25 outubro 2007

Desprezo

Presenciei duas cenas inusitadas num mesmo dia. Em comum, algo desconcertante: violência.

Pela manhã, da sacada do meu apartamento, vi um guri de uns 20 anos enfiar a mão na cara da namorada. Voou cabelo pra todo lado, ela choramingou, ele gritou, e sentou a mão outra vez. O choro enjoadinho se fez mais alto, e só foi interrompido pela minha pequena e baixa voz vociferando pro valentão dar uns tapas em alguém do tamanho dele. O cara surtou, ameaçou me jogar uma pedra, e tive que delicadamente mandá-lo tomar no cu, já pronto pra descer. Mas não precisei. Ele saiu a passos largos, xingando, e sumiu da vista. Ela? Correu atrás, clamando por ele e tentando segurá-lo pela camiseta.

No final da tarde, estou esperando pra atravessar o cruzamento de duas movimentadas avenidas, quando começo a ouvir gritos. Um mendigo, nitidamente bêbado, segurando uma garrafinha de água – água? –, batia boca com um homem de uns 70 anos sentado numa cadeira de ferro, dessas de abrir, em frente a uma banca de revistas. O velho gritava a plenos pulmões “sai daqui, vou chamar a polícia”, mas o mendigo insistia e chegava próximo. Até que o velho se levantou, fechou a cadeira e investiu contra o outro, que o máximo que conseguiu fazer foi jogar o conteúdo da garrafa no agressor. O velho deu umas boas cadeiradas no indigente – ainda lembro do barulho: bóing, bóing –, gritando alto, cheio de bravata, até que o mendigo foi chorar as mágoas pra um incauto que esperava o ônibus na esquina oposta.

Todo mundo viu a cena, as janelas ficaram apinhadas de gente. O velho, todo pimposo, estava em êxtase, gritando e se vangloriando, dizendo que tinha defendido o espaço, apesar do dono da banca, um homem de uns 40 e poucos anos, tentar dizer que não era bem assim, que o bêbado era “cliente” antigo e que não precisava ser salvo.

Por mais de uma vez, quase me meti nessa briga também, achando que o “velhinho indefeso” estava sendo importunado; mas lembrei da outra, e de como a garota correu atrás do agressor, e me segurei. O que fiz bem. O difícil, pra mim, é compreender o que faz um cara de 20 bater na namorada pra se mostrar macho, e um cara de 70 bater num bêbado pra se mostrar macho. Obviamente que não tenho uma resposta, mas esse é um tipo de gente que expressa uma cultura da qual tenho profundo desprezo. E da qual quero profunda distância.

31 comentários:

Carlos Eduardo Carrion disse...

Querido são resquícios da planície, ou das savanas, quando ainda de quatro tinhamos de mostrar que éramos melhor patrimônio genético que os outros.
Tem uns que ainda são quadrúpedes, embora, como ficam sobre dois pés e saibam como escrever para o BBB (ver o site da Márcia), pensam que evoluiram.

Carlos Eduardo Carrion disse...

Corrigindo o anterior que escrevi as pressas e não me expressei bem.
Querido são resquícios da planície, ou das savanas, quando ainda de quatro tinhamos de mostrar que éramos portadores de um patrimônio genético melhor que o dos demais concorrentes
Tem uns que ainda são quadrúpedes, embora, como ficam sobre dois pés e saibam como escrever para o BBB (ver o site da Márcia), imaginam que evoluíram.

venuss disse...

pergunta pra eles se o pinto deles cresceu depois disso.

Carlos Eduardo Carrion disse...

(Como dá para perceber alguém não veio e eu estou brincando no computador.)
Quanto aos que apanham:
O bêbado não tem o que se discutir. Estando alcoolizado, ele não é dono nem do dele; portanto, o que ele faz, ou o que fazem com ele está fora da sua compreensão.
Ela, ou é uma masoquista, e tomar uns tabefes ajuda-a a consolidar a sua posição de rainha do aimeudeusoqueeufizparamereceristo, ou tinha aprontado feio, se arrependeu, e no fundo acha que os dois tabefes a ajudam a diminuir o saldo devedor.

Karina disse...

