04 janeiro 2007

Alma lavada, cara nua

Quando o céu ficou incrivelmente preto, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi “rua”. Desde que moro em apartamento, pequenos prazeres como tomar banho de chuva se perderam na poeira do asfalto.

O mais incrível é que enquanto eu procuro chuva – numa tarde tórrida em Porto Alegre –, as pessoas ainda têm medo de se molhar. Em pleno Parcão, às cinco horas da tarde, apenas oito pessoas faziam caminhada debaixo de uma leve chuvinha sem graça, dessas que deixa o corpo melado. Nessa hora, o segundo parque mais freqüentado da cidade concentra o maior superávit de beleza da capital: gente bonita e sarada que só se destaca se for absurdamente linda, já que a concorrência é pesada.

E foi só a chuva desabar com força pra eu ficar sozinho no parque. E não tô brincando, não havia ninguém. Senti como se estivesse no quintal de casa outra vez. Tirei os tênis e a camiseta e chafurdei nas poças, caminhei pelos gramados e abri a bocarra pra deixar a água saciar a sede. Podia ficar pelado que ninguém ia rir da minha situação.

Lavei a alma, o corpo, a vontade de me molhar na chuva. Brinquei feito criança. Até que percebi que meus óculos, relíquia fabricada no início do século passado – haste de ouro entalhada, sem aro e lentes sextavadas –, não estavam mais comigo. Detalhe: com a chuva torrencial, o parque virou um lago em vários pontos, e rios caudalosos em outros, quase todos convergindo com força para o laguinho central.

Percorri mais de uma vez os caminhos que tinha feito, mas a água pelos tornozelos me tirou qualquer esperança. Foi um toma lá, dá cá difícil. Troquei um tesouro sentimental por um banho de chuva memorável.

19 comentários:

marcia disse...

lamento, xuxu.
certas coisas não são substituíveis.
um dia a gente perde. :(

Sean Hagen disse...

*


a tarde foi supimpa, a chuva maravilhosa - fazia tempo que não via tanto raio explodir na cabeça -, a sensação boa.
vão-se os óculos, ficam os olhos.



*

Graziana disse...

Antes eu tivesse tomado um banho de chuva ontem, não fosse minha camiseta branca que ficaria transparente se molhada, teria ido caminhando pra casa ao invés de ter ficado 2h20min de pé, dentro de um ônibus, tentando chegar em casa...

lamento pelo óculos, mas valeu pelo banho de chuva, coisa boa!

acabei fazendo um texto azedo sobre minha aventura de ontem...

Maitê disse...

Pois é, soube que desandou o chuvão por ai!

Aqui só deu para andar na garoa, mesmo. Ah, a diva estava falando de que ela poupa água, não enche sua banheira até a borda.
Sentiu a barriga da pessoa? Me senti até bem... hehehe

Abs

Rosamaria disse...

Lendo teu texto primeiro senti inveja branca, como diz a Thelma, pelo banho de chuva. Devia estar divino, maravilhoso, como na minha infância, agora só no pátio, com a Maria Antônia.

Depois o sentimento de perda,que já senti muitas vezes, quando fui roubada de coisas que eu gostava muito. Foram os anéis, mas ficaram os dedos.
Sinto muito tu teres passado por isso.

Bjs.

Ana disse...

Meu pai sempre me consola quando perco coisas de que gostava muito falando que foi só uma troca que Alguém lá em cima providenciou e que podia ser muito pior...

Que fique a sensação do banho de chuva e o prazer de se redescobrir criança...

vagem again disse...

tô achando que tu só não reencontrou a relíquia porque tava procurando a dita sem óculos... agora, fora de galhofa, tenta voltar lá e ver com a zeladoria. já perdi um celular no parcão e, ao tê-lo de volta, provei que a honestidade agoniza, mas ainda tá viva.

Maroto disse...

pois é, gafanhoto, tudo o que é sólido se dilui na chuva e o que o hoje temos, amanhã se foi.
Espero que a Vagem tenha razão e você consiga os óculos de volta, mas o fato é que são só mesmo as experiências, como esse banhão de chuva gostoso, que são pra sempre (baita urubu sábio que eu tô hoje, credo!)

Maroto disse...

ah, sim, e essa de não ter ninguém pra rir de ficares pelado no Parcão é pedindo confete, né? Ou será que estás plantando companhia pra próxima chuvarada?

Thelma disse...

Genial a descriçao do banho de chuva! Acho que todos que te lemos ficamos com inveja branca deste teu momento.
Uma pergunta de velha medrosa: tu nao sentiste medo de andar num parque cheio de árvores (pontas) num dia de raios e de chuva intensa? Podias ter virado pó!
Acho que a perda dos óculos foi a maneira de nao atrair os raios. Benditos óculos que te salvaram a vida!!! (e cada um vê do ângulo que quer...)

luis galego disse...

Troquei um tesouro sentimental por um banho de chuva memorável.


este texto é que de facto um pequeno tesouro....Obrigado!!!

> [ eRRuD!tO ] ... disse...

fui prá chuva esses dias também. mas não perdi óculos.
espero uma aguaceira de novonos próximos dias, prá lavar a alma quando entregar a "disser" :o)

Vivien disse...

Bacana.

Mary disse...

Ahhhh a chuva!!Eu geralmente num gosto da chuva, mas tbm pude me deliciar dela dia desses no meio de minhas férias na praia!E aí tbm caminhando sozinha pelo mar peguei uma garoa q se transformou em chuva e foi muiito bom tbm! Lavei os pés e a alma!rsrs...e descobri que a chuva e o mar sao terrivelmentes sedutores!rs...ai me lancei nesse bem estar e me deixei seduzir! Bom demais né?rs
Bjus

Wellington Almeida disse...

Ola Sean (este hagen é mesmo teu?) cheguei ao teu blogue atraves de milhões de cliques em blogues dos tugas daqui..e gostei muito. Vou voltar sempre! Um abraço.

Aleksandra Pereira disse...

É chato, mas fica a compensação que o banho de chuva foi tudo de bom, e é mesmo. Eu tenho comigo uma mania de preferir sair na chuva. Mesmo protegida debaixo de meu fiel companheiro guarda-chuva, a mão sempre escapa para sentir os pingos... e nadar na chuva então? Arriscado, mas maravilhoso, os olhos na linha da água, os pingos tocando a superfície, coisa boa.

Beijo grande.

Ju disse...

Nada como um bom banho de chuva para exorcizar o ser humano de qualquer tristeza. Parabéns pelo blog e um ótimo fim de semana. Abraços, Julia.

Nanachara C. disse...

realmente, coisa difícil de encontrar é óculos, ainda mais pra quem depende deles para tudo. sei bem. mas se o banho de chuva vale a pena...!

Rodolfo De Carli disse...

eu perdi um óculos italiano andando de bicicleta uma vez. quase morri.