Einstein ganhou notoriedade ao transformar em teoria aquilo que, de uma forma ou outra, todos sentimos: o tempo é relativo. Olhando pra trás, nessas décadas que me separam do passado, vejo claramente isso.O que me fez sofrer, o que deu trabalho, o que me fragmentou, o que me desiludiu parece distante como as pirâmides do Egito. Têm o peso paquidérmico daquilo que nos torna mais maduros e parcimoniosos, apesar da dor que causa.
Mas o que me fez rir, que regozijou, que me fez sentir amado, que transcendeu meu corpo tem a duração do agora. Sinto como se tivesse acabado de chegar das festas de garagem do secundário, que começavam às nove da noite e terminavam às dez manhã; ainda tenho na boca o gosto do primeiro beijo; o êxtase sobre o primeiro corpo nu; a primeira sensação de liberdade; o primeiro elogio de um mestre.
Somos o que carregamos através dos anos, uma eterna luta entre o tempo externo - esse que nos rotula de jovens, maduros e velhos - e o tempo interno, que só nós temos capacidade de sentir - e quase nunca admitir - com medo de parecer ridículo.
Tenho agora a idade que deveria ter aos 20. Nasci velho, desses que pensam em todas as conseqüências de um ato. E, muitas vezes, deixei de ir fundo em uma emoção pelo receio do que ela poderia causar no outros. Hoje sei que não posso controlar a dor de ninguém, não posso evitar que meus atos tenham conseqüências. Mas precisei dos cabelos brancos, que surgem feito capim, pra entender que egoísmo pode ser uma forma necessária de amor próprio. Adolesci, justo agora que deveria maturar. Não há como recuar quando há uma outra vida pedindo passagem, com experiências que sei imprescindíveis pra eu viver.
Dois mil e sete marca a insubordinação do interno frente ao externo. Mesmo tendo decorrido não mais do que seis meses, percebo-os como se fossem uma eternidade. Senti a dor de perder alguém importante demais na minha vida; senti o quão grande pode ser o amor tecido por laços invisíveis; esqueci o nome de amigos basilares em alguma curva do caminho; reafirmei os laços cada vez mais estreitos com quem faz a diferença na minha vida. Tive experiências que ainda não sei classificar; vivi momentos de puro estranhamento comigo mesmo, ora inquietantes, ora reveladores. Descobri verdades que há 20 anos soariam como mentiras. E começo a aceitar que só devo coerência a mim mesmo.
Quarenta anos se passaram, mais 40 hão de vir. Sou alguém na meia idade descobrindo o que estava guardado em um velho baú. Uma a uma, vou experienciando “recordações” que nunca me permiti. Parto agora em busca de mim mesmo, consciente de que há o risco de olhar pra trás daqui dez anos e dizer: “que merda você fez se comportando como um guri quando deveria ser um homem?”.
Se tivesse como prever a resposta, saberia o que fazer agora para evitar o erro. Mas não sei. Então só posso cruzar os dedos e esperar que não tenha sido um tempo perdido. E aceitar que viver é fazer escolhas que vão além da razão.






