Ministérios Públicos estadual e federal de falsidade ideológica, uso de documentos falsos, descaminho, contrabando e corrupção ativa, entre muitos outros crimes. Já foi preso três vezes, mas sempre solto por liminares da Justiça.

Di Rissio será professor e ninguém poderá fazer nada pra impedir isso. Tudo no maior respeito, porque assim determina essa senhora idosa e caduca chamada Lei.

03 setembro 2007

Nó górdio

Essa bomba eu descobri no final de semana: meus caminhos estão fechados. É, completamente enosados. O diagnóstico foi dado pela faxineira do meu irmão, que postula haver uma interrupção de vias quando o vivente dá um nó nas meias antes de guardar. O gesto impossibilitaria o livre andar e o cara vai cambaleando pela vida.

E eu, com um gavetão cheio de nozinhos, não chego nem na padaria da esquina. Vai ser o reinado da tele-entrega. Buenas, na verdade vou esperar até sexta pra ver se a minha faxineira confirma essa história. Daí eu vejo o que faço.

01 setembro 2007

Betoneira

Se ele tivesse um tanquinho do post aqui debaixo, aposto que isso não acontecia.

PEDREIRO É FLAGRADO TRANSANDO COM UM MURO
Renê Moreira
Último Segundo/IG

Uma cena no mínimo muito estranha foi presenciada na madrugada desta sexta-feira por uma dona-de-casa de Franca. Ao ouvir um barulho no quintal de sua casa, levantou da cama e foi ver o que acontecia. Teve então uma tremenda surpresa ao se deparar com o vizinho, um pedreiro de 59 anos, transando com o muro.

A cena deixou a mulher perplexa e de imediato ela acionou a polícia. Ela contou que o vizinho, A.G.M, estava com suas partes íntimas de fora penetrando um buraco no muro, sussurrando e acariciando a parede bastante áspera. O mais incrível é que levado ao plantão policial, o acusado confessou tudo e garantiu que estava arrependido.

Já a mulher contou que há tempos vinha desconfiando dos comportamentos estranhos do vizinho, que teria mexido com sua filha de apenas dez anos há poucos dias quando a mesma voltava de uma padaria. Entretanto, ela diz que não esperava nunca ter visto uma cena tão grotesca como a que presenciou no muro que divide sua casa com a do pedreiro, na rua Egídio de Castro Oliveira, no Jardim Aeroporto.

O escrivão de polícia Rogério Primo contou que o acusado já esteve preso por atentado violento ao pudor. Dessa vez acabou indiciado por importunação ofensiva ao pudor e liberado algumas horas depois e, ao contrário do que se imagina, não apresentava sinais de qualquer tipo de distúrbio mental.

Antes de deixar a delegacia, durante o período em que permaneceu no local, o pedreiro ficou de "castigo" lendo um livro religioso sobre direitos humanos que fica plantão policial. E ao deixar o distrito garantiu ter aprendido muito com a obra. De todo modo será investigado pela polícia, que quer saber se ele não está envolvido em algum outro crime de ordem sexual registrado na região.

29 agosto 2007

Sabedoria

Se as mulheres fossem um pouquinho mais espertas,
aposto que tinha muito homem que até ia lavar
umas cuecas no fim de semana.



Foto enviada pela Naná, freqüentadora

silenciosa deste blog e amiga do orkut.

24 agosto 2007

Política de Caras

Ser presidente é cool. É, mais do que fazer política, é uma chance de fazer marketing pessoal. Tudo virou uma grande festa de Caras, tudo é um eterno parecer ser. Todo mundo quer ser famoso e bonito, não basta ser influente ou ter poder.

Esta semana, fotos oficiais do presidente da Rússia sem camisa atravessaram o mundo. Aos 54 anos, Vladimir Putin adora posar de Rambo, e escreveu não leu, tira a camisa e desfila feito gorila em zoológico. O ensaio abriu uma grande discussão na imprensa sobre o físico do presidente, e na internet rapidamente se ironizou que as fotos mais pareciam saídas do filme Brokeback Mountain – a saga de amor proibido entre dois vaqueiros – do que das férias de um mandatário.
Agora, o direitoso presidente francês Nicolas Sarkozy teve as dobrinhas de catupury da barriga estrategicamente apagadas em fotos que posa de homem selvagem, em férias nos EUA. A Paris Mactch simplesmente tascou um photoshop em cima da banha e publicou a imagem que o fanfarrão gostaria de ter.
Quando os comunas apagavam – sem photoshop, à mão, com muita arte e criatividade – os indesejáveis das fotos históricas, por que tinham sido mandados pra Sibéria ou jaziam com uma picareta enterrada na cabeça, as tais democracias e jornais gritavam: “que horror, como alguém ousa manipular a verdade de uma foto?”.

