28 março 2007

Faça a coisa certa, ministra

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Nota à postagem original: três apartamentos de estudantes africanos tiveram as portas queimadas, dentro do campus da UnB, um dia após a declaração da ministra. O reitor não tomou medidas claras, mas afirmou que há racismo dentro da universidade, assim como há no Brasil. Os alunos, pela reportagem, concordam, baseados em atentados racistas anteriores. O psicanalista Contardo Calligaris, analisando o recente pedido de desculpas do primeiro ministro inglês Tony Blair aos povos escravizados – na data que o Reino Unido marca os 200 anos da abolição do comércio de escravos –, lembra que "as desculpas de hoje, justamente, parecem assinalar uma intolerância crescente. ‘Desculpe-me por tê-lo escravizado no passado’ é um jeito de lembrar que o passado continua valendo, e, nesse passado, você foi escravo, eu não. Ou seja, não somos bem humanos da mesma forma” - o texto completo de Calligaris está anexado nos comentários.
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Definitivamente, estamos vivendo a ditadura do Eu: vale o que eu penso, o que eu quero, o que eu sinto, o que anseia o grupelho em que me insiro. O Outro, aquele coitado que a alteridade diz ser essencial para nos construirmos, foi sufocado com o próprio cordão umbilical. Hoje, cada um se constrói olhando para o próprio umbigo, no máximo espiando o do clone que está ao lado. Estamos na época em que todas as causas são válidas e, nesse vulgarizar e pulverizar de opções, nenhuma ganha relevância.

É mulher trabalhadora xingando mulher dona-de-casa; é gay afeminado odiando gay másculo; é classe média colocando no gueto os mais pobres; é sarado enchendo de porrada os nerds.

O complicado, realmente, é quando a ministra Matilde Ribeiro – quem? –, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir) – qual? –, enche os pulmões pra dizer que considera natural a discriminação dos negros contra os brancos. Essa lógica enviezada, que ‘autoriza’ os supostos discriminados a serem preconceituosos e intransigentes, é umas das coisas que mais me irrita nos dias de hoje. Pedir justiça através da incitação ao ódio, que é o que fica na ponta final, é se construir torto, apartado, sem passado nem presente, centrado apenas em si mesmo. É se sentir superior simplesmente por existir.

A sorte da ministra é que a tal cordialidade do povo brasileiro, tão exaustivamente estudada, elogiada e criticada, faz com que declarações como essa não ganhem eco. Nos Estados Unidos, França e Inglaterra, por exemplo, em que as questões raciais tomam proporções assustadoras, isso seria o estopim para uma insurreição. Matilde confunde conceitos, troca discriminação econômica e opressão política por racismo, tenta ‘naturalizar’ o que é uma inequívoca construção social e, por final, incita ao ódio. Talvez Matilde seja apenas uma ingênua incapaz de ocupar o cargo que tem. E eu, cínico demais. Mas a ingenuidade já fez tantos estragos história a fora, que acho melhor cada um tirar sua própria conclusão. Diz a ministra:

- Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

São tantos os fatores a serem analisados, que nem me aventuro a fazer isso num bloguinho como este. A única coisa que me vem à mente é o soberbo filme do Spike Lee, Do the right thing (Faça a coisa certa). Quando o ódio toma conta, nada nem ninguém segura. Ninguém é santo. Todos perdem. Todos oprimem e são oprimidos. Quem esquece que há um outro na interlocução – e não apenas uma coisa ou causa –, perde a razão.

De boas intenções impensadas, ministra, o inferno está cheio.

39 comentários:

Fabi disse...

Não sei se é sorte (ou azar) dela o povo brasileiro ser tão passivo dessa forma.
Me indignei tanto quanto vc.
Beijos

Maitê disse...

Sergio Leone está acima da cultura dos westerns, onde os cowboys são deuses, principalmente os do Texas. Graças a eles, têm uns presidentes por ai que se acham deuses.

