29 junho 2007

Tempus magistrorum optimus est

-------------------------------------------foto Sean Hagen
Einstein ganhou notoriedade ao transformar em teoria aquilo que, de uma forma ou outra, todos sentimos: o tempo é relativo. Olhando pra trás, nessas décadas que me separam do passado, vejo claramente isso.

O que me fez sofrer, o que deu trabalho, o que me fragmentou, o que me desiludiu parece distante como as pirâmides do Egito. Têm o peso paquidérmico daquilo que nos torna mais maduros e parcimoniosos, apesar da dor que causa.

Mas o que me fez rir, que regozijou, que me fez sentir amado, que transcendeu meu corpo tem a duração do agora. Sinto como se tivesse acabado de chegar das festas de garagem do secundário, que começavam às nove da noite e terminavam às dez manhã; ainda tenho na boca o gosto do primeiro beijo; o êxtase sobre o primeiro corpo nu; a primeira sensação de liberdade; o primeiro elogio de um mestre.

Somos o que carregamos através dos anos, uma eterna luta entre o tempo externo - esse que nos rotula de jovens, maduros e velhos - e o tempo interno, que só nós temos capacidade de sentir - e quase nunca admitir - com medo de parecer ridículo.

Tenho agora a idade que deveria ter aos 20. Nasci velho, desses que pensam em todas as conseqüências de um ato. E, muitas vezes, deixei de ir fundo em uma emoção pelo receio do que ela poderia causar no outros. Hoje sei que não posso controlar a dor de ninguém, não posso evitar que meus atos tenham conseqüências. Mas precisei dos cabelos brancos, que surgem feito capim, pra entender que egoísmo pode ser uma forma necessária de amor próprio. Adolesci, justo agora que deveria maturar. Não há como recuar quando há uma outra vida pedindo passagem, com experiências que sei imprescindíveis pra eu viver.

Dois mil e sete marca a insubordinação do interno frente ao externo. Mesmo tendo decorrido não mais do que seis meses, percebo-os como se fossem uma eternidade. Senti a dor de perder alguém importante demais na minha vida; senti o quão grande pode ser o amor tecido por laços invisíveis; esqueci o nome de amigos basilares em alguma curva do caminho; reafirmei os laços cada vez mais estreitos com quem faz a diferença na minha vida. Tive experiências que ainda não sei classificar; vivi momentos de puro estranhamento comigo mesmo, ora inquietantes, ora reveladores. Descobri verdades que há 20 anos soariam como mentiras. E começo a aceitar que só devo coerência a mim mesmo.

Quarenta anos se passaram, mais 40 hão de vir. Sou alguém na meia idade descobrindo o que estava guardado em um velho baú. Uma a uma, vou experienciando “recordações” que nunca me permiti. Parto agora em busca de mim mesmo, consciente de que há o risco de olhar pra trás daqui dez anos e dizer: “que merda você fez se comportando como um guri quando deveria ser um homem?”.

Se tivesse como prever a resposta, saberia o que fazer agora para evitar o erro. Mas não sei. Então só posso cruzar os dedos e esperar que não tenha sido um tempo perdido. E aceitar que viver é fazer escolhas que vão além da razão.

26 junho 2007

Emagreça djá!

Essa é pra mim, que adoro imaginar que um dia vou freqüentar academia: beber água gelada emagrece. Sério, o assunto é sério. Pra por em circulação dois litros de água gelada em um dia, o corpo gasta 70 calorias, 490 por semana, 2.100 por mês, 25.550 por ano. Vamos convenientemente esquecer a conta diária e ficar com a anual. É caloria pra dedéu, o que ajuda a aliviar a culpa dos excessos e da preguiça.

Como sou meio louco mesmo, e troco qualquer bebida quente por líquidos muito gelados até no rigor do inverno – quem mais toma suco ou coca cola com gelo pela manhã em dias frios? –, essa notícia veio a calhar. Adoro quando a ciência me favorece e ainda diz que sou normal.

22 junho 2007

Perdigotos de realidade

Os irmãos mais velhos são mais inteligentes. É, é isso que uma interessantíssima pesquisa norueguesa aponta. Em média, os primogênitos são 2,3 pontos mais ixpérrtus do que os maninhos. Dois ponto três! Mas atenção: se o primeirão sumir do mapa, o segundo ‘herda’ a inteligência dele. U-au! Ou seja: como já se sabe há séculos, os primogênitos ainda são os filhos realmente desejados, aqueles que ganham atenção e cuidados que muitos pais não vão poder dar – ou ter saco – com os filhos seguintes. Eu, último irmão de quatro, já comprei um pente extra pra minha pistola. O almoço de domingo vai ser o coroamento da minha inteligência suprema.


