31 março 2007

Mulher: uma abordagem empírica-umbigóide

Lendo um post que a Urubu fez sobre uma ‘pesquisa’ sexista extremamente pertinente à humanidade, lembrei de outras construções que vêm à cabeça quando a gente pensa em mulher como uma delimitação de gênero, não como uma pessoa. Entre descobertas vistas e vividas, ou debatidas em mesa de bar, as melhores são as que as próprias mulheres contam umas das outras: é uma barafunda de mitos e fatos, verdades e mentiras, ironias e – doces – maledicências. Vamos a elas:

Mulher é sinônimo de caridade – todo mundo sabe que mulher é um poço sem fim de amor pela humanidade, graças à maternidade – que muitas nunca vão exercer. Fico profundamente comovido quando uma mulher jovem e sadia, ao ver uma pessoa idosa de pé num ambiente lotado, vira o rosto e faz cara de paisagem. Essas mulheres sofrem tanto com as injustiças alheias que preferem não ver, já que nada podem fazer.

Mulher é um anjo – nada melhor do que acordar ao lado de uma pra comprovar isso. A rosnada forte que soltam quando se dá bom dia, o olhar de ódio profundo por ter um ser vivo respirando na frente delas e a doçura que exalam são típicas de um ser celestial.

Mulher sofre – todo mundo sabe que mulher sofre. Todo mundo sabe que o sofrimento da mulher não tem igual. Todo mundo sabe que os homens têm que aceitar o mau humor, as grosserias e a instabilidade emocional de uma mulher com TPM. Também tem-se que lembrar que o parto – áh, o parto –, essa entidade que paira em todas as discussões, só as mulheres têm culhão pra suportar – desculpe a palavra, mas ela é a definição exata. Homem é tudo banana. A cultura feminina nos diz que é pra ser assim, então assim tem que ser. Mesmo que o babaca não queira ter filhos com essa mulher, e muito menos transar com ela, apenas tenha pedido informação em um guichê de atendimento. É lei.

Mulher é limpinha – homem é porco e imundo. Lembre-se que mulher não sua. Não solta flatos. Não faz cocozinho – produz incenso de jasmim. E mesmo que fique uma semana sem lavar os cabelos, eles nunca pegam cheiro ou ficam ensebados. Nunca. Eu disse nunca.

Mulher é naturalmente educada – o gênero feminino já nasce com os genes da boa educação e boas maneiras. Você nunca verá uma mulher sendo grosseira ou desrespeitosa. Por mais que ela sente as patas, diga impropérios, seja rude, agrida fisicamente até, isso é apenas uma maneira de educar os estúpidos e broncos homens.

Mulher tem visão estratégica – quem já pegou aquele busum lotado, seis e meia da tarde, sabe do que estou falando. A quantidade de donas que sobem majestosamente é impressionante: todas, com pelo menos, duas sacolas de shopping em cada mão. E como charme e jeitinho são inatos e devem ser mostrados, passam no corredor lotado caminhando de frente, estraçalhando pés, pernas e costas de quem estiver no caminho. Ninguém pode exigir que uma mulher seja deselegante e caminhe feito caranguejo.

Mulher é sempre coerente
– nesses dias confusos em que vivemos, só as mulheres têm coerência e sensibilidade pra entender as relações. Quando se recusam a fritar um ovo – porque é coisa de mulherzinha –, mas querem que vc abra portas, sempre elogie o medonho esmalte com que lambuzam os dedos, pague contas e as trate como bibelôs frágeis e mimados, apenas estão usando o direito universal de escolher o que há de melhor pra elas. O homem que é um brucutu estúpido por não aceitar isso. Um moleirão que cada vez menos dá caros presentes ou faz polpudos depósitos bancários.

Mulher é perfeitinha – um homem nunca deve discutir, elas sempre têm razão. Nunca deve contrariar, é grosseria. Deve apenas aceitar, já que possui uma mente toscamente masculina, incapaz de apreender a plenitude que só uma mulher consegue ter. Do contrário, ela faz beicinho, desarruma o cabelo, chora, se diz perseguida. E num piscar de pestanas ricamente maquiadas, invoca todos os itens aqui enumerados anteriormente como justificativa pras lágrimas que verte. Como ninguém gosta de ver a perfeição estragando a maquiagem, a ira dos anjos se abate sobre o ser tosco que provocou a situação.

