09 fevereiro 2008

Plasticidade sanguínea

Imagine que Edward Mãos de Tesouras parou de tomar antidepressivos. E que pra se vingar de um mundo que julga cruel, decide “limpar a área” até chegar na fonte de todo desajuste. Grosso modo, é o que Tim Burton faz em Sweeney Todd (2007). Jonny Deep, novamente como protagonista, encarna o lado B do fofinho e ingênuo Edward, que no lugar das tesouras usa navalhas - não para fazer belos penteados, mas para cortar gargantas.

De longe, este é o filme mais explicitamente soturno e sanguinolento de Burton. Cada um sobrevive como pode numa sociedade que faz a transição entre a fidelidade feudal aos senhores e suas leis, e a máquina que traz a fortuna a qualquer custo. O contraste do vermelho que jorra das gargantas com os tons de cinza e azul de uma Londres decadente mostra a primazia do desenho de produção. Tudo é impecável: a direção de arte, a fotografia, a cenografia, o figurino, a maquiagem.

E Sweeney Todd seria perfeito se não fosse um detalhe: é construído como um musical. A idéia parece excelente, ainda mais com a infinita ironia que Burton sabe exercitar. Mas o tiro sai pela culatra. Basicamente, um único tema melódico se repete por todo o filme, como um CD avariado que fica pulando e repetindo sempre o mesmo. Raros são os momentos em que o paradoxo entre forma e conteúdo se estabelece – quando Todd faz um duo com o juiz que o mandou pra cadeia e roubou sua mulher e filha, os dois louvam o mesmo amor: um, o que perdeu depois de 15 anos aprisionado, e o outro, o desejo de desposar a agora filha adolescente do homem que encarcerou injustamente.

Dentro desse gênero, a música é o clímax de uma seqüência, intensificando a carga emocional da trama. Burton “esfria” as canções, deixando-as sem sentido e truncando a fluência da história – Lars von Trier, que já havia pintado de negro os musicais em Dançando no Escuro, nunca dispensou o clímax catártico, como nos angustiantes números antes e durante e execução de Björk.

Quando se consegue abstrair esse fato, o filme ganha corpo, apesar de estar muito aquém do que poderia ser. Mas a essência de Burton está presente, com seus seres em desalinho em um mundo hipócrita. A magistral abertura, em que o sangue faz girar uma desumana e fria máquina, contrasta com a belíssima seqüência final, em que o sangue redime o ódio e a incapacidade de sentir, congelando a ação na mítica imagem da Pietá de Michelangelo. É preciso que o sangue se una ao sangue para restabelecer a harmonia perdida. E a justiça renasça pelas mãos da inocência corrompida.

Uma curiosidade: além da óbvia comparação com Edward Mãos de Tesouras – a barbearia de Todd tem a mesma estrutura do sótão onde Edward morava –, outras referencias estão presentes: Beetlejuice se cristaliza na cena em que Todd veste roupa de banho listrada na praia; Corpse Bride ressurge na cena-delírio do casamento; Ed Wood está no penteado de Todd. Ironia é que não falta.

23 comentários:

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

to louca pra ver

MC disse...

eu ouvi um comentário do rubens ewald filho na band news (que fica dando a toda hora, o comentário, não o rubens ahahaha) metendo o pau no filme. ele fica detonando o fato de ser um musical, dizendo que isso não é mostrado no trailer e que aqui no brasil não fará sucesso por que a maioria não curte musical. ele termina dizendo que musical de horror é muito esquisito. olha, eu já fui mais fã de musicais, mas acho que ele generalizou um pouco e até mesmo subestimou o público brasileiro. acho que só as referências a edward mãos de tesoura já vale o filme, bem como o jonny deep, que pra mim vale qualquer filme hehehehe

Karina disse...

Esse filme tá dando pano pra manga mesmo!
Todo mundo falando disso.
Preciso assstir logo pra poder criar minha opinião!
Bjos

Maroto disse...

eu não gosto de musicais, mas quero ver este. Gosto menos ainda do Rubens Edwald Filho, que já prefiro não ver nem na tela. Quem sabe ele melhorava se ficasse 'dando a toda hora', né, MC? :)

ale disse...

É muito difícil eu não gostar de alguma coisa que o Johnny Depp faça. Vou assistir.

.Intense. disse...

Tá bom, parece que todo mundo aqui sabe do que tá falando e eu não - nem ouvi falar do filme ainda, eu vivo num mundo que não dá tempo de ter noticias de nada. Estranho isso, me sinto mal informada, maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaas ainda bem que eu tenho um blog, cada um me conta uma coisinha desse mundinho lá fora que não tenho tempo de vasculhar.

Mas acho que não vai rolar ver esse filme não. Sim, eu sou fresquinha, nada de filme de monstrinhos ou sanguinolento. Assisti 'Chocolate' hoje com o Deep, e além de lindo(o Deep, não o filme), o filme faz mais meu genêro.

Peraí. Vc tá sumidão hein?
Credo.

Uma menina descobrindo o mundo... disse...

Primeira vez que ouço falar do filme... Sinto-me até mesmo mal informada ou, talvez, não informada como eu gostaria.
Porém, pelo que pude perceber você investiu no comentário mesmo, deu-me até o desejo de assistir o filme, quem sabe, se meus estudos permitirem.
...
Sobre sua questão no por que de nenhum baiano e mineiro desgostarem do carnaval... Creio que sejam as culturas. O meio influencia muito nas características, porém, se a questão for por que apenas eles?? "Por que?"
rs.

São disse...

Burton e Deep são perceiros que funcionam muito bem, sem dúvida.
Agradeço a informação sobre o mais recente filme deles.
Bom domingo.