A Paris Hilton tá negociando um milhãozinho de dólares pra dar entrevista pós-jaula. Adoro esse mundo pós-moderno, em que milionários ficam bilionários até por palitar os dentes – e com tanta grana, será que ela não podia melhorar aquela cara de traveca?


Já aqui no Brasil, a Marta Suplicy – a que mandou o povo relaxar e gozar enquanto espera dias pra pegar um avião – fez o movimento inverso: trocou a cara de mulher por uma de plástico. Tenho medo de olhar aquela senhora, minha gente, ele tem cara de monstro.

Será Marta um clone de dona Marisa, nossa primeira dama?



Ou as duas são atuações ruins da Courtney Love?
Foi tanto puxa/estica/corta que virou arte moderna. Dizem que especialistas autenticaram como verdadeira uma foto da ilustríssima ministra do Turismo pensando que era uma versão desconhecida de Guernica, de Picasso.


E não esqueçam que o inferno instalado na ponte área é culpa desses brasileiros mortos-de-fome, que mal enricaram e já querem andar de avião. O prestimoso ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem razão: a culpa é da prosperidade.


Tô triste. A Thammy e a namorada estão às turras. Armaram o maior barraco e acabaram na delegacia. O amor não é tão lindo quanto eu imaginava.

19 junho 2007

Séquiço é bom

É vergonhoso, mas preciso confessar: parte das visitas que chegam ao meu blog não vem pelos meus interessantíssimos textos ou meu belo e único olho verde do avatar. Vem atrás de séquiço. É, se-xo. Fuqui-fuqui. Aquilo na coisa. A coisa naquilo. E sexo moralisticamente chamado de pervertido. Querem transar com bombeiros ou velhinhas. Ou os dois ao mesmo tempo, vá saber.

Como isso aqui não é puteiro, eu explico. Num dos meus primeiros tópicos, falei sobre revistas de universidades norte-americanas que abordavam comportamento sexual pra ganhar audiência com os alunos, apimentando mais cada edição. E pra construir o texto, usei as expressões bombeiros pelados e velhinhas peladas.

Não é a toa que os sites de sexo sempre estão no topo da lista dos mais procurados na internet. Quanto mais se fala abertamente, mostra, desnuda e escancara, mais curiosidade se tem. E dúvidas, é claro, muitas, o que gera novas pesquisas. É a sensação de vazio causada pelo excesso do muito cheio.

Sexo é mais do que técnica, vai além da lógica e do racional. Mexe com a imagem que cada um tem de si e de qual gostaria de ter. Mexe com uma visão de mundo, com a auto-estima. Continua sendo algo tão acima das expectativas que toda transa tem que ser estupenda, cada ereção definitiva, cada orgasmo triplo mortal carpado.

Nesse mundo sexual de faz-de-conta, as fantasias crescem, as impossibilidades se acentuam e o escancarar de desejos produz novos desejos. E se a internet pode ajudar alguém – e o meu blog familiar e simplinho também – belezura.

Agora que achei uma desculpa pra usar as palavras sexo, orgasmo, ereção, pervertido e puteiro, espero que a visitação se multiplique exponencialmente. E praqueles linguarudos que me acusam de usar a Thammy e a namoradinha dela pra aumentar a audiência, afirmo que isso é uma calúnia. Nunca vi nenhum acesso que viesse através delas. Mas posso fazer uma montagem das duas com velhinhas e bombeiros pra ver no que dá.

15 junho 2007

Alma

Faz oito dias que chove incessantemente em Porto Alegre. Há muito tempo não acontecia algo assim. E não é chuvinha fraca, dessas que a gente sai desprotegido e pouco se molha. São magníficos temporais, com trovões, relâmpagos e raios de fazer inveja a filme de terror. Tenho que confessar que essas coisas tocam meu lado soturno.

Ainda lembro de uma tempestade singular, em uma noite longínqua. Deitado na rede, de frente pra imensidão do oceano, nuvens negras brotavam do horizonte com a mesma fúria das ondas, e luzes lilases, prateadas e azuis estouravam como bombas entre o claro escuro das nuvens. Nos ouvidos, o som dos trovões começou distante, sincopado, até crescer para uma barafunda de trombones, bumbos e trompetes amplificados ao infinito. E a lua cheia, no meio céu, esperava pacientemente ser engolfada por uma força maior.

Adoro dias que escurecem feito noites, mas às vezes há algo de mais singular. A tempestade que chegou abrupta no início de uma tarde ensolarada de verão foi além do tradicional: o vento forte levantou a areia fina feito poeira, chicoteando o corpo descoberto. Há quilômetros de casa, numa praia completamente deserta, caminhar contra a ventania era uma tarefa hercúlea, sendo empurrado com força pra trás e tentando evitar que a areia entrasse na boca e nos olhos. Mas ao mesmo tempo foi um prazer, não um martírio.