Poderia ficar horas retirando essas pérolas do meu umbigo, mas seria demais – de qualquer forma, contribuições para essa lista são bem-vindas. Fecho, então, com uma citação do mestre Shakespeare, tirada de Antônio e Cleópatra: “A mulher é um prato para os deuses, quando não é o demônio que a prepara”.

28 março 2007

Faça a coisa certa, ministra

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Nota à postagem original: três apartamentos de estudantes africanos tiveram as portas queimadas, dentro do campus da UnB, um dia após a declaração da ministra. O reitor não tomou medidas claras, mas afirmou que há racismo dentro da universidade, assim como há no Brasil. Os alunos, pela reportagem, concordam, baseados em atentados racistas anteriores. O psicanalista Contardo Calligaris, analisando o recente pedido de desculpas do primeiro ministro inglês Tony Blair aos povos escravizados – na data que o Reino Unido marca os 200 anos da abolição do comércio de escravos –, lembra que "as desculpas de hoje, justamente, parecem assinalar uma intolerância crescente. ‘Desculpe-me por tê-lo escravizado no passado’ é um jeito de lembrar que o passado continua valendo, e, nesse passado, você foi escravo, eu não. Ou seja, não somos bem humanos da mesma forma” - o texto completo de Calligaris está anexado nos comentários.
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Definitivamente, estamos vivendo a ditadura do Eu: vale o que eu penso, o que eu quero, o que eu sinto, o que anseia o grupelho em que me insiro. O Outro, aquele coitado que a alteridade diz ser essencial para nos construirmos, foi sufocado com o próprio cordão umbilical. Hoje, cada um se constrói olhando para o próprio umbigo, no máximo espiando o do clone que está ao lado. Estamos na época em que todas as causas são válidas e, nesse vulgarizar e pulverizar de opções, nenhuma ganha relevância.

É mulher trabalhadora xingando mulher dona-de-casa; é gay afeminado odiando gay másculo; é classe média colocando no gueto os mais pobres; é sarado enchendo de porrada os nerds.

O complicado, realmente, é quando a ministra Matilde Ribeiro – quem? –, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir) – qual? –, enche os pulmões pra dizer que considera natural a discriminação dos negros contra os brancos. Essa lógica enviezada, que ‘autoriza’ os supostos discriminados a serem preconceituosos e intransigentes, é umas das coisas que mais me irrita nos dias de hoje. Pedir justiça através da incitação ao ódio, que é o que fica na ponta final, é se construir torto, apartado, sem passado nem presente, centrado apenas em si mesmo. É se sentir superior simplesmente por existir.

A sorte da ministra é que a tal cordialidade do povo brasileiro, tão exaustivamente estudada, elogiada e criticada, faz com que declarações como essa não ganhem eco. Nos Estados Unidos, França e Inglaterra, por exemplo, em que as questões raciais tomam proporções assustadoras, isso seria o estopim para uma insurreição. Matilde confunde conceitos, troca discriminação econômica e opressão política por racismo, tenta ‘naturalizar’ o que é uma inequívoca construção social e, por final, incita ao ódio. Talvez Matilde seja apenas uma ingênua incapaz de ocupar o cargo que tem. E eu, cínico demais. Mas a ingenuidade já fez tantos estragos história a fora, que acho melhor cada um tirar sua própria conclusão. Diz a ministra:

- Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

São tantos os fatores a serem analisados, que nem me aventuro a fazer isso num bloguinho como este. A única coisa que me vem à mente é o soberbo filme do Spike Lee, Do the right thing (Faça a coisa certa). Quando o ódio toma conta, nada nem ninguém segura. Ninguém é santo. Todos perdem. Todos oprimem e são oprimidos. Quem esquece que há um outro na interlocução – e não apenas uma coisa ou causa –, perde a razão.

