27 fevereiro 2010

Axé favela, Salvador

Sou um total estrangeiro em Salvador: não conheço a fundo hábitos, a cultura e a maneira de pensar do povo. Mas várias visitas nos últimos anos e residência fixa aqui há talguns meses já me permitem apontar algumas tendências, ainda que na zona da opinião sensorial.

Axé, infelizmente, é ditadura por essas paragens. Toca o tempo todo em todos os lugares. Toca nos alto-falantes dos porta-malas, toca nos botecos de esquina, toca nas lojas de eletrodomésticos, toca nas propagandas da TV; as pessoas cantarolam, reproduzem a mais nova dancinha, brigam pra defender quem é o melhor axezeiro do momento.

A primeira vez que ouvi falar sobre a banda Chiclete com Banana era adolescente em Porto Alegre. Eu, como muitos outros, fiquei de cabelo em pé com a indigência da música, das letras, dos componentes da banda. Sumiram na poeira assim como surgiram e deixei de ouvir falar deles, graças aos bons orixás.

Mas o silêncio só se fez no sul. Aqui, Chiclete é rei. Tem a banda de axé que cobra o mais caro abadá do carnaval: em torno de R$ 800,00 por cerca de duas horas espremido dentro de uma corda na rua. Não sei ao certo, mas fazem em torno de quatro a seis apresentações. Os milhares de pagantes, segundo alguns soteropolitanos envergonhados, são turistas. Ah, tá.

Segundo ouvi falar muito aqui, incitam a violência ou, pelo menos, nada fazem pra apartar as brigas e pancadarias que pipocam a toda hora na multidão; têm uma postura arrivista, enchem as burras de dinheiro e se lixam para os projetos sociais, algo que Daniela Mercury, por exemplo, tem preocupação em fazer – apesar da música dela ser tão pouco menos ruim do que os Bananas.

Agora, acabo de ler que o vocalista Bel Marques vai processar o publicitário Nizan Guanaes, um dos mais importantes do Brasil – e também baiano –, pelas ofensas proferidas no Twitter em janeiro. Nizan, assim como muitos, está horrorizado com a ditadura do axé e toda a “subcultura” criada no entorno – “Salvador virou um favelão” –, algo que está cristalizado na postura “quero me dar bem a qualquer preço” do Chiclete. Dorival Caymmi, Caetano Velloso e Raul Seixas são referências mortas aqui, salvo raras mentes – no Festival de Verão, que acontece todo ano, Caetano era anunciado em letras miúdas no grupo dos “em vias da fama”, desbancado por Ivete Sangalo, Psirico e afins; de tão desprestigiado, abriu a primeira noite às 18h30, quando grande parte do público nem pensava em chegar.

Nizan está coberto de razão na análise que fez, e alguém vai ter que virar o jogo em algum momento. Pensar que essa cultura axezística pode ser o legado que a Bahia vai deixar na cultura do século XXI é assustador. Agora, se ele está certo na maneira que fez a crítica, pouco me importa. Em briga de baiano, eu é que não vou meter meu espeto.

9 comentários:

suzysantos disse...

hahahahaah o axé era muito melhor na época do cabeça branca quando todos paravam o trio pra dar uma puxada nos ovos do velho. Ivetão com seu "Seu Antonio, cadê o sr?".
Mas, vem cá, vem: Nizan Guanaes, aquele que retransmite Rede Vida nos seus canais de TV lá tem moral pra falar de qualidade? Não é do canal dele que veio a Jaque "Pó pará com pó"?

Sean Hagen disse...

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SUZY
o Nizan e o mesmo que patrocinou axé, que fez letra de música pra promover fora da bahía.

se eles se pegaram por causa de algum contrato, grana ou espaço eu não sei, mas morando aqui, me parece que tá na hora do poder público fazer algo e devolver ao povo de Salvador algum dividendo dessa festa, nem que seja poder dançar na rua de graça. por que, no final, só fica o cheiro de mijo insuportável, bagunça e estrago. e os bel da vida de bolso cheio, inclusive patrocinados pelo próprio poder público.


que surpresa maravilhosa te ver aqui.
eita.




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Marcia disse...

é a ditadura do mau gosto.
sinceramente, acho que eu não sobreviveria ao axé permanente.

Rosamaria disse...

deve ser um stress ouvir axé o tempo todo.
fiquei feliz, feliz com tua volta.
bjim.

ederson disse...

Eu sempre tive nojo do Chiclete com banana. Mas não do axé em si. Tem Daniela Mercury, Margareth Menezes e uns outros artistas de que eu até não desgosto.
Só acho horrível essa cultura da permanente alegria do axé mainstream. Músicas agitadas, pulantes, pessoas "dançando" no meio da rua durante dias, braços pra cima, coreografias da hora, gírias nos refrões... blééé
Realmente a Bahia não está entre os lugares que eu gostaria de visitar.

edna disse...

oi, moço
para tudo aquilo que não encontramos explicação em ssa, certamente, as respostas estão no axé/carnaval.

sou absolutamente solidária em seu sofrimento ;-)
quando puder, me manda um acarajé (do que mais tenho saudade).

abraços

Thiago Falcão disse...

moro em salvador, e acho a ditadura do axé tão asquerosa quanto voce. que fique registrado isso. mas sou partidario do "a cesar o que eh de cesar", e sendo assim, vou ter que pontuar alguns detalhes:

primeiro: a gente fala mal de axé porque tah em salvador. pro norte tem forró, no sudeste tem aquele pagode nojento paulista, no centro oeste musica sertaneja e no sul aquela musica gaudéria terrivel. musica ruim tem em todo canto. e as pessoas pagam milhares pra escutar musica ruim em todo canto. mainstream musical no brasil, no geral, eh ruim.

segundo: tem muito baiano no carnaval, mas tem muito turista. em todos os blocos. nao tem soh baiano no camaleao.

terceiro: nizan tah certo em dizer que salvador vai mal das pernas, mas o vocalista da banda aih tah certo em processar. eu posso dizer que uma coisa eh ruim sem ter que necessariamente ofender outra.

Arnaldo disse...

Tenho pouca paciência com Axé, mas isso não quer dizer nada, já que tenho pouca paciência com muita coisa.

Quer dizer que voltou? E agora com sotaque baiano. Axé!

Laura disse...

..eu só não sei o que é Psirico! hauiahaiu