12 março 2007

O monstrengo dos olhinhos verdes

A definição é de Shakespeare, e atravessa séculos com a mesma força: “O ciúmes é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive”. Iago tem ciúmes de Otelo, e sabe que só a destruição do outro poderá acabar com a inveja que sente. Há nuances significativas entre ciúme e inveja, mas a fina linha que os separa nem sempre deixa entrever quem é quem.

Passei a acompanhar essa centésima edição do Big Brother quando Caubói – Iago –, entrou em surto por ciúmes de Alemão – Otelo – e defenestrou Siri – Desdêmona. O rapaz, um típico representante do reino das minhocas – magrinho, dissimulado e rastejante – sofre por conviver no mesmo espaço com um bombado e seguro galanteador. Não se pode esquecer que há um milhão de reais em jogo, mas o ciúme é verdadeiro, machuca, corrói e dilacera. Impressionante ver alguém odiar ao vivo, em cadeia nacional, explicitando todos os passos do complicado e sofisticadíssimo sentimento de se construir pela destruição do outro. No dia-a-dia não vemos isso, não temos acesso aos bastidores do pensamento de um ciumento, as sutilezas que cria pra se aproximar e desferir o golpe, as táticas de seduzir parceiros de ódio, as mentiras construídas para tentar derrubar quem ele inveja.

Confesso que dos muitos ciúmes que senti na vida, o pior foi parecido com esse: o cara era forte, alto, e estava sempre cercado de mulheres. Na verdade ele era o objeto de desejo delas, e isso era o que mais magoava. O ciúmes passou quando ele sumiu do mapa. Ou talvez porque eu tenha crescido. Com 14 anos, um cara de 17 parece um homem, ainda mais para um impúbere como eu, que só fui dar o estirão final chegando aos 15. Minha animosidade por ele era clara, e os embates em sala de aula eram inevitáveis. Filhote de jumento era o adjetivo mais doce que saía da minha boca – quem mandou um guri que já devia estar na faculdade, ficar no meio da pirralhada do primeiro ano do ensino médio?

Um dia, no meio da aula de inglês, a professora largou a bomba: “Sabia que a pronúncia do teu nome é Xôn?”. Ao que o folgado cuspiu, rindo alto: “Olha o Chonga”. O ódio foi tão forte que não pensei, apenas reagi: “Pega aqui que tu gosta, jumento”, disse eu, de pé, apontado pro meu projeto de chonga. Foi o que bastou pra se formar a confusão e eu levar a milésima advertência. Uma ou duas semanas depois ele passou pro turno da noite. Segundo dizem, foi obrigado a trabalhar na empresa do pai. Óbvio que me senti vingado.

O que eu só fui perceber muito depois é que esse enfrentamento meio David/Golias também chamava a atenção, e despertei ciúmes sem saber que tinha capacidade pra isso. O pior foi de um colega – vejam só – quase dois anos mais velho do que eu, já no terceiro ano. Ele se mordia porque eu peitava os professores e desfraldava a bandeira da opressão contra os alunos – eu era um tremendo chato. Em suma: ele era um pseudo nerd e eu, um arruaceiro. O cara fazia de tudo pra me ferrar, mas ao mesmo tempo se pintava de amigão, convidando pra fazer festa. É péssimo sentir que alguém te odeia e ao mesmo tempo fica sempre em volta, sempre querendo mais.

Quando abri meu orkut semana passada, depois de ficar uns dias fora, lá estava ele, o monstro de olhos verdes, pedindo pra ser miguxo. O convite ficou de molho, até que sumiu. Lembrei do Big Brother, da minha adolescência e vi como a maturidade faz bem. Hoje sei que o ciúme é uma insegurança que cada um tem que resolver sozinho, e passei quase de um extremo a outro: agora sou acusado de desprezo e frieza. Haja contradição.

A única certeza que tenho é saber que o ciúme fica melhor numa obra-prima de Shakespeare, mas bem longe da minha vida.


Nota ao texto original

Como expliquei nas respostas, não fiz a amarra necessária para passar do ciúme à inveja, e tratei de inveja como se fosse ciúme, não quis alongar demais e estava sem tempo. Erro meu, que publiquei o texto antes de formatá-lo corretamente. Apressados comem cru, diz o velho ditado.

O assunto gerou monstrinhos. A Marcia fez um post pra tentar me dar um pau. Não conseguiu, é claro, mas olhem lá.

30 comentários:

Nana disse...

Pior é quando a gente demora tempo pra se dar conta o quanto os que estão "junto" querem te ferrar por puro ciúmes e inveja, particularmente, acho a inveja a grande vilã e a que mais machuca de longe.

clarice disse...

Sean,
uma das grandes vantagens da maturidade é que a gente fica com a sensibilidade á flor da pele e muito seletivo.As pessoas que te invejam, sem que elas percebam vc as afasta e o ciúmes a gente administra porque a vida nos tornou muito mais generosos.
Bjos

Adriana disse...

Sean, eu sempre levei a fama de ser do contra, de arrumar briga por tudo...e sobrevivi....hoje continua sendo um pouquinho assim so que agora sou mais seleta na hora de discutir e continua levando o nome voce e do contra...que fazer conviver com esta merda toda que chamam de socializar.

beijinhos do outro lado do oceano

Adriana disse...

Sean, eu sempre levei a fama de ser do contra, de arrumar briga por tudo...e sobrevivi....hoje continua sendo um pouquinho assim so que agora sou mais seleta na hora de discutir e continua levando o nome voce e do contra...que fazer conviver com esta merda toda que chamam de socializar.

beijinhos do outro lado do oceano

Adriana disse...

Desculpa, por alguma motivo foi repetido o comentario...
Beijinhos outra vez do outro lado do oceano

Graziana disse...

complexo e muito bom teu texto.
tu sempre tem uma boa história e uma boa análise ;)

concordo sobre o ciúme, uma insegurança que cada vez mais temos que resolver internamente.
dificilmente externo ciúmes, mas sinto, claro.
e quando a gente não externa geralmente as pessoas acham que somos frios...

Maitê disse...

Pior, aquele Alberto, para ser mais esmilingüido, só fazendo outro.

Xôn, você como jornalista hiper-mega experiente, um dia desses você poderia me dar umas dicas. Desculpe te incomodar, mas é que talvez conversando com alguém, eu tenha algumas idéias. Pois eu realmente estou cansada de ficar em casa, vendo tevê e mandando currículos que nem sei se chegam!

Abs

Vivien disse...

Xon, ótima história e ótima análise.;0)

Ana disse...

Ciúmezinhos lights!

Quero saber daqueles devastadores, motivados por uma paixão!!



Na verdade prefiro que vc não sinta!!( O ciúme, não a paixão!)

Lu Tricotando disse...

Já fui muito ciumenta. Ainda sinto ciume é claro, mas agora ao invés de sofrer com ele, digo: tô com ciume sim. Pode ser da irmã, da mãe, do marido, da amiga ou dos filhos. Acho que sem ciume nenhum também não é bom, pra mim parece que a pessoa não tá nem aí.Com o tempo a gente aprende a lidar mais com os sentimentos, ou não.

Maroto disse...

ciúme é um monstro de olhos verdes, primo da inveja, aquela que qualquer para-choque de caminhão sabe que é uma merda.

Chawca disse...

Eu ja sofri muito com o ciumes que uma namorada tinha de tudo e todos, até da minha mãe...
Aí mandei ela passear...

Tb tinha uma amigo que chamava de melhor amigo, mas depois descobri que ele era a inveja e a mentira em pessoa, e simplesmente me afastei sem tirar satisfação...

Tb tenho ciume e inveja, mas nao deixo esses sentimentos contaminarem minhas situações, os guardo so pras mim...

marcia disse...

dizem que as mulheres têm inveja do pinto (reclamações em Viena, por favor). mas teu post prova, com alto rigor científico, que quem tem inveja do pinto são os homens.

já ciúme é aquilo que alguém sente quando tem a maturidade de cinco anos. eu, como ainda sou apenas uma pintinha, dou umas resvaladinhas. piu.

Cacá BH disse...

nossa, simplesmente inteligentes ao último grau suas comparações dos ciúmes e ainda trouxe isso para sua vida real....
sobre o ciúmes propriamente dito, sou uma ciumenta nata, tenyo lidar com isso da melhor forma, mas sou e não nego...
beijosssssssss

Maitê disse...

Oi Xôn.

O que eu queria te perguntar é o seguinte: Por acaso vc sabe se existe alguns lugares p/ eu tentar conseguir emprego em POA, sem ser esse círculo Pampa- Jornal do Comércio- RBS?

Desculpe te incomodar, Xôn, mas é que eu só resolvi te perguntar, pois vc conhece bastante Porto Alegre e os meios, né? E eu estou totalmente, Lost in translation... hehe

Desculpe o incômodo!

Abs

Adriana disse...

Sean, a setima sou eu, talvez por essa razao sou do contra em todo....sou um pouquinho bruxa...
Beijinhos do outro lado do oceano

P.S.: Obrigado pela pelo comentario no blog...
Nao sei se ouviste que em Londres vao rebaixar em 40% os salarios do funcionalismo publico masculino para ficarem equiparados ao das mulheres? Sera que essa igualdade que tantas mulheres buscam?

Rosamaria disse...

Adorei teu texto, como sempre, e gostaria muito que o ciúme só existisse nas obras de Shakespeare, pq sofri muito na vida por causa dele. O pixe é demais!!!

Ju disse...

Ciúme e inveja: duas coisas que não deveriam existir. Cheguei ao Brasil, estou zonza e morrendo de calor. Obrigada pelos comentários!
Beijos
Ju

Robs disse...

Tenho uma amiga que sempre cita uma professora dela que dizia que os dramas humanos são poucos e que todos eles já foram mapeados por Shakespeare.

Verdade ou não, acho que você já traçou uma equivalência aí. Eu acredito que é verdade, somos mais parecidos do que gostaríamos de admitir.

Cacá BH disse...

oi sean....
olha só, achei muito bem argumentado seu comentário, porém continuo achando que a imprensa perdeu, pois a grande imprensa das massas é a rede globo e a veja (olha, das massas) e o maior eleitorado é a massa, que não deu confiança para a imprensa e elegeu o lula....
abraços....

fernanda disse...

a dona insegurança tá sempre por perto, viva o psicanalista! tenho verdadeiro horror de loiras altas e magrelas, sempre conseguem aqueles que eu quero!! grrr se inveja mata, eu sou uma morta-viva!! hahhahahaha

Arnaldo disse...

Sean,

Eu tava ansioso pra ler teu texto sobre ciúme e acabei lendo um texto (excelente, como sempre) sobre a inveja.

Eu tenho um jeito meio besta e simplista de definir estas duas coisas:

Acho que a inveja é aquele sentimento que eu sinto quando não consigo ter alguma coisa que outra pessoa tem.

Já o ciúme é quando eu tenho algo e o quero só pra mim. Não quero dividí-lo com ninguém.

Confesso que sinto inveja de uma porção de gente. Queria escrever como o Cony, fazer música como o Chico Buarque, saber dançar como o Carlinhos de Jesus. Acho que são invejas boas e inofensivas, pois não quero o mal de nenhuma dessas pessoas. Aliás, adoro que elas existam.

Já o ciúme, eu faço o diabo pra não sentir. Acho o sentimento mais mesquinho que pode existir. Acho que tudo o que é bom deveria ser dividido, compartilhado. Dá pra amar muita gente, ser amado por muita gente, ter amigos, ter coisas, enfim, a gente é múltiplo e complexo. Vamos aproveitar essas características.

Um grande abraço

ederson disse...

ok, o mundo se coaduna para forçar minha curiosidade em relaçao ao Big Brother. Mas ainda resisto.

De qualquer forma, quando o Alberto for pra paredão, vou torcer para q ele fique. Não gosto de loiros sarados e mulherengos. Neste caso, o Iago me parece ter alguma razão. Pelo menos para mim, que não vejo aquilo lá mesmo.

Sean Hagen disse...

*



NANA
é, vc bem sabe o que é isso.



CLARICE
bem isso.
saber olhar, distinguir e o que fazer.
tudo fica melhor.



ADRIANA
sociliazar é preciso.
do contrário, eu não estaria falando com vc.
socializemos muito.



GRAZI
nos últimos tempos tenho sido tachado de ser frio.
as pessoas ainda creem que o cíume é um sinal de amor.
eu não.



MAITÊ
adoro essas coisas do caráter estar estampado no tipo físico.
- óbvio que o que eu disse é uma tremenda furada, mas gosto de achar os pontos de ligação mesmo assim -


ROSA
quem mandou ser um loira esfuziante?



JU
ou me leva junto ou não me conta.
mas se esse papo de viajar continuar forte, vou ficar com ciúme.
:p




ROBS
o bardo é fodão, percebeu nossas fraquezas e qualidades e fez arte em cima disso.



CACÁ
a culpa é da Veja, que morre de inveja do poder do Lula.
:p



FERNADA
'altas e magrelas'?
as magrelas que me perdoem, mas quem gosta de ossinho é paleontólogo.



ARNALDO
vc me pegou.
deixa eu explicar.
minha idéia era começar com o ciúme e fazer uma ponte com a inveja, já que os dois estão intimamente ligados - e eu arrisco a dizer que o ciúmes é uma inveja fraca.
o texto saiu em fluxo contínuo, mas na hora de voltar pra fazer as amarras, meu tempo acabou e eu deixei assim mesmo, sabendo que estava meio torto.
ontem mesmo uma amiga, que prefere não causar polêmica e deixa eu dizer besteiras aos montes, me alertou pra isso.
e ela, como vc, acredita que há uma inveja boa.
eu não acredito, não.
mas ia precisar de mais um posto pra isso.
pedi pra ela escrever.
se ela fizer, te passo o link.


EDERSON
faz como eu: vê só em dia de indicação ou paredão. nesses dias fica tudo bem explicadinho e vc não perde tempo.




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Daniela disse...

Não sei se existe inveja boa, não. Inveja, na minha concepção, é desejar ter o que o outro tem, desejando também que ele não tenha mais. Cobiça seria desejar o que o outro tem, mas sem prejudicá-lo.

Ciúme, no meu ponto de vista (de uma quase ex-ciumenta) é achar que o mundo gira em volta do nosso umbigo, e que não é possível que a pessoa objeto do nosso amor possa ter outras preferências. Ora, como ela ousa não me colocar em primeiro lugar? Talvez seja um tipo de inveja desse desprendimento.

O interessante é que a maioria das pessoas assume sentir, ou já ter sentido, ciúmes, e que todos já foram (ou acham ter sido) objeto de inveja, mas quase ninguém assume ser invejoso.

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

Sean: Eu acho que a "inveja boa" se chama admiração e é isso q me impulsiona a fazer determinadas coisas. É tipo eu gosto do trabalho de Fulano e isso faz com que eu produza e tente usar o fulano como inspiração. Agora, se passar disso, e eu tentar prejudicar o tal fulano, dai ´einveja má e olha eu tb quero isso bem longe da minha vida, pq passei boa parte dela sendo objeto desse tipo de coisa...sobre o ciúme, concordo contigo, acho uma droga, coisa doentia e q só atrapalha.

... e continuando, é bom ver q a maturidade nos traz de brinde essas coisas, até me inspirei e vou conta ruma estorinha no meu blog
ps: meu teclado ta uma bosa

Sean Hagen disse...

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DANIELA
eu tenho um ranço moral com a palavra cobiça, mas talvez ela seja mais apropriada.

e acho que essa questão de assumir te ciúmes ou inveja, vem dessa nova interpretação de da "inveja boa", que dá uma amacida no sentido.
porque invejoso mesmo, ninguém nunca vai se dizer.


ADRIANA
não falei o que vc falou por mim!
minha opinião é EXATAMENTE essa: é a ADMIRAÇÃO que faz seguir os paços e acompanhar outra pessoa. o que ela faz/tem de bom me inspira. eu quero ser parecido com essa pessoa naquele ponto específico, mas não quero ser aquela pessoa, ou eu me tornar aquela pessoa - varrendo ela do mapa. grosso modo seria isso.




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marcia disse...

eu fiz um post pra te dar um pau? eu????

a terra vai se abrir em mil pedaços, xuxu, no dia em que isso acontecer.

Daniela disse...

Sean,

É que a palavra cobiça dá a impressão de coisas materiais - mesmo na expressão "cobiçar a mulher do próximo". Mas o sentido de desejar - ou apetecer ardentemente, como diz o aurélio, pode ser usado para qualquer coisa, inclusive características que gostaríamos de ter. Acho que é nesse sentido que ela pode ser considerada sinônimo de inveja "boa".

Na história que você contou, do cara "forte" e "alto" - tudo é relativo, me pareceu que era inveja, muito mais que ciúmes. Na impossibilidade de ser como ele era, você queria que ele se explodisse. Acho que todo mundo já passou por isso, de reconhecer no outro algo que você não é, mas que queria muito ser, e não gostar nem um pouquinho dessa sensação. Na adolescência, então, acontece o tempo todo.

Além disso, quem nunca disse bem feito quando um desafeto se ralou que atire a primeira pedra. Você queria o que ele tinha? Talvez não, mas você fica feliz quando ele deixa de ter! Se não é bem inveja, é tão ruim quanto a própria.

Tem a outra face, também, de você reconhecer no outro o que você também é, mas não gosta de ser. Mas isso já é outra história...

Sean Hagen disse...

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MARCIA
era uma ironia, um chiste.


DANIELA
como eu me retratei depois, eu abri falando de ciúmes e pulei pra inveja, tratando como se fosse igual, quando sei que não é.
a ironia de tudo é que o cara 'forte e alto' ficou menorzinho do que eu. ele era assim do ângulo de um pequeno invejoso que nem tinha crescido ainda.

mas o assunto dá pano pra manga. já olhou o texto da marcia sobre o mesmo assunto? coloquei o link no final do texto.



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