De boas intenções impensadas, ministra, o inferno está cheio.

26 março 2007

Só os fúteis não se deixam levar pelas aparências

A frase do título é do Oscar Wilde, mas eu assino embaixo. Mais de cem anos depois, o sociólgo Michel Maffesoli postula que a forma é formante, tendo a capacidade de revelar a profundidade das coisas. Claro que não se pode tomar essas idéias de maneira leviana, é preciso buscar compreender porque a aparência cristaliza uma determinada forma. E isso não está limitado às pessoas, mas também às coisas que nos cercam.

Eu admito que sou o tipo fútil que já leu livros pela capa, assim com deixei de ler obras primas pela péssima edição. Que gosta de devorar a comida com os olhos. Que se sente confortável ou incomodado conforme a aparência do lugar.

Ontem, navegando a esmo, achei a abertura de um seriado de TV da década de 70. E quando percebi, já tinha visto mais de 30 vídeos com programas que, de alguma forma, marcaram minha vida. Só pela abertura. Essa ‘forma’ de introduzir as séries diz muito sobre elas, diz o que está por vir, dá o tom do andamento.

O impressionante é que eu poderia contar um pouco da minha história só falando dessas aberturas. Essas ‘formas’ me marcaram de modo indelével, situaram-me no mundo, organizaram a cultura na minha cabeça. Trouxeram informações que ultrapassam o próprio conteúdo dos programas, criaram sensações que me fizeram traçar caminhos, buscar metas, reproduzir sentimentos. Alguns dirão que me deformei ao ter como parâmetro algo tão fútil. Talvez até possam ter razão, mas não tenho como fugir da minha futilidade.

Pena não ter espaço pra postar todas as aberturas que eu queria. Mas vou deixar oito, o que já é muito prum blog. Quem tiver paciência – ou vontade de relembrar –, boa viagem.

George of the Jungle

Ironia pura, questionamento dos papéis sociais, embate entre o aparentar e o ser. Talvez fosse mais adequado pra adultos, até pela psicodelia dos traços. Deu um ponto de partida pra eu olhar o mundo. A música é supimpa.

Happy Days

Passava aos sábados à tarde e injetava uma carga de adrenalina enorme, vontade de sair pulando, de ser feliz. Amizade e companheirismo pareciam ter sentido naquele momento.

Perdidos no Espaço

Aqueles malditos bonequinhos presos por um fio me deixam louco. E se a corda arrebentasse, onde eles iriam parar? E a angustiante e deliciosa música ‘metálica’ dando o tom do desconhecido, do inevitável que está por vir. A vida pode ser bela, mas precisa de vigilância constante

James West

Só nos anos 70 pra ter uma abertura tão politicamente incorreta como essa. Quanto ele beija a piranha e depois acerta um cruzado de direita, wow, que relação é essa, pensei. Sem falsos moralismos, o mundo é mais complexo do que delicadas virgens e destemidos heróis. Mas precisa de uma boa dose de coragem.

Batman

Pra que levar ao pé da letra as coisas se a vida pode ser divertida? Rir de si e dos outros é o melhor remédio. Sem falar que o "mal" tinha um charme e uma riqueza de sentimentos que derrubava as visões maniqueístas.

Hawaii Five-O

Quando aquele papapá papá começa, eu tinha vontade de sair correndo e fazer algo. Era como uma ordem: viva, mexa-se!

A feiticeira

Sofisticação: casa com móveis palito, uma feiticeira gostosona que resolvia tudo num passe de mágica, um publicitário exercitando a imaginação. O tom jazzístico do trompete acentua ainda mais esse clima. Talvez minha primeira vocação, a publicidade, tenha vindo daí. Assim como a vontade de viajar apenas num estalo de dedos.