Rosamaria disse...

acho que não é o tipo de filme que eu gostaria de assistir, embora goste do Johnny Depp.
eu não cuido, como vcs que estudaram, a parte técnica dos filmes, a não ser que chame atenção por ser muito bom ou muito ruim. por isso eu gosto de ler comentários sobre os filmes que vou ver.
quem sabe até assiste este...
bjim.

Laurinha disse...

Eu gostei das melodias...

Capitão Ócio disse...

Estava em d�vida se assistiria ou n�o. Agora n�o vou assistir mesmo.

MC disse...

urubu: se tiver alguém que queira receber acho que ele até dá ahahahahahaha :P pelo menos ia se ocupar com outra coisa ao invés de fazer esses comentários bestas :P

raquel disse...

Eu adorei o filme. É um legítimo Tim Burton e quem gosta dos filmes dele vai gostar deste. Ao contrário de ti, eu achei o musical de uma ironia magistral. O tom das músicas reforça o tom do filme, a coisa da morte pela morte, do dia-a-dia, da repetição, deixando a catarse por conta do sangue. O sangue sim, é a estrela do filme.

Claro, a história não é nova e eu já conhecia a "lenda urbana", mas mesmo assim, eu gostei do fato de que o Burton não se deixou levar por qualquer tipo de sentimento mais "leve", como os pseudo-romances e fez aquele final magistral, cru.

Fora isso, achei que tanto Helena Bohan-Carter quando Johnny Depp estão excepcionalmente bem. Eu adorei especialmente o Sweeney Todd soturno e sem qualquer tipo de sentimento do Depp. Eu acho muito impressionante a capacidade que ele tem da metamorfose, saindo dos maneirismos do Jack Sparrow e entrando numa nova roupagem sem fazer dela uma fantasia.

A maioria dos meus amigos se irritou com as músicas, como tu, mas eu vi nelas justamente este objetivo: irritar, enojar, mostrar, objetivizar o horror. :)

Toninho Moura disse...

Prazer em recebê-lo em nosso blog! Seja nosso convidado para conhecer as
Aventuras do Capitão Ócio.

http://dicassobrenada.blogspot.com/search/label/Aventuras%20do%20Capit%C3%A3o%20%C3%93cio

Braços!

Luís Galego disse...

concordo no essencial com o que aqui é escrito. conhecia a obra e acho-a interessante. de qualquer modo a estética de Burton é inconfundível.

Marcia disse...

o universo fabular do bem e do mal, em requintado tratamento gótico.
tantas leituras são possíveis, em material simbólico tão rico.

mas, para mim, algo é mais tocante do que tudo: as chamas do inferno, para onde se desce, consumindo um desejo inadequado e mentiroso.
ali, naquela cena, fica inscrito em sangue: entre iguais, a única coisa imperdoável é a deslealdade.

Lu disse...

Adoro o Jonny Deep.
Não sei nada de Tim Burton
Não gosto de musicais.
É... não vou ver o filme.

venuss disse...

hummm... ainda não decidi se vou ver o filme. Bem-vindo, menino sumido!

venuss disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sean Hagen disse...

*



ADRIANA
não fique louca, veja.
:P



MC
vi o cometário dele no UOL.
acho que ele é a maior enciclopédia cinematográfica viva que temos, mas como crítico é uma boa enciclopédia.



KARINA
acho que vale mesmo.
toda obra polêmica acrescenta algo.



MAROTO
como assim não gosta de musicais?
achei que melodiosos urubus se amarrassem em música.
esse mundo tá perdido mesmo.

- sabia que o REF é o irmão bastardo do Zé do Caixão? por isso que ele é tão dadinho assim -



ALE
eu nem sou tão fã do deep assim.
mas não acho ele ruim, não.



INTENSE
vc não mora nesse mundo.
que feio...
tá faltando sangue e vísceras por aí.

:P



MENINA
deixa os estudos um poquinho de lado e vai.
vale a pena.



SÃO
concordo contigo: a parceria tem rendido belas obras.



ROSA
arrisca.
numa dessas, vc descobre que gosta de mais coisas do que imaginava.



LAURINHA
como ousas?
:p



CAPITÃO
me sinto honrado de ser o fiel da balança.




MC
controle-se.
agora vc é uma mestra jedei.



RAQUEL
sou fã da Helena Bohan-Carter desde que ela fez A room with a view, do James Ivory. e acho um bom filme, apesar da música. se a idéia dele era irritar, conseguiu. mas irritar sem ter uma finalidade fílmica é um risco muito grande.



TONINHO
quem é o alter-ego de quem?
vixi, fiquei confuso agora.



LUIS
poucos cineastas conseguem deixar uma marca visual tão forte num filme.



MARCIA
pra todo o resto existe mastercard.
:D



Lu
2x1
o filme perdeu.



VENUSS
vai.
nem que seja só pra viajar nas imagens.





*

ale disse...

A room with a view é um dos filmes que mais gosto. Assisti umas três vezes, no mínimo.

ederson disse...

pois é, o fato de ser um musical, com músicas quase todas parecidas e ruins, acabou com o filme. é chatíssimo. várias pessoas saíram da sala, arrastando-se de tédio e incompreensão.

eu, que não gosto muito de Tim Burton e meio que detestei seus últimos 3 filmes, podia ter ficado sem essa. Se o Guion tivesse um preço mais barato eu teria ido lá ver Onde os fracos não têm vez, e teria gostado mais.

Laurinha disse...

Ai, ai... Ainda assim gostei das musiquinhas. E as melodias não me irritaram - tirando aquela do guri dizendo que vai cuidar de Mrs. Lovett - quase no final do filme. :D