Nos dois casos, a violência veio do mais forte para o mais fraco ou debilitado. Se pensarmos bem isso acontece em quase todos os cenários da vida, não?!
Boa semana!
Bjos

Maroto disse...

a minha teoria é a mesma da venuss: esse tipo de violência é sintoma de pinto pequeno. Com a ressalva (politicamente correta) de que pintos são como prancha de surf - qualquer um pega onda com pranchão, mas fazer valer com prancha pequena é uma arte ao alcance apenas dos mais talentosos

Anônimo disse...

Pois é, né? A cultura do "eu sou tosco, grotesco, errado, feio, cafona(portanto posso ser estúpido)", porque aí fica tudo bem...

Graziana disse...

putz, é demais...
demais a guria ir atrás do cara que bateu nela!
e os mendingos são sempre vistos como lixo...
também quero ficar longe disso...com profunda distancia

Chawca disse...

Depois daquele juiz que disse que lei Maria da Penha é inconstitucional eu me dei conta que o pensamento machista ainda é bem presente na nossa sociedade...
Não que eu achasse que não existia, mas pelo menos não era tão escancarado como anda sendo...
Infelizmente tem cara que só se garante assim, e pra mim isso é reflexo de insegurança ou complexo de pinto pequeno...
Fiz um post em homenagem a um comentário seu mais uma vez..
Vc sempre me dá boas idéias...
Um abraço

Penkala disse...

o velho, sim, como diz a venuss, deve ter tido um quê de sexual ali. bem feito que talvez uma das últimas oportunidades de fazer isso. e tomara que a última. manifestações de masculinidade desse tipo já chega guerra. agora... a cena dos namorados... me assusta quando um casal jovem (presumi que eram jovens) lida com esse nível de violência assim. se o cara esbofeteou uma vez, na rua, isso já é sinal de que ele deve fazer isso dentro de casa. ou ser violento de outro jeito. agora... se esbofeteou PELA SEGUNDA VEZ, isso já não foi um "ato de cólera" e impensado. o que me choca é a guria correr atrás. deve rolar isso todos os dias com ela. ou pior.

Maria Helena disse...

Sean,
Há pessoas que tem necessidade de se mostrar superior, no íntimo sabe da sua condição inferior.
Bjs

Rosamaria disse...

que cou-sa, Sean! essa guria não se dá valor, ela não tem mesmo, ou gosta de apanhar.

o velho quis mostrar o machão que ele pensa ser. tb quero ficar longe dessa gente.

a maroto é uma parada...

Carmencita Mahadevi disse...

E sobretudo, Rosinha, ela se tem mostrado cada vez mais romântica.

Luci Lacey disse...

Oi Sean

Acho que ela ficou com medo de mais tarde ele bater mais ainda.

Relacoes neuroticas e fogo.

Mas faz sentido, sindrome do pau pequeno he he.

Beijinhos

Maroto disse...

obrigada, Rosa, mas quem tem razão é a Carmencita - eu sou uma romântica incurável!

estou rolando de rir com o tanto de gente que quando vê essas cenas de violência pensa que o cara tem pinto pequeno. Se os protagonistas imaginassem isso passariam a se comportar como gente

Lu Dutra disse...

O pior é que tem gente que gosta mesmo. As vezes tu tenta ajudar e ainda sai por ruim. Já passei por isso, tentando ajudar e acabei me dando mal. Mas é que não gosto de injustiça, aí é brabo ficar quieto. Agora fico mais de longe, observando, querendo meter a colher, mas me contenho. Vá entender gente assim.

Dani Reule disse...

Triste é saber a quantidade de "machos" que estão por aí fazendo grandes demonstrações de sua masculinidade e poucas de sua humanidade. No primeiro caso, mais triste ainda é ver a reação feminina. E é isso que acontece aos montes: mulher que gosta de apanhar. Gosta, sim! Porque quem aceita uma coisa dessas e ainda vai atrás, gosta! A velha desculpa de que o "amor" supera tudo, não cabe em situações como essa. Porque aí, com certeza absoluta, há um sentimento confuso qualquer, mas não há amor. Quanto ao idoso, não sei bem o que dizer. A gente procura ter respeito aos mais velhos. Mas sempre lembro que os mais velhos já foram mais novos... e que certas atitudes vêm de muito tempo, assim como o caráter. Sei lá...Como sempre digo: canalhas também envelhecem.

Claudia Lyra disse...