Mary Tyler Moore

A musiquinha suave que vai crescendo, ela caminhando pela cidade, fazendo reportagens na rua, vivendo intensamente, putz, dava o tom de liberdade. Pra mim, aquela era a sensação de ser livre, de ter a vida nas próprias mãos, de ser bem-sucedido. E a redação de um telejornal, deliciosamente cruel e irônica, se tornou outra opção a ser seguida.
– o take em que ela pega carne embalada em filme plástico de um balcão frigorífico era símbolo da modernidade, acostumado eu, que estava, a buscar carne no açougue enrolada em papel pardo.

23 março 2007

Bom dia, Bagdá

6h50 da manhã.
Meu bofes são impelidos pra fora da boca pela adrenalina que toma conta do meu corpo.
Em algum lugar dentro do meu quarto, alguma coisa explode.
Um som agudo e insistente toma conta do espaço, e vozes excitadas gritam por todo lado.
Estarei em Bagdá?, minha mente se questiona, por milésimos longos segundos.
Pulo da cama e corro pra janela.
Enrolado num pedaço da cortina – que é pra não virar chacota na vizinhança com a exposição das minhas partes pudentas – vejo um guri vestido de pedreiro e um homem vestido de empresário de pedreiro, os dois na cobertura ao lado do meu apartamento.
Um empunha uma marreta, o outro uma furadeira.
Um trabalha, o outro administra.
Os dois gritam.
Grito eu também – azedo como maracujá verde.
- Gostei do barulho. Pode fazer mais alto?
- Barulho? O senhor achou?
- Às dez pras sete da manhã, acho barulho demais.
- Imagina, são 7h10 agora, já é tarde.
- Agora, mas começou antes - fico mais azedo ainda com a gracinha -. Poderia ser 7h50, amigão, mas o respeito pede que você não incomode as pessoas até às 8h. Além do que, sou eu quem decido quando quero acordar. É possível?
- Áh, moço, viemos de longe pra fazer isso.
- Amanhã eu não vou acordar com vocês botando o mundo abaixo.
- Não se preocupa, já vai terminar.

Gosto de gente de palavra.
Uma hora e meia depois, quando eu já tava arranhando os azulejos do banheiro, a bateção cessou.
O dia começou bem com a confirmação da minha crença na humanidade.

22 março 2007

O armário, a barata, e alguns milhões de telespectadores

Me mijei rindo.
Prestem atenção na mãozinha na boca e na voz beirando a histería.
Isso que eu chamo de profissionalismo.

20 março 2007

Catícula e abudãozinho

Poderia dizer que esse post é sobre a chegada do outono, uma época da qual gosto muito. Mas não é. Mais do que a chegada dos dias amenos e das noites frias, todo 20 de março lembra outro marco em minha vida. Vinte anos atrás, um gurizinho com nome de rei entrava arrombando a porta e anunciando: “cheguei pra ficar”. Frederico Gustavo Rudolph Hagen não é meu filho, mas nada impediria que fosse. Quando pequeno, apontava minha imagem nas fotos como se fosse ele. Não posso negar que ver meu irmão puto com isso me enchia de alegria. Mas saber que o Frédi se reconhecia em mim, transbordava meu ego de orgulho.


Eu à esquerda, ele à direita. Politicamente, inclusive

Até por volta dos cinco anos, viveu diariamente ao meu lado. Ia pra casa só pra dormir, quando ia. Acompanhei cada nova descoberta, cada nova malandragem, cada nova palavra que ele distorcia numa lógica só dele – adorava colocar tomadinha (pomadinha) em um abudãozinho (algodãozinho) e passar nas catículas (cutículas) que sempre arrancava. Pra compensar, ganhava sorvete de coros (flocos).

Frédi foi a criança mais cativante que conheci, com um magnetismo especial: carinhoso, simpático, inteligente e precoce – com menos de quatro anos reconhecia as letras do alfabeto e que palavras elas iniciavam. Ao mesmo tempo adorava aprontar, e era só indicar o caminho que ele ia, prevendo que a piada ia ser boa. Assim como as tirinhas do Calvin, filosofava e reinterpretava a vida com humor e uma pureza desconcertantes.

