30 abril 2007

Brutalidades oníricas

Dormir não é uma das ações que estão entre os meus talentos. Sou péssimo de cama, tenho sono leve, entrecortado, acordo até com uma formiga carregando folhas no parque da esquina. Seis horas de sono corrido é uma benção que festejo como se tivesse dormido por um mês.

Esta noite o travesseiro, tal qual Salomé e João Batista, resolveu pedir impiedosamente minha cabeça. Não teve jeito, não tinha posição em que estivesse confortável. Acordei mil vezes sentindo aquele estalo no pescoço, quando ele fica fora de lugar e enrijece. Terrível. Não poderia ter pior pesadelo.

Ledo engano, o pior estava em marcha. Um pouco antes da hora de acordar, pesadelei dormindo mesmo. Imaginei que chegava em casa e a porta da frente tinha sido arrancada – óbvio que a casa era minha, mas não era a minha ao mesmo tempo. Dentro, nada além de eco e confusão, todos os móveis haviam sido retirados. Apenas uma TV gigante estava no fundo de numa sala. Mas minha maior preocupação era o computador: “O que vou fazer agora sem toda a minha pesquisa que tá dentro dele? - pensei - Deu pra minha tese”. E daí fui tomado por uma sensação de desamparo e impotência, como se estivesse caindo de um penhasco. E pior, berrando antecipadamente pela dor que me esperava lá embaixo, quando eu me espatifasse nas rochas.

Despertei pior do que das outras vezes: o pescoço parecia de concreto, e o estalo foi tão alto que fiquei com medo de acordar os vizinhos; a mandíbula completamente cerrada, lembrando cada um dos 32 dentes que carrego na boca; e o corpo, por fim, moído feito guisado de segunda, como se os 300 de Esparta tivessem marchado sobre mim.

Não acredito em sonhos como oráculos. É só olhar atentamente e encontramos algumas das razões que fazem essas imagens brotar, às vezes de forma explícita, outras completamente descontextualizadas, num amontoado de sensações aparentemente sem nexo. Para além do óbvio de perder toda a minha pesquisa acadêmica, eu sei o que esse sonho implica - mas o resto da análise eu não entrego, minha orientadora do pós é assídua nesse blog.

O que não dá é pra acordar brutalmente pisoteado por causa de um sonhozinho ruim. Preciso comprar travesseiros novos urgentemente.

25 abril 2007

Um tempo forjado em cinzas e neve

Sublime, em latim, é definido como “algo que vai elevando-se, que se mantém no ar, glorioso”. Quando elefantes e baleias têm o peso de uma pluma, e a integração entre o homem e o ambiente se apresenta perfeita, eu arriscaria dizer que esse é um momento sublime.

Não há como manter o fôlego diante da sensibilidade do fotógrafo canadense Gregory Colbert. O tempo é uma alegoria morta em suas imagens. Não há passado ou futuro, há uma sensação de que a vida escoa em sentimentos puros, intocados, algo além do que podemos sentir.

Por mais impressionante que sejam, não há montagem nas fotos. O sonho que Colbert apresenta é feito de luz, não de píxels. E mesmo o batido tom sépia, que os anos oitenta conseguiram transformar em cafona pelo excesso, ganha uma outra dimensão na palheta do artista: aproxima os claros e escuros e cobre de indefinição o traço marcado para acentuar o que há de sentimento.

O site da exposição Ashes and Snow é um deslumbramento à parte. Toda a concepção é primorosa, da música à apresentação das imagens – quando o mouse se movimenta sobre uma foto, revela dezenas de possibilidades de outras fotos, que vão mudando com pequenas variações. Na verdade, todo o projeto é um deslumbramento. Inaugurado em 2002 em Veneza, o museu itinerante, projetado para abrigar as fotos e filmes de Colbert, está viajando o mundo. Não achei informações sobre próximas paradas, mas duvido que o Brasil esteja na rota.

Quem tiver paciência – e banda larga – há vários filminhos no Youtube mostrando um pouco das filmagens que resultam nas fotos. É um daquels momentos de zen contemplação em que não se tem vergonha de se sentir um pouco piegas. Algo imperdível pra quem acredita que ainda é possível olhar – e sentir – de uma forma diferente.

23 abril 2007

Pimenta na língua dos outros é refresco

De tempos em tempos, pragas assolam a bela língua de Machado de Assis. E mesmo estando longe de não cometer meus pecados, sofro quando ouço algumas expressões. Mas não posso negar que me fascina a capacidade itinerante da língua, que ora abrasileira um estrangeirismo, ora cria um novo significado pela gíria. Isso quando não muda o sentido lentamente através dos anos, dando ao povo o que ele escolheu como uso corrente.

