31 março 2010

PARAR é a solução

*144. Tecla de ligar. Atendente eletrônica, voz de lata enferrujada: Olá! Bem vindo a Tim (histérica, quase psicopata). Se quiser comer capim, tecle cavalo; se quiser levar coice, tecle ferradura; se quiser torrar o saco, aperte lança-chamas. Cinco minutos depois, quando aperto a tecla de “idiota” pra ouvir a atendente, a latinha me diz: nóóóoóóóssas posições estão ocupãããããdas, por favor, aguaaaaarde um instaaaaaante. Tu...tu...tu...tu...

Ligo de novo, a lata ressona de novo, ouço a ladainha, aperto “idiota” outra vez, a fanha avisa que as posições tão ocupada e aguardo pacientemente. Surge uma voz: boa tarde, aqui é @&dasflkero 4roiadf *¬qosfnmfeor, com quem eu falo?

Eu: Sean.

Ela: quem?

Eu: Sean.

Ela: não entendi.

Eu: também não entendi teu nome, estamos quites.

Ela (com voz de enfado duplo): em que posso ajudá-lo?

Eu: quero parar de receber mensagens da Tim informando pra apagar a luz na hora mundial e mandar torpedos de graça por R$ 4,99.

Ela: o senhor não quer mais receber torpedos?

Eu: foi o que eu disse.

Ela: qual o teor dos torpedos?

Eu: ou tô enganado ou já te falei: chega de hora mundial e torpedo pago de graça, não quero mais receber 20 mensagens dessas por dia.

Ela: sim senhor, vou registrar.

Eu (acalmando): obrigado.

Tecle, tecle , tecle e ouço os dedinhos dela digitando por alguns minutos.

Ela: obrigado por aguardar. Vou passar o senhor pro setor responsável agora.

Eu: ué, tu não anotou a queixa?

Ela nem se dá ao trabalho de responder. Ouço um som forte e o barulhinho de chamada telefônica. Fico no aguardo. Outra voz surge: olá, meu nome é ew3jo358dsafj ajexdaczzzoirer, com quem estou falando? Em que posso ajudá-lo?

Sim, sim, sim, toda a novela outra vez. Agora com um agravante: a ligação ficou péssima, com eco, dificílima de ouvir.

Ela: diga o número do celular e o código de área.

Eu (aos gritos): 71, Salvador. 9162...

Ela (interrompendo): o celular e o código de área.

Eu: é o que estou fazendo, vc não ouve? Código 71, fone...

Ela: o número senhor, qual o número?

Eu (urrando): 9162...

Ela: e o código?

Eu: tu é surda ou o quê? Me ouve, tá ouvindo? 71...

Ela: Salvador?

Eu: tu conhece alguma outra área 71?

Ela anota, pede um minuto e me deixa no vácuo. Volta: o senhor não registrou seu CPF quando comprou a linha, não acho aqui.

Eu: me diz onde vendem linha sem o registro do CPF que quero comprar umas 15.

Ela: diga pausadamente o número.

Eu digo, ela ouve tudo errado, repito mil veze até que ela pede um momento. Perdi a noção da hora, mas lá vão pedradas e nada. Começo a uivar feito lobisomem, desgraçando até a última geração da biltre, pra ver se ela ouve. Consegui. Uma voz baixinha sussurra: senhor? Senhor? O sistema caiu, preciso de seus dados novamente: telefone e área.

Começamos do zero, os mesmos gritos, as mesmas incompreensões e mais ofensas; só não brigamos pelos CDs e os livros porque não tínhamos nenhum em comum. Até que ela confirma que o cadastro está feito. Quase fico feliz, mas não me permito.

Ela: então, senhor, não somos nós que cuidamos desse problema, é o provedor. O senhor mesmo tem que resolver. Digite a palavra “parar” em caixa alta e mande pro número que está enviando as mensagens.

Eu (inchado feito sapo cururu): tu tá me dizendo que eu esperei todo esse tempo quando poderia ter me dito desde o início que é só mandar uma mensagem? Total absurdo.Quanta incompetência.

Ela: senhor, senhor, em caixa alta, não esqueça. Ou não vai funcionar.

Que meiga, né? Não desistiu de mim, me amparou, me guiou, me acarinhou. Só não convidei pra jantar aqui porque não tô a fim de lavar a louça. Agradeci, com voz de condenado no corredor da morte, e desliguei.

