11 fevereiro 2007


Do amor

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foto Sean Hagen


O amor é um sentimento fluido como o ar pra mim, fácil de definir pela falta, não pela presença. É essa atmosfera que nos envolve, está sempre presente e possibilita que a vida seja plena.

Tive a sorte de ter duas mães nessa vida. Uma biológica, que amo muito, e uma por escolha, ou melhor, por quem fui escolhido. Reza a lenda que foi amor à primeira vista: quando me viu na maternidade e pegou no colo, não largou mais. Com pai e mãe trabalhando em longas jornadas, o carinho que a tia Tê me fez sentir ajudou a moldar minha visão do que é o amor: grande, solidário, parceiro, íntegro, incondicional.

Teresa é a irmã mais velha de minha mãe, primeira filha de um casal de libaneses que chegou ao Brasil no início do século fugindo da falta de perspectiva que assolava o Oriente Médio depois da Primeira Guerra. Entre os sonhos de uma vida nova, trouxeram os costumes da terra em que nasceram. E uma primogênita não era uma opção agradável pra eles. Alijada de uma representação de vida verdadeira, Tê se construiu para os outros e pelos outros.

Aos 17 anos recebeu um vaticínio: nada de estudos, namoros, de vida pessoal. O papel que teria era de guardiã dos pais e da família. Fico imaginando como alguém tão perspicaz, tão sedento de conhecimento e de vida se resignou a isso. Mas foi o que aconteceu. Tê criou cinco irmãos, os filhos dos irmãos, os netos dos irmãos. Zelou por pai e mãe com um afinco que só vi nos mitos gregos. E nunca – repito aqui, nunca – pediu nada em troca, nunca cobrou o que foi negado. Sempre viveu pelo que sobrou da vida dos outros.

Numa família em que muito cedo o estudo deu lugar ao trabalho, cultura não era prioridade, até mesmo por uma questão de impossibilidade. Mas como explicar aquele verdadeiro paraíso que era a pequena biblioteca que colecionava? O contato com Emyle Brontë, Mario Quintana ou Aghata Christie? Os grandes clássicos do cinema norte-americano que ela contava com olhos brilhantes ter visto num pequeno cinema de Bagé nos anos 40 – e que revíamos juntos na sessão da tarde? As revistas e jornais, itens tão fascinantes quanto as guloseimas compradas escondidas?

Sem falar na memória de elefante. Das datas importantes e fatos mundiais à trajetória dos Aquere, é nela em quem nos apoiamos pra manter a história viva. É ela quem, de alguma forma, costurou as delicadas tramas familiares que as diferenças e incompreensões facilmente fazem puir.

Hoje, às sete da manhã, o hospital nos informou que a morte dela foi oficialmente decretada. Há três dias teve um acidente vascular cerebral e ficou inconsciente depois que soube que o irmão teve mais um enfarte. Estranho falar em inconsciência sobre quem deu sentido a vida de tanta gente. Tê não leva nada do mundo além do amor que sentiu. Poderia ter sido o que quisesse, talento e inteligência tinha, mas foi alguém que simplesmente amou, apesar de tudo.

Uma grande parte de mim vai com ela, tenho certeza. Mas a totalidade dela fica comigo. Sou o que ela possibilitou que eu fosse. E isso, nada nem ninguém pode apagar.


28 comentários:

Nanachara C. disse...

É linda a maneira como vc escreve da família, Sean. Poucos têm uma "Tia Te". Mais um motivo p nunca deixar de ama-la

cida disse...

Xôn
Me emocionei com a descrição sobre a tua tia e do amor incondicional que ela devotou à família.Além, claro, da tua declaração de amor a ela.
Acho que quando a gente tem a sorte de ter essas tias na família a vida fica mais leve e com mais brilho.
Desejo que a tua tia esteja em um lugar de muita luz e em paz.
Um abraço carinhoso

TARCIO VIU ASSIM disse...

Professor, meus sinceros pêsames pela despedida (temporária, creia)de alguém tão importante para você.
-
Ao mesmo tempo meus parabéns pela sorte de ter convivido com essa criatura exemplar; por ter o talento invejável de descrever com precisão e emoção, em poucas palavras, a grandeza dessa mulher.
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marcia disse...

divertida.
amorosa.
estabanada.
curiosa.
sagaz.
teimosa.
autêntica.

impressionante.
inesquecível.

clarice disse...

Fiquei triste por você. Nem sei o que te dizer e ao mesmo tempo sei que a dor da perda de alguém amado é muito grande, a alma da gente dói muito!
Bjos

Rodolfo De Carli disse...

inesquecível como poucas pessoas, pelo visto.
meus sinceros pêsames. estou aí pro que der e vier.
espero tuas melhoras.