O sorriso continua largo
Gastei rolos e mais rolos de filme tentando capturar essa aura. Não consegui. Mas tenho vivo na memória o carinho incomensurável que ele me despertou. Ajudou a domar meu egoísmo pós-adolescente, e confirmou que são esses laços que fortalecem a vida. Hoje, faz a idade que eu tinha quando ele nasceu. Como um urso hibernando, está preparando a entrada em um grande mundo, mesmo que eu e outros ainda tenhamos dificuldade de saber o que será. Por mais que isso me angustie, a capacidade de fazer escolhas é o que o torna um homem.

Não nos vemos mais com tanta freqüência, e quase nada sei da vida dele agora, mas isso pouco importa. Carrego aquele Fredinho comigo assim como carrego o pequeno Xôn que um dia eu fui. Independentemente da idade ou distância que nos separe.

Sim, ele é esse bicho cabeludo que está ao meu lado.

17 março 2007

The dildo is on the table

O mito de que o sexo é uma língua universal está em xeque. A proximidade da abertura do Pan Americano no Rio de Janeiro, em julho, mudou a rotina das profissionais do sexo da Vila Mimosa, reduto tradicional do puteiro carioca. Três horas por semana, 20 mulheres tentam desvendar os meandros da língua inglesa, numa iniciativa voluntária, sem apoio oficial, de um professor que resolveu dar uma forcinha pras profissionais do sexo. Ele disse que “foi recebido de braços abertos” e está adorando – alguém duvida?

Agora, quando os gringos disserem blow job, todas saberão que se trata de um prosaico e usual boquete, nada além disso. E ninguém vai poder alegar que não recebeu o que pediu. Resta saber se a conta vai ser cobrada em dólar ou real.

A reportagem completa da Folha de São Paulo está anexada nos comentários.

14 março 2007

Cospe, fio, cospe

O mundo sem os idiotas seria um jardim sem flores.

12 março 2007

O monstrengo dos olhinhos verdes

A definição é de Shakespeare, e atravessa séculos com a mesma força: “O ciúmes é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive”. Iago tem ciúmes de Otelo, e sabe que só a destruição do outro poderá acabar com a inveja que sente. Há nuances significativas entre ciúme e inveja, mas a fina linha que os separa nem sempre deixa entrever quem é quem.

Passei a acompanhar essa centésima edição do Big Brother quando Caubói – Iago –, entrou em surto por ciúmes de Alemão – Otelo – e defenestrou Siri – Desdêmona. O rapaz, um típico representante do reino das minhocas – magrinho, dissimulado e rastejante – sofre por conviver no mesmo espaço com um bombado e seguro galanteador. Não se pode esquecer que há um milhão de reais em jogo, mas o ciúme é verdadeiro, machuca, corrói e dilacera. Impressionante ver alguém odiar ao vivo, em cadeia nacional, explicitando todos os passos do complicado e sofisticadíssimo sentimento de se construir pela destruição do outro. No dia-a-dia não vemos isso, não temos acesso aos bastidores do pensamento de um ciumento, as sutilezas que cria pra se aproximar e desferir o golpe, as táticas de seduzir parceiros de ódio, as mentiras construídas para tentar derrubar quem ele inveja.

Confesso que dos muitos ciúmes que senti na vida, o pior foi parecido com esse: o cara era forte, alto, e estava sempre cercado de mulheres. Na verdade ele era o objeto de desejo delas, e isso era o que mais magoava. O ciúmes passou quando ele sumiu do mapa. Ou talvez porque eu tenha crescido. Com 14 anos, um cara de 17 parece um homem, ainda mais para um impúbere como eu, que só fui dar o estirão final chegando aos 15. Minha animosidade por ele era clara, e os embates em sala de aula eram inevitáveis. Filhote de jumento era o adjetivo mais doce que saía da minha boca – quem mandou um guri que já devia estar na faculdade, ficar no meio da pirralhada do primeiro ano do ensino médio?