Mas não é o caso do que estou falando aqui. Quando a mídia ou um grupo tentam impor goela abaixo um novo uso, meu ouvido sofre, e bater no interlocutor parece ser a única saída prazerosa pra resolver o problema.

Nos yuppies anos 80, a expressão a nível de grudou feito chiclete em tamanco. A polícia federal não concluiu o inquérito, mas aponta os economistas como culpados. Reis da mídia em um momento em que se tentava entender a inflação estratosférica e os milhares de pacotes econômicos, disseminaram esse cacoete infernal aos sete ventos. Hoje, meio esquecido, ainda surge aqui e ali como um vírus insistente.

Nos anos do reinado de dom Fernando Henrique, o Brasil incorporou um distúrbio que refletia a situação da época: o gerundismo. Nascido das maravilhosas empresas de telemarketing paulista, o mundo foi assolado pelo continuísmo oco, em que tudo parecia ser empurrado com a barriga. Os famigerados vou estar repassando ou vai estar sendo providenciado se tornaram a questão chave no problema. Essa é uma praga ainda muito viva, só combatida com chinelada e baratox. No cérebro.

Por fim, nesses anos 2000, surge a malfadada e burra correr risco de morte. De uma hora pra outra, uma expressão secular perdeu o sentindo na boca dos pretensos politicamente corretos. É óbvio que o tempo apagou um termo na locução correr risco de [perder a] vida, mas o sentido original se manteve forte. Ainda lembro, estupefato, a grande filóloga Hebe Camargo dizendo que não usaria mais a expressão original, porque vida era uma coisa bonitinha que não deveria ser associada a algo triste. E proclamou aos telespectadores, em claro e bom som, com um copo de cerveja na mão, que correr risco de morte era a expressão correta. Isso já faz uma trinca de anos atrás.

Sendo a progenitora ou não, a expressão que Hebe reivindicou está na boca da mídia. E parece que veio pra ficar. Afinal, a nível de algo que vamos estar fazendo para resolver o genocídio da última flor do Lácio, causa risco de morte mexer em um paquiderme com Q.I. de ameba.

Saravá, meu pai.

20 abril 2007

Do sonho à singularidade

Não posso negar que sou epicuristamente hedonista: acredito que os prazeres não têm porque causar sofrimentos indesejados, pelo contrário. Prazeres libertam e transcendem.

Já falei aqui da minha paixão pela gastronomia. Estou longe de ser alguém refinado, que aprecia vinhos raros e condimentos únicos, mas morro pela boca quando um sabor me arrebata. Gosto de combinações inusitadas, do picante e do doce, do salgado e do azedo, do tradicional e do exótico.

Se viajo pela boca, pelo cinema levito. A tela grande tem um encantamento que me fascina desde piazinho, quando vi meu primeiro filme. É emocionante ver uma história contada com luz, cor, som e movimento.

Pois a Rejane Martins, que é sofisticada pra burro, mesclou imagem e gastronomia pra criar o projeto Mesa de Cinema, em que filmes servem de inspiração para banquetes preparados por renomados chefes. Imagine a cena: você está assistindo à orgia gastronômica de A festa de Babete e suas papilas gustativas entram em ebulição, a curiosidade vai ao além e o estômago perde a compostura com roncos ruidosos. Duas horas depois, inebriado com tudo que viu, sai apertando os olhos da sala escura e voilà!, tudo aquilo está materializado na sua frente.

Depois de ser apresentado na Serra Gaúcha, o projeto desembarca em Porto Alegre, no belíssimo prédio centenário do Santander Cultural – aos amigos espanhóis, um lembrete: blog também é cultura e o meu aceita patrocínio. A próxima edição acontece no dia 28 de abril. Um programa irrecusável para quem sabe o que é apreciar as boas coisas da vida.

18 abril 2007

Bimbadas

Inhé!**

A malandragem dos brazucas perdeu pros deuses do Olimpo. São os gregos os campeões do sexo no planeta: 164 bimbadas por ano. Ficamos em segundo, com 145, uma média de uma por semana.

Estranho. Não conheço um malandro de mesa de bar que diga dar menos de três. Numa noite.

