22 maio 2007

A mancha


Virgínia Woolf escreveu um belo conto sobre a angústia de ser, totalmente estruturado sobre um ponto misterioso na parede. Ao indagar que raio é aquilo que surgiu do nada, acaba questionando a ação de viver. Trago esse exemplo pra dizer que não tenho o talento de Woolf, mas tenho uma mancha existencialista em minha vida.

Não recordo claramente do momento em que encontrei essa marca incrustada no basalto de uma rua erma, atrás da Faculdade de Comunicação da UFRGS. Nesses 21 anos em que fui e voltei por aquele caminho, a mancha continua lá, intacta e imutável. É como se jogasse na minha cara a mudança que só eu sofri: deixei de ser o pós-adolescente que se achava capaz de mudar o mundo, pra ser o homem que sabe que foi o mundo quem o mudou. Na verdade, seria mais um processo de retroalimentação, e talvez por isso eu ainda faça o ritual de olhar para o chão cada vez que passo por lá, da mesma forma que um fiel se benze ao passar por uma igreja.

Já pensei seriamente em transformar a mancha em uma marca definitiva no meu corpo, uma tatuagem que servisse para lembrar onde estive, onde estou e pra onde quero ir. Algo que me alertasse, assim como um farol ilumina a noite, da inconsistência do tempo e da fugacidade dos anos. O difícil é decidir se faço no ombro ou no tornozelo.

20 comentários:

Adriana disse...

Otimo texto, estas manchas que marcam nossas vidas...que alimentam nossas esperanças de um futuro brilhante...de uma vida melhor e um simbolo da nossa eterna busca por sermos melhores do que somos.
Tatue no ombro ficara mais bonito.
beijos carinhosos cheios de energia positiva do outro lado do oceano

Rosamaria disse...

lembrei do talismã OM, do Yôga, olha aqui:

http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-54682153-om-talism-_JM

faz no ombro, fica legal.

bjim.

firvidas disse...

Eu, que geralmente era contra tatuagem (mostra a minha idade), aceitei e vi bem o intenso significado quando a Daria fez uma no tornozelo sobre uma cicatriz que começava a desaparecer. Uma cicatriz que ela tinha recebido quando desmaiou ao ser dada a notícia que o seu melhor amigo no mundo tinha sido trágicamente assassinado enquanto trabalhava durante a noite, para completear o magestrado. Um assalto sem senso que nunca foi resolvido. Desde aí, aceito a tatuagem, pois tem um significado muito íntimo para quem a escolhe...

O texto como sempre, excelente

Thelma disse...

No lugar onde ela tenha mais significaçao para ti ou onde possas ver melhor. Eu, particularmente, penso que ela pode ficar linda no ombro.
Quero vê-la, depois!

Graziana disse...

nunca vi esta mancha, será que ando meio desligada pela rua?
faça a tatugem...
um dia pensei em fazer uma clave de sol atrás da orelha, mas ainda não tive coragem :D

maristela bairros disse...

Meu querido amigo com quem convivo menos do que queria: esta tatoo, com certeza, já tá beeem impressa, só não é visível pros outros. Lindo escrito, presse dia de garoa fininha que eu acho o máximo.
beijo da tua filósofa de arrabalde
maristela

Laurinha disse...

Hum, devias tatuar na mão! Talvez seja uma das partes do corpo que a gente mais olhe em si mesmo! ou não...

Eu quero fazer a minha tatto no pulso, mas não tenho coragem... ainda... ;)

Maroto disse...

bela mancha, parece um dragão. Vive eternamente, imutável... ficaria linda na tua lombar - capaz até quando tiveres dor nas costas a tatoo bater as asas e soltar fogo só pra te lembrar como era boa a mocidade.

marcia disse...

as opções estão um pouco restritas.

Maitê disse...

bah Xôn, se a mancha fosse mais bonitinha, acho que seria legal!

Abs

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

eu gostei da mancha no teu ombro ia ficar show...

>> [eRRuD!To] ... disse...

Só para avisar que ouvi comentários ontem de que a mulherada da Fabico tá fazendo uma campanha para que você faça a tatuagem deixando uma parte fora do elástico da "roupa de baixo".
E agora José?
:oP

Ferdibrand disse...