Pois é. Vivemos em tempos pós-modernos em que a forma é formante, como lembra meu guru especialista em tudo, Michel Maffesoli. Parecer ser é tão importante quanto ser. Ou seja: as aparências não enganam, revelam. Porque a vontade de ser o que não se é, diz muito.
Aqui em Pindorama, como a imprensa ama apaixonadamente o Lula, o presidente desfila de sunga pelos jornais sem nenhum retoque. Barrigão, pelos, gordurinha e o escambau tão lá, pra serem vistos, chacotados e criticados. Isso não indica que nosso jornalismo é melhor, apenas mostra de que lado está. E que o Lula se acha tão bom que não tá nem aí pro que vão falar dele. Em época de estrelas, qualquer esforço é válido pra viver a fama.

21 agosto 2007

Cumbucas e micuins

Todo suplemento cultural de revista e jornal de quinta categoria, sempre traz uma entrevista pingue-pong – respostas curtas pra perguntas diretas. E entre os questionamentos, a indefectível “qual a palavra mais linda da língua portuguesa?”. Quando eu era criança, em que os concursos de miss ainda tinham alguma credibilidade, o Pequeno Príncipe se tornou o livro mais “lido” pelas misses, todas o indicavam. Tanto que gerou a piada de que é um livro de “alta” literatura quando se quer chamar alguém de inculto – o que é burro, porque o livro é bom, mas foi encarcerado na prateleira de auto-ajuda, quando não é.

Buenas, volto pra palavra mais linda da língua portuguesa. Nove entre 10 respostas apontam sempre o mesmo – e aposto que não preciso nem dizer que todos já sabem. Qual? Qual? Qual? Saudade, o único sentimento exclusivo da língua portuguesa. Sai o Pequeno Príncipe, entra a pieguice pseudo-letrada.

Eu tenho fascínio por muitas palavras, mas pela sonoridade, não propriamente pelo sentido. Gosto dessas palavras que enrolam dentro da boca, dão cambalhota, obrigam a língua a trabalhar em dobro. Ou das que vibram nas bochechas, reverberando dentro do ouvido.

Por exemplo: não consigo falar libélula sem achar que a língua vai saltar da boca. É um verdadeiro triplo mortal carpado. Assim como dislalia, que, ao menor descuido, pode espirrar mil perdigotos no interlocutor.

Áh, perdigoto é supimpa. Começa linear como um passeio no campo, e duma hora pra outra, um abismo se abre no tônico, despencando morro abaixo: perdigôôôôto. Assim como supimpa tem a sonoridade do naipe de sopro das bandinhas de colégio, com direito à xilofone e tudo.

Já que estamos nas bandas, que tal cumbuca? O que falar de cumbuca? É uma verdadeira escola de samba dentro da boca, com todas as percussões possíveis. Falta só a cuíca – outra unidade da língua bonitinha, que parece um sagüi chorando ao luar. Tá, agora lembrei de sagüi, com esse som que parece linguagem de bebê, desses que a gente fala arreganhando as bochechas pra fazer voz de pato. Putz, e bo-che-cha? Já me vi com as maracas na mão dançando rumba. Bochecha é sexy, vai dizer que não?

Não sei por que, mas rumba me lembrou micuim. Que criança das antigas não foi alertada pra não rolar na grama, em dia quente de verão, que os micuins iam pegar? O bom de micuim é que, além de ser uma entidade etérea, é como se houvesse um briga entre as sílabas, ninguém casando com ninguém. Começa com um mi átono, fraco, verdadeiro bundão. Daí passa pra cu, que não podemos negar, se impõe com personalidade e força. E termina no im tônico, apesar da pouca expressividade, que mais parece cachorro que levou pedrada e saiu ganindo rua a fora. Mas pelo conjunto, micuim poderia ser um palavrão, daqueles bem sujos e cabeludos.

Acho saudade muito insossa. Pirulito, almôndega, cacareco, fuinha, trolha e tantas outras palavras soam tão mais lindas. Tá, eu sou esquisito, mas me divirto muito mais com a língua. Pelo menos eu tento.

19 agosto 2007

Picuinhas cotidianas

É cruel pensar assim, mas quase tudo na vida acaba caindo no mesmo buraco: dinheiro. Tenho uma amiga qualificadíssima, que depois de 10 anos ralando numa empresa, ganhou cartão vermelho. Pagando apartamento e carro, questiona agora onde está o futuro.

Outra amiga, 20 anos, ralando pra pagar a faculdade, num estágio em que ganha mal e acaba em desvio de função, cheia de divergências com a família, tenta descobrir como se emancipar e tomar as rédeas da vida.

Eis o vil metal ditando regras e nos fazendo priorizar coisas e situações que não seriam as mais importantes. Mas como fugir disso? Indo morar numa caverna e dando as costas pra civilização?

