30 dezembro 2007

Certezas

-----------------------------------------------------------------------------------------------foto sean hagen

Somos urdidos mais por regularidades do que por irrompimentos. Acordamos todo dia na mesma hora, voltamos pra casa pelo mesmo caminho, começamos a escovar os dentes pelo mesmo lado, repetimos as mesmas marcações. Até que um dia simplesmente mudamos. Ou porque desconectamos da mesmice, ou porque descobrimos uma nova maneira de agir. E quando essa ruptura ganha corpo, duas questões se colocam: quem é esse eu desconhecido que ousa quebrar a rotina do já-sabido? Quem é esse ex-conhecido que causa estranhamento por reagir de forma diversa ao esperado?

Certezas imutáveis podem ser tão enganadoras quanto mentiras. A repetição mecânica esvazia a verdade que as torna vivas. São como fotos que amarelecem com o tempo contando sempre a mesma história. Há certezas que precisam ser destruídas para formar verdades mais coerentes. Mesmo que seja um processo frankensteinsiano, em que partes do todo são costuradas com fragmentos de vida e átimos de tempo.

Dois mil e sete finda mais uma passagem temporal nas verdades que carregamos vida a fora. Propiciou a chance de perpetuar certezas, mas também de destruir outras tantas, num movimento nem sempre coerente: saber o que realmente deve ser confirmado e o que deve ser descartado.

Não foi nada fácil pra mim, com certeza. Foi um período de perdas, de erros, de dores e decepções. E ao mesmo tempo, de reconfirmações, descobertas e encontros. Um ano que causou um rebuliço nas verdades que eu tinha como certas, mas que apontou novas perspectivas.

Espero que 2008 seja um ano marcante pra todos nós. Não apenas pelas coisas grandes que possa proporcionar, mas pela oportunidade de nos fazer melhores. E que pelo menos esta certeza seja irrefutável em 2009.

22 dezembro 2007

25/12

Luzes e velas.
Brilhos.
Doces.
Presentes, constrangimentos, carências.
Beijos.
Mesa farta, dor de estômago.
Desejos.
Saudades.
Dor por quem não está presente.
Vontade de estar junto.
Alegria por estar junto, pertencimento.
Saber o que se quer e o quanto se gosta.
Desculpa pra se permitir sentir, pensar, pesar, rever.
Catarse
Epifania.
Prazer em estar vivo.

18 dezembro 2007

Esperança

Dezessete de dezembro, sete da noite, centro de Porto Alegre. A China é aqui. Alguns bilhões de pessoas deixam marcas no meu corpo. Sacolada. Cotovelada. Ombrada. Cara feia. Há também os objetos não identificados. Percebo que cometi um erro ao decidir comprar uma caneta sete dias antes do Natal. Erro. Resolvo sair à francesa. Abro espaço como dá para chegar até a fila do ônibus. Longa. Irregular. Parece uma jibóia lagarteando após engolir o boi. Imagino o quanto vou apanhar ficando em pé no corredor. Chega o ônibus. A fila se move. Lentidão. Vida de gado. Outro ônibus se aproxima. Sorte. Corro e faço uma nova fila. Espero. Espero. Espero. Os olhos saltam das órbitas. O ônibus abre as portas distante de mim. A denominação sociológica de pessoas assalta o coletivo. Fila? Coisa pra trouxa. Não quero ser um. Corro. Grito pro fiscal: “não se respeita mais a fila, não?”. Desprezo. Nada além é o que recebo. Mais desprezo. Duas mulheres que trancam a entrada me fitam: “quem ele pensa que é?”. Penso que sou alguém raivoso. Aproveito a saída de um companheiro septuagenário e passo à frente. Tomo o que é meu. Meu lugar. Minha primogenitura. Nem ouço o que dizem. Sou imune a xingamentos. Sento no banco mais alto. Único que deixa a cabeça ao nível da janela aberta. Ar. Preciso dele como um peixe de água. As duas mulheres sentam atrás de mim. Têm vozes agudas. Irritantes. Estão excitadas. Minto, são surtadas. Falam sem parar. Mil ligações de celular por minuto. O toque é medonho. Apenas um tom menos estridente do que a voz da dona. Outra voz se levanta. Minto, dá cambalhotas. Outro alguém em outro celular. Voz grave. Fala por mais de meia hora. Não cala. Adeus miolos. Dele. Fritos. Assim espero.Tragédia. Cresce um som de lata. Vem se juntar às surtadas, ao celular estridente, ao cara que fala sem parar. Vejo um véio. Um véio com um radinho de pilha dos anos 70. Daqueles que parece um tijolo. Deve ser socialista. Obriga todos a ouvir o que ele ouve. Minto. É surdo. Minto outra vez. O rádio é dos anos 50. Não funciona direito. Chia feito um carioca com a língua presa. O véio não é carioca, mas nasceu nos anos 20. Traz um palito no canto da boca. A cada nova rádio, o palito pula de lugar. Ballet. Desespero. A aflição toma conta do meu corpo. Penso em mortes. Assassinatos. Esquartejamentos. Quase me excito. Sinto que o sol de 28° gera pensamentos obsessivos. Miolos torrados - e não são do cara do celular. Um puta engarrafamento faz o ônibus andar por 30 segundos. A cada dez minutos. Vontade de tirar a roupa. Sauna. Lembro que pareço uma lagartixa. Não posso. Nunca uma caneta – não comprada – saiu tão cara.