Xôn, tem gente que não tem o que dizer, sabe, dai falam umas idiotices dessas e perdem aquela grand eoportunidade de ficarem em silêncio.

Abs

Laurinha disse...

Complicado, complicado!
Tentar promover melhoras jogando a m***a no ventilador?? Uma tática não muito promissora, a meu ver...

O pior: ela considera isso natural! Racismo NUNCA vai ser uma coisa natural (nem de branco, nem de negro, nem de verde, nem rico, nem de cético, nem de crente, nem de russo, nem de americano, nem de judeu...).

Nesse sentido é mesmo uma pena a passividade humana...!

Luís Galego disse...

Impressionante e vergonhoso o comportamento dessa senhora....qualquer país civilizado não devia permitir que gente dessa se mantivesse em lugar de tanta responsabilidade...

Rosamaria disse...

Quando ouvi essa notícia, fiquei indignada. No fim os racistas e preconceituosos são eles mesmo.

Foi outra escolha equivocada do Lula.

Eternamente Berenice disse...

Preconceito!!!!!!!!Quem me conhece sabe que não o suporto. Seja ele de qualquer tipo. Essa Ministra deveria ser punida por incentivar o preconceito. Falo tanto em minha casa para os meus filhos sobre isso e vem uma "Mulher representante do Povo", afinal uma Ministra e fala isso, tenha a santa paciência....

Graziana disse...

parece que as escolhas do Lula nunca são as melhores
parece que pra ser "governo", tem que só falar este tipo de asneira, a começar por todas as outras asneiras que ele mesmo já falou!
é o que parece, infelizmente.
quando li esta noticia não acreditei, hoje no café da manhã, discutimos este assunto, todo mundo pasmo com uma ministra falando este tipo de coisa, será possível?
lamentável...

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

mais uma bobagem do governo lula

Vivien disse...

Alguns pontos;

1) sem dúvida foi infeliz na afirmação, que dá margem pra uma suposta naturalização do preconceito, como vc apontou.

2) sem dúvida, todo e qq preconceito deve ser combatido.

3) mas creio que a postura na ministra tem uma questão interessante pra se discutir. A reação da população afro-brasileira, a REAÇÃO, a uma condição ainda calcada no preconceito, pode e deve existir.
Evidentemente, quando Malcom X disse que o homem branco era o diabo...rdicalizou. Ele mesmo reavaliou isso depois de ir a Meca.
Entretanto: aqui no Brasil , em alguns lugares, qq REAÇÃO da população vitima de preconceito, parece ser desqualificada pela população branca. E isso é questionável.
"Não se pode gostar de quem o açoitou" e dizer que a população negra, parda, não é vitima de racismo no Brasil é tapar o sol com a peneira ou é ingenuidade de primeira.

marcia disse...

despreparada, ingênua e tosca.

Chawca disse...

Ridicula...

Mas se o presidente fala tanta asneira, pq os subordinados iriam dizer perolas??

Luci Lacey disse...

Oi Sean

Concordo com o querido Chawca, o presidente tem a ministra que merece.

Escolheram o homem agora aguenta.

Abracos

ederson disse...

na verdade os gays afeminados adoram os gays másculos.

Arnaldo disse...

Antes de mais nada: A ministra falou bobagem. Mas isso, parece que é pré-requisito pra fazer parte do ministério desse segundo governo do presidente Lula.

Outra coisa é, por causa dessa declaração infeliz da ministra, querer minimizar o racismo que existe, e muito forte, no Brasil. Existe sim e os negros têm sido, por muito tempo, vítimas de muita discriminação. E isso não quer dizer que não haja outros tipos de discriminação. Há sim e esse mito do brasileiro cordial só ajuda a mascarar as coisas.

Foi boa a sua indicação do filme do Spike Lee sobre o tema. Indico ainda um outro. É o filme Crash de Paul Haggis. Nesse filme, brancos, negros, hispânicos, coreanos, enfim, todo tipo de gente é vítima e ao mesmo tempo algoz em algum ato de discriminação. É um excelente exemplo de intolerância.