Fiquei com água na boca imaginando o prêmio acumulado da mega sena caindo na minha mão. A previsão é de R$ 33 milhões pro sorteio de quarta-feira. Áh, gente boa, é muita grana pra quem compra pantufa de R$ 1,99. Ia poder ajudar tanta gente e ainda ficar com uma tremenda bolada pra viver de papo pro ar. Preocupar-me mais com o que interessa e deixar de lado tanta mesquinharia que transforma as relações num inferno.

A questão é saber se caráter é suficiente pra barrar as deformações que a liberdade financeira traz. Tenho medo de que a falta de amarras com as picuinhas cotidianas possa gerar criaturas do mundo de Caras, só preocupadas consigo mesmas e com o parecer ser.

Mas sinceramente? Eu gostaria muito de correr esse risco. E deixar pra pensar nisso tomando um drinque em alguma praia deserta de uma ilha paradisíaca da Grécia. Quero ser fútil, nem que seja por um dia.

16 agosto 2007

A dura luta pelo glamour diário


Cansei de ver a Regina Duarte fazer papel de virgem de 15 anos aos 65.
Cansei de ver a Hebe falar tanta idiotice e circular entre os novos ricos fichados na polícia federal – ou os que deveriam ser.
Cansei de ver a Ivete Sangalo cantar sempre a mesma insuportável música e carregar no sotaque baiano de mentira.
Cansei da frivolidade mulherzinha resignada da Ana Maria Braga.
Cansei dessa palhaçada marqueteira, absolutamente sem nenhum fim social, que o mal-sucedido João PSDB Dória Junior e o arrivista D’Urso, comandante da OAB de São Paulo – um conhecido diretório de frustrados possíveis políticos neo-liberais direitistas – estão fazendo.

Nem a brincadeira inicial de que todos vão protestar vestidos pela Daslu tem graça. É grotesco demais, é oportunista demais. Essa não é e nunca foi a indignação dos brasileiros, mas da elite acostumada a champanha francesa e caviar em vôos de primeira classe pelo mundo. E que fala cinco línguas, mas não conhece o significado de povo em nenhuma delas.

O que eu gosto de ver é que todos dizem que estão protestando sem interesse próprio, fazem por essa tal entidade chamada povo. Mas, se publicidade farta garantir patrocínio para montar peças teatrais financiadas por empresários simpatizantes, se render muitas capas de Caras, se vender discos e turbinar a audiência de programas de TV decadentes, tá limpo. E se o marketing golpista conseguir emplacar uma nova turma de neo-liberais direitosos dentro das prefeituras, assembléias e o congresso, melhor ainda. Mas o supra sumo seria assistir a volta de um presidente da elite chique e bem-nascida dos pensantes, alguém com estirpe, saca?, alguém que se possa chamar outra vez de rei - que não seja o Roberto Carlos.

Leio que a Sé impediu que o amigo D’Urso faça o protesto dentro da catedral, em São Paulo. E agora, dona Cora? A Daslu estará disposta a receber Hebe Camargo e sua trupe? Vou assistir, ansioso, toda a cobertura no Amaury Jr. Porque não sou chique, mas me fascina a dura luta pelo glamour diário.

13 agosto 2007

Rede solidária

Já contei aqui que tinha o maior preconceito com blogs. Achava que era coisa de exibicionista que não tinha nada pra fazer ou de poetas frustrados. Até que a Marcia fez o Patifaria e conseguiu mudar minha volátil cabecinha.

Nesse tempo em que estou blogando, já encontrei de tudo: gente legal, chata, agressivos, amáveis, inteligentes, os que não voltaram, os que ficaram. Realmente descobri e aprendi muita coisa, seja como eu me comporto, seja como os outros reagem ao que escrevo.

Uma coisa muito legal é esse movimento de solidariedade que rapidamente se instala quando algo acontece. Antes eu achava que isso era vazio, pró-forma, mas percebo agora que não. Os laços que se estabelecem, mesmo não sendo presenciais, desprovidos de um prévio conhecimento, limitados pelo instante em que alguém surge na tela como um texto, para só então ganhar corporificação, sentimentos e atitudes, carregam verdade. Sempre que lancei um S.O.S tive resposta. E mesmo quando não lancei, ela veio.

Este post aqui de baixo é um exemplo – dentre muitos outros, envolvendo tantas pessoas amigas. Classificado de escatológico, resumia uma décima parte de como eu me sentia nos últimos dias. Entre os muitos votos de melhora, e os conselhos pra tentar apressar a cura, a Sueli Halfen foi direta ao sacar os 29 anos de experiência como farmacêutica e bioquímica: virose. Em longos e divertidos mails, escritos com uma fluência e um bom humor que tornam a tecnicidade do assunto interessante, indicou várias possibilidades pra eu acabar logo com o problema. Em pleno domingo à tarde, se dispôs a conversar com um moribundo, tirar dúvidas, ajudar no que fosse possível.

