06 abril 2007

Sexta-feira sangrenta

Já contei aqui uma historinha de Sexta-feira Santa, em que um pedaço de chocolate me condenou ao fogo do inferno. Religião era um ente que pairava sobre minha cabeça na infância. Os valores morais sentavam à mesa de domingo, lado a lado com a gula, a inveja, a sacanagem, a mentira, o concubinato e outros amiguinhos mais mundanos presentes na minha família.

Uma tia, papa-hóstia xiíta, era a guardiã da moral e dos bons costumes. E no dia em que Cristo deixou um vácuo no mundo, o patrulhamento se intensificava. O problema é que algum gene deformado malignizou meu caráter, porque desde as fraldas eu combati os dogmas burrificantes. Meio como “hay gobierno? Soy contra.”

Pois bem, brincar, rir, falar alto era proibido na Sexta. Mas o crime mais brutal estava nos objetos cortantes: porque ao usá-los você corta – e mata – o filho de Deus, saca? Tocar em facas ou tesouras era terminantemente proibido, já que Jesus está em todas as coisas. Assombrava-me a idéia de que cascatas de sangue brotariam do singelo papel que eu estava louco pra tesourar e fazer meu ninho.

Mas o pesquisador desinteressado falou mais alto, e decidi ir a campo. Sorrateiramente, enfrentei meu primeiro medo: roubar uma faca. Sem ouvir as trombetas de Gideão abrirem uma fossa pra me levar ao Inferno, corri para o fundo do pátio e escolhi uma figueira como alvo. Com o coração na boca, passei o aço entre uma folha e o galho e estremeci quando um líquido viscoso escorreu, grudando feito praga. Pra meu alívio, era branco e pegajoso, igual ao que sempre foi. Sinal de que Jesus deveria estar ocupado com coisas maiores. Com a emoção dando lugar a razão, esquartejei um figo. Nada. Serrei uma taquara ao meio. Nada. Então parti pra maldade explícita: uma minhoca virou duas, e algumas formigas perderam a cabeça. Nada, nem uma gota de sangue escorreu. A mentira tem pernas curtas.

De faca em punho, feito trombadinha que rouba velhinhas, fui atrás de explicações. Tinham me enganado, pô! Mal entrei em casa e a papa-hóstia arrancou o “mal” da minha mão – não do meu coração, que fique claro. “O que você está fazendo com isso?”, perguntou indignada. “Cortando, ué” – foi a minha resposta mais do que sincera, louco pelo enfrentamento. Ao ouvir a sugestão de que o Inferno era uma possível parada pra crianças como eu, percebi que minha algoz também carregava uma faca, enorme, com que estripava o peixe. O embate que se desenrolou foi pior do que o cerco à Bagdá. Petardos de todo tamanho desabaram, e minas terrestres explodiram. A promessa de que o Coelhinho não traria nada não me comoveu. Mentiras demais já haviam sido ditas.

Mais um dogma tinha caído. Naquele momento, eu não consegui perceber se o calor que tomava meu corpo era um prenúncio das chamas infernais ou a excitação por vencer uma batalha. Se eu puder escrever do além, juro que conto a resposta.

19 comentários:

lulu disse...

tá linda essa crônica.
Nada como o contato infantil com as forças do além. :) conte-nos tudo, sempre, tá?

Pô Sean... agora eu queria ver a TUA lista das personagens... :)
faz, faz, faz!!!

marcia disse...

hahahahahahahahahaha...

again:

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!!!!!!!

Maroto disse...

tão jovem e já estava dominado pelo mal! Pior - ainda se orgulha, tanto que escreve e publica pra que todo mundo saiba. Para uma criatura do bem como eu, que até os dez anos queria ser freira, só resta dizer: Credencruiz!

Rosamaria disse...

HUÁHUÁHUÁHUÁHUÁHUÁHUÁHUÁ

Bah! Me lembrei! Hoje é sexta-feira santa e a gente não pode rir!

Vou rir baixinho

huáhuáhuáhuáhuáhuáhuá

A-do-rei!!!

Bjim.

Graziana disse...

me lembrei do teu outro texto sobre a sexta-feira santa... que criança querida vc era, esta tua tia deve pensar isso até hoje, coisaquirida!
heheheheheh

das crenças da sexta santa a que mais gosto é a de que não podemos trabalhar, nem arrumar a casa, imagina, é a única que segui hoje, já que a preguiça chegou e se instalou em mim...

claudia lyra disse...