Graziana disse...

poucas pessoas amam assim como tua ti Tê, com certeza.
Que este amor seja sempre lembrado e faça sempre parte de você e de toda familia.
perder alguém tão amado e amável assim não é nenhum pouco fácil, mas as lembranças que ficaram nos ajudam a passar.

tenho certeza que ela está em algum lugar, rodeada de boas energias, quem vive no amor e o cultiva, sempre estará rodeado por boas energias.

este foi um dos textos mais lindos que você escreveu, tenho certeza que ela sabia do seu amor, não só por estas tuas belas palavras, mas pelo convivência que tiveram.

fica bem ;)
beijos

ederson disse...

ok, não sei o que dizer... sinto muito...

ruvanadecarli disse...

Amor!

Bjk, queriduxo!

Ju disse...

Fiquei muito emocionada com o que li. Há dois meses perdi meu pai e só quem passa por isso pode entender a dor que sentimos. Força, Sean! Parabéns pelo texto. Beijos.

Thelma disse...

Xonzinho, te abraço forte e com carinho. Lamento nao ter conhecido a Tia Tê, embora agora saiba que ela está em ti e em tua alma inquieta. Uma sorte ter, conviver e aprender com uma pessoa como ela.
A beleza de tua descriçao-separaçao é tocante. Bjs.

Maitê disse...

Xôn. Sinto muito por sua perda. Sua tia parecia ser mesmo uma pessoa de muita fibra e merecedora de muitas homenagens. Um abração

Ana disse...

Sean
Que bom que ela existiu na tua vida...
Tão lindo este jeito doce de falar nela que sei que tua tristeza, de agora, não vai ser maior que teu amor, de sempre.
Um beijo.

Vivien disse...

Acho que não consigo comentar.Não dá.
Lindíssimo seu texto.

Lu Tricotando disse...

Sean, só tenho uma coisa pra te dizer: a saudade que vai ficar é muito boa e mesmo depois de muitos e muitos anos, tu ainda vai sentir a saudade mas não como uma perda, apenas uma lembrança de uma pessoa que já não está materialmente conosco. Este é o sentimento que tenho também pela minha avó (que era na realidade minha tia-avó) e que foi quem me criou. É um amor incondicional, não tem comparação, e o que fica é muito bom, mesmo que doido pela falta. Meus sentimentos!

Rosamaria disse...

Duvido que alguém não se emocione ao ler teu texto, Sean.

Fico triste por ti, por não teres mais o convívio de uma pessoa como ela em tua vida. Por outro lado fico contente por ela ter feito o que fez por ti e ter te ensinado o que é o amor. Ela trocou toda sede de conhecimento e de vida pelo amor de vcs.

Sinto muito, cosquirídia, queria poder te dar um abraço agora.

Camu disse...

Sean, lindo o amor entre vocês... Sinto muito pelo momento de dor... Bom saber que o amor continuará pra sempre!
Força aí!
Bjk

Aleksandra Pereira disse...

E que delícia poder ter tido uma tia Tê não para dividir, mas para aprender a somar.


Beijo grande

Adriana disse...

Conheço somente seu blog, por indicaçao de minha amiga Vivien, e acho que todas as pessoas que te conhecem devem se sentir previlegiadas de ter a oportunidade de que voce divida suas dores, seus amores, suas lagrimas e suas saudades. Tenho a certeza que todo as pessoas amariam ter tido a oportunidade de ter uma Tia Te em suas vidas....Um abraço carinhoso do outro lado do oceano

Tarcisio disse...

Dica da Vivien. Lindo texto, linda experiência de vida.

GUGA ALAYON disse...

Pelo jeito suas(dela) lições de vida e amor foram muito bem assimiladas. Parabéns pelo belo texto e boa sorte sem ela. abç

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

força ai pra ti!!! emocionante o texto..

Sean Hagen disse...

*



queria agradecer o carinho e a generosidade depositada aqui. esse texto foi muito mais uma forma de catarse do que qualquer outra coisa. é uma homenagem, sim, mas acho que de uma forma egoísta, porque desentalou do peito algo que estava preso há dias.

mais uma vez obrigado, foi bom ter encontrado pessoas que já dividem esse espaço comigo, e outras que vieram especialmente oferecer apoio.
abraço grande a todos.



*

vagem again disse...

devia ser uma figura rara a tia tê. e inda fez um excelente trabalho com vossa mercê. tu é grande, tuaregue! baita beijo.

Clélia Riquino disse...

Sean,

Vim aqui, indicada pelo blog da Vivien.

Adorei seu texto, como disse a ela. Fez-me lembrar minhas tias da Bahia, que apesar de resignarem-se a uma vida monástica e ao trabalho doméstico, viviam reclamando, qdo velhinhas, de suas dores & solidão... Ao que parece, sua tia Tê, não. Ela distribuía amor & cuidados, apesar das privações a que se submetia. Uma grande mulher.
bjo,
Clélia

maristela bairros disse...

Sean. Dói perder. Dói te ler. Dói muito ver a foto dela. Mulher de Atenas, a Tê. Deve estar rindo da gente, ela. beijo
maristela

Anônimo disse...

Sean
sinta meu abraço, meu beijo, enfim, todo o meu carinho!
Naná

firvidas disse...

Entre nós, existem anjos disfarçados de humanos. A sua querida Tê, era sem dúvida um ....