Depois de longas cinco noites sem dormir, ontem foi a primeira vez que consegui descansar um pouco. Já estava decidido a procurar um médico, ver disponibilidade de horário – que raramente é pro mesmo dia –, enfrentar a habitual bateria de exames – que se arrastam por dias –, esperar os resultados, voltar ao médico e pagar uma fortuna em consultas particulares. Mas cinco horas depois de ter tomado o que a Sueli me indicou, eu já podia escalar o Himalaia, tal a diferença que sentia. Note bem, não estou aqui desmerecendo o trabalho médico, mas há soluções rápidas pra problemas simples que não estão ao nosso alcance.

Em suma: o blog salvou minha vida. Tá, exagerei nessa, mas me arrastei feito lagartixa manca e sem rabo todo esse tempo, esperando passar a puta gripe, quando era uma puta virose. E bastou alguém disposto a ajudar, com conhecimento, pra tudo se resolver – gracias, Sueli. São esses laços, baseados na camaradagem, que tornam a internet um veículo de possibilidades únicas. Algo de muito bom ainda há de vir disso.

10 agosto 2007

Mucoverde

Sabe quando você tá sem saco pra fazer qualquer coisa? Não tem vontade de ler, de escrever, de navegar. Não tem paciência pra atravessar um texto com mais de dois desenhos. E fica morgueando feito uma alma penada, cabeça ao vento, dedos dispersos, sem saber se é um homem ou uma lesma.

Junte a isso uma gripe fiádaputa, daquelas que você nem imagina que existe, de tão porrada que é. Que moem os ossos em pedacinhos tão pequenos que o cóccix vai parar no crânio e o crânio na pélvis.

Voilà! Eis meu estado nos últimos dias. Apesar de não ter anotado o número do trem que me atropelou, hoje consegui colar o último pedacinho que faltava da tampa. E percebi que grande parte da massa cinzenta foi trocada por uma outra massa, mais cremosa – blergh –, esverdeada – bleeergh –, abudantemente auto-gerativa – bleeeeeeeeergh.

Mas tudo bem. Dizem que os neurônios têm grande capacidade de fazer novas conexões. E com tanta meleca grudenta entre os miolos, algo vai colar com algo. Em breve, esse bloguinho deve retomar ao ritmo normal. E eu, quem sabe, adquira novos talentos antes impensados.

E agora dá licença que o velho vai tomar o anti-histamínico. Verde muco não é minha cor preferida.

02 agosto 2007

Perdigotos de sabedoria

Tô desolado. Muito desolado. Quem acompanha esse bloguista sabe o quanto lutei pela supremacia do amor. E agora descubro que a Thammy e a namorada romperam depois de seis longos meses, duas capas de revistas de nu artístico e uns filminhos eróticos - gostei do redator da notícia, que fez questão de nos dizer que o “namoro” entre as duas era um “relacionamento lésbico”. Ou eu desaprendi o conceito de namoro ou o preconceito continua comendo solto. Decididamente, eu não acredito mais no amor.

E pra aqueles que me acusam de só falar de sexo, vou falar de sexo. Sexo pudicamente tachado de bizarro. Melhor: bestialidade. Na hipercivilizada Holanda, um homem deu queixa que sua fofíssima ovelinha foi abusada. A polícia está apurando se foi sexo consensual ou não. Pela lei, só se houver dor na hora de comer animaizinhos os abusadores vão pro xilindró. Estando ou não os animais – ambos os dois – in love. Decididamente, eu não acredito mais no amor [2].

Tá, a foto não tem nada a ver com o caso, mas o amor é lindo

E olha quanta fé: um nepalês resolveu dar uma mãozinha pra deusa hindu Kali. Deve ter pensado: eu dou uma mãozinha pra ela, ela dá uma pra mim. Está no hospital, esperando receber a mãozinha que amputou de volta. Mas parece que a deusa não ficou muito comovida com a oferenda, porque os médicos não falam em reimplante. Se fosse esperto, tinha dado o cérebro. Ia fazer bem menos falta.

30 julho 2007

Uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuh

O Pan 2007 será lembrado como o encontro das vaias. Tudo o que se movia e respirava, e não tinha “cara” de brasileiro, tomou vaia. Vaiou-se por motivos políticos, por motivos culturais, por motivos sem motivos, por frivolidades. Vaiou-se por não se aceitar a diferença, por não se enxergar um outro, por se sentir diminuído, por não se ter civilidade para compartir espaços.

Vaiaram-se delicadas meninas equilibradas em traves de 10 cm; vaiaram-se parrudos jogadores de vôlei; vaiaram-se atletas consagrados e de longa trajetória; vaiaram-se inseguros estreantes.

Agora que a bolha de sonho se desfaz, o belo Rio volta à normalidade. Volta a se preocupar com seus crimezinhos e chacinas banais; volta a ser acuado pela violência, fome e falta de condições; volta a se preocupar onde a classe média vai comprar drogas de boa qualidade nas bocas de fumo dos morros.