Um dia, no meio da aula de inglês, a professora largou a bomba: “Sabia que a pronúncia do teu nome é Xôn?”. Ao que o folgado cuspiu, rindo alto: “Olha o Chonga”. O ódio foi tão forte que não pensei, apenas reagi: “Pega aqui que tu gosta, jumento”, disse eu, de pé, apontado pro meu projeto de chonga. Foi o que bastou pra se formar a confusão e eu levar a milésima advertência. Uma ou duas semanas depois ele passou pro turno da noite. Segundo dizem, foi obrigado a trabalhar na empresa do pai. Óbvio que me senti vingado.

O que eu só fui perceber muito depois é que esse enfrentamento meio David/Golias também chamava a atenção, e despertei ciúmes sem saber que tinha capacidade pra isso. O pior foi de um colega – vejam só – quase dois anos mais velho do que eu, já no terceiro ano. Ele se mordia porque eu peitava os professores e desfraldava a bandeira da opressão contra os alunos – eu era um tremendo chato. Em suma: ele era um pseudo nerd e eu, um arruaceiro. O cara fazia de tudo pra me ferrar, mas ao mesmo tempo se pintava de amigão, convidando pra fazer festa. É péssimo sentir que alguém te odeia e ao mesmo tempo fica sempre em volta, sempre querendo mais.

Quando abri meu orkut semana passada, depois de ficar uns dias fora, lá estava ele, o monstro de olhos verdes, pedindo pra ser miguxo. O convite ficou de molho, até que sumiu. Lembrei do Big Brother, da minha adolescência e vi como a maturidade faz bem. Hoje sei que o ciúme é uma insegurança que cada um tem que resolver sozinho, e passei quase de um extremo a outro: agora sou acusado de desprezo e frieza. Haja contradição.

A única certeza que tenho é saber que o ciúme fica melhor numa obra-prima de Shakespeare, mas bem longe da minha vida.


Nota ao texto original

Como expliquei nas respostas, não fiz a amarra necessária para passar do ciúme à inveja, e tratei de inveja como se fosse ciúme, não quis alongar demais e estava sem tempo. Erro meu, que publiquei o texto antes de formatá-lo corretamente. Apressados comem cru, diz o velho ditado.

O assunto gerou monstrinhos. A Marcia fez um post pra tentar me dar um pau. Não conseguiu, é claro, mas olhem lá.

10 março 2007

Síndrome de Oquidão

Estava eu olhando as notícias do Uol, e entre a visita do Bush, os protestos do Chavez e a milícia de policiais que rouba, mata e estupra no Rio de Janeiro, encontro a seguinte manchete: Sienna Miller diz que tem Síndrome de Tourette. Essa síndrome é aquela que faz a pessoa praticar ações involuntárias, como levantar os braços abruptamente ou repetir palavras sem nexo, muitas vezes palavrões.

Fiquei curioso pra saber quem era essa pessoa que mereceu manchete e como alguém público enfrenta o problema – que deve causar tremendas saias justas. Pelo primoroso texto descobri de cara que miss Sienna é da família dos camarões: chamou a cidade de Pittsburgh de Shitsburgh e disse que tomar drogas é divertido. Mas vamos deixar que ela se explique: “Estas coisas simplesmente saem da minha boca. Vou dizer as coisas mais inapropriadas, eu garanto, mas não tenho a intenção de ferir ninguém. Acho que sofro de uma leve Síndrome de Tourette ou coisa parecida" [grifos meus].

E eu acho que estou ligeiramente grávido - não tomei a pílula essa semana. Por zeus, como isso pode ter ido pra capa do mais acessado site de informações do país? O nada desceu do norte pra desembarcar aqui no sul como tudo.

Como meu dia não se fazia completo, nem minha vida plena, fui pro gooooooooooooooooooooogle descobrir quem é a fulana que solta coliformes pela boca. E vejam só: ela é uma atrizinha de cinema. Fez filmes que nunca vi e dormiu com gente que não lembro. E claro, toma banho com água oxigenada pra acreditar que é loira natural.

Eu ia escrever sobre o ciúmes, mas achei que era pesado demais prum sábado – tá, deu preguiça, confesso. Se tudo der certo, na segunda volto mais profundo. Só dependo do resultado do meu exame de gravidez.