Andes bolivianos, 5.600 metros acima do mar. Do alto do Chacaltaya é possível ver La Paz e ter uma idéia da extensão monumental da cadeia rochosa quando o tempo está firme. O que poucos sabem, no entanto, é que o céu negro guarda um espetáculo mais interessante. Quando desaba a furiosa tempestade de neve, a paisagem ganha exclusivamente tons cinzas e branco, o ar fica gris. E o silêncio que se instaura é tão impressionante que beira a plenitude, tornado difícil imaginar o que há aquém ou além desse momento.

Esses espetáculos exarcebadamente emocionais da natureza me fascinam. Luz, cor, sons, a violência que irrompe a tranqüilidade e nos faz sobressaltar de emoção. Entendo perfeitamente as culturas antigas e seus deuses orgânicos; não há tela de cinema que recrie isso, não há teatro que reproduza essas emoções, não há ópera que encerre tanto sentimento. Nesse momento, trabalhando no computador, olho pela janela e fico absorto no cinza do céu, na chuva intensa, nos trovões e relâmpagos. Nas próximas horas está prevista a chegada de um ciclone com ventos de até 100 km por hora, o que deve deixar tudo mais interessante.

Frente a esses fenômenos naturais, algo de mim sempre surge inesperadamente: entro em contato com sensações que eu nem imaginava existir. Acho que dessa vez não será diferente, vai ser mais um daqueles momentos capazes de lembrar que a vida pode ser tão intensa quanto a natureza. Basta estar aberto para isso.

11 junho 2007

Incompetência

O mundo até pode ser feito de opções, escolhas e pré-determinações, mas competência passa por outra área. Querer fazer não significa saber fazer, por mais vontade que se tenha. E por mais paciência e ajuda que se receba.

O resultado pode ser vergonhoso.

06 junho 2007

A zarolha

O nobre bispo Edir Macedo, da nobre Universal do Reino de Deus, ganha batalhas não só na justiça divina, mas na dos homens também. A nobilíssima desembargadora Maria Olívia Alves, da 3ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, decidiu que todas as comunidades do Orkut, que supostamente falam mal da tal Igreja, devem ser retiradas do site. Ficam só as que dizem amém ao bispo. A decisão é final.

Em outra instância, multiplicam-se exponencialmente os endereços para baixar a biografia não autorizada do “rei” Roberto Carlos, aquele cantor que não sabe cantar e que não escreve uma letra decente há mais de 30 anos. Dias atrás, ele conseguiu através da Justiça recolher milhares de exemplares de sua biografia e embargar futuras edições. Não gostou do que leu, sentiu-se invadido, apesar de ter construído uma carreira pública se expondo na mídia. Não cabe recurso a essa decisão, mas Dom Quixote deve lutar contra os moinhos internéticos agora.

Na Espanha, as principais empresas fonográficas se reuniram pra pedir a cabeça de quem troca música através do Kazaa. Alcunhadas de “Promusicae”, querem o endereço IP de cada usuário para processá-los individualmente. A Justiça espanhola disse não, e a decisão final foi parar no tribunal de Bruxelas.

Pois é. Ainda fico revoltadinho quando vejo a incompetência ser premiada. Tanto a Universal, quanto Roberto Carlos ou a Promusicae querem ganhar na mão grande, negando liberdade ao outros. Expõem-se publicamente, mas não sabem lidar com os problemas que criam, usando a justiça pra levar a melhor. No Brasil, em que repetidas vezes essa instituição se mostra preocupada apenas com seus privilégios e os da classe que representa, o cidadão acaba sendo quase sempre o condenado. A Espanha mostrou bom senso em negar o pedido de quebra de sigilo, mas a mentalidade das empresas ainda é arcaica.

Sinceramente, não acredito na possibilidade de um futuro com relações mais justas entre governos e cidadãos, entre empresas e consumidores. Não acredito numa sociedade mais democrática, sem discriminação, racismo, exploração e injustiças. Acho que de tempos em tempos avançamos em alguns pontos, mas ao mesmo tempo recuamos em outros. Tudo é cíclico, e depois da bonança a tempestade volta a se instaurar.

Talvez isso soe cínico demais para alguns, amargo demais para outros. O que quero deixar claro é que a maldita vigilância eterna ainda é o preço da democracia possível. É só olhar pro lado, numa fração de segundos, que algum malandro nos passa a perna e caímos de quatro, tendo que recomeçar tudo de novo. Aqui no Brasil, essa onda de censura oficial – além da sempre atuante “oficialesca” – começa a se instaurar com força. Mas não vejo muita diferença na Europa ou EUA. É uma expressão do tempo em que vivemos.

04 junho 2007

Pés quentes

Quanto estilo se pode exigir
de uma pantufa de R$1,99?

Muito.