29 março 2010

Arranhões em um joelho platinado

E a Globo, sorrateiramente, ajoelha-se pra dizer que se preocupa com o telespectador – para além dos bilhões que fatura. Isso aconteceu mais uma vez na eliminação de Lia no BBB10. Bial, deixando de lado a cara de “Chacrinha-cult-chic”, reassumiu o tom de jornalista “sério” pra fazer um editorial: por mais que a Globo tente formatar, impor, determinar, editar, reeditar, suprimir, supervalorizar, as opiniões dos jogadores são de inteira responsabilidade deles.

Aqui está o ninho da serpente: um programa que se autodenomina mezzo entretenimento e mezzo jornalismo é uma bazuca apontada pra cabeça de uma formiga. O Zorra Total poderia assumir o quanto quiser a postura de racista, homofóbico, discriminador e mostrar relações humilhantes – principalmente as femininas –, afinal é “apenas uma piada”. O BBB10 seria “a vida como ela é”, definição resgatada por Lia, apertadinha nos braços de Bial, na hora da saída – algo que deve ter feito Nelson Rodrigues sambar no caixão.

Pressupor que o público é idiota é o maior erro que uma TV pode fazer. A idéia de que é burro, desinformado, estúpido e sem capacidade de julgamento só se sustenta pela dominação econômica: quem tem dinheiro assina canal a cabo. E deixa às moscas a programação de baixa qualidade. Vê só o que tem vontade.

O BBB é um fenômeno no Brasil, não há como negar. E esta edição, em que um pouquinho de diversidade apareceu na discussão sobre orientação sexual, mostra que o público quer mais. Negros, pobres, corpos “não fabricados”, velhos, cultos e sem educação formal, mil tipos ainda estão excluídos.

E vão continuar. O BBB10 é um show, puro entretenimento. Cresce nos momentos em que escancara isso, como na novelinha mexicana. Por isso mesmo foi tão ridículo ver Pedro Bial invocar a credibilidade do jornalismo de dentro do circo. Sem capacidade pra domar suas feras – e aqui também entram Boninho, a produção, os editores e Bial –, o BBB disparou a bazuca: se viu obrigado a buscar na seriedade e veracidade do campo jornalístico uma forma de tentar amenizar o estrago feito.

Jornalismo não é entretenimento, por mais que os moderninhos e os fãs do CQC e outras gracinhas do gênero queiram dizer que sim. Por quê? Porque no jornalismo a discriminação, a humilhação, o partidarismo, a dominação e a homofobia são relatos, nunca atos. Mostra-se quem faz, mas nunca se faz.

Ver a Globo preocupada com a opinião pública é um pequeno e raro deleite em meio a fortuna que o programa embolsa anualmente. Isso não vai nem de longe derrubar o império, mas é bom ver que ele também arranha o joelho quando se curva no chão.

2 comentários:

Marcia disse...

ótimo texto, xon.

o programa de ontem teve tudo de péssimo: violinos ao fundo, texto pegajoso, gracinhas fora de hora, pagação de pau para a psicopatia.

e eu fiquei me perguntando: ué, Bial, não são os teus heróis? por que se descolar deles, se eles são os teus bravos guerreiros?

Carolina disse...

O BBB, pra mim, é o retrato traduzido da miséria humana.
Eca.
Mas é a vida como ela é, quando vejo, enxergo a vida corporativa estampada naquele joguinho de pessoas, aí me bate aquela deprezinha, sabe?

Bjão
PS* que bom te ter de volta!