08 março 2007

Parabéns, Clodovil

Lamento, garotas, mas esse blog não trará flores nem beijinhos hoje. Até posso ser acusado de porco chauvinista, mas não de hipócrita. Tenho ojeriza ao politicamente correto que nada mais faz do que perpetuar a discriminação. Comemorar o dia da mulher, do índio, do gay, do dedo mindinho torto é reafirmar a fragilidade da diferença, não a força da igualdade. Colocar-se no lugar de vítima não apaga injustiças. Construir-se apartado do todo é pedir pra ser visto diferente – e antes que algum leitor proteste, o todo aqui é a raça humana e os direitos civis, não a representação e dominação de gênero ou o malfadado patriarcado.

Quando se espetaculariza uma discussão que deveria ser séria – e que, como tudo que é ligado à cultura, a solução passa primeiro pela educação e o esclarecimento –, inverte-se o objetivo e acentua-se o preconceito. Nada mais grotesco do que o nobre deputado federal Clodovil Hernandes recebendo homenagem como se fosse uma mulher. A moral chistosa desse Congresso não me representa, nem a falta de seriedade. E quem acha que isso é promover os avanços na “causa feminina”, por favor, me explique como.

Nas ruas, uma multidão de mulheres vai desfilar com uma rosa na mão – vão ganhar no trabalho, no shopping, no restaurante. É como dizer “toma aí o que você merece, mulherzinha, e não enche meu o saco o resto do ano”.

O grito de igualdade acaba sendo um doloroso tiro no pé.

05 março 2007

Perversas goiabas

O problema de morar na capital, mantendo hábitos do interior, é que isso pode botar a gente em encrenca. Tá, nunca morei no interior, mas o subúrbio é zona rural da metrópole. É dessa época a mania de fazer doce em compota, e a goiabada caseira, escurinha, elástica como puxa-puxa, sempre foi top de linha aqui no clã. Sem quintal pra pegar fruta, o jeito agora é assaltar as árvores alheias.

Aproveitei um final de tarde chuvoso, com pouca gente na rua, e me atraquei numa goiabeira grande, alta, cheia de fruta. O ruim é que está na calçada de um prédio de três andares com dezenas de janelas e sacadas em frente. Sabendo que os gatunos chegam junto, o condomínio cortou os galhos baixos, deixando quase impossível escalar. Mas como nunca se esquece as malandragens dos tempos de moleque, dei uma de lagartixa e subi rapidinho. Não demorou pra uma ou outra cabecinha começar a despontar nas janelas, e a culpa de estar “roubando”, mesmo que em árvore pública, aparecesse.

Mas até aí, tudo bem, já fiz isso outras vezes. O problema na verdade foi outro. O galho em que eu parei ficava no nível de um apartamento do segundo andar, e como não poderia ser diferente, a luz acendeu e uma mulher, aparentando uns 70 anos, entrou. Era constrangedor, eu podia ver até o piercing que ela usava no umbigo – se tivesse um. Andou aqui e ali, mexeu em algumas coisas, e de súbito veio pra sacada, pressentindo algo estranho. Como logicamente eu era a única coisa que se podeira classificar de estranha - uma massa de 1,8 metros e 80 quilos agarrada num galhinho fino, tal qual um maranduvá gordo -, fiquei duro como picolé no freezer, protegido pelo escuro e pelas folhas, esperando ela sair. Até a luz se apagar, isso se repetiu duas, três, quatro vezes.

Se ela abrisse os pulmões e gritasse que um devasso de barba branca estava pendurado na árvore, como explicar que eu estava em busca de doces goiabas, e não de doces velhinhas? Imaginem as manchetes: TARADO DA GOIABEIRA FAZ NOVA VÍTIMA. Ou: VELHO BARBUDO MOLESTA VOVOZINHA.

Como já tinha pego uns oito quilos, desci o mais rápido que pude, me arranhando nos galhos e ficando todo lanhado. No chão, a passos largos, senti que um ventinho esquisito insistia em entrar onde não devia: o digníssimo lado direito da minha bunda se fazia presente ao público, descortinado por um rasgo generoso no calção. Imaginar o que aconteceria comigo na prisão foi o suficiente pra me fazer esquecer a vergonha. Tudo o que eu queria era desovar rapidinho o produto do meu roubo bem longe dali.