Ri muito com sua história! Engraçadíssima!

Thelma disse...

Xonzinho, tu és maravilhoso! Adoro as tuas hitórias pessoais. Dei gargalhadas aqui, principalmente neste trecho:
"Com a emoção dando lugar a razão, esquartejei um figo. Nada. Serrei uma taquara ao meio. Nada. Então parti pra maldade explícita: uma minhoca virou duas, e algumas formigas perderam a cabeça." Realmente, espírito nato de investigador.
Lindo!
Beijos.

Arnaldo disse...

Sean, pecador juramentado e serial killer,

Está claro. Esta história mostra todo o seu potencial criminoso, com um passado de furto e assassinatos!

Após cortar uma indefesa árvore, com uma faca roubada, cometeu seu primeiro assassinato, contra uma meiga frutinha, que se não tem sentimento, ao menos tem sentido, sua vida.

Em seguida, aproveitou-se da lerdeza de uma inofensível minhoca para trucidá-la. Se ainda fosse pela fome, se fosse para comê-la, teria o perdão dos céus. Mas não. Foi sua ânsia assassina que te impeliu pra tão hediondo crime.

E depois, louco pra provar ao mundo a sua agilidade e astúcia, foi atras de vítimas mais rápidas e ágeis e com sua raiva mordaz, subtraiu a vida de muitas formigas, desmascarando seu desprezo pela classe trabalhadora.

E no final, movido por sua sede de sange, partia em busca de outra vítima (um ser humano, quem sabe?), quando foi detido pela nossa heroína, a tia papa-hóstia, que conseguiu dominá-lo e frear sua ânsia assassina.

Que bom que existam as tias xiitas!

marcia disse...

Arnaldo, a índole assassina vem de família.
não esqueça que a tia xiita estava esquartejando um pobre peixinho.
e só impediu aquele moleque endemoniado de seguir adiante porque ela não queria dividir aquele prazer com ninguém.
a tia, além de assassina e hedonista, era uma baita duma egoísta.
piu piu piu!!!

Luci Lacey disse...

Oi Sean

Sexta Feira Santa, era tenebrosa para nos, quando pequenos, eramos endiabrados, juntavam as primaiadas para o almoco, imagine o sufoco rsss.

Aprontavamos, porque minha mae nao dava uns tabefes neste dia, mas descontava no dia seguinte , oooo vida he he.

Boa Pascoa.

Abracos

clarice disse...

Fico imaginando a cena vc com a faca desafiando os céus!!!!!dei boas risadas!
Mas o pior vinha no domingo quando mães "tiravam" a aleluia.
Feliz Páscoa
Bjos

Maitê disse...

Xôn, pior era o sábado de aleluia. Tá louco, minha mãe só ameaça, mas era suficiente, hehe

Abs

Vivien disse...

g-e-n-i-a-l....rs

Nana disse...

Sexta-feira era Santa e todos os diabinhos aproveitavam, mas no sábado os chinelos acordavam cantando "ALELUIA" - (risos).
beijinhos.

Camu disse...

Putz!!!!!!!!
Realmente, adoro o que e como vc escreve Sean!
Beijoca

Raimundo Pajeu disse...

Ah, então a santa anormalidade de Xôn vem de longas datas.
:-)

Lu disse...

hahahahahahaha. me lembrou da minha avó, que não deixava a gente fazer nada, nem escutar rádio.
Ainda respeito muito a sexta-feira santa...... acho que tenho medo de ir pro inferno, prefiro não arriscar.

Eternamente Berenice disse...

Nossa minha vó dizia que não podia nem pentear o cabelo, pq era pecado. A gente fazia um coquinho e prendia só ia pentear no sábado aleluia.. Era uma coisa...Lembro de uma tia minha que ganhava um monte de ovos de Páscoa dos admiradores e não abria, ficava aqueles ovos lá pelo menos uns 6 meses só atiçando a gente...Uma vez abrimos tiramos todos o bombons e colocamos pedrinhas no lugar, nossa foi o maior fuá, compartilho com vc traquinagens de criança é muito bom né??

Chawca disse...

Ah esse negocio de sexta feira santa nunca me convenceu,,,,
Quem morreu foi o cara, não eu...
Ainda bem que minha mãe não é tão rigida assim nesse aspecto,,
Otimo texto,,, como sempre...