23 abril 2007

Pimenta na língua dos outros é refresco

De tempos em tempos, pragas assolam a bela língua de Machado de Assis. E mesmo estando longe de não cometer meus pecados, sofro quando ouço algumas expressões. Mas não posso negar que me fascina a capacidade itinerante da língua, que ora abrasileira um estrangeirismo, ora cria um novo significado pela gíria. Isso quando não muda o sentido lentamente através dos anos, dando ao povo o que ele escolheu como uso corrente.

Mas não é o caso do que estou falando aqui. Quando a mídia ou um grupo tentam impor goela abaixo um novo uso, meu ouvido sofre, e bater no interlocutor parece ser a única saída prazerosa pra resolver o problema.

Nos yuppies anos 80, a expressão a nível de grudou feito chiclete em tamanco. A polícia federal não concluiu o inquérito, mas aponta os economistas como culpados. Reis da mídia em um momento em que se tentava entender a inflação estratosférica e os milhares de pacotes econômicos, disseminaram esse cacoete infernal aos sete ventos. Hoje, meio esquecido, ainda surge aqui e ali como um vírus insistente.

Nos anos do reinado de dom Fernando Henrique, o Brasil incorporou um distúrbio que refletia a situação da época: o gerundismo. Nascido das maravilhosas empresas de telemarketing paulista, o mundo foi assolado pelo continuísmo oco, em que tudo parecia ser empurrado com a barriga. Os famigerados vou estar repassando ou vai estar sendo providenciado se tornaram a questão chave no problema. Essa é uma praga ainda muito viva, só combatida com chinelada e baratox. No cérebro.

Por fim, nesses anos 2000, surge a malfadada e burra correr risco de morte. De uma hora pra outra, uma expressão secular perdeu o sentindo na boca dos pretensos politicamente corretos. É óbvio que o tempo apagou um termo na locução correr risco de [perder a] vida, mas o sentido original se manteve forte. Ainda lembro, estupefato, a grande filóloga Hebe Camargo dizendo que não usaria mais a expressão original, porque vida era uma coisa bonitinha que não deveria ser associada a algo triste. E proclamou aos telespectadores, em claro e bom som, com um copo de cerveja na mão, que correr risco de morte era a expressão correta. Isso já faz uma trinca de anos atrás.

Sendo a progenitora ou não, a expressão que Hebe reivindicou está na boca da mídia. E parece que veio pra ficar. Afinal, a nível de algo que vamos estar fazendo para resolver o genocídio da última flor do Lácio, causa risco de morte mexer em um paquiderme com Q.I. de ameba.

Saravá, meu pai.

19 comentários:

Clélia Riquino disse...

Língua
Caetano Veloso

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala mangueira!
Fala!

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e imã
Nomes de nomes como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
Arrigo Barnabé, Arrigo Barnabé, Arrigo Barnabé

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?

Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo e o Recôncavo e o Recôncavo
Meu medo!
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero fratria
Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Tá craude brô você e tu lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro
Samba-rap, chic-left com banana
Será que ele está no Pão de Açúcar?
Nós canto-falamos como que inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem, que falem

obs.: Pra ouvir, Caetano & Elza Soares cantando, basta clicar no título da música.

bjo,
Clé

Clélia Riquino disse...

Outras palavras
Caetano Veloso

Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca
Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more
Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza:
Outras palavras

Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor
Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol
Na televisão, na palavra, no átimo, no chão
Quero essa mulher solamente pra mim, mas muito mais
Rima pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo:
Outras palavras

Nem vem que não tem, vem que tem, coração, tamanho trem
Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim
E fora de mim quando você parece que não dá
Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir
Tem me feito muito infeliz, mas agora minha filha:
Outras palavras

Quase João, Gil, Ben, muito bem, mas barroco como eu
Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações
Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor
Tinjo-me romântico mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita, porém daqui pra a frente:
Outras palavras

Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz
Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial
Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania:
Outras palavras

obs: Pra ouvir Caetano cantando, basta clicar no título.

Clélia Riquino disse...