03 março 2007

Tabu

A moral judaico-cristã é clara: família é sagrada e nada pode abalar essa estrutura, muito menos o amor. Mas como o instinto segue regras que a cultura nem sempre consegue formatar, inúmeros são os casamentos consangüíneos. A história está aí pra falar de reis, aristocratas e plebeus que quebraram esse tabu e mantiveram união com o “próprio sangue”.

Eu sei bem o que é isso. Meus avós paternos eram primos, e nunca tive uma resposta clara se eram de consangüinidade próxima ou afastada. Vergonha? Talvez, minha avó tinha uma fé católica inquebrantável, com dedicação e resguardo a todos os dogmas da igreja. E um tabu como esse não era uma boa história pra se contar aos netos.

Lembrei disso porque vi a história do casal de alemães que entrou na justiça pra garantir o direito de manter uma relação que já dura sete anos. Detalhe: eles já têm 4 filhos e são irmãos. Irmão transando com irmão é um dos tabus mais sólidos da nossa cultura. É condenado pelas igrejas, pela moral pública e encontra respaldo na genética, que alerta para possíveis riscos de má formação – e eu ressalto o termo condicional aqui, já que qualquer homem e mulher, quando apresentam uma disfunção genética em comum, têm maior probabilidade de passar isso aos filhos. Probabilidade, não certeza.

Não consigo me imaginar nem dando selinho nas minhas primas, que dirá tendo filhos com elas. Mas fiquei espantado em saber que Alemanha e Inglaterra têm leis contra tabu – e não tenho a mínima idéia se o elefante branco que carrega nosso código de leis legisla sobre o assunto. Criminalizar o tabu é o mesmo que criar leis pra regular os mitos: é tentar dominar o medo, o desconhecido, o etéreo; por freios no que é irrefreável. Se a união entre irmãos pode causar riscos reais aos filhos, que se penalize a procriação, não o casamento – o que acho perigosíssimo de qualquer forma. Patrick, o marido-irmão, foi condenado há dois anos por “coito ilegal”, saiu da prisão e voltou pra Susan, a mulher-irmã. Os dois lutam pra manter um amor que acham justo.

Já entramos no século XXI e ainda professamos a moral da idade média. Não faço aqui apologia ao incesto, de forma alguma, mas me incomoda essa espada da lei sempre pronta a decepar cabeças fundamentanda na ignorância. Ou será que adultos não têm direito de escolher com quem querem ir pra cama, assumindo o risco que o ato envolve?

A reportagem da Folha de São Paulo está transcrita nos comentários. Interessante é notar como o redator se posiciona contra o casal: não teve distanciamento e objetividade suficiente pra fazer bom jornalismo. Trouxe pra dentro do texto os próprios preconceitos e medos. Reproduziu – inconsciente ou não – a rígida moral dominante, julgou e condenou sem chance de defesa. Lamentável.

01 março 2007

Casório

A mega-sena acumulou novamente: 36 milhões é o prêmio estimado pra sábado. É muito dinheiro prum pobre como eu, e não tenho a menor idéia do que faria se ganhasse tudo isso.

E nem penso, mesmo. Além das denúncias de lavagem de dinheiro nos jogos administrados pela Caixa Econômica Federal, há uma estranha tradição de só os estados do centro-oeste levarem as grandes boladas.

Então pra que sonhar com o impossível se tenho um quê de franciscano e me conformo com pouco? Um modesto salário de R$ 24.500, que a corja do Supremo Tribunal Federal garantiu ontem aos juízes e desembargadores estaduais, já estava bom. Nem um centavo a mais.

Mas como não faço parte de nenhuma quadrilha, e nem moro na misteriosa zona de sorte do Brasil, vou ter que continuar peleando pelo meu suado dinheirinho. Ou achar um bom partido que sustente minha singela pobreza – com prioridade total as propostas vindas dos Tribunais do centro-oeste.