Lembro da primeira vez que vi a Lalinha. Até aquele momento, eu nunca tinha visto um recém nascido mal encarado. Ela parecia o chaveirinho de uma velha rabugenta enrolado em xales. A cara amassada e o ar de poucos amigos foram o prenúncio que eu precisava para confirmar que algo de muito bom havia começado naquele 17 de maio de 1992.
Lauren não era um bebê, era uma tsunami. Tinha uma força de caráter tão forte que suspeitei por algum tempo ser o Bebê de Rosemary. Pequeninha, gordinha e cheia de dobras, incutia medo quando contrariada. Com ela não havia essa de regras e padrões, ela ditava as regras e os padrões. Sempre gostei de torturar bebês com cócegas pra ouvir a deliciosa risada histérica. Com a Lalinha a dificuldade era, primeiro, ouvir a risada, já que ela não mostrava as gengivas facilmente. E, segundo, não ser fulminado com uma cara de reprovação por passar dos limites, o que já acontecia no segundo cuti-cuti.
O lalês, uma língua estranha que só a mãe dela compreendia, foi criado por esse ser. Andava pela casa como um anão emburrado, resmungando impropérios, e ai de nós se não fingíssemos entender tudo.

Mas é aí que entra o lado fascinante desse criaturinha: a capacidade de observar, aprender, crescer, melhorar. O mau humor virou sarcasmo, que virou ironia, que virou palhaçada explícita e acabou num humor sofisticado, desses que não se espera encontrar em uma criança. Lalinha é criadora do famoso
sr. Fio, uma entidade que se torna atuante quando as indisposições estomacais acometem os viventes.
Sr. Fio nada mais é do que a denominação carinhosa do vulgar “ânus”, e contração respeitosa de fiofó.
Aprendendo a rir de si mesma, enquanto ri de tudo, Lauren construiu um sistema de valores amparado no carinho e na preocupação com o outro. Solidariedade é uma ação que ela exercita com a mesma naturalidade que ri. Tem essa capacidade rara de se colocar no lugar do outro e sentir o que ele sente, de dar a mão, de trocar o riso pelo choro se for necessário.
Para ela, havia dois caminhos possíveis: ser a “bonequinha do papai”, ou a moleca de personalidade, capaz de enfrentar o mundo por uma idéia. Escolheu o segundo, o mais difícil, e provou que nada pode impedi-la de seguir em frente. Loira, sim; preguiçosa pra estudar sim, mas burra, nunca.

Personalidades fortes atraem o bom e o mau das pessoas, e não é fácil lidar com isso desde cedo. Nesses 15 anos, muitas foram as lágrimas derramadas, as amizades desfeitas, as apunhaladas recebidas. E por mais que tenha havido dor nesse processo, ver a tenacidade com que essa baixinha enfezada se construiu, me enche de orgulho. É o preço a pagar pra quem decidiu viver a vida como protagonista, e não como coadjuvante. Lauren tem pressa de sentir, de querer, de amar. Quer o agora e o depois juntos. Quer o distante e próximo num mesmo lugar.
Se pudesse, eu daria o mundo a ela, mas não posso e nem devo. Esse prazer eu sei que ela vai conquistar sozinha, errando, acertando, brigando, amando, vivendo. O máximo que posso fazer é dar o meu amor incondicional, e devolver um pouco daquilo que recebo. Não sei por quanto tempo conseguirei me fazer grande pra acompanhar essa trajetória. Mas na verdade isso pouco importa. Esteja onde estiver, quero que ela saiba que sempre será a minha porquinha loira, minha cabeluda fedorenta, a minha gordinha amada. E que o mundo gira, mas eu sempre estou no mesmo lugar.