07 maio 2007

Acerto de contas

Minha vida não renderia um livro. Definitivamente, não. Quando olho pra trás, vejo que foram alguns poucos momentos que ficaram impressos naquilo que chamo de “eu”. Não porque eu seja um chato, apesar de também poder ser, mas porque acho que a vida real não é feita de grandes gestos, não é recheada de acontecimento notáveis e espetaculares. Um nascimento, uma morte, um carinho, uma traição, uma palavra certa dita na hora certa. É dessas pequenas coisas que me componho.

Sábado eu participei da festa de um aninho da Luísa, um bebê encantador de lindos olhos azuis. Renato, o pai, conheci piazinho, mas só fui estreitar os laços já adulto, na faculdade. Por coincidência, a mãe dele, que estava lá, era a professora que cuidava da pequena biblioteca da escola estadual em que eu estudava.

Foi pelas mãos da professora Maria Silvina que eu dei o primeiro salto na vida. Era na modesta biblioteca – que tinha uma sensação de acolhimento e desafio – que me senti alguém. Quando eu entrava, parecia que toda a atenção se concentrava em mim. Maria Silvina sempre tinha uma indicação certa de leitura, além de estabelecer uma conversação igualitária e não condescendente com alguém de sete anos. Eu me sentia mais do que o caçula de quatro irmãos, o aluno 28 na chamada ou um conceito genérico de criança: eu era um ser pensante, respeitado como tal.

Como o crescimento sempre é infinito, só a sensibilidade explica qual o momento certo de propor novos desafios. E um dia, sem eu entender bem o porquê, fui apresentado a Monteiro Lobato. Acostumado com os finos livrinhos com mais ilustrações do que texto, tomei um susto aos ver As reinações de Narizinho, uma leitura que Maria Silvina garantia ser a minha cara. Naquele momento eu achei impossível atravessar as 300 páginas do “gigantesco” volume, mas como dizer não pra alguém que eu admirava?

Devorei o livro, e ao virar a última folha, uma porta estava aberta. Eu me sentia outro, me via como outro. Era como se eu tivesse sido autorizado a pensar, argumentar e debater. Claro que eu já fazia isso antes, mas transpor aquele calhamaço foi um ato de confiança, foi descobrir que eu podia fazer algo de “grande”. Talvez minha primeira incursão no sentido de maturidade.

Pouco depois, Maria Silvina deixou a escola e a biblioteca nunca mais foi a mesma. Tampouco eu era o mesmo. O processo de mudança era irrefreável, e eu sabia ser capaz de caminhar com minhas próprias pernas.

Centenas de outros livros vieram, o mundo deu n voltas, e lá estou eu em uma festa observando o rosto que tanta lembrança me traz. Ali, senti que era o momento de acertar as contas. Ainda me emociono ao lembrar do sorriso luminoso e dos olhos molhados de Maria Silvina quando confessei que ela foi marcante na minha vida. Um pequeno grande momento que ela me proporcionou novamente.

Não consigo imaginar quem eu seria se ela não tivesse cruzado meu caminho. Maria Silvina fez a diferença e foi bom dizer isso a ela. Foi bom dizer “eu sou alguém que você ajudou a botar de pé”.

19 comentários:

Rosamaria disse...

"Um nascimento, uma morte, um carinho, uma traição, uma palavra certa dita na hora certa. É dessas pequenas coisas que me componho."
Isso daria um livro maravilhoso escrito por ti!
Tu consegues emocionar e fazer rir na hora certa.

Agora fico imaginando a professora, vendo um guri com aquela carinha de patife e com interesse por leitura, tinha mesmo que dar atenção exclusiva.
Este "acerto de contas" deve ter sido de chorar de emoção!

Bjim.

>> [eRRuD!To] ... disse...

é, são essas coisas que contam. bacana essa história :o)

marcia disse...

e em pé ficaste. :)

Graziana disse...

Posso imaginar a felicidade da Maria Silvina,se eu fiquei emocionada, aposto que ela adoraria ler este texto e todos os outros que vc escreve tão bem!
;)
beijos

cida disse...

Acho tão bom quando posso dizer a alguém de sua importância para o meu crescimento.
Parabéns a ti, que sabes reconhecer esse diferencial, e a Maria Silvina por ter te aprofundado no caminho das letras.
Um abraço

Maroto disse...

pelo jeito a tua vida dava um livraço, um baita romance daqueles bem adocicados :P

Adriana disse...