Sean Hagen disse...

Folha de São Paulo
Quinta-feira, 29 de março de 2007

O "MEA-CULPA" PELA ESCRAVATURA
Contardo Calligaris

As desculpas retroativas pela escravatura parecem ser sinais da volta do racismo

O REINO Unido celebra os 200 anos da abolição do comércio de escravos. Tony Blair expressou seu pesar pelo antigo papel dos britânicos no tráfico.
Como assinala Marco Aurélio Canônico na Folha do dia 24, os aniversários anteriores passaram sem destaque especial. O historiador John Oldfield, citado por Canônico, atribui o interesse atual pelo aniversário às mudanças na sociedade britânica: o "mea-culpa" seria um jeito de agradar às massas de imigrantes das ex-colônias, facilitando sua integração. Quem dera...
O processo da abolição da escravatura é uma longa jornada da consciência ocidental; começou nos primeiros séculos da cristandade, com o sucesso da idéia de que o limite da humanidade não é a tribo, a raça ou a fé, mas é a própria espécie: somos irmãos, simplesmente por sermos humanos. Hoje, por um sentimento espontâneo e imediato, qualquer ser humano é "dos nossos". No passado e em outras culturas, já foi e ainda é banal considerar que nosso semelhante é só quem dorme na toca da gente.
A idéia de uma comunidade da espécie humana é uma invenção, se não exclusiva, no mínimo peculiar da cultura ocidental. E, sem essa idéia, vinga a tentação de usar e possuir o outro (diferente e, portanto, subumano) como um objeto.
Em suma, o aniversário do dia 25 deveria ser uma festa para todos - no caso, todos os cidadãos e residentes do Reino Unido, celebrando juntos sua igualdade de princípio.
Ora, as desculpas pela escravatura sugerem uma divisão: de um lado, há os "descendentes de escravos", do outro, os "descendentes de escravocratas". É curioso, pois, na modernidade ocidental, presume-se que ninguém se defina como "descendente de": se somos todos humanos, indiferentemente, é também porque somos definidos não pelo passado, mas por nossas potencialidades futuras.
Entende-se que os ditos "descendentes de escravos" (cuja cultura de origem pode ser escravocrata) sejam, eventualmente, enredados numa divisão subjetiva dolorosa: aderir à cultura que os acolhe como cidadãos (porque, para ela, só há homens livres) significa renegar sua tradição.
Mais complicado é entender as desculpas dos ditos "descendentes de escravocratas", pois qual é o sentido da desculpa retroativa de quem não se define pelo seu passado?
Versão otimista: hoje, por termos "evoluído", enxergaríamos o horror de um passado que não nos define, que não é o da gente, mas que, afinal, carregava nosso nome.
Tony Blair não tem nada a ver com os ministros dos séculos 17 e 18, salvo a referência comum a um "Reino Unido" que, aliás, não é mais o mesmo país.
Versão realista (a de Oldfield): as desculpas constituem uma homenagem (forçada) aos imigrantes, que são os novos cidadãos do Ocidente.
Minha versão é pessimista. A necessidade de se desculpar pela escravatura não vem do sentimento (improvável) de uma responsabilidade retroativa nem da vontade (duvidosa) de desejar as boas-vindas aos africanos. As desculpas se parecem mais com os desagravos preventivos e hipócritas que são pronunciados quando a gente está à beira de fazer uma besteira: "Desculpe, mas vou ter de lhe dar um soco na cara". Explico.
As diferenças que a Europa deveria integrar hoje não são maiores do que as que povoaram as Américas, por exemplo, no começo do século passado. As Américas tentaram diluir as diferenças transformando todos em puros agentes econômicos: "Esqueça-se de suas origens e pense em fazer fortuna".
A Europa, zelosa de sua história e de suas identidades nacionais, pode dificilmente pedir a seus imigrantes que se esqueçam do passado deles. Com isso, na Europa, as diferenças não se perdem, se agudizam.
As desculpas de hoje, justamente, parecem assinalar uma intolerância crescente. "Desculpe-me por tê-lo escravizado no passado" é um jeito de lembrar que o passado continua valendo, e, nesse passado, você foi escravo, eu não. Ou seja, não somos bem humanos da mesma forma.
Em 1973, um psicanalista francês, Jacques Lacan, previa a subida do racismo. Na época, antes das recentes ondas de imigração do Terceiro Mundo para a Europa, suas palavras pareciam estranhas: afinal, não estávamos no meio do luminoso caminho da tolerância? Hoje, obviamente, elas parecem proféticas. E as pretensas desculpas pelo passado escravagista parecem ser mais uma inquietante confirmação do pressentimento de Lacan.