Gente... constrangedoras as duas cenas... Que mundo! Que mundo!

Ana disse...

Mundo imundo!!

Xôn!
Gostei de vc ter inteferido, xingado... Tenho vontade de fazer isso, em situações assim, mas sempre acabo ficando quieta... Morro de vergonha de quem arma estes barracos!!
São doentes e exibionistas: os machistas, a mulher que "gostia" de apanhar, o bêbado...

Sean Hagen disse...

*




CARRION
não acredito que a cultura consiga domar totalmente esses impulsos. em menor ou maior grau, eles aparecem. eu não nego que sou esquentando - tanto que já tava descendo pra dar umas biabas no idiota que bateu na namorada -, mas faço isso com oponentes do meu "tamanho".

quanto às vítimas que de vítimas não têm nada, mais do que concordo. só não entrei nessa seara porque o post teria que ser enorme pra dar conta de todo o processo.



VENUSS
talvez o do guri só cresã quando ELE apanha.
e o do velho nem com um quilo de viagra acho que levantava vôo.


KARINA
o tempo todo.
esses malandros só entram em brigas que sabem que podem ganhar.



URUBUA
vc é filósofa?
é.



ANÔNIMO
bem pra quem?



GRAZI
o dono da banca disse depois que o mendigo queria as bitucas de cigarro que estavam bem embaixo da cadeira do velho.
algo tão prosaico.



CHAWCA
decididamente, o que mais tem é idiota no mundo.
não interessa quanto ganhe ou o acesso que teve.



PENKALA
e como o disse o Carrion, ela deve gozar feito louca com cada murro que leva. afinal, ele faz isso 'por amor'.
e o amor não é lindo?



MARIA HELENA
sinceramente?
eu não acho que essas pessoas no fundo tenham noção de quão idiotas são.
acho que se sentem superiores e melhores, autorizadas a fazer isso porque têm uma certa anuência 'diviana"
nascem e morrem da mesma forma, sem nunca perceber.



ROSA
a Maroto é uma parada dura.
duríssima.
ainda bem.



CARMENCITA
então.



LUCY
uma garota de menos de 20 que aceita isso é estranho.
se fosse uma mulher mais madura, de outra geração, até poderia ser.
mas essa menina tem algo de tão torto quanto o rapaz.
talvez os dois se complementem com força total.




URUBUA
tu é a mais romântica de todas, não tenho a menor dúvida.
toda essa filosofia é pra esconder a Coleção das Moças que vc tem guardada debaixo da cama.




LU
eu sou metido.
sempre acho que se não interromper, vou me culpar por ter presenciado uma tragédia.
e tragédia é ter que ouvir desaforo dos outros e ainda ser acusado de inxerido.




DANI
nelson rodrigues foi um dos maiores sábios dessa nação.
entendia de realcionamentos como ninguém.

quanto aos véios, pois é.
quis salvar o cabeça branca e ele era o meliante.
danei-me.



CLÁUDIA
só não corei porque sou cara de pau.




ANA
tenho duas máximas que sigo. vergonha é como cabelo: a gente perde e nem sente - dane-se quem não gostar.
coragem é irmã da ferrugem: se não limpar, trava tudo.





*

Arnaldo disse...

Pois é, Sean. O que você presenciou, mais do que casos de violência, foram casos de covardia mesmo. Bater em mulher e bater em bêbado é fácil. É que nem bater em criança. É a mesma coisa. É por isso que eu nunca bati em filho, não importa o que eles tenham feito. Pra bater num filho, acho que o cara tem que esperar o menino crescer e ficar, pelo menos com a mesma força que ele. Aí sim, cada um que se vire com suas garras, já que não tem cabeça pra pensar.

Luís Galego disse...

temos ainda que evoluir muito como seres humanos, sejamos, portugueses, brasileiros ou da Nova Guiné...

marcia disse...

a fábula "o velho e o mendigo" mostra uma sociedade dura, elitista, cheia de medos e de idéias preconcebidas.

mas a garota que apanha do namorado é outro papo. dor e prazer se misturam, e, por mais que o resto do mundo não entenda, eles entendem.

Paulo Vilmar disse...

