18 dezembro 2007

Esperança

Dezessete de dezembro, sete da noite, centro de Porto Alegre. A China é aqui. Alguns bilhões de pessoas deixam marcas no meu corpo. Sacolada. Cotovelada. Ombrada. Cara feia. Há também os objetos não identificados. Percebo que cometi um erro ao decidir comprar uma caneta sete dias antes do Natal. Erro. Resolvo sair à francesa. Abro espaço como dá para chegar até a fila do ônibus. Longa. Irregular. Parece uma jibóia lagarteando após engolir o boi. Imagino o quanto vou apanhar ficando em pé no corredor. Chega o ônibus. A fila se move. Lentidão. Vida de gado. Outro ônibus se aproxima. Sorte. Corro e faço uma nova fila. Espero. Espero. Espero. Os olhos saltam das órbitas. O ônibus abre as portas distante de mim. A denominação sociológica de pessoas assalta o coletivo. Fila? Coisa pra trouxa. Não quero ser um. Corro. Grito pro fiscal: “não se respeita mais a fila, não?”. Desprezo. Nada além é o que recebo. Mais desprezo. Duas mulheres que trancam a entrada me fitam: “quem ele pensa que é?”. Penso que sou alguém raivoso. Aproveito a saída de um companheiro septuagenário e passo à frente. Tomo o que é meu. Meu lugar. Minha primogenitura. Nem ouço o que dizem. Sou imune a xingamentos. Sento no banco mais alto. Único que deixa a cabeça ao nível da janela aberta. Ar. Preciso dele como um peixe de água. As duas mulheres sentam atrás de mim. Têm vozes agudas. Irritantes. Estão excitadas. Minto, são surtadas. Falam sem parar. Mil ligações de celular por minuto. O toque é medonho. Apenas um tom menos estridente do que a voz da dona. Outra voz se levanta. Minto, dá cambalhotas. Outro alguém em outro celular. Voz grave. Fala por mais de meia hora. Não cala. Adeus miolos. Dele. Fritos. Assim espero.Tragédia. Cresce um som de lata. Vem se juntar às surtadas, ao celular estridente, ao cara que fala sem parar. Vejo um véio. Um véio com um radinho de pilha dos anos 70. Daqueles que parece um tijolo. Deve ser socialista. Obriga todos a ouvir o que ele ouve. Minto. É surdo. Minto outra vez. O rádio é dos anos 50. Não funciona direito. Chia feito um carioca com a língua presa. O véio não é carioca, mas nasceu nos anos 20. Traz um palito no canto da boca. A cada nova rádio, o palito pula de lugar. Ballet. Desespero. A aflição toma conta do meu corpo. Penso em mortes. Assassinatos. Esquartejamentos. Quase me excito. Sinto que o sol de 28° gera pensamentos obsessivos. Miolos torrados - e não são do cara do celular. Um puta engarrafamento faz o ônibus andar por 30 segundos. A cada dez minutos. Vontade de tirar a roupa. Sauna. Lembro que pareço uma lagartixa. Não posso. Nunca uma caneta – não comprada – saiu tão cara.

Feliz Natal pra vocês.

29 comentários:

Claudia Lyra disse...

Deus do céu, Sean!!! Sinto muito...

Graziana disse...

credo, você passou pelo inferno, op centro esta época é terrivel, não mais que o centro de qualquer cidade, cheio de pessoas desesperadas por comprar, comprar e comprar!
eu corro do centro nesta época, pago rpa não ir lá!

Sirlei disse...

Nossa, fiquei muuuito cansada só de imaginar.
Sou solidária, detesto gente que fala sem parar no ônibus, que acha q eu tenho q ouvir o zumzumzum do MP3 deles, tento aplacar o meu mau humor me consolando que ele terá problemas de audição no futuro. Ou ainda pessoas que ficam batendo os dedinhos ou assobiando, somado ao calor, credo, de pé no ônibus e se eu estiver com um monte de livros, socorro... Centro da cidade perto do Natal, nem pensar. A tal caneta deve ser mto especial.
Feliz Natal!!!

Camu disse...