Mas pra esses casos, não há a mínima mobilização pra vaia. Talvez porque sejam cotidianos e desimportantes demais, não merecem uma mobilização cívica. O tédio faz coisas incríveis.


28 julho 2007

Pau

Tá, eu sei que tem grande chance de ser mentira,
mas mesmo assim o texto é um primor de inventividade.
O link orginal tá nesse site de piadas aqui.

Clique sobre a foto para abrir em tamanho maior

26 julho 2007

Bendito frio


Serra Gaúcha, nove da noite, zero grau. Depois de um belo dia de sol em Gramado, com direito a fondue e muita risada em plena quarta-feira, a temperatura despencou de 12° pra 0° em questão de hora.

Decididamente, camiseta de algodão e camisa de flanela não era o melhor figurino pra esse cenário. Errei na roupa, mas qual o problema? O dia tava perfeitinho.

25 julho 2007


FelicidadeAs couraças quebram

As diferenças aproximam

Os afagos enternecem

Basta querer

Piu

21 julho 2007

Menos um

Lidar com a morte é sempre um sentimento dúbio. Quando ela vem cedo demais, quando leva alguém que amamos, quando se faz presente em forma de tragédia, nos choca, horroriza e consterna. Abre uma ferida nem sempre fácil de curar. Mas a morte do acerto de contas sempre é esperada. E festejada. Tem a capacidade de interromper um processo e cessar a dor. Não tem o poder de fazer justiça, como muitos gostam de dizer, mas pelo menos evita que a desgraça continue.

Antônio Carlos Magalhães, o senador das trevas, mais conhecido como Toninho Malvadeza, é um exemplo clássico do segundo tipo de morte. Personifica o que de pior a política nacional já produziu: corrupção, roubalheira, clientelismo, coronelismo, máfia e desprezo pela ética e pelas leis. Teve dinheiro e cara de pau suficiente pra nunca ser punido pela Justiça e sempre ser reeleito pelos cidadãos. Fazia o mal legitimado socialmente.

Foi o grande amigão dos poderosos, tanto faz se de conglomerados de comunicação global ou de economia neo-liberal expansionista. Esteve onde o poder estava. Mas acabou. Agora é menos um.

Sorte nossa.

18 julho 2007

Vaias à morte

Fico imaginando o que sente uma pessoa que perdeu alguém num acidente estúpido como esse da TAM. A violência é tão grande que beira o ficcional, mas de mentira não há nada. E a verdade horrenda de dezenas de mortos paira sobre nós como uma assombração: tenho algum amigo no vôo? Um colega? Um vizinho? Será meu irmão no próximo? Serei eu?

Uma coisa é certa: tenha ou não sido gerado pelos incontáveis e antigos problemas que Congonhas carrega – e avaliações preliminares apontam que o problema não foi na pista –, o grande culpado frente à opinião pública será o governo federal. Vai ser julgado por erros cometidos em outros momentos e em outros lugares; pelo cansaço de se esperar soluções, pela raiva que qualquer um sente em se ver frágil e desamparado cada vez que sobe no propalado meio de transporte mais seguro do mundo – que ainda é, apesar das sucessivas tragédias que têm ocorrido.

Tanta gente não morre assim sem causar indignação, algo tem que ser feito antes que a aviação nacional realmente vire tragédia, numa união de incompetências de aeroportos mal equipados, equipamentos sucateados, especialistas não qualificados e empresas aéreas que desrespeitam a segurança dos passageiros.

E deixo claro que esse conjunto não é um problema causado pelo governo do PT, apesar de querer, sim, que Lula aja energicamente e ponha um ponto final naquilo que compete ao governo. Isso, como muito do que ocorre no Brasil, vem de uma forma de governar que empurra o lixo pra baixo do tapete e nunca faz as reformas de base necessárias. Ou seja: é herança da ditadura, do PMDB, do PSDB, do PT, dessas instâncias que chamamos de partidos políticos.

As vaias que Lula recebeu no Pan, que no post aqui de baixo causaram grandes discussões, devem se multiplicar. Isso se não forem acompanhadas de pedras, garrafas e o que as pessoas tiverem na mão. Se vaiar por si só já é uma reação emocional descontrolada, já que não argumentativa, agora será totalmente insana. Frente a tantas mortes, é preciso achar um culpado, uma explicação automática pra aplacar o horror e medo que sentimos. Lula será imolado na pira do descontrole. E provavelmente não pelos motivos corretos.

Espero, pelo menos, que algo de bom resulte dessa tragédia, com o vôo 3054 sendo o marco do último e definitivo desastre aéreo. Chega de mortos, chega de medo, chega de empurrar o problema pra frente. Roleta russa é prática de suicidas, não de quem paga impostos e desembolsa fortunas pra se locomover com segurança.




A Marcia fez uma pertinente análise dos primeiros momentos da cobertura
da imprensa no blog dela. Vale a pena dar uma olhada.