Vinte minutos e 56 segundos haviam passado. Não levei dez segundos pra digitar “PARAR” e enviar.

29 março 2010

Arranhões em um joelho platinado

E a Globo, sorrateiramente, ajoelha-se pra dizer que se preocupa com o telespectador – para além dos bilhões que fatura. Isso aconteceu mais uma vez na eliminação de Lia no BBB10. Bial, deixando de lado a cara de “Chacrinha-cult-chic”, reassumiu o tom de jornalista “sério” pra fazer um editorial: por mais que a Globo tente formatar, impor, determinar, editar, reeditar, suprimir, supervalorizar, as opiniões dos jogadores são de inteira responsabilidade deles.

Aqui está o ninho da serpente: um programa que se autodenomina mezzo entretenimento e mezzo jornalismo é uma bazuca apontada pra cabeça de uma formiga. O Zorra Total poderia assumir o quanto quiser a postura de racista, homofóbico, discriminador e mostrar relações humilhantes – principalmente as femininas –, afinal é “apenas uma piada”. O BBB10 seria “a vida como ela é”, definição resgatada por Lia, apertadinha nos braços de Bial, na hora da saída – algo que deve ter feito Nelson Rodrigues sambar no caixão.

Pressupor que o público é idiota é o maior erro que uma TV pode fazer. A idéia de que é burro, desinformado, estúpido e sem capacidade de julgamento só se sustenta pela dominação econômica: quem tem dinheiro assina canal a cabo. E deixa às moscas a programação de baixa qualidade. Vê só o que tem vontade.

O BBB é um fenômeno no Brasil, não há como negar. E esta edição, em que um pouquinho de diversidade apareceu na discussão sobre orientação sexual, mostra que o público quer mais. Negros, pobres, corpos “não fabricados”, velhos, cultos e sem educação formal, mil tipos ainda estão excluídos.

E vão continuar. O BBB10 é um show, puro entretenimento. Cresce nos momentos em que escancara isso, como na novelinha mexicana. Por isso mesmo foi tão ridículo ver Pedro Bial invocar a credibilidade do jornalismo de dentro do circo. Sem capacidade pra domar suas feras – e aqui também entram Boninho, a produção, os editores e Bial –, o BBB disparou a bazuca: se viu obrigado a buscar na seriedade e veracidade do campo jornalístico uma forma de tentar amenizar o estrago feito.

Jornalismo não é entretenimento, por mais que os moderninhos e os fãs do CQC e outras gracinhas do gênero queiram dizer que sim. Por quê? Porque no jornalismo a discriminação, a humilhação, o partidarismo, a dominação e a homofobia são relatos, nunca atos. Mostra-se quem faz, mas nunca se faz.

Ver a Globo preocupada com a opinião pública é um pequeno e raro deleite em meio a fortuna que o programa embolsa anualmente. Isso não vai nem de longe derrubar o império, mas é bom ver que ele também arranha o joelho quando se curva no chão.

17 março 2010

Zen borbulhas

O sol abrasador lá fora cegava os olhos, mesmo protegidos com os óculos escuros. Sentado na janela, tentei fazer a leitura ganhar sentido frente aos sons irritantes que inundavam o espaço. Do fundo, um som agudo e metálico inundava o ônibus com músicas cafonas saindo de um celular. Do meu lado, na outra fileira do corredor, um gordinho tamanho família de uns seis anos, hiperativo e verborrágico, pulava em pé no banco.

Mas o ar-condicionado geladinho foi baixando minha resistência, e um pouco antes de fechar duas horas de viagem, uma preguiça boa tomou conta do cérebro fazendo com que os olhos se fechassem lentamente, as mãos relaxassem e o corpo entrasse em estado de torpor. O maldito celular cantante foi ficando cada vez mais longe e o gordinho se metamorfoseou em pancadas ocas e baixas até que o silêncio se instaurou de vez: nirvana.

Não sei quanto tempo fiquei assim. Mas do nada, comecei a escutar o som borbulhante de uma fonte d’água. Pensei: “putz, tô virando zen total!”. Por alguma fatalidade do destino, o barulinho bom evoluiu para o som de um asmático em crise: o peito como uma panela de pipoca estourando dentro d´água prenunciando algo destruidor. Daí foi um pulo pra se transformar num som esquisito, parecia uma pessoa afogada tirando violentamente água dos pulmões em jatos violentos. Com tanta imagem ruim na cabeça, o nirvana se desfez e abri os olhos.

