28 abril 2008

Acontecimento

Do céu, um rugido enraivecido.
Num instante, a luz se fez penumbra.
Perfeito demais pra não ser impresso na retina.

27 abril 2008

Esfiha faz mal à saúde

Diagnóstico: conjuntivite viral agressiva.
Ciclo do vírus: 15 dias.
Contágio: direto – evitar tocar nos olhos e lavar constantemente as mãos minimizam os riscos.
Forma de contaminação inevitável: esfiha – apesar do estômago não fazer parte do sistema visual (mesmo pra quem “come com os olhos”), esfiha não existe sem limão. E limão não existe sem pingo no olho. Qual a reação imediata de quem leva ácido cítrico no olho conjuntivitoso? Esfregar a área, sair correndo em direção a pia, gritar feito uma cacatua famélica e espalhar o vírus por onde passa, tocando em tudo pra tentar não bater nos móveis.

Em sumo, digo, suma: conjuntivite associada à esfiha faz mal à saúde.

10 abril 2008

Lubridiação disxélica

O cartel dos laboratórios clínicos era pra ser o mote central desse post – oito exames, exatos R$164,60 em quatro lugares diferentes. Mas a raiva e a indignação deram lugar à curiosidade: de onde diabos eu tirei a palavra “lubridiar” que não aparece em lugar algum? Só me dei conta disso quando o Word a sublinhou de vermelho. Pensei: por que não tá aceitando, tá errada?

Corri pro Houaiss, meu guru da língua portuguesa. Nada, nem trocando o “i” pelo “e” ou o “u” pelo “o”. Fui atrás de um dicionário luso: nada. De um espanhol: nada. Entrei na página do Cláudio Moreno: nadica de nada again. Pra ajudar, o Google mostrou que eu estava, digamos, em companhia um tanto quanto duvidosa. Nenhum grande veículo de comunicação aparecia usando “lubridiar”, nenhuma instituição social de peso, só textos de gente comunzinha como eu e blogueiros. Tá, pra ser mais justo, o vereador Diniz Cogo, do PMDB de Santiago, na região da Missões gaúcha, também usa. Mas ele lapida otras cositas más, como “ onze meses atrás” e “veja-se que se trata”, ou seja: embarquei no ônibus errado.

Pensei em abortar esse projeto e não mostrar ao mundo minhas ignorãças – vou copiar o Manoel de Barros pra ver se limpo um pouco minha barra – mas enquanto escrevia esse texto e pensava que lubridiar significa “enganar”, voltei ao Houaiss e procurei os sinônimos de “enganar”. E lá estava: ludibriar.

Eita. Como é que se chama isso? Dislexia, né? Pois é, eu sou disxélico.

07 abril 2008

Poeira de píxels

Tomei chazinho de sumiço nos últimos meses, como se dizia lá na minha infância anos 70. Um composto de falta de tempo, compromissos, novos desafios, confusões, descobertas e falta de inspiração. Coisas que, no fim das contas, afastaram-me da rotina que é vivenciar um blog.

Uma amiga carinhosa me acusa de fazer isso de forma estrategicamente pensada, só pra eu ver quem vai lembrar de mim no final. Como não quero gastar grana com terapia – nada contra, Carrrion, tudo a favor –, já que minhas neuras me respeitam sobremaneira e minha cota de rejeição tá controlada, resolvi voltar antes de virar poeira de pixels.

Já contei aqui que achava os blogs pessoais, salvo os com temas específicos, meros diários exibicionistas. Mudei de idéia quando descobri a interação possível entre quem escreve – eu, neste caso – e quem comenta – você, caro leitor, que de alguma forma ainda lembra de mim.

Não, não é uma relação presencial, não podemos aplicar as mesmas regras que usamos nas relações face a face. Mas isso não tira a integridade do laço virtual, não desmerece a verdade que sentimos. Talvez eu nunca venha a conhecer pessoalmente algumas pessoas que por aqui passam, mas esse convívio trouxe algo de real para o que sinto e penso. Ajudou a me construir mais do que muita gente que vejo todo dia e com a qual não tenho a mínima intimidade pra falar dos assuntos aqui abordados e das discussões travadas em outros blogs.

E quem tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, a intimidade do não presencial cresceu ainda mais com o olho no olho. Isso por que, mesmo inserido num ambiente de aparente distanciamento e tecnicidade, os blogs queimam etapas do processo interativo, trabalham com a essência de uma idéia, de uma postura de vida, de um sentimento – sempre que permitimos isso, é claro.

Saint-Exupéry, apesar de ser considerado o rei dos cafonas, é exato quando fala “você é eternamente responsável por aquilo que cativa”. Essa é uma premissa pueril que o lado racional do cérebro faz troça, mas, ao mesmo tempo, é uma verdade que a emoção reconhece como necessária, não se deixando intimidar pela obviedade que encerra.

A todos que passam, somem, voltam, lêem, comentam, calam-se, uma confissão: eu sou cafona. E é muito bom poder encontrar com vocês aqui, mesmo quando quase viro poeira de pixels.

- Urubu Maroto, beijo especial pela constante instigação e pelo post explicito no teu blog