18 maio 2009

A pretensão

Quer uma dica de um lugar pra não ir em Porto Alegre? Botequim da Letras. Fuja como o diabo da cruz. Está localizado no coração do Moinhos de Vento, na parte mais arborizada da Félix da Cunha, em um conjunto de casas históricas. O lugar não poderia ser mais charmoso, mas a pretensão do espaço não poderia ser mais irritante. E o atendimento, ah, o atendimento. Uma garota moderninha, óculos de aro grosso, roupa desbeiçada, ar existencialista cansado e cabelo emplastado na cabeça – que pessoas com mais de 25 ou asseadas chamariam de sujo – oferece um atendimento supimpa. Pedimos uma Coca com gelo, um cortado e um panini. Passados quase dez minutos, veio a Coca, com duas minúsculas pedras. Sentimos o drama: se economizam no gelo, como será o resto? Pois é, o resto veio. Ou melhor, não veio. Cinco minutos depois, o reforço no pedido: será que é possível trazer o café, pelo menos? Mais dez minutos e ele veio, quase sendo jogado em nossas cabeças. A moçoila do cabelinho cheiroso mostrou não ter prática nem habilidade pra segurar a bandeja com uma xícara transbordando. Teve que ser ajudada. Quase 40 minutos depois do pedido feito, e com apenas duas mesas além da nossa – tomando apenas chopp e café –, levantei, com o tempo e o saco estourados, e pedi a conta, avisando: suspende o panini. Ao que ouvi da cabelinho bom: “Agora tá pronto”. Respondi: Lamento, mas agora eu não tenho mais tempo. E a sebosinha retrucou: “Então deveria ter avisado antes que tinha pressa”, e jogou o troco na minha mão, com a cabeça virada pro lado. O que esperar de uma mulher que não toma banho, não sabe servir a mesa, não consegue prensar um pão de queijo e ainda é grosseira? Pretensão, tanto quanto o lugar, é óbvio. Gente assim me cansa, lugares assim me desagradam. Por isso a honestidade do bom e velho boteco seduz: nada promete além do que pode dar. E honra a tradição do nome que traz estampado na fachada: boteco.

15 maio 2009

Funcionário do mês


Deputado Sérgio Moraes (PTB/RS): nova ortografia para o plural de moral e venda recorde de lixa grossa.

25 abril 2009

Então

Um dia a gente acorda e percebe que nada mudou.

18 abril 2009

A insustentável mesquinheza do ser

Existe coisa mais insana do que reunião de condomínio?
Existe coisa mais insana do que reunião de condomínio sexta à noite que dura três horas?
Existe coisa mais insana do que reunião de condomínio sexta à noite, que dura três horas, com gente mesquinha, desagradável e profundamente prejudicada cognitivamente?

Existe.

É ver quanto uma pessoa é capaz de ser abjeta quando cegada pela ilusão do poder. MacBeth traiu, conspirou e matou para ser rei. Há quem limpe fossas e minta para ser síndico. A ambição presente em grandes feitos ou em pequenas mesquinharias pode esconder uma grande ingenuidade de quem não consegue se ver realmente como é. Torna o camarão com espírito de lagosta uma presa fácil, manipulável e risível – apesar de toda incomodação que produz.

Agora, alguém diz aí: como uma pessoa equilibrada pode fazer tanta baixaria pra permanecer ad infinitum num carguinho de mando? – que talvez seja melhor definido como carguinho de mandalete. Deve dar um puta orgasmo ser aclamada Rainha das Fossas. Imagina o balconista da ferragem, frente a tão intenso poder, perguntando: “Quantos quilos de soda cáustica vai hoje, tia?”.

No fundo, sinto uma profunda pena de um ser como esse. Imagino que limitar o mundo entre corredores sujos e canos entupidos deve ser a única saída pra quem não conseguiu mais nada na vida. A ilusão de controle sobre cinco outros apartamentos – uau! – parece ser a última alternativa quando os sonhos megalômanos de dominar o mundo fracassam.

Algo que MacBeth, revendo a mesquinhez da própria vida, soube definir como ninguém: “Apaga vela! A vida é só uma sombra: um mau ator que grita e se debate pelo palco, depois é esquecido; é uma história que conta o idiota, toda som e fúria, sem querer dizer nada”.

12 abril 2009

O retorno

A possibilidade de renascer é um dos mitos mais caros à humanidade: a fênix, consumida em chamas, renasce das cinzas; Bela Adormecida, através de um beijo, acorda do sono eterno; e Jesus, imagem suprema do eterno retorno, sobe aos céus em corpo e alma após a morte na cruz.

A crença na renovação é extremamente necessária quando se instauram a desgraça, o desespero ou o desencanto. Não é à toa que marcamos o tempo por dias, meses e anos; aniversários de nascimento e morte; natais, carnavais e páscoas. Precisamos de ciclos bem definidos para experenciar a sensação de que tudo que inicia deve acabar em algum momento. A vida é assim. Viver é assim.

Muitos ciclos se encerram nesse momento de minha vida. Alguns longos, alguns difíceis, alguns produtivos, alguns marcantes. E um novo processo se instaura para girar a roda e acionar novas possibilidades, trazendo a esperança para mudar aquilo que não foi possível e a inquietude de superar aquilo que foi.

É nesse paradoxo que me construo. Não sou um monolito de certezas imutáveis, apesar de ser mais fácil acreditar que as pessoas não mudam – “afinam e desafinam”, como tão bem define Guimarães Rosa. Mesmo o que tenho de mais estável encerra contradições – a noção de doce só existe pela comparação com o amargo, e a ordem se instaura em perspectiva a uma desordem. Não há apenas uma verdade maior, há verdades provisórias.

O Estranho Mundo de Xôn também passa por essas mudanças. Foi criado em abril de 2006, hibernado em abril de 2008 e “renascido” em abril de 2009. Perdeu a alcunha de “estranho” – apenas na grafia, é certo – para ser definido mais sucintamente de Xôn, esse outro que sou eu, mas que também é outro, em uma eterna busca – impossível – pela unificação daquilo que tenho de mais contraditório.

Abril de 2009 é o início de um novo ciclo. Que seja eterno enquanto dure.