Deus do céu!!! Que desespero!!! E eu que me iludia que não haveria um lugar tão péssimo, principalmente nessa época de natal, quanto SP..... Vixi!!!
Feliz Natal e muita PAZ, SOSSEGO e AR pra vc!!!
Bj

Rosamaria disse...

cansei contigo, cosquirídia! teus olhos tavam que nem a foto do orkut? dá uma vontade de 'matar a pau', né? se eu fico assim, imagina tu, depois que esquenta o sangue!
mas pelamordedeus, não pensa em mortes, assassinatos e esquadrejamentos! desliga!

bjim.

venuss disse...

pensa que podia ser pior. Com chuva, o centro vira um inferno em qq época do ano.

Carlos Eduardo Carrion disse...

Meu querido amigo.
Se há uma hora em que tu fostes compreendido por outra pessoa, foi esta.
Um abração do teu solidário amigo.
Carrion

Leandertal disse...

Quanto custava a caneta?

BABI SOLER disse...

Maneira fantástica de me avisar para não comprar canetas essa semana,rs. Valeu Sean, mas estou aqui blogando quando deveria ter saído para comprar as canetas e os presentes de natal.
O que será de mim?

Beijo!

Adriana disse...

Ola Sean, qto tempo que nao te deixo um comentario, estive fora de circulaçao um tempo, agora estou voltando de espaçao.Aqui em La Coruña natal e sinonimo de inferno, as ruas, os poucos centros comerciais ltados.Estou começando a odiar o natal.Pelo menos nao tenho que brigar por bonecas e carrinhos...ufa.Sou solidaria.Um beijo grande cheio de energia postiva do outro lado do oceano

Cida disse...

Quanta poesia tem uma BIC?Ela, sem querer, me presenteou com essa tua maravilhosa crônica. Ai de mim, hoje, se não fosse a tua BIC.... Adorei ter "viajado" contigo em cada um desses teus relatos.

Feliz Natal, querido.Muita paz e muito mais ironias e patifarias nesse ano vindouro. Espero que te conserves com essa verve patife.

Abç

Lu disse...

Passo por isso quase sempre. O centro é meu bairro de trabalho. Fazer oq? vamu combiná de um dia destes a gente ter um ataque de fúria ao vivo e à cores? só um grito, bem alto, e depois a gente sai de fininho como se nada tivesse acontecido. Pronto. Ao menos a gente vomita isto tudo....hehehehe.
Feliz Natal pra ti também.

marcia disse...

coisa feia, fazer um texto destes numa época tão cheia de harmonia e compreensão como o Natal. época cheia de renas, sininhos e floquinhos de neve. não foi assim que Papai Noel te ensinou.

Maroto disse...

politicamente incorretíssimo, do jeitinho que eu gosto. Da próxima vez que te encontrar offline, te dou uma caneta. Se achas que vai demorar muito, posso mandar a imagem de uma por jpg - o fato é que quem merece tem que levar

Penkala disse...

quase me senti num filme de hollywood dos anos 40 na califórnia com sala de detetive. sabe colé? ventilador rangendo. secretária de óculos de gatinho. pessoas falando merda, e o véio dos anos 20. que nos anos 40 deveria ter nascido junto com a fotografia. e não escutaria rádio, porque este teria apenas 20 anos...

Daniela disse...

Que espírito pouco natalino! Como é que você não se integrou à época papai-noelística?

E isso que você nem foi nas Americanas...

Sean Hagen disse...

*



CLÁUDIA
pêsames aceitos.



GRAZI
o inferno deve ser melhor.



SIRLEI
exaustão é a palavra certa.



CAMU
sempre tem um lugar pior, lei de muphy.



ROSA
tal qual.
fiquei de bobo fazendo fila e os malandros passam a perna.
morte aos infiéis!



VENUSS
com chuva ninguém fica 'colando' na gente. mas a possibilidade de ficar cego espetado com um guarda-chuva é grande.




CARRION
pega a tua cimitarra e vamos acabar com essa gentalha.
preciso de gente de ação.
morte aos infiéis!



LEANDRO
não tenho a menor idéia.
dois reais?
só queria uma caneta macia pra enfrentar uma maratona escrevinhística.




BABI
fuja da canetas, fuja!