Intrigante essa mancha. Como não me lembro dela nos meus tempos de Fabico, à primeira vista pareceu arte abstrata, um desenho feito aleatoriamente no computador, ou mesmo uma tatuagem tribal.

Intrigante, sim, essa mancha: nós, que nos achamos tão importantes, somos mudados pelo mundo; uma insignificante mancha no basalto resiste ao tempo.

E, numa ótica um pouco diferente, lembrei minha própria mancha incrustada: há anos uma lâmina de vidro quebrado repousa numa esquina da Borges de Medeiros, perto do terminal do T-2, a cada dia um pouco mais quebrada. Como se os estilhaços marcassem o tempo.

Sean Hagen disse...

*


ADRIANA
como nossa mente cria mecanismos pra entender o mundo, né? até uma mancha vira o sinal de algo.
anotado: ombro.



ROSA
o ruim foi escolher em que posição botar aqui. cada vez que mudo de lado, ele tem uma forma. e é assim que eu vejo na rua, dependendo do lado em que me aproximo.



MELLY
eu nunca quis fazer também, achava que ia ficar com um borrão num corpo enrugado. agora que o corpo já tá enrugando, vou fazer um borrão pra ver escondo as rugas.


THELMA
vou entrar em contato contigo depois. tem um caligrafista do árabe que mora aí na espanha. ele faz coisas belíssimas com o nome da gente.
e uma tatto assim, com certeza, eu quero fazer.



GRAZI
fica na rua de trás da fabico, aquela do estacionamento que alaga com as chuvas. pouca gente usa aquele caminnho, já que tem que passar pela vila planetário.


MARISTELA
minha filóusoufa de baldes!
tem chutado muitos?
espero que sim.
confessa: tu te arrepia só de pensar em me ver com uma tatto.


LAURINHA
pois é.
mas em lugares muito visíveis tenho medo de enjoar.


URUBUA
o que seria da imaturidade sem o sarcarsmo?
vc abriu meus olhos.
depois dessa, já sei onde tatuar.
e tomara que o fogo sirva pralguma coisa, finalmente.
- pobre velhinho, tomando medidas extrema -


MARCIA
sugira, pois, sou todo ouvidos.
só não no ouvido.


MAITÊ
combina comigo.
eu sou meio esquisitinho.


LADY A.
nunca suspeitei que teria teu apoio pra isso. por sinal, vc conhece tatuadores bala aqui em porto alegre?


REGES
eu quero os nomes.
os nomes.
pode passar por mail.
mas passa agora.


RENATO
pior é que é isso.
eu passo, ela fica.

e o mais interessante que ela já era pós-moderna antes de eu saber o que era isso. não tínhamos computador pra fazer arte e as tribais tavam longe de ser moda.



*

Daniela disse...

É bom umas coisas assim, para cair a ficha de o quanto somos desimportantes. Os anos/décadas passam e a mancha está lá, independente da nossa existência. Se deixarmos de existir, ela vai continuar lá, paradinha, até alguém resolver reformar a calçada.

Jonice disse...

Que interessante é a mancha, assim como nas nuvens, a viajar num carro, pode-se imaginar muitas coisas em suas formas. Acho que no ombro é mais legal.
:)

ederson disse...

gostei da mancha. numa tatuagem ia ficar legal.
A mancha que tenho em minha vida é uma escura que surgiu no meu teto. E logo depois de ver o filme Água negra. Fiquei pensando que aquilo é a tentativa de um espírito se comunicar. Talvez seja.

Ana disse...

Manchas, marcas, cicatrizes...
Pelo menos a tatuagem é uma coisa voluntária: podes escolher a forma e o local. Tenho muitas marcas, talvez por isso nunca tenha pensado em me tatuar. Mas adoro uma maquiagem, um olho preto, cheio de rímel! Bom brincar com as formas e o nossa imagem, sem levar à sério demais!

Tatuagem disfarça as rugas, é??

Chawca disse...

Acabei de olhar para um mancha aqui na mesa, mas não tinha nada de filosófico nela....

E nessa mancha aí eu avistei um ânio de algum animal ou coisa assim....tô maluco??

Um abraço

fernanda disse...

no tornozelo fica lindo, eu tenho uma no meu direito. mas talvez essa daí fique melhor no ombro, ou talvez nas costelas, aaaaaaaa ficaria visceral!!!