Estranhamente, a primeira coisa que vi foi a mãe do garoto me fitando furtivamente. Pensei: “ronquei ou babei pra ela me encarar assim”. Olhei pro meu peito, mas o olho foi puxado pro chão: próximo ao meu pé jazia uma coisa estranha, de textura e cor esquisita. Levantei os olhos outra vez e vi uma mancha enorme no vidro escorrendo atrás do gordinho. O olhar recuou mais um pouco e notei o rosto do bichano, olhos vidrados, peito ofegante, com algo a escorrer da boquinha matraquenta.

O susto foi avassalador. Os bancos estavam encharcados. No chão, algo inenarrável havia sido pisoteado e a inenarrabilidade escorria até meu pé. E o que dizer da roupa do assassino de nirvana? Horripilante demais pra ser comentada.

Não acho outra explicação: é um legítimo Arquivo X. Ou de onde haveria de sair tanto daquilo?

Atônito, sem respirar – mecanismo de defesa automático –, pulei sobre o produto manufaturado e fui pro fundo do ônibus. Pouco depois, mamãe e filhinho, em modo hiperatividade on outra vez, como se nada tivesse acontecido, sentaram a duas poltronas de mim, longe da cena do crime.

Todo contato imediato de terceiro grau ainda é chocante pra mim. Mas ao passar no corredor e ver a felicidade na cara do gordinho, percebo que pra ele foi apenas mais um dia feliz na terra.

13 março 2010

Lady Tarantino

Acabei de ver Telephone, o mais novo clip da Lady Ga Ga. Confesso que só abri o link depois de ver o projeto de horror chamado “Mini Lady Ga Ga”, que assisti no SBT outra noite. Conhecia tão pouco da titular do cargo que fiquei curioso pra ver algo. E vi.

Lady Ga Ga é um bem costurado Frankestein de ritmos, referências e valores. Oscila entre David Bowie – pai de todos os exotismos, androgenias e reais ousadias –, e Madonna – a rainha mãe do marketing pessoal –, com pitadas de outros pioneiros como Elton John, Cher e Cindy Lauper. O clip é uma referência sem fim a filmes e tendências de moda. Está tudo lá, costurado com necrofilia, perversidade, quebra de valores e transgressões em níveis e importâncias variadas – o óculos de cigarros acesos é o cúmulo do “politicamente incorreto”. Além de dois temas presentes em quase todos os outros vídeos de Ga Ga: a idéia de que os homens são maus e devem ser punidos – com a morte – e o lesbianismo que resulta da incompreensão e dominação masculina. Em Telephone, ninguém menos do que a sinuosa Beyoncé surge como a “mulher” de Ga Ga em uma encenação que mistura figurinos de alta costura dentro da prisão e road movie. Tudo estilizado, com uma edição maneirista dos anos 80 e um ritmo que gruda como chiclete. Tem até a dancinha dos zumbis de Thriller, do finado Michael Jackson, recriada em meio a corpos envenenados.

Lady Ga Ga não é feia, mas também não pode ser definida como bonita. Tem um corpo proporcional, sem ser boazudamente curvilínea. É pequena e desengonçada e usa isso à seu favor da mesma forma que Barbra Streisand soube usar o nariz avantajado e Carmen Miranda escondeu a pequenez sobre uma plataforma. É um sucesso repentino não apenas por cantar bem – sem a cafonice das notas mal sustentadas no gogó, marca registrada das “divas” norte-americanas – mas pela capacidade que tem de “expressar” o espírito do tempo, unindo com certa naturalidade o que parece desconexo. Todos os exageros estão lá, mas de uma forma linear, sem sobressaltos. É um livro de citações que marqueteiramente se faz soar original.

Quando uma menininha de oito anos incorpora inadvertidamente a necrofilia, as trangressões e a quebra de valores que subjazem nessas músicas – e os pais deixam –, há um fenômeno interessante em curso. E ele é velho e imemorial como o tempo e circula em nosso imaginário com o nome desgastado de mito. Fascinante e assustador, fala daquilo que não entendemos e, talvez, não queremos entender; questiona sem dar resposta. E atende pelo nome de Lady Ga Ga essa semana. Um posto que, mês passado, foi de Tarantino no cinema.

04 março 2010

Tradição


Disso é que eu gosto: técnicas tradicionais, nada de metralhadoras, granadas ou fuzis. A boa e velha arma branca intimida e produz sangue em profusão.