Sean Hagen disse...

*



FABI
absurdos se cometem em nome do 'poticamente correto'.
até quando?


MAITÊ
pois é, não tem perdão quando é a ministra que, justamente, deveria tomar medidas contra o racismo.
qualquer racismo.


LAURA
é difícil acreditar que ela seja ingênua. como alguém pode dizer isso?


LUÍS
essa é a grande questão de tudo: gente qualificada em postos chaves do governo.


ROSA
até quando o Lula vai se equivocar?
putz.


BERENICE
como vc bem lembra, tudo começa dentro de casa: a falta ou o excesso de preconceito.
ou seja, educação ainda é a chave, o passo inicial.


GRAZI
é só ouvir coisas como essas que o debate está instaurado. o raciocínio é torto demais.


ADRIANA
é verdade.
um entre tantos.



VIVIEN
qualquer pessoa com o mínimo discernimento social e acesso à informação sabe que o rascismo existe no brasil. e é forte.
inclusive já há setores socias que lutam pra que o racismo não aconteça.
mas uma ministra da igualdade racial se mostrar racista é impensável, não há desculpa, os meios nunca justificarão os fins. é estúpido e leviano. ela deveria, sim, ser exonerada.


MARCIA
tosca, adoro essa palavra.


CHAWCA
er...boa questão.


LUCI
eu fui um que escolheu o "homi".
mas continuo no papel de cobrar as besteiras que o governo dele faz.


EDERSON
o mundo é feito de incompreensões :p


ARNALDO
Crahs bebe direto na fonte do Spike Lee, inclusive criando vários núcleos temáticos. o que esse filmes têm de bom é parar com a idéia préconcebida de que há exploradores de um lado e explorados de outro.
quanta gente sabe que diversas etninas africanas 'enricaram' vendendo prisioneiros de guerra ou o próprio povo para os europeus?
mas isso pouco se fala, porque mancharia a bela história de opresão e horror de tantos homens e mulheres que morreram como se fossem nada.
o que tem que ficar claro é que é o Homem, com seus defeitos de formação e caráter, é que deve 'combatido' e reeducado. e pouco importa a cor da pele de quem expressa bobagens.



*

Eternamente Berenice disse...

Sempre bato nessa tecla "Educação" é a chave...nào adianta procurar outra solução.Bjsss

Vini disse...

Tchê!!! Pensem pelo lado positivo: a "ministra" conseguiu unir todo mundo contra a ignorância (no caso, dela própria). É um discurso q faz parte daquele nicho de esquerda q acredita q "os negros qdo chegarem ao poder devem escravizar os brancos", etc,etc.

marcia disse...

Calligaris matou a pau.

ederson disse...

eu discordo de todo mundo

Vivien disse...

Queridos amigos, acho que esse post aqui
http://www.idelberavelar.com/archives/2007/03/qual_foi_mesmo_o_grande_absurdo_dito_pela_ministra_matilde.php

do Edelber Avelar, vai ao encontro do que acredito.
abç.

Sean Hagen disse...