Tantas palavras
Dominguinhos & Chico Buarque/1983

1ª versão*

Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Tantas palavras
Que ela falava
Ditas de novo
Não são iguais

Mesmo a palavra não
Não era bem assim
E quando estava no calor da paixão
Ela falava, ai de mim
Ai de mim

Numa canção feroz
Nós inventamos palavras sem voz
Palavras ocas
Que nem nossas bocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou frenesi
Frenesi

Nossas palavras
Que se cruzavam
Já não parecem mais casais
Hoje andam tortas
Feito uma jura
Que quer voltar atrás

Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Essas palavras
Quem falou não está mais aqui

Letra cantada na trilha sonora
da novela "Sabor de Mel", 1983, Ariola*

2ª versão*

Tantas palavras
Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
Tantas palavras
Que ela gostava
E repetia
Só por gostar

Não tinham tradução
Mas combinavam bem
Toda sessão ela virava uma atriz
Give me a kiss, darling
Play it again

Trocamos confissões, sons
No cinema, dublando as paixões
Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou: c'est fini
C'est fini

Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz

Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui

Letra gravada no
LP Chico Buarque, 1984*

obs.: Aqui também o Chico canta (a 2ª versão), se você clicar no título.

Maroto disse...

eu acho ótimo que as pessoas coloquem em risco a própria morte. Vou colocar a minha também - caso eu a perca, viverei para sempre. E viva a Hebe Camargo!

marcia disse...

bah... lembro o susto que eu levei quando li, a primeira vez, que o cara "não corria risco de morte". ai. ui. foi tãããããooo estranho.

Graziana disse...

adoro os comentários em forma de música! ainda mais quando tem chico :D

recebi um email falando quepassaremos a ter 26 letras no nosso alfabeto e que alguns acentos não serão mais usados, como em lêem, será leem, tudo para unificar a grafia nos países de lingua portuguesa, interessante, mas até acostumar...

Rosamaria disse...

tivemos um prefeito que adotou o 'a nível de' e qdo falávamos nele aqui em casa, era assim que o chamávamos. tudo pra ele era 'a nível de'.

o 1º scrap que me mandaste, não deves lembrar, foi no gerúndio.

ainda não me acostumei com o 'risco de morte. certo ou errado sigo dizendo 'risco de vida'

e tô tapada de nojo, já é a 3ª vez que escrevo aqui e dá falha, sem falar que não consigo postar no meu blog.
humpf!

Vini disse...

entendo, mas peraí! "risco de" não significa "há o risco de q aconteça tal coisa"? então, risco de morte não é como risco de cair da bicicleta, risco de ficar careca, risco de ganhar na loteria? Dirigir a 200 por hora não é risco de acidente? Não é risco de morte? risco de morte = risco de (q aconteça) morte. to errado?

Chawca disse...

Sean..

Hoje eu estou passando por aqui pra te convidar a participar do meme Cinco coisas boas para se fazer em....Porto Alegre (no seu caso)..

Dá uma olhada lá no blog pra entender melhor...

Um abraço

Fabi disse...

O gerundismo faz doer meus ouvidos...
Será que um dia estarei me acostumando com isso? hahaha
Não, né??

=**
Beijos

ederson disse...

ah, "correr risco de morte" até é bacaninha, vc está se estressando à toa... eu, particularmente, sempre tive problemas com "correr risco de vida", assim como com "correr atrás do prejuízo"

Clélia Riquino disse...

Pois é, o Vini está certíssimo:

risco 2
[Do b.-lat. risicu, riscu, poss. do lat. resecare, 'cortar'; ou do esp. risco, 'penhasco alto e escarpado']
S. m.
1. Perigo ou possibilidade de perigo.
2. Situação em que há probabilidades mais ou menos previsíveis de perda ou ganho como, por ex., num jogo de azar, ou numa decisão de investimento.
3. Em contratos de seguros, evento que acarreta o pagamento da indenização: A apólice cobre o risco de incêndio.
4. Jur. Possibilidade de perda ou de responsabilidade pelo dano.

