17 março 2010

Zen borbulhas

O sol abrasador lá fora cegava os olhos, mesmo protegidos com os óculos escuros. Sentado na janela, tentei fazer a leitura ganhar sentido frente aos sons irritantes que inundavam o espaço. Do fundo, um som agudo e metálico inundava o ônibus com músicas cafonas saindo de um celular. Do meu lado, na outra fileira do corredor, um gordinho tamanho família de uns seis anos, hiperativo e verborrágico, pulava em pé no banco.

Mas o ar-condicionado geladinho foi baixando minha resistência, e um pouco antes de fechar duas horas de viagem, uma preguiça boa tomou conta do cérebro fazendo com que os olhos se fechassem lentamente, as mãos relaxassem e o corpo entrasse em estado de torpor. O maldito celular cantante foi ficando cada vez mais longe e o gordinho se metamorfoseou em pancadas ocas e baixas até que o silêncio se instaurou de vez: nirvana.

Não sei quanto tempo fiquei assim. Mas do nada, comecei a escutar o som borbulhante de uma fonte d’água. Pensei: “putz, tô virando zen total!”. Por alguma fatalidade do destino, o barulinho bom evoluiu para o som de um asmático em crise: o peito como uma panela de pipoca estourando dentro d´água prenunciando algo destruidor. Daí foi um pulo pra se transformar num som esquisito, parecia uma pessoa afogada tirando violentamente água dos pulmões em jatos violentos. Com tanta imagem ruim na cabeça, o nirvana se desfez e abri os olhos.

Estranhamente, a primeira coisa que vi foi a mãe do garoto me fitando furtivamente. Pensei: “ronquei ou babei pra ela me encarar assim”. Olhei pro meu peito, mas o olho foi puxado pro chão: próximo ao meu pé jazia uma coisa estranha, de textura e cor esquisita. Levantei os olhos outra vez e vi uma mancha enorme no vidro escorrendo atrás do gordinho. O olhar recuou mais um pouco e notei o rosto do bichano, olhos vidrados, peito ofegante, com algo a escorrer da boquinha matraquenta.

O susto foi avassalador. Os bancos estavam encharcados. No chão, algo inenarrável havia sido pisoteado e a inenarrabilidade escorria até meu pé. E o que dizer da roupa do assassino de nirvana? Horripilante demais pra ser comentada.

Não acho outra explicação: é um legítimo Arquivo X. Ou de onde haveria de sair tanto daquilo?

Atônito, sem respirar – mecanismo de defesa automático –, pulei sobre o produto manufaturado e fui pro fundo do ônibus. Pouco depois, mamãe e filhinho, em modo hiperatividade on outra vez, como se nada tivesse acontecido, sentaram a duas poltronas de mim, longe da cena do crime.

Todo contato imediato de terceiro grau ainda é chocante pra mim. Mas ao passar no corredor e ver a felicidade na cara do gordinho, percebo que pra ele foi apenas mais um dia feliz na terra.

5 comentários:

Marcia disse...

criança + ônibus = combinação avassaladora.

tu + criança + ônibus = histórias maravilhosas.

Ana disse...

Putz! Dá vontade de sumir!!
Não lido nada bem com essas situações...
Fiquei injuriada com a mãe do gordinho! heheheh!


Tão bom te ler de novo!!

Rosamaria disse...

bah, Xôn, se eu soubesse escrever como tu ia contar uma viagem de São Paulo pra cá. Mas... pensando bem...nem é bom lembrar, garanto que foi pior que a tua.
bjim.

Mélia disse...

Sean,



Você tem um talento fantástico para este tipo de narrativa. Senti-me presente a assistir a esta cena. Maravilha!

Cida disse...

hahaha

Que descrição maravilhosa. Também me senti dentro do ônibus, observando a tua soneca, enquanto o gordinho se acabava com o sacolejo.
Deve ter ficado o cheirinho muito bom....