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VIVIEN
eu não tenho a mínina idéia de quem seja essa pessoa que escreveu o post que vc mandou.
só vejo que é alguém completamente despreparado para o debate.
usa argumentos com uma lógica sem sentido e se instaura da arrogância de ser agressivo e estúpido com o interlocutor que supostamente discorda dele, como se fôssemos um bando de idiotas. com gente assim, nem parto pro debate, porque não vale a pena.

agora, me espanta essa puerilidade que algumas pessoas têm de achar que o mundo se reduz apenas ao que elas vêem ou sentem. pela lógica desse senhor, como ele acredita freqüentar mais do que qualquer um ambientes 'negros', e achar que nunca sofreu preconceito, assim se comporta o mundo. todo o mundo. e pior: ele desconhece a cultura do país em que vive, cultura essa que está estampada maciçamente em filmes, livros, clips e todos os aparatos da mídia.

com ingênuos eufóricos é difícil o diálogo. na hora das discussões, fico mesmo é com quem embasa o que pensa sem fazer proselitismo.





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Vivien disse...

Xôn, acho que é isso que vale nessa blogosfera, ler textos de pessoas que até então eram desconhecidos pra nós.Pelo menos, pra mim, o que vale é isso.
Diferentemente de vc, não creio que a referência do cotidiano do autor, quaLquer autor, possa ser puerilidade. Acho que é pertinente, pois estabelece o foco de um olhar.
Eu gostei do texto e achei que seria interessante trazê-lo para o debate, assim como citei o seu texto - discordando dele - por lá.
Beijos.

Sean Hagen disse...

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VIVIEN
tanto é bom ver outros pontos de vista que hoje, eu do sul e vc do sudeste, sem conhecimento prévio, conversamos com naturalidade e espontaneidade.

mas não gosto de pessoas que me chamam de hipócrita, mal infomado, turba louca, entre outros sentidos não expressos e muitos mais grosseiros.

eu exponho meus pontos de vista de forma bastante peremptória no blog, mas de forma alguma chamo as pessoas com quem quero dialogar de estúpidas. mas isso vai de cada um, eu não faço, quem faz arca com as responsabilidades.

segundo, não aceito vivien, ainda mais vindo de alguém do mundo acadêmico como ele parece ser, "achismos" levianos e senso comum mascarado de politicamente correto.
ora, porque eu gosto de comer chocolate e tomar coca cola, não posso inferir que a humanidade tenha a mesma paixão que eu. se eu quero afirmar isso com certeza, eu que pesquise e prove isso.

mas isso sou eu, novamente. talvez pelo ranço que tenho de pensar como jornalista, em que seriedade e objetividade têm que ser resguardadas, e pelo ranço de ser pesquisador, em que senso comum sem embasamento não tem validade - é preciso ter mais resguardo com o que se fala e se articular através de um campo teórico.

não estamos falando aqui se gostamos mais de sol ou chuva, mais de doce ou salgado. não são banalidades emque achar ou sentir é suficiente. estamos falando de racismo, da política que um país adota pra combater ou estimular o problema. exige menos umbigo e mais análise.

ainda assim, postulo que cada um tenha liberdade de se expressar. assim como postulo que não tenho saco com pessoas que me tratam como idiota.

beijo.




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Vivien disse...

Xôn, só pra terminar: acho que tivemos uma leitura bastante diferente do mesmo texto.
Como vc disse, vc tb é bastante peremptório aqui no seu mundo, mas eu nunca vi isso como algo agressivo, apenas mais uma de suas idissincrasias.
De mais a mais, acho que esse tema suscita mesmo tons mais ou menos agressivos e amargos, acho que é inerente ao próprio tema.
Mas acho que vou ser redundante se continuar e acho que já mostrei meu ponto de vista.
Pensamos de forma diferente, lemos de forma diferente e creio que isso é salutar.
beijos.

Sean Hagen disse...

*




idiossincrasia é uma das palavras que mais adoro na nossa língua.




*

Clélia Riquino disse...

EU SOU NEGUINHA!