16 julho 2007

Vaca come gelo?

presente inestimável do Zeca

Não dou, não empresto, não vendo.
Mas preciso descobrir uma forma de produzir gelada.

14 julho 2007

Cariocas ruins de festa

A pira foi um dos poucos acertos num espetáculo de desastres


A abertura da Pan teve a cara do Brasil? Pra mim, não, por mais que Fátima Bernardes e Galvão Bueno repetissem isso. Não é minha cara porque não sou carioca. Porque não sou classe média descolada. Porque não me arvoro a arrogância de desrespeitar a tudo e a todos pelo simples prazer da galhofa.

A primeira vaia a Lula foi um protesto dessa classe média branca e viajada que pouco se importa se a vida dos mais pobres melhorou, reclama por seus privilégios – e nem posso negar que tenham direito a eles, então, vaia justa. Mas a segunda caiu na malandragem inconseqüente, na piada pela piada, na falta grosseira de entender o lugar que ocupavam no estádio naquele momento, frente a milhões de outros brasileiros e americanos.

Como toda personalidade inconseqüente, a massa carioca perdeu a mão, e as vaias foram a marca da abertura. E daí para o Maracanã virar um extensão de Copacabana e Leblon em domingo de sol foi um passo. Vaiou-se os venezuelanos, afinal, eles e Chaves devem ser a mesma coisa. Mas também se vaiou os bolivianos e, claro, os norte-americanos. Carioca “ixperrtu” sabe diferenciar as coisas. E sabe ser um ótimo anfitrião.

Os nativos que lotavam as arquibancadas quiseram tomar pra si a festa que era de todos: festa organizada por eles, que tinha a cara deles. Quando a câmera passava entre os ritmistas ou bailarinos, muitos largavam o trabalho e começam a abanar e mandar beijos, formando grandes aglomerações. Será que alguém se deu conta de que isso poderia estragar o espetáculo, ou que é falta de comprometimento e profissionalismo? Claro que não, merrmão, carioca descolado é assim mesmo. Tudo é farra, tudo é zoeira, pra que se estressar?

Pois é. E os cariocas têm o maior carnaval do mundo, algo realmente surpreendente. E o que se viu na abertura do Pan foi uma constrangedora festinha de escola, dessas com jogral e crianças vestidas com fantasias improvisadas. Não havia unidade no espetáculo, não havia inventividade, não havia aproveitamento de espaços. Tudo ficou micro e acanhado. Rosa Magalhães, um dos grandes nomes da área, pensou pequeno. Ou pensou carioca e fez um trabalho desleixado e sem brilho.

Adriana Calcanhoto foi um dos únicos momentos de real emoção nessa balbúrdia. Sentada numa gigantesca cadeira, tocando seu violãozinho, contagiou e deu seu recado. Praticamente sozinha, ocupou todos os espaços do Maracanã. Chico César fez o mesmo, amparado por uma magnífica coreografia de Débora Colker, uma carioca cidadã do mundo. E numa demonstração pra lá de macaca de copiar o que não se deve, a grande Elza Soares foi um constrangimento desnecessário. Linda e classuda nos seus mais de 70 anos, desafinou, esqueceu a letra três vezes e, involuntariamente, cassou o direito do público de cantar o Hino Nacional, já que deu uma roupagem nova à interpretação. Não houve naipe de sopros, não houve percussão, foi tudo à capela. O soberbo arranjo, uma beleza ímpar e gongórica que mais parece um passeio de montanha russa cheio de loopings emocionais, foi cortado. Até o Hino os organizadores cariocas nos garfaram.

Se é dessa forma que o Rio de Janeiro quer angariar respeito, lamento, mas não vai dar. Ou a porção séria, competente e trabalhadora da cidade assume as rédeas, ou a o povo da tal cidade maravilhosa vai continuar pagando pelos estereótipos que parte dele cria e solidifica.

12 julho 2007

Relativamente frio

Nove da noite. Os termômetros marcam 3° em vários locais de Porto Alegre – fontes oficiais dizem que ontem fez a noite mais fria na capital gaúcha nos últimos 46 anos. Da rua, o restaurante envidraçado parecia acolhedor: luzes quentes, fechadinho, e a promessa de comida fumegante. Ao botar o pé no recinto, noto que está tão frio dentro quanto fora. Num canto, ao alto, um tremendo condicionador de ar está desligado. “É possível ligar o ar?”, pergunto ao garçom, que numa sinceridade desconcertante diz: “Esse é só ar frio, o dono resolveu economizar. Faz tanto tempo que não faz frio que ele achou que não precisava se preocupar com isso”.

Mas precisava. Sento numa mesa de canto, no encontro entre duas laterais envidraçadas, e um maldito sopro de ar frio me gela as orelhas. Entra pelas fendas dos vidros. Troco de lugar, faço o pedido, e fico olhando a paisagem enquanto espero meu file à parmegiana. Ao fundo, um adolescente passa de bermuda e blusão. Já tinha visto outros pelo caminho, e fico pensando até onde vai a bravura ou a estupidez de cada um. Ou se frio não passa de uma sensação relativa, dependente do que você está fazendo ou quer num dado momento.