Feliz Natal pra vocês.

14 dezembro 2007

Metáfora

----------------------------------------------------------foto Sean Hagen
O mar tem sido uma presença constante em meus sonhos nos últimos dias. Sempre me vejo em longas caminhadas por praias desertas, sol forte, calor intenso e aconchegante. Ando, algumas vezes, com a certeza de que estou acompanhado, e travo um diálogo com uma pessoa que não vejo. Alguém que pensa como eu, que dá a ilusão de me conhecer bem, que me é natural - e que não sei quem é, mas a proximidade intensifica a sensação de estar apenas esperando o momento certo de sair das sombras e tomar um lugar ao sol. Hoje sonhei que caminhava por várias praias - algumas desertas -, todas belíssimas. Quando decidi entrar no mar, parei num ponto intensamente revolto, com ondas furiosas, compactas, prontas a engolir quem estivesse disposto a enfrentar sua força. Não pensei nisso, apesar de ver isso. Apenas fiquei lá, sendo jogado de um lado pro outro, empurrado pelo movimento da água em direção à praia para, no momento seguinte, ser fisgado violentamente pelo empuxo. Tudo absolutamente natural, sem medo ou insegurança: era eu, no meio do turbilhão, olhando a praia e mantendo a cabeça fora d’água. E ouvindo um silêncio tepidamente ensurdecedor.

11 dezembro 2007

Drácula

Sou uma criatura noturna. Quase sempre prefiro a noite ao dia. Gosto do aparente silêncio das madrugadas, de dormir tarde, de viver um tempo que parece só meu. As pessoas estranham quando digo que ando dentro de casa em completo breu. Como um morcego, meu “sonar” diz onde estão as coisas, e transito sem transtornos por lugares que conheço bem – salvo quando algo fora de rota causa uma surpresinha.

Como ontem. Ao apagar a luz da cozinha depois de jantar, encontrei algo inesperado na sala: um passarinho voando em círculos, totalmente desnorteado. Convivo bem com esses bichinhos, que volta e meia entram e fazem a festa, seja pra deixar um “presentinho” na roupa limpinha do varal, seja pra pegar comida ou roubar material pra fazer o ninho.

O interessante é que, excetuando os passarinhos mais novos, com baixo senso de direção, os velhos sempre acham a saída. Resolvi dar uma mãozinha e pegar a unha o emplumado, mas notei que ele tinha asas diferentes, grandes demais, meio translúcidas quando interpostas à luminosidade vinda da rua. Isso sem falar na cabeça desproporcional.

Então acendi a luz pra ver o que era. E nesse momento, fui brutalmente agredido: um morcego, do tamanho do drácula, veio com tudo na minha direção. Desviei o corpo e ele passou pelo lado, fazendo uma curva e voltando a mil pra cima de mim outra vez. Ficamos nesse balé por um bom tempo, até que ele deu um rasante e foi direto pro meu quarto.

Já lidei com alguns morcegos - nunca dentro de casa -, e todos eram pequenos como camundongos; alguns até engraçadinhos. Mas esse vampiro do cão era enorme, nunca tinha visto um tão grande. Realmente não dava pra dividir a cama com ele, e perdi uma hora vasculhando tudo, atrás de cada buraco, pra ver em que toca havia se metido. Como a janela tava aberta, acho que ele tomou o rumo da noite.

Mais tarde, olhando TV, fiquei imaginando de onde veio esse bicho. E como numa conexão telepática, ele reapareceu pra rir da minha cara - ou pra tomar o meu sanguinho, vá saber. Almofadada pra cá, controle remoto voando pra lá, ele saiu corredor a fora. E eu perdi mais duas horas vasculhando a casa pra tentar descobrir onde diabos a coisa se escondeu. Claro que não achei, tanto pode ter ido embora quanto ainda estar escondido atrás de alguma coisa.

Agora, um aviso: se eu deixar de ver meu reflexo no espelho, não me convidem pra comer massa alho&óleo. Posso ficar meio descontrolado.

08 dezembro 2007

O massacre da serra elétrica

Ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinhóiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinhóiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim.
Sete e meia da manhã de sábado e a carnificina já tá alta.
Se deus existe, o cara que manipula essa bosta é brocha.
E toma uns cascudos do bombado amante da mulher bozauda e adúltera.
Sem falar que lava as cuecas freadas do rival – a mão.
Corno.

01 dezembro 2007

Penduricalhos

Homem sai só com a carteira no bolso.
Mulher não sai sem levar a casa dentro da bolsa.
Será que é a maldição da inveja do pirulito freudiana?