A pira foi um dos poucos acertos num espetáculo de desastresA abertura da Pan teve a cara do Brasil? Pra mim, não, por mais que Fátima Bernardes e Galvão Bueno repetissem isso. Não é minha cara porque não sou carioca. Porque não sou classe média descolada. Porque não me arvoro a arrogância de desrespeitar a tudo e a todos pelo simples prazer da galhofa.
A primeira vaia a Lula foi um protesto dessa classe média branca e viajada que pouco se importa se a vida dos mais pobres melhorou, reclama por seus privilégios – e nem posso negar que tenham direito a eles, então, vaia justa. Mas a segunda caiu na malandragem inconseqüente, na piada pela piada, na falta grosseira de entender o lugar que ocupavam no estádio naquele momento, frente a milhões de outros brasileiros e americanos.
Como toda personalidade inconseqüente, a massa carioca perdeu a mão, e as vaias foram a marca da abertura. E daí para o Maracanã virar um extensão de Copacabana e Leblon em domingo de sol foi um passo. Vaiou-se os venezuelanos, afinal, eles e Chaves devem ser a mesma coisa. Mas também se vaiou os bolivianos e, claro, os norte-americanos. Carioca “ixperrtu” sabe diferenciar as coisas. E sabe ser um ótimo anfitrião.
Os nativos que lotavam as arquibancadas quiseram tomar pra si a festa que era de todos: festa organizada por eles, que tinha a cara deles. Quando a câmera passava entre os ritmistas ou bailarinos, muitos largavam o trabalho e começam a abanar e mandar beijos, formando grandes aglomerações. Será que alguém se deu conta de que isso poderia estragar o espetáculo, ou que é falta de comprometimento e profissionalismo? Claro que não, merrmão, carioca descolado é assim mesmo. Tudo é farra, tudo é zoeira, pra que se estressar?
Pois é. E os cariocas têm o maior carnaval do mundo, algo realmente surpreendente. E o que se viu na abertura do Pan foi uma constrangedora festinha de escola, dessas com jogral e crianças vestidas com fantasias improvisadas. Não havia unidade no espetáculo, não havia inventividade, não havia aproveitamento de espaços. Tudo ficou micro e acanhado. Rosa Magalhães, um dos grandes nomes da área, pensou pequeno. Ou pensou carioca e fez um trabalho desleixado e sem brilho.
Adriana Calcanhoto foi um dos únicos momentos de real emoção nessa balbúrdia. Sentada numa gigantesca cadeira, tocando seu violãozinho, contagiou e deu seu recado. Praticamente sozinha, ocupou todos os espaços do Maracanã. Chico César fez o mesmo, amparado por uma magnífica coreografia de Débora Colker, uma carioca cidadã do mundo. E numa demonstração pra lá de macaca de copiar o que não se deve, a grande Elza Soares foi um constrangimento desnecessário. Linda e classuda nos seus mais de 70 anos, desafinou, esqueceu a letra três vezes e, involuntariamente, cassou o direito do público de cantar o Hino Nacional, já que deu uma roupagem nova à interpretação. Não houve naipe de sopros, não houve percussão, foi tudo à capela. O soberbo arranjo, uma beleza ímpar e gongórica que mais parece um passeio de montanha russa cheio de loopings emocionais, foi cortado. Até o Hino os organizadores cariocas nos garfaram.
Se é dessa forma que o Rio de Janeiro quer angariar respeito, lamento, mas não vai dar. Ou a porção séria, competente e trabalhadora da cidade assume as rédeas, ou a o povo da tal cidade maravilhosa vai continuar pagando pelos estereótipos que parte dele cria e solidifica.