O pedido chega e me entretenho em garfiar com afinco a comida quentinha. Mas não tenho como deixar de perceber uma figura altíssima, cabelo gigantemente desgrenhado entrando no restaurante. Além de algo que não se encaixava bem em uma mulher, vestia, debaixo de um longo casaco aberto, jeans justíssimo e uma blusa que só tapava os peitos. A barriga estava totalmente de fora. O amigão que a conduzia faceiramente como um troféu parecia gostar dos modelos. E quando digo modelos, no plural e masculino, me refiro à roupa e ao modelo que a trajava. Pensei: vão pedir sopa e vinho pra aquecer o corpo e manter a pose. Que nada, pediram duas cocas e sanduíche aberto, como se fosse uma noite quente de verão.

Mesmo não sendo tão corajoso quanto os guris de bermuda ou a modelo de barriga de fora, ainda adoro desfrutar o que esse clima oferece de melhor. Pensei nisso ouvindo o gelo bater contra o copo enquanto bebia minha coca estupidamente gelada.

08 julho 2007

Medo II, a revanche

E o que fazer quando as toalhas
combinam com o sabonete e os azulejos?


04 julho 2007

Bozo messiânico

A História parece se movimentar em ciclos: algo que morreu e foi enterrado, tempos depois volta com uma força inacreditável. E tudo se repete, agregando novas cores, valores e desfechos a um enredo já conhecido.

Hugo Chaves personifica o que de pior a América Latina já produziu com a roupagem de ditador¹. É raso, populista, afetado e histérico. O tipo que deve ter sonhado na adolescência em ser o protagonista de um dramalhão “mexicano”, desses em que o galã anda de cavalo branco e diz frases de efeitos.

Como se nota, ele não precisou de um filme pra andar de cavalo branco e – só – dizer frases de efeito. Se acha maior do que a própria vida. Agora, resolveu dar um ultimato ao Congresso brasileiro e ameaçar não fazer parte do Mercosul, caso não seja aceito em três meses. Chavez chuta um morto que nunca nasceu tentando acertar a política tupiniquim.

Sinceramente? Tchavito é uma espinha que precisa ser espremida. É um perigoso anacronismo ambulante que não fez nem um décimo do mal que ainda pode causar. Por enquanto é um palhaço vestido de vermelho a repetir frases mortas da contra-cultura dos anos 70, feito um papagaio gago. E a protagonizar desastres políticos e sociais por onde passa.

Mas já está na sobrevida. O lugar dele é o túmulo dos esquecidos, de onde foi buscar a forma de governo que preconiza. Tenho certeza que pela bufonaria e populismo, na galeria dos ditadores, vai ficar entre Luis XIV – da fofíssima frase “O Estado sou eu”–, e Juan Domingo Perón – o “pai dos descamisados”, inventor da campanha do agasalho.

Não sei qual alcunha Tchavito vai ter, mas se ele fosse escolher uma, acho que gostaria de ser chamado de messias. Mesmo que isso entrasse em choque com os doutrinamentos da cartilha vermelha de Mao. Afinal, acima de tudo, Hugo Chavez é um revolucionário.

¹Adendo à primeira postagem: a idéia de "roupagem", aqui, é a de trejeitos, maneirismos e cacoetes externos e exóticos que estamos acostumados a encontrar na figura dos ditadores latinos. Mas de forma alguma Chávez se iguala, neste momento, ao grau de terror e insanidade de Pinochet (Chile), Dutra (Brasil) ou Videla (Argentina), por exemplo.

02 julho 2007

Medo

O que fazer quando o papel é
arroxeado e o sabonete verde radioativo?


29 junho 2007

Tempus magistrorum optimus est

-------------------------------------------foto Sean Hagen
Einstein ganhou notoriedade ao transformar em teoria aquilo que, de uma forma ou outra, todos sentimos: o tempo é relativo. Olhando pra trás, nessas décadas que me separam do passado, vejo claramente isso.

O que me fez sofrer, o que deu trabalho, o que me fragmentou, o que me desiludiu parece distante como as pirâmides do Egito. Têm o peso paquidérmico daquilo que nos torna mais maduros e parcimoniosos, apesar da dor que causa.

Mas o que me fez rir, que regozijou, que me fez sentir amado, que transcendeu meu corpo tem a duração do agora. Sinto como se tivesse acabado de chegar das festas de garagem do secundário, que começavam às nove da noite e terminavam às dez manhã; ainda tenho na boca o gosto do primeiro beijo; o êxtase sobre o primeiro corpo nu; a primeira sensação de liberdade; o primeiro elogio de um mestre.