Sean, pelos posts creio de verdade que sua vida daria um livro...um livro escrito com humor, sensibilidade, ironia...um livro para nos perdermos nele...chorar e sorrir e pedir outro...adoroa forma que escreves as etapas da sua vida...
beijinhos carinhoso do outro lado do oceano

ederson disse...

A professora que cuidava da biblioteca na minha escola era a Ivone. Ela usava uns óculos que a deixavam com cara de coruja e mais faltava ao trabalho do que atendia aos alunos. Na quarta série eu era o vice-líder da turma e resolvi discutir a respeito disso na reunião com os professores, mas não me levaram a sério... Queria eu ter tido uma professora bibliotecária bacana que nem tu...

firvidas disse...

É incrível, não é? A confiança que uma pessoa nos pode dar. Marca tanto o carácter e o nosso futúro.
Ainda me recordo da única salva de palmas que me deram quando tinha 10 anos, depois de um exame oral. Foi a primeira vez que me senti "alguém"....

Tão bom que tiveste a oportunidade de agradecer...

Clélia Riquino disse...

Diz a lenda que Egberto Gismonti compôs esta música (Ano Zero) como exercício pro Nando Carneiro (irmão do Geraldo) estudar piano. Imagine??? Um professor que compõe algo assim pro aluno se exercitar! (deve ser, inclusive, impossível executá-la! Só ele, mesmo...)

Adoro seu texto, Sean. Adoro, como você, as palavras, os livros, as idéias, bibliotecas. Adoro música e também o silêncio (já te falei, uma vez, no meu blog...).

Bjo gde,
Clé

Também dele, mais 3 canções pra você ouvir:

Água e Vinho (Egberto Gismonti)

Fala da paixão (Egberto Gismonti)


Mais que a paixão
Egberto Gismonti & João Carlos de Pádua
(intérprete: Egberto Gismonti)

Não espere de mim
Nada mais que a paixão
Não espere nada demais
Do meu coração
Que bate, rebate e grita
Geme, chora e se agita
Sambando nas cordas bambas
De uma viola vadia, vadia

Não espere encontrar numa canção
Nada além de um sonho
Nada além de uma ilusão
Talvez quem sabe
A verdade
A infinita vontade
De arrancar
De dentro da noite
A barra clara do dia

Clélia Riquino disse...

Ops, acabei não linkando, no meu comentário, a última canção:

Mais que a paixão (Egberto Gismonti & João Carlos de Pádua)

Chawca disse...

E você ainda acha que não dá um livro?
Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de você saber agradecer e reconhecer a importância dela na sua vida..
Grande ato, quem dera todo m undo fosse assim...
E quem dera toda criança cruzasse com uma Maria Silvina...

Eternamente Berenice disse...

Sean, se sua vida não der um livro, a vida de quem dará??? Meu amigo você é especial só pelo seu blog vejo isso, certamente só pessoas especiais inspiram livros.
Quando lançar o seu avisa. Bjsss

Camu disse...

Linda homenagem Sean!
Viva Maria Silvina!
Bj

elsa disse...

A sua vida daria um livro... como todas as nossas... cada dia uma página...

Jonice disse...

Ah... que coisa boa de ler! E que abençoado encontro fortuito você teve nesta festa.
Reinações de Narizinho foi meu primeiro "livro grosso" também :)

TARCIO VIU ASSIM disse...

Reinações de Narizinho foi o primeiro grande e grosso livro que li, menino também!
-
A coisa que mais admiro num ser humano é a gratidão. Isso me comove, realmente. Parabéns pela grandeza, professor!

lulu disse...

que lindo!!

Ferdibrand disse...

Que posso dizer além de um enorme e sincero obrigado, em meu nome, da Luísa e, principalmente, de minha mãe?

Posso dizer que me transportei às cadeiras e mesas baixinhas dessa mesma biblioteca, onde também vivi momentos pequenos e decisivos para minha formação. Talvez não tenhamos estreitado laços naquela época porque, enquanto te enfronhavas nas Reinações de Narizinho, eu enfronhava o narizinho em algum atlas ou livro de geografia.

Posso dizer também que me orgulho de ser filho da Maria Silvina, pois o trabalho dela fez diferença não só na tua ou na minha vida, mas na de muitos que entraram naquela biblioteca à cata de algum livro - e apenas não tiveram ainda a oportunidade de dizê-lo.