[Aurélio]

risco
substantivo masculino
1 probabilidade de perigo, geralmente com ameaça física para o homem e/ou para o meio ambiente
Ex.: risco de vida, risco de infecção, risco de contaminação
2 Derivação: por extensão de sentido.
probabilidade de insucesso, de malogro de determinada coisa, em função de acontecimento eventual, incerto, cuja ocorrência não depende exclusivamente da vontade dos interessados
Ex.: o projeto está em r. de perder seu patrocínio.
3 Rubrica: termo jurídico
em contratos de seguro, incidente que acarreta indenização
Ex.: risco de roubo, risco de incêndio
4 Rubrica: termo jurídico
responsabilidade ou encargo acerca da perda ou do dano por situação de risco

[Houaiss]

Sean Hagen disse...

*



URUBUA
faz o teste e me conta depois.
só pra saber: que flores vc gosta mesmo?




MARCIA
me diz: vc perdeu alguma peninha quando levou o susto?
ou botou um ovinho?
pop!



GRAZI
esse acordo tá longe de sair, é um empurra de cá, chuta de lá. e eu acho uma piada mesmo. podemos todos falar português, mas com a riqueza e especificidades de cada lugar.



ROSA
a nível de problemas no blog, não tive nenhuma queixa.
corro risco de vida se isso acontecer novamente com vc?




CHAWCA
vou lá dar uma olhada, sim.
mas só não garanto que eu vá fazer.
:p
sou um blogueiro RDB - rebelde.



FABI
vc nunca vai estar se acostumando.
e ai de vc se estiver!



CLÉLIA, VINI E EDERSON

o sentido de correr risco eu não questiono, está certo.
o que questiono, e tentei deixar claro no texto, é que me desagrada que um grupo ou a mídia decidam que uma expressão secular, viva e com sentido, seja de uma hora pra outra rejeita porque eles não gostam. a língua não é feita via decreto.

eu acho que há muito mais força e lirismo em "risco de vida" e, como disse a Urubu lá em cima, inverte-se o peso do sentimento e se dá mais importância à morte do que a vida. a morte é uma conseqüência da vida, e não o contrário.

segundo, se vão derrubar uma expressão antiga, que usem o português correto.
o certo, então, é risco de morrer, e não risco de morte. sai o substantivo e entra a ação do verbo. risco de vida, como eu já havia comentado, sumprimiu o verbo "perder". mas tinha esse direito porque é uma expressão antiga modificada pelo tempo.

ora, se as Hebes querem mudar a língua ao seu bel prazer, que façam corretamente. concordam comigo?




*

claudia lyra disse...

Não é só na mídia não. Essa expressão está nas salas de aula e nos ambientes de trabalho também. Falar 'risco de vida' virou sinal de burrice.

clarice disse...

Acho terrível e dói meus ouvidos quando ouço palestrantes usando indiscriminadamente a conjunção "enquanto".
Ex:O homem enquanto ser humano...Ou ainda, A medicina enquanto ciência..E por aí vai!!!!!!

Chawca disse...

E o pior é que ás vezes me pego dizendo essas coisas, apesar de me esforçar ao maximo pra isso nao aocntecer...
A nível de é o pior de tiodos na minha opinião...

E don't worry, seja RBD á vontade...

Um abraço

Zeca La-Rocca disse...

tudo, tudo muito "Lindo de viver!"

aliás, ouço a Hebe falar isso.

Risco de vida é coisa do Willian e da Fatinha!

Lilaise disse...

"sou um blogueiro RDB - rebelde."

AAHAHHAHAHAHAHHAAHAHHAAHAHHAAHAAHAHAAHAHAHHAHAHAHAA

Sean Hagen disse...

*




CLAUDIA
tá em todo lugar, mesmo.
e como a mídia tem o poder de multiplicar tendências, pega da rua e devolve de uma forma amplificada.



CLARICE
esse é ótimo também.
cria direta dos petistas que vêem tudo como uma reticência ambulante.


CHAWCA
tem show do RDB hoje à noite aqui.
ingressos esgotados.
e eu não vou.
a nível de fã, tô muito triste.


ZECA
que gracinha isso que vc disse.
putz, tem essa dela também, né?
e sim, concordo contigo. o casal chapinha do jornal nacional é culpado do risco de vida.



LILA
ensaiei todas as coreografias.
e sei dublar direitinho.
:p




*