15 junho 2007

Alma

Faz oito dias que chove incessantemente em Porto Alegre. Há muito tempo não acontecia algo assim. E não é chuvinha fraca, dessas que a gente sai desprotegido e pouco se molha. São magníficos temporais, com trovões, relâmpagos e raios de fazer inveja a filme de terror. Tenho que confessar que essas coisas tocam meu lado soturno.

Ainda lembro de uma tempestade singular, em uma noite longínqua. Deitado na rede, de frente pra imensidão do oceano, nuvens negras brotavam do horizonte com a mesma fúria das ondas, e luzes lilases, prateadas e azuis estouravam como bombas entre o claro escuro das nuvens. Nos ouvidos, o som dos trovões começou distante, sincopado, até crescer para uma barafunda de trombones, bumbos e trompetes amplificados ao infinito. E a lua cheia, no meio céu, esperava pacientemente ser engolfada por uma força maior.

Adoro dias que escurecem feito noites, mas às vezes há algo de mais singular. A tempestade que chegou abrupta no início de uma tarde ensolarada de verão foi além do tradicional: o vento forte levantou a areia fina feito poeira, chicoteando o corpo descoberto. Há quilômetros de casa, numa praia completamente deserta, caminhar contra a ventania era uma tarefa hercúlea, sendo empurrado com força pra trás e tentando evitar que a areia entrasse na boca e nos olhos. Mas ao mesmo tempo foi um prazer, não um martírio.

Andes bolivianos, 5.600 metros acima do mar. Do alto do Chacaltaya é possível ver La Paz e ter uma idéia da extensão monumental da cadeia rochosa quando o tempo está firme. O que poucos sabem, no entanto, é que o céu negro guarda um espetáculo mais interessante. Quando desaba a furiosa tempestade de neve, a paisagem ganha exclusivamente tons cinzas e branco, o ar fica gris. E o silêncio que se instaura é tão impressionante que beira a plenitude, tornado difícil imaginar o que há aquém ou além desse momento.

Esses espetáculos exarcebadamente emocionais da natureza me fascinam. Luz, cor, sons, a violência que irrompe a tranqüilidade e nos faz sobressaltar de emoção. Entendo perfeitamente as culturas antigas e seus deuses orgânicos; não há tela de cinema que recrie isso, não há teatro que reproduza essas emoções, não há ópera que encerre tanto sentimento. Nesse momento, trabalhando no computador, olho pela janela e fico absorto no cinza do céu, na chuva intensa, nos trovões e relâmpagos. Nas próximas horas está prevista a chegada de um ciclone com ventos de até 100 km por hora, o que deve deixar tudo mais interessante.

Frente a esses fenômenos naturais, algo de mim sempre surge inesperadamente: entro em contato com sensações que eu nem imaginava existir. Acho que dessa vez não será diferente, vai ser mais um daqueles momentos capazes de lembrar que a vida pode ser tão intensa quanto a natureza. Basta estar aberto para isso.

16 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns.

Maite disse...

Ciclone? Que estranho. Sonhei com isso. Eu não aguento mais a chuva, mas tbém gosto de fenomenos da natureza.. Gosto de tornados. Ficava horas no You Tube olhando. Tenho até o Twister, em dvd. Mas é aquela coisa, algo para ver só em mídias, não ao vivo. Por acaso é um vulcão esse local onde estás na Bolívia? Adoro vulcões. Quando era criança, pré-adolescente, tinha um caderno onbde eu anotava e colava coisas sobre vulcões.
Talvez esteja em mais uma crise existencial. Na verdade, um momento de não saber mais lidar com a maldade das pessoas.. Abs

Desculpe a falta de acentos. Meu teclado da lan não os tem

maristela bairros disse...

Úi. Tô toda arrupiada, Sean. Cheguei a enxergar a tempestade, por Deus do céu! Sem contar minha frustração de nunca ter visto neve ao vivo na minha vida.
bj
maristela

Ana disse...

Tive a certeza da morte, a sensação da morte, andando bem devagar e sozinha, debaixo de uma tempestade, em Lavras, quando tinha 16 ou 17 anos...
(Lavras fica num lugar rico em minérios e é famosa pelos seus raios e trovoadas!)
Era tão bonito, tão forte e tão totalmente fora da minha capacidade de interferir ou mudar o curso dos acontecimentos que entendi, claramente, o quanto somos parte deste processo, parte da natureza, dos seus ciclos e dos seus caminhos...
Não tive medo nenhum. Só um encantamento esquisito...