Só pode ser sacanagem desses pesquisadores. Entrevistaram 26 mil pessoas em 26 países, mas usaram técnicas diferentes, tenho certeza. Na Grécia fizeram tocaia na saída dos motéis; ou atrás das pedras nas praias. No Brasil, foram direto pras padarias, às sete da manhã, quando só tem senhorinhas de cabelo lilás comprando cacetinho - ops, "pãozinho", em gauchês. Já os japoneses, os entrevistadores devem ter ido numa casa de repouso pra depressivos, porque o resultado foi a raiz de menos pi ao quadrado.

Mas pensando bem, até que não foi ruim pra nós. Uma bimbada por semana aos 90? Uau. Viva o viagra.

**Inhé - Tá, eu sei que a foto da japonsa Kamato Hong - a mulher mais velha do mundo - não poderia estar aqui. Mas achei a cara dela tão fofinha.

16 abril 2007

Cida
Não há o que aplaque essa dor.
Mas carinho ajuda.
Estamos contigo.


12 abril 2007

Um ano num instante

Tremenda ironia: esse blog nasceu sobre o signo de áries

Um ano.

Comemorarei dois, cinco?
Não sei.
Sei que gosto de encontrar as pessoas aqui.
Gosto de saber que alguém de longe, do outro lado do oceano até, está disposto a falar a minha língua.
E eu escondido no cadinho extremo sul do Brasil e da América.
Interação é a palavra de ordem, não tenho dúvida.

Um ano.
Achei que não passaria de um mês.
Olhando posts antigos, parece tão longe.
O primeiro comentário, o primeiro visitante desconhecido, a primeira polêmica.
Estranho esses movimentos que a gente faz na vida, de negar algo e depois se descobrir encantado.
Negação ou medo de ser ridículo?
Negação, definitivamente.
O ridículo sempre foi intrínseco ao meu ser.

Eu odiava blogs.
É, eu odiava blogs.
Achava que era coisa de gente narcisista.
Achava que tinha o tom dos diários das mocinhas ingênuas de dantanho.
Se hoje eu estou aqui, é culpa da Marcia.
Ela que ficava furando os meus ouvidos falando do encantado mundo dos blogueiros.
Como tenho a mente fraca, capitulei.

Errei muitas vezes, acertei em outras.
Passei despercebido em algumas.
Escrever pode ser um ato mecânico.
Interagir, nunca.
Belo exercício de auto-conhecimento pratico aqui.
Mas só porque tenho com quem exercitar.

Meu blog ainda tem cheiro de fraldas.
Mas cresço, engrandeço, dilato, expando, vislumbro novos horizontes.
E na ponta final, mentes, idéias, saberes, questionamentos.
Gentes.
Ainda quero ser grande.

09 abril 2007

Mentiras sinceras me interessam

Demorou! – como dizem os cariocas. Uma novelinha de 80 capítulos está circulando no MySpace, o site de relacionamentos que os norte-americanos mais usam. Todo dia um capítulo de um minuto e meio é jogado na rede. Mas longe de ser algo toscamente amador, é uma produção assinada por Michael Eisner, um ícone no mundo dos negócios, o cara que fez a Disney entrar no futuro. Ou seja, milhões de dólares estão nessa brincadeira.

A sacada de Prom Queen – Rainha do baile de formatura – é que as pessoas vêem a historinha e interagem com os personagens como se eles fossem verdadeiros. Todos têm perfil no MySpace e podem ser adicionados como amigos. Dê uma olhada no primeiro espisódio, com um garota de lingerie e um mistério a ser descoberto. Algo meio Twin Peaks juvenil.

Para os marketeiros isso é o paraíso, com a possibilidade de vender desde pasta de dente até carro, tudo com o aval “verdadeiro” de cada figura da novela. Vai ser interessante perceber como as pessoas se comportarão brincando com uma mentira que tem aparência de verdade. Sempre lembrando que parecer pode assumir a força de ser em muitos casos.

Esse embaralhar de possibilidades, em que real e ficcional se misturam, é uma porta que a internet abriu como ninguém. O Orkut, que aqui no Brasil tem um sucesso tremendo, é uma prova disso. Cada um pode ser o que quiser, dizer o que quiser, recriar-se, ser outro, ser múltiplo: mulher pode virar homem, criança virar adulto, graduado virar doutor. Quantos desses perfis fakes são de pessoas que conhecemos e nem imaginamos que sejam delas? Mentira e verdade rondam todas as relações nesse ambiente, e só quem conhece realmente o outro pode perceber as nuances. Como isso já é complicado no mundo real, vira uma tarefa hercúlea no virtual. Mas que é divertido, isso é.