ADRIANA
que bom que vc voltou.
e coisa boa que não tem que comprar presente pra criança.
mas se quiser comprar um pra mim, aceito.
:D



CIDA
vamos fazer essa na 25 de março no ano que vem?
que tal?




LU
me chama que a gente faz essa juntos.
vai ser uma gritaria só.




MARCIA

:(



URUBU
não tem uma tese sobrando aí?




PENKA
não escutaria rádio, mas assoviaria sem parar.
é o tipo.




DANIELA
nasci de uma família de suínos.
não fujo a minha natureza.





*

Leandertal disse...

Ué, escreve no computador. Só não dá mais tempo de comprar um teclado macio antes do natal.

Sílvio Moura disse...

Adorei!
Isso dar uma otima cena teatral.

www.pulchro.blogspot.com

Maroto disse...

tenho um armário cheio de teses, comentadas inclusive. Infelizmente, são todas de segunda mão :(

cida disse...

combinado, desde que estejamos no metrô da Sé, às 18h, para sentirmos àquele calorzinho humano....

Sean Hagen disse...

*



LEANDRO
que bela idéia, não tinha pensado nisso.
em entrevistas deve ser súper útil, né?



SÍLVIO
a arte imita a vida?



URUBUA
será que alguém vai perceber se eu apagar os comentários e fizer uma capinha nova?



CIDA
o que gosto de ver é que tu sempre pode melhorar as coisas.
incrível.



*

.Intense. disse...

Pqp.
Tou me lamentando de ainda ter que fazer compras de Natal e esse post só acabou de me desanimar.

Ai neeeeem.


E me lembrou de uma tia hj no onibus, gritando pra outra pessoa do outro lado 'mas fulano morreu? o que aconteceu? me ligaram falando que fulano morreu, oi, vc tá me ouvindo?' e eu, de fones de ouvido no máximo, ouvindo música eletrônica, tava ouvindo. Imagino quem estava sem, devia estar surtado já - pelas caras, parecia...

Marília disse...

Oi Sean ! você não precisa de caneta para transformar qualquer coisa em uma boa história !
Adorei esse "passeio" Natalino...rs
beijo

Anônimo disse...

Sean, parece que no natal passado estavas mais tranquilo ou pelo menos havias feito uma bela descoberta ... nem tudo no centro é complicado, ainda existe a Pharma&Cia que recolhe os medicamentos vencidos ... como vc continuamos a busca por melhores condições ... em todos os sentidos. Um lindo natal pra vc!

Sean Hagen disse...

*



ANÔNIMO
não gosto nem um pouquinho que venham fazer propaganda no meu blog. se um dia eu elogiei a iniciativa da empresa da qual vc faz parte, foi porque naquele momento achei apropriado.

mas não dou o direito que vc venha usar o meu espaço dessa forma. se vc fosse um pouco mais educado, iria interagir no post em que o elogio foi escrito, não neste.

de qualquer forma, já que vc gosta de propaganda, vou fazer uma pra sua loja.
ruim, por sinal.

o atendimento de vcs é péssimo.
várias meninas ficam rindo e fazendo fofoca atrás de um vidro, enquanto na loja a fila espera antendimento. todos se sentido veradeiros idiotas.

mas o pior é sempre ouvir que não têm um ou vários componente pra manipulação. e algo que não levaria mais do que um turno, acaba levando dois dias pra ser entregue.

pior ainda?
mudam as concentrações e não avisam na hora da entrega. só quando vai se usar é que o erro se percebe. e em vez de tomar uma pílula de 500, por exemplo, somos obrigados a tomar duas de 250.

total falta de respeito.
ruim, não é?

não compensa fazer marketing quando o básico não é feito.
guarda essa dica.
é preciosa e estou dando de graça.




*

Luís Galego disse...

Um feliz natal para ti e o desejo de te ver continuar a escrever belos posts...

Leandertal disse...

Sean, aproveito para avisar que estou vendendo um Chevette 76, cor de cobre, único dono, duas voltas completas no odômetro e placas amarelas antigas. Precisa quitar o IPVA. Negocio e aceito apartamento na troca.

Chawca disse...

Hell is here....