Somos o que carregamos através dos anos, uma eterna luta entre o tempo externo - esse que nos rotula de jovens, maduros e velhos - e o tempo interno, que só nós temos capacidade de sentir - e quase nunca admitir - com medo de parecer ridículo.

Tenho agora a idade que deveria ter aos 20. Nasci velho, desses que pensam em todas as conseqüências de um ato. E, muitas vezes, deixei de ir fundo em uma emoção pelo receio do que ela poderia causar no outros. Hoje sei que não posso controlar a dor de ninguém, não posso evitar que meus atos tenham conseqüências. Mas precisei dos cabelos brancos, que surgem feito capim, pra entender que egoísmo pode ser uma forma necessária de amor próprio. Adolesci, justo agora que deveria maturar. Não há como recuar quando há uma outra vida pedindo passagem, com experiências que sei imprescindíveis pra eu viver.

Dois mil e sete marca a insubordinação do interno frente ao externo. Mesmo tendo decorrido não mais do que seis meses, percebo-os como se fossem uma eternidade. Senti a dor de perder alguém importante demais na minha vida; senti o quão grande pode ser o amor tecido por laços invisíveis; esqueci o nome de amigos basilares em alguma curva do caminho; reafirmei os laços cada vez mais estreitos com quem faz a diferença na minha vida. Tive experiências que ainda não sei classificar; vivi momentos de puro estranhamento comigo mesmo, ora inquietantes, ora reveladores. Descobri verdades que há 20 anos soariam como mentiras. E começo a aceitar que só devo coerência a mim mesmo.

Quarenta anos se passaram, mais 40 hão de vir. Sou alguém na meia idade descobrindo o que estava guardado em um velho baú. Uma a uma, vou experienciando “recordações” que nunca me permiti. Parto agora em busca de mim mesmo, consciente de que há o risco de olhar pra trás daqui dez anos e dizer: “que merda você fez se comportando como um guri quando deveria ser um homem?”.

Se tivesse como prever a resposta, saberia o que fazer agora para evitar o erro. Mas não sei. Então só posso cruzar os dedos e esperar que não tenha sido um tempo perdido. E aceitar que viver é fazer escolhas que vão além da razão.

26 junho 2007

Emagreça djá!

Essa é pra mim, que adoro imaginar que um dia vou freqüentar academia: beber água gelada emagrece. Sério, o assunto é sério. Pra por em circulação dois litros de água gelada em um dia, o corpo gasta 70 calorias, 490 por semana, 2.100 por mês, 25.550 por ano. Vamos convenientemente esquecer a conta diária e ficar com a anual. É caloria pra dedéu, o que ajuda a aliviar a culpa dos excessos e da preguiça.

Como sou meio louco mesmo, e troco qualquer bebida quente por líquidos muito gelados até no rigor do inverno – quem mais toma suco ou coca cola com gelo pela manhã em dias frios? –, essa notícia veio a calhar. Adoro quando a ciência me favorece e ainda diz que sou normal.

22 junho 2007

Perdigotos de realidade

Os irmãos mais velhos são mais inteligentes. É, é isso que uma interessantíssima pesquisa norueguesa aponta. Em média, os primogênitos são 2,3 pontos mais ixpérrtus do que os maninhos. Dois ponto três! Mas atenção: se o primeirão sumir do mapa, o segundo ‘herda’ a inteligência dele. U-au! Ou seja: como já se sabe há séculos, os primogênitos ainda são os filhos realmente desejados, aqueles que ganham atenção e cuidados que muitos pais não vão poder dar – ou ter saco – com os filhos seguintes. Eu, último irmão de quatro, já comprei um pente extra pra minha pistola. O almoço de domingo vai ser o coroamento da minha inteligência suprema.


A Paris Hilton tá negociando um milhãozinho de dólares pra dar entrevista pós-jaula. Adoro esse mundo pós-moderno, em que milionários ficam bilionários até por palitar os dentes – e com tanta grana, será que ela não podia melhorar aquela cara de traveca?


Já aqui no Brasil, a Marta Suplicy – a que mandou o povo relaxar e gozar enquanto espera dias pra pegar um avião – fez o movimento inverso: trocou a cara de mulher por uma de plástico. Tenho medo de olhar aquela senhora, minha gente, ele tem cara de monstro.

Será Marta um clone de dona Marisa, nossa primeira dama?



Ou as duas são atuações ruins da Courtney Love?
Foi tanto puxa/estica/corta que virou arte moderna. Dizem que especialistas autenticaram como verdadeira uma foto da ilustríssima ministra do Turismo pensando que era uma versão desconhecida de Guernica, de Picasso.


E não esqueçam que o inferno instalado na ponte área é culpa desses brasileiros mortos-de-fome, que mal enricaram e já querem andar de avião. O prestimoso ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem razão: a culpa é da prosperidade.


Tô triste. A Thammy e a namorada estão às turras. Armaram o maior barraco e acabaram na delegacia. O amor não é tão lindo quanto eu imaginava.