Vini disse...

o q pode ser mais belo do que um dia de chuva, cinzento e frio?

firvidas disse...

Adoro dias de tempestade. O dia que a Daria nasceu, uma trovoada intensa que durou horas, iluminava o quarto com os relâmpagos e eu me dizia a mim própria para aliviar a dor que eram os deuses a anunciar a alegria que ia na minha alma de finalmente vir a conhecer em breve esta nova vida que viria ao mundo através de mim....

Zeca La-Rocca disse...

Dividimos este gosto por tempestades, raios e trovões...
Logo q vim morar em CCO, meu ap ainda não tinha cortinas e num temporal noturno as luzes da cidade se apagaram. Por uns 15 min fiquei na janela admirando os "flashes" que iluminavam a cidade. Eles vinham de todas as direções. E a cada "disparo" podia vislumbrar um perfil diferente do horizonte urbano. Inesquecível!

abço

Lu disse...

Detesto temporais. Tenho medo, se é durante a noite, não consigo dormir e olha que sou dorminhoca. Sei lá, acho que são coisas de outras vidas. Estes dias andei sonhando com uma nuvem hiper negra que anunciava os fins dos tempos, talvez seja também pelas tempestades da vida que andei passando nestes últimos dias. Mas estes sonhos sempre me perseguem. Não gosto, pra mim não tem nada de poético, é catastrófico. Sempre.

Graziana disse...

Confesso que não gosto muito de chuva, só se for chuva num domingo, sem nada pra fazer, só dormir ou ficar fazendo nada olhando pra chuva ;)
quando se estende, como se estendeu nesta semana...ai que tédio!
Mas depois de tanta chuva e trovoada, veio este belo sábado de presente pra mim...foi um dia lindo, friozinho, solzinho.
Dia pra admirar, festejar, dia também pra lembrar que a vida pode ser tão intensa e bela quanto a natureza, é só querer, como você disse, só estar aberto para isso :)

PS: os quitutes ficam pra uma proxima, marcamos uma janta, prometo que vou me esmerar ;)
Fizeste belas escolhas, estou aqui escutando os cds, ótimos! ;)
beijos

Rosamaria disse...

como a Grazi, gosto de chuva qdo posso ficar quietinha dentro de casa, a não ser chuva de verão pra tomar aquele banho!

mas que tu deverias escrever um livro não tenho dúvidas. adoro ler o que escreves.

bjim.

deysi cioccari disse...

Ai,Sean..vocês aí com chuva, tempo úmido e eu morrendo aqui em Brasília com esse clima seco!! Adoro essa cidade,mas que saudade desse clima daí!!!!Beijos!

Arnaldo disse...

Não gosto de chuva. Não gosto de frio. Não gosto de ficar enfurnado em casa e nem com muita roupa. Meu tesão e estar de bermudas e chinelo, bem velhos e vagabundos, bebendo num boteco bem sujo e vagabundo. Isso não combina com tempestade!

Ferdibrand disse...

Gosto do sol e me considero - se é que se pode dizer - climatologicamente eclético. Mas nada como uma boa virada de tempo de vez em quando.

Os mil tons de cinza estão para o céu azul assim como aqueles contrastes maravilhosos dos antigos clássicos P&B estão para o multicolorido padronizado de Hollywood.

Nada que se compare aos Andes bolivianos, mas lembro as viradas de tempo lá do janelão da biblioteca, quarto andar da Fabico. A Escola Técnica do Comércio estragou tudo.

Por sinal, a respeito de vento e viradas do clima: http://ferdibrandblog.blogspot.com/2007/03/ventos-de-maro.html

Abraços!

marcia disse...

tem sol hoje.

Claudia Lyra disse...

Ah não... chuva durante oito dias, sem parar, é dose! Me sinto mofada.

ederson disse...

quinta-feira fui inocentemente na Osvaldo Aranha sem guarda-chuva porque tinha parado de chover, e quando estou voltando cai uma tempestade gigantesca. Eu tinha duas opções: me escoder feito um boneco de açúcar numa marquise ou ir pra casa, há várias quadras de distância, no meio daqueles pingos incessantes. sem dúvida, escolhi me molhar até os ossos. Gosto de chuva. Mas não quando chove durante vários dias, minha casa fica um nojo.