06 abril 2007

Sexta-feira sangrenta

Já contei aqui uma historinha de Sexta-feira Santa, em que um pedaço de chocolate me condenou ao fogo do inferno. Religião era um ente que pairava sobre minha cabeça na infância. Os valores morais sentavam à mesa de domingo, lado a lado com a gula, a inveja, a sacanagem, a mentira, o concubinato e outros amiguinhos mais mundanos presentes na minha família.

Uma tia, papa-hóstia xiíta, era a guardiã da moral e dos bons costumes. E no dia em que Cristo deixou um vácuo no mundo, o patrulhamento se intensificava. O problema é que algum gene deformado malignizou meu caráter, porque desde as fraldas eu combati os dogmas burrificantes. Meio como “hay gobierno? Soy contra.”

Pois bem, brincar, rir, falar alto era proibido na Sexta. Mas o crime mais brutal estava nos objetos cortantes: porque ao usá-los você corta – e mata – o filho de Deus, saca? Tocar em facas ou tesouras era terminantemente proibido, já que Jesus está em todas as coisas. Assombrava-me a idéia de que cascatas de sangue brotariam do singelo papel que eu estava louco pra tesourar e fazer meu ninho.

Mas o pesquisador desinteressado falou mais alto, e decidi ir a campo. Sorrateiramente, enfrentei meu primeiro medo: roubar uma faca. Sem ouvir as trombetas de Gideão abrirem uma fossa pra me levar ao Inferno, corri para o fundo do pátio e escolhi uma figueira como alvo. Com o coração na boca, passei o aço entre uma folha e o galho e estremeci quando um líquido viscoso escorreu, grudando feito praga. Pra meu alívio, era branco e pegajoso, igual ao que sempre foi. Sinal de que Jesus deveria estar ocupado com coisas maiores. Com a emoção dando lugar a razão, esquartejei um figo. Nada. Serrei uma taquara ao meio. Nada. Então parti pra maldade explícita: uma minhoca virou duas, e algumas formigas perderam a cabeça. Nada, nem uma gota de sangue escorreu. A mentira tem pernas curtas.

De faca em punho, feito trombadinha que rouba velhinhas, fui atrás de explicações. Tinham me enganado, pô! Mal entrei em casa e a papa-hóstia arrancou o “mal” da minha mão – não do meu coração, que fique claro. “O que você está fazendo com isso?”, perguntou indignada. “Cortando, ué” – foi a minha resposta mais do que sincera, louco pelo enfrentamento. Ao ouvir a sugestão de que o Inferno era uma possível parada pra crianças como eu, percebi que minha algoz também carregava uma faca, enorme, com que estripava o peixe. O embate que se desenrolou foi pior do que o cerco à Bagdá. Petardos de todo tamanho desabaram, e minas terrestres explodiram. A promessa de que o Coelhinho não traria nada não me comoveu. Mentiras demais já haviam sido ditas.

Mais um dogma tinha caído. Naquele momento, eu não consegui perceber se o calor que tomava meu corpo era um prenúncio das chamas infernais ou a excitação por vencer uma batalha. Se eu puder escrever do além, juro que conto a resposta.

03 abril 2007

Além ver

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Os anos 90 tiveram sua dose de esquisitice, e a mania dos estereogramas – imagens em 3D escondidas em figuras planas – foi uma delas. Pagava-se uma fortuna por um livro fininho em formato álbum, importado, sucesso garantido em festas de aniversário. Saía todo mundo no tapa pra tentar pegar o livro, e quem via a primeira imagem ganhava o respeito de todos. Mas sempre ficava um "ceguinho" chorando no canto, enquanto a massa exclamava ‘Óhs’ de admiração com a figura formada.

Como toda moda, passou. Assim como passou o meu treinamento pra enxergar essas imagens. Perdi um bom tempo tentando reaprender a olhar o que não é óbvio. Vesgo, visão cruzada, quando uma imagem inusitada começava a aparecer, o foco voltava e a velha percepção tomava conta. A duras penas consegui ver além do que está na tela, e uma a uma as imagens foram se formando.

Mas confesso que a minha tendência é formar figuras côncavas, quando a maior riqueza está nas convexas – deficiência de leitura de um cérebro levemente tosco. Olhar diferente é um treinamento constante, precisa de vontade e disposição. E, sobretudo, mente aberta .

Descobri que a Marcia fez um pequeno e contundente - como sempre - ensaio sobre um assunto muito próximo a esse. Vale a pena dar uma espiada.