03 março 2007

Tabu

A moral judaico-cristã é clara: família é sagrada e nada pode abalar essa estrutura, muito menos o amor. Mas como o instinto segue regras que a cultura nem sempre consegue formatar, inúmeros são os casamentos consangüíneos. A história está aí pra falar de reis, aristocratas e plebeus que quebraram esse tabu e mantiveram união com o “próprio sangue”.

Eu sei bem o que é isso. Meus avós paternos eram primos, e nunca tive uma resposta clara se eram de consangüinidade próxima ou afastada. Vergonha? Talvez, minha avó tinha uma fé católica inquebrantável, com dedicação e resguardo a todos os dogmas da igreja. E um tabu como esse não era uma boa história pra se contar aos netos.

Lembrei disso porque vi a história do casal de alemães que entrou na justiça pra garantir o direito de manter uma relação que já dura sete anos. Detalhe: eles já têm 4 filhos e são irmãos. Irmão transando com irmão é um dos tabus mais sólidos da nossa cultura. É condenado pelas igrejas, pela moral pública e encontra respaldo na genética, que alerta para possíveis riscos de má formação – e eu ressalto o termo condicional aqui, já que qualquer homem e mulher, quando apresentam uma disfunção genética em comum, têm maior probabilidade de passar isso aos filhos. Probabilidade, não certeza.

Não consigo me imaginar nem dando selinho nas minhas primas, que dirá tendo filhos com elas. Mas fiquei espantado em saber que Alemanha e Inglaterra têm leis contra tabu – e não tenho a mínima idéia se o elefante branco que carrega nosso código de leis legisla sobre o assunto. Criminalizar o tabu é o mesmo que criar leis pra regular os mitos: é tentar dominar o medo, o desconhecido, o etéreo; por freios no que é irrefreável. Se a união entre irmãos pode causar riscos reais aos filhos, que se penalize a procriação, não o casamento – o que acho perigosíssimo de qualquer forma. Patrick, o marido-irmão, foi condenado há dois anos por “coito ilegal”, saiu da prisão e voltou pra Susan, a mulher-irmã. Os dois lutam pra manter um amor que acham justo.

Já entramos no século XXI e ainda professamos a moral da idade média. Não faço aqui apologia ao incesto, de forma alguma, mas me incomoda essa espada da lei sempre pronta a decepar cabeças fundamentanda na ignorância. Ou será que adultos não têm direito de escolher com quem querem ir pra cama, assumindo o risco que o ato envolve?

A reportagem da Folha de São Paulo está transcrita nos comentários. Interessante é notar como o redator se posiciona contra o casal: não teve distanciamento e objetividade suficiente pra fazer bom jornalismo. Trouxe pra dentro do texto os próprios preconceitos e medos. Reproduziu – inconsciente ou não – a rígida moral dominante, julgou e condenou sem chance de defesa. Lamentável.

13 comentários:

Sean Hagen disse...

Folha de São Paulo
03 de março de 2007

CASAL DE IRMÃOS VAI À JUSTIÇA PARA PROSSEGUIR COM INCESTO

DA REDAÇÃO
Com agências internacionais

Patrick Stübing, 30, e Susan Stübing, 24, são irmãos e mantiveram uma relação incestuosa por sete anos, durante a qual geraram quatro filhos. Eles querem prosseguir na vida conjugal e aguardam dentro de cinco semanas decisão da Corte Constitucional da Alemanha.
O Partido Verde se solidarizou com o casal, sob o argumento de que a criminalizarão do incesto, prevista pela lei penal alemã, faz parte de uma política eugênica bem mais ampla, definida no país nos tempos do nazismo.
O Reino Unido, que não experimentou um regime totalitário em sua recente história, também criminaliza o incesto. Não é o caso da Holanda, Luxemburgo, Bélgica e Portugal, igualmente membros da União Européia.
Patrick e Susan não cresceram juntos. Nasceram nas imediações de Leipizig. Ele foi entregue a creches públicas e chegou a ser adotado por um casal de Postdam.
Ao completar 18 anos, quis conhecer seus pais biológicos. Apenas a mãe, Annemarie, estava viva. Ela morreu seis meses depois. E os dois irmãos, que se dizem apaixonados, tiveram o primeiro filho, Eric, em 2002.
Patrick, mecânico desempregado, diz que ele e Susan queriam formar uma família pequena. Mas a assistência social lhes tirou a primeira criança, o que os levou a fazer três outros filhos. Sofia, a última, está com um ano.
Em meio às confusões com a Justiça, Patrick foi condenado a dois anos de prisão por "coito ilegal". Cumpriu parte da pena. Enquanto estava preso, Susan teve mais um filho com um outro homem. O casal de irmãos voltou, no entanto, a viver junto.
Jürgen Kunze, especialista em genética humana de um hospital de Berlim, afirma que uma criança gerada por dois irmãos tem 50% de chances de apresentar problemas congênitos. É o caso de dois dos filhos do casal. Um deles é epiléptico.
Para evitar novas complicações com a Justiça, Patrick submeteu-se voluntariamente a uma vasectomia.

cida disse...

Acho que cada um é que deve escolher o que for melhor pra ser feliz. Não são leis que dirão o que é certo e o que é errado. Não sabia que em parte da Europa ainda não se respeita o direito individual. Eles que pregam tanto que estão à frente no respeito à liberdade do indíviduo.Parece que o falso moralismo impera em muitos lugares do mundo.
Penso ainda que, às vezes, é necessário surgir algo diferente do contexto para que se reflita e se perceba que os tempos e as pessoas são outros.Quem sabe a partir desse fato a Alemanha não reveja os seu valores. Torço pra que sim!