Sean!
A par de todas as explicações psicológicas, não entendo alguém gostar de apanhar. Há muito tempo, estudava em São Leopoldo e tinha entre minhas amigas uma que era assumida, morava com sua namorada, isso, em 82/83 não era muito comum. Uma madrugada, vinha pela Rua Grande, quando notei uma mulher apanhando, mas apanhando feio, de outra mulher. Cheguei perto e era a minha amiga levando cada tapa na cara(de doer na gente), da namorada. Não resisti, parei o carro e fui "salvar" a amiga. Quase apanhei, disse para eu não me intrometer e seguiu se ajoelhando na frente da outra e levando paulada. Naquela noite revi muitos dos meus conceitos de fragilidade, paz, harmonia, até mesmo de bons modos e educação. Outra vez, em 91, no centro de Santa Cruz, avistei uma mulher apanhando de um homem, na calçada, já ensanguentada. Desci do carro eu e um amigo, dando porrada no covarde, quando, para minha surpresa, senti ela me agarrar e gritar em alto e bom som que era prá deixar, ele estava batendo no que era dele.
abraços.

Sirlei disse...

O caso do velho me lembra o assassinato do índio que dormia no ponto de ônibus em Brasília há alguns anos atrás. O velho deve ter achado compreensível quando um dos assassinos se defendeu dizendo que só ateou fogo, pois achava que era um mendigo. As pessoas dizem absurdos, que vc acaba ficando em dúvida se escutou ou entendeu direito.
Quanto ao casal, para quem está de fora é incompreensível, se é que agressão pode ser compreensível. E para quem está dentro é necessário distanciamento para entender.

maristela disse...

Sean. Não sei o que é pior: a garota correndo atrás do agressor ou o velho descontrolado. Ou a indiferença do povo. bj

Cátia disse...

.. infelizmente a menina vai casar com o cara,
o velho vai continuar batendo nos mendigos...
..e nós vamos continuar querendo distância de tudo isso...

sueli halfen ( POA) disse...

Reza prá não te acontecer uma coisa parecida ! fora ou dentro de casa,quando se fica velhinho é a mesma coisa!!!!!!

Rosane Vargas disse...

Não tenho resposta, mas uma coisa, pra mim, é certa: ninguém gosta de apanhar. Os motivos que levam à aceitação podem ser os mais diversos, mas ninguém comemora depois de uma surra.

Eva disse...

Se alguém tá batendo, tem gente deixando bater, o que é um droga. Eu mesma já presenciei agressões e não fiz nada com medo de apanhar também. O que mais me dá medo nisso tudo é que a gente vai acostumando. Acho que foi o brecht que escreveu sobre isso, sobre o não fazer nada quando os nazistas prenderam um cara da cidade dele. Aí depois prenderam o visinho, e ele não fez nada. Prenderam o irmão e ele não fez nada. Atémque prenderam ele também. É do Brecht isso???

Tita Aragón disse...

Bueno, tô chegando aqui de vez primeira, mas quero deixar meu humilde comentariozinho sobre os dois episódios narrados no post.
As pessoas perderam o senso.
Namoradinhos toscos e metidos a macho enfiam a mão na cara das namoradinhas burras porque elas deixam. E eles (os tosquinhos de pau pequeno e ejaculação precoce) sabem que podem enfiar a mão na cara delas porque as namoradinhas (burrinhas e desesperadas quando em situação de solteirice) apanham em público e depois saem implorando pra ele voltar.
Perderam o senso.
Já o velhote e o bêbado... fico muito irritada de pensar que um dia (não muito distante) vou ficar velha. Só espero que essa empáfia típica dos 'idosos' (tem palavra mais asquerosa?) que se valem da sua condição de depositários de décadas, rugas e canas para se impor não seja contagiosa.
É como se todos os direitos do mundo pertencessem a eles e os deveres dos demais fossem para com eles.

Esses dias eu vinha na chuva, pacatamente pedalando pela calçada da Protásio, num domingo, quando um velho praticamente separou duas das minhas costelas com suas chaves, me olhando, como se eu tivesse acabado de assassinar a família dele, e ordenando: "lugar de bicicleta não é na calçada! Vai pedalar na rua"!
E eu, com minhas costelas doendo pela chaveada, parei, olhei para a cara do meu agressor e respondi: "e o senhor deveria andar preso a uma coleira, com um aviso pendurado na testa dizendo: cuidado: velhinho feroz, ARMADO e perigoso".

Perderam o senso!

Beijos!