Demorei, um pouquinho pra encontrar a música relacionada ao texto... mas achei! Taí:

Eu sou neguinha?
Caetano Veloso


Eu tava encostad'ali minha guitarra
No quadrado branco vídeo papelão
Eu era o enigma, uma interrogação
Olha que coisa, mas que coisa à toa,
Boa, boa, boa, boa, boa
Eu tava com graça

Tava por acaso ali, não era nada
Bunda de mulata, muque de peão
Tava em Madureira, tava na Bahia
No Beaubourg, no Bronx, no Brás
e eu e eu e eu e eu
A me perguntar: Eu sou neguinha?

Era uma mensagem lia uma mensagem
Parece bobagem, mas não era, não
Eu não decifrava, eu não conseguia
Mas aquilo ia e eu ia
e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia
Eu me perguntava: era um gesto hippie, um desenho estranho
Homens trabalhando, pare, contramão
E era uma alegria, era uma esperança
E era dança e dança ou não
ou não, ou não, ou não, ou não tava perguntando:
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?

Eu tava rezando, ali, completamente
Um crente, uma lente, era uma visão
Totalmente terceiro sexo, totalmente terceiro mundo,
terceiro milênio, carne nua, nua, nua, nua, nua, nua, nua
Era tão gozado
Era um trio elétrico, era fantasia
Escola de samba na televisão
Cruz no fim do túnel, becos sem saída
E eu era a saída, melodia, meio-dia, dia, dia
Era o que dizia: Eu sou neguinha?

Mas via outras coisas: via o moço forte
E a mulher macia den'da escuridão
Via o que é visível, via o que não via
O que a poesia e a profecia não vêem, mas vêem,
vêem, vêem, vêem, vêem,
É o que parecia
Que as coisas conversam, coisas surpreendentes
Fatalmente erram, acham solução
E que o mesmo signo que eu tenho ler e ser
É apenas um possível ou impossível em mim,
em mim, em mim, em mim, em mim
E a pergunta vinha:
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?

Clélia Riquino disse...

"A lágrima clara sobre a pele escura..."

Desde que o samba é samba
Caetano Veloso


A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
À noite, a chuva que cai lá fora

Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece no quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer
Veja, o dia ainda não raiou
O samba é pai do prazer
O samba é filho da dor
O grande poder transformador

Clélia Riquino disse...

Cecília, qdo pequena, costumava dizer: "Mamãe é pretinha, papai é branquinho e eu sou rosa!" Quer trio mais miscigenado?!

Eternamente Berenice disse...

Sean, quando eu era pequena e isso faz muito tempo, lembro que perguntei pra minha mãe (italiana branquíssima)"Mãe por que tem gente escura e gente clara?" e ela na maior simplicidade respondeu:"Porque uns tomaram banho antes de Papai do Céu enviá-los e outros não" Eu aceitei na boa, aliás enquanto a criança não é influenciada de forma negativa ela aceita muito bem as diferenças, por que meu Deus do céu é tão difícil isso, até o debate sobre o aasunto é muito difícil. Nós somos todos iguais, sei que aqui não estão questionando isso, porém dá nos nervos em pleno século 21 esse tipo de preconceito existir, quer dizer estamos batendo na mesma tecla dos nossos antepassados. Bjss

firvidas disse...

Incrível, não é? Que no ano de 2007 a cor da nossa pele continue a ser uma maneira de sermos julgados...e por pessoas que acreditam em Deus..se essas pessoas acreditam que só houve um Criador....Não dá para entender. Não dá.

Arnaldo disse...

Vivien e Sean,

Isso que essa mulher falou, não só aqui, mas em outros blogs e na mídia, serviu pra alimentar mais ainda posições discriminatórias ou argumentações a favor desse tipo de posição. Uma pessoa na posição dela não tem o direito de ser ingênua e cair na armadilha de um perguntador oportunista.

Seria ótimo que estivéssemos, nesse momento, em todo país discutindo como encarar e combater o racismo que temos no Brasil. Mas não. A discussão que se instalou no país foi uma demonstração de como a nossa gente é intolerante.

E aqui nesse blog, nesse pequeno espaço, podemos ver como a gente consegue, às vezes, ser intolerante com opiniões diferentes da nossa.

E é só por isso que a tal da blogosfera vale a pena. Pra gente espetar e ser espetado. Só assim a gente cresce.

E um dia, quem sabe, a gente, como ser humano, vai aprender a tirar algo de bom de toda discussão. Quando a discussão deixar de ser competição e passar a ser instumento de enriquecimento intelectual. Nesse dia, a nossa vaidade vai dar espaço pra um sentimento de regozijo por ter percebido, durante uma discussão, que estávamos errados (às vezes estamos, meus amigos) e vamos festejar esse acontecimento.

Acho que estou sonhando. O ser humano não é assim. Nunca vai ser.

GUGA ALAYON disse...

Basicamente politicamente ingênua a Ministra. Só isto. abç

Zeca La-Rocca disse...

Concordo qndo recomendas a exoneração da ministra...

Aliás, seria uma decisão imediata em qualquer governo sério. eu disse governo, e não país sério!

E não acho q ela foi ingênua ou ignorante (aquele q ignora), mas burra (aquele que nunca aprende)mesmo!

Carlos Eduardo Carrion disse...

Tchê lôco, te pasastes! Hay que ser calavera numa hora destas. Esta babosa,fica balaqueando sem se dar conta que atira gasoil na foguera. E a turma do Lula fica que nem cachorro de baile, só bitiando, sem dizer nada pra esta bichicome. Precisamos de uns boceros que nem tu prá dá uma paratequieto nesta capivara desembestada.

Sean Hagen disse...

*



CLÉLIA
united collors of benetton?
que bom seria que isso fosse 'natural'.



BERENICE
meus avós dos dois lados eram completamente racistas. e sempre que pude, incomdei-os o que pude mostrando o quanto eram estúpidos por agir assim.
pra racismo não há perdão, nem sendo dentro de casa.
eu diria que é pior ainda.


MELLY
não consigo imaginar o que é ser tratado com desprezo ou crueldade por ter um nariz que alguém não gosta ou ter a pele com melanina demais pros padrões de um grupo.
por isso mesmo combato ferozmente esse racismo disfarçado de politicamente correto. seja de ministra, seja de blogueiro, seja da minha família.


ARNALDO
reitero que esse espaço está aberto a todas as opiniões, contrárias ou não a minha.
agora, mesmo no calor do debate é preciso manter uma certa cordialidade.
e, acima de tudo, abaixo o racismo.


GUGA
desterro pros políticamente ingênuos. eles deixam atrocidades acontecerem e depois dizem que não sabiam de nada.


ZECA
putz, como petista, tenho dor em dizer isso, mas concordo contigo.


CARRION
huáhuáhuáhuáhuáhuáhuáhuáhuáhuáhuá
muito bom.
mesmo tendo aprendido o vocabulário de meu pai passo-fundense e minha mãe bageense, li duas vezes pra entender.
duvido que a maioria entenda essa mistura de gaudério com malandro do bonfa.
vc vai ter que usar legendas.




*

Clélia Riquino disse...

Carrion,

Concordo com o Sean: você deveria ter incluído um glossário, no seu comentário! Especialmente pro pessoal que não é do sul... Boiei!

Clélia Riquino disse...

Língua
Caetano Veloso


Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesias está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala mangueira!
Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de
Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da
TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homen
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e Imã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Matoso e Arrigo Barnabé e Maria da
Fé e Arrigo barnabé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?
Incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corísco
Hollyood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o
Recôncavo
Meu medo!
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba -rap, chic-left com banana
Será que ela está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô você e tu lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro
Nós canto-falamos como que inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Lívros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem e que falem

Clélia Riquino disse...

Podres Poderes
Caetano Veloso


Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes, somos uns boçais
Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses, mas tudo é muito mais

Será que nunca faremos se não confirmar
A incompetência da América Católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será será que será que será que será
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval
Queria querer cantar afinado com eles
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente mas tudo é muito mau

Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais?
Será que apenas os hermetismos pascoais
Os Tons os Mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais
Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo, Tins e Bens e tais