Nanachara C. disse...

meus bisavós eram primos. meus pais sao parentes tem ancestrais em comum... isso deve explicar porque a família toda é meio estranha.
Tenho nada contra os casamentos entre primos... mas, entre irmãos, nao consigo imaginar.

Vivien disse...

Eu acho o tema interessante e realmente muito polemico. Seria legal lembrar que tanto egipcios quanto incas se utilizavam dessa pratica.Mas fica dificil observa-la com normalidade, dado que estamos inseridos dentro de uma cultura que condena essa acao.
A prisao me parece exagerada, mas confesso que o tema me choca.

fernanda disse...

Sob meu olhar, isso me parece bizarro, mas sobretudo, fruto de uma distorção do sentimento Amor. Acredito que (a partir do exposto) essa relação venha ser mais uma tentativa de suprir carências afetivas fraternas, já que o homem foi desligado da família e a mulher perdeu os pais ainda jovem, que realmente um amor apaixonado e ardente um pelo outro, até porque ela teve um filho com outro homem durante o "casamento" com o tal irmão.

Sobre a justiça, eu já te disse né, ela cega, sem noção e não está nem aí, baita intrometida onde não é chamada. Agora, onde ela realmente deveria atuar... nem sabe o que se passa. Sacou?

E sobre o jornalismo, também estou ficando decepcionadamente furiosa com as frutas podres do cesto jornalístico. Fiquei muito apavorada com os absurdos daquela reporter do Globo Reporter, sobre a China, muita falta de antropologia e sensibilidade da parte da equipe.

já falei demais...

Luís Galego disse...

mas me incomoda essa espada da lei sempre pronta a decepar cabeças fundamentanda na ignorância.


o preconceito existe em todo o lado...temos ainda muito que evoluir. O respeitar as opções do próximo ainda que não sejam as nossas devia ser tábua rasa de uma sociedade esclarecida.

cíntia disse...

deve ter [e tu me dizes, com essa notícia, que sim] irmãos que vivem bem juntos, e não só vivem como até decidem ficar juntos como homem/mulher, marido/esposa. mas eu não conseguiria não. sempre que morei com meu irmão [quando morava com a família toda] a briga era diária. ainda hoje a coisa 'é rosca'.
existem famílias e famílias, né...
mas tudo de bom pro casal alemão. eles conseguiram resgatar o que irmãos sempre vêm resgatar, e até passar pra um outro estágio.
bjs

Ju disse...

Obrigada pelo comentário. Beijos de Portugal.

Ju

Maitê disse...

mas Xôn, sei não sobre o Correio. Minha amiga que estuda na PUC conhece uma diagramadora do jornal e ela disse que tinha sido comprado. Agora resta saber se a guria é uma tansa ou está só por fora... ABs

Graziana disse...

Meus avós paternos eram primos, todas as irmãs da minha avó materna casaram com primos, só ela que não pode, como ela sempre conta, ela também queria casar com um primo...

Também não consigo me imaginar com um primo, que dirá irmão.
Talvez pela cultura em que somos criados, com certeza.
Mas não concordo em prender alguém porque se casou com a irmã(o). Onde ficam os direitos individuais, direito de escolher com quem quer ficar...

Se os filhos podem nascer com problemas, então que não se permita os filhos, quem sabe, mas nem sei se isso também é justo com um casal que quer viver junto e compartilhar uma vida...

Lu Tricotando disse...

Acho que as pessoas deveriam ser livres para fazer suas escolhas, certas ou erradas. Sou contra quem condena o outro por pensar diferente. Eu, com certeza acho completamente errado/estranho/louco, casar com irmão...Acho até que eu entenderia um pouco mais se eles tivessem começado esta relação sem saber que eram irmãos, mas enfim.... caum, caum.

Arnaldo disse...

Tenho uma tendência, até exagerada, em defender a liberdade de escolha. Por isso, cismo sempre com essa coisa do estado criminalizar o aborto, o consumo de drogas, o casamento homossexual, etc.

É interessante como as pessoas (e isso pode ser percebido pos alguns dos comentários daqui) se colocam nessas situações. E por não conseguirem se enxergar nelas, tendem a recriminá-las.

Não é necessário ser homossexual pra aceitar o casamento entre eles e nem é necessário fazer uso de drogas para aceitar que quem quiser (ou precisar) o faça. É como se, por ser a favor da descriminalização do aborto, a pessoa fosse incentivadora dessa ação.

A gente tem que aprender a ver as coisas com mais distanciamento e a aceitar as escolhas diferentes das nossas.

Sean Hagen disse...

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ARNALDO
assim como vc, me irrito sempre que vejo essas coisas. mas já aceitei, há algum tempo, que ninguém tá livre de discriminar ou ter preconceito. o medo é um gatilho poderoso para o inconsciente.

que as pessoas pendam pra uma postura mais dura frente ao 'desconhecido', tudo bem. mas se elas tiverem consiência de que fazem isso, e que isso é um medo infundado, ou seja, que não serve pra nada, já um começo.

que não gostem, mas não interfiram ou julguem. se julgarem, faça-o sabendo que é pura neura, e que isso não deve interferir de forma alguma na vida dos outros.

conviver com isso é a grande lição. quer acabar, acho impossível.
seria dar adeus aos medos e anseios que nosso imaginário carrega desde que tomamos o raciocínio nas mãos.

mas